Coleção pessoal de gabrielparice
hourglass.
Existe uma espécie de loucura em reconhecer alguém mesmo depois de tanto tempo. Não porque a pessoa continuou presente, mas justamente porque conseguiu ir embora e, ainda assim, alguma coisa dela ficou funcionando em silêncio, escondida entre coisas que pareciam resolvidas.
Ele já tinha aprendido a viver sem procurar. Tinha colocado outras pessoas em lugares diferentes, conhecido outras versões de si mesmo, seguido dias que não tinham mais aquele nome no meio. E talvez tivesse acreditado que certas histórias acabam simplesmente porque o tempo passa. Até perceber que algumas não acabam. Só deixam de fazer barulho.
O estranho é que não era saudade o tempo inteiro. Era pior. Era aquela sensação ocasional de que, se aquela pessoa aparecesse de novo, talvez uma parte dele reconhecesse antes mesmo que a cabeça pudesse entender. Como se anos não fossem apenas anos, mas uma quantidade absurda de pequenas coisas que o tempo não sabe apagar: uma maneira específica de olhar, uma conversa que ficou sem conclusão, um lugar que ainda parece ocupado mesmo depois de tanto tempo.
E talvez ninguém esteja pedindo para voltar ao que era. Talvez o que assuste seja justamente imaginar que, depois de tudo, ainda poderia existir alguma forma de proximidade que não precisasse repetir o passado. Não o mesmo relacionamento, não as mesmas promessas, não aquela versão dos dois que um dia pareceu ter futuro garantido.
Só a pergunta.
Ainda existe amizade onde antes existia amor?
Ainda dá para conversar sem que tudo aquilo que ficou para trás sente à mesa junto?
Ainda dá para rir de alguma coisa antiga sem precisar fingir que não doeu quando terminou?
Porque algumas pessoas não precisam voltar para a nossa vida do mesmo jeito. Às vezes basta saber que, apesar da distância, das escolhas e de tudo que mudou, ainda existe um caminho possível entre dois pontos que um dia foram inseparáveis.
E talvez seja isso que ele nunca conseguiu descobrir.
Se ela tivesse voltado, ele teria escolhido ficar?
Se ela tivesse chamado, ele teria atendido?
Se os dois se encontrassem agora, seriam estranhos com uma história em comum ou duas pessoas que ainda reconhecem alguma coisa uma na outra?
Ele não sabe.
E quanto mais tenta encontrar uma resposta, mais percebe que talvez certas histórias não tenham sido feitas para terminar com uma conclusão bonita. Algumas simplesmente ficam ali, como uma porta que ninguém trancou completamente.
Talvez por isso ele ainda olhe para certas lembranças sem saber exatamente o que procura.
Não necessariamente uma segunda chance.
Talvez só a confirmação de que aquilo foi real.
Porque quando alguém já ocupou um lugar tão grande na sua vida, você não precisa querer aquela pessoa de volta para continuar imaginando como seria se ela estivesse por perto.
Às vezes basta uma pequena possibilidade.
E é aí que tudo fica perigoso.
Porque talvez exista um futuro onde os dois se encontrem novamente, talvez exista outro onde nunca mais aconteça nada. Talvez a distância tenha sido apenas distância. Talvez tenha sido o ponto final que nenhum dos dois teve coragem de escrever.
Quem sabe?
Talvez ela esteja vivendo uma vida completamente diferente agora, cercada de coisas que ele nunca vai conhecer. Talvez ele também tenha se tornado alguém que ela não reconheceria de primeira. E talvez seja justamente por isso que a ideia ainda tenha alguma beleza: se um dia os caminhos se cruzassem novamente, nenhum dos dois estaria encontrando exatamente quem deixou para trás.
Seriam duas versões novas carregando a memória de duas versões antigas.
E talvez isso fosse suficiente.
Porque algumas pessoas vão embora, atravessam oceanos, mudam a própria vida e deixam de fazer parte da rotina.
Mas existe uma diferença entre sair da sua vida e deixar de existir dentro dela.
E essa diferença pode durar muito mais do que qualquer distância.
No fim, ele não sabe se ainda existe alguma coisa esperando por eles.
Não sabe se existe amizade, amor, acaso ou simplesmente memória.
Não sabe se ela pensa nele quando alguma música toca, quando alguma lembrança aparece ou quando a noite fica silenciosa demais.
Não sabe nem se deveria querer saber.
Só sabe que, entre tudo aquilo que o tempo levou, ainda existe uma pergunta que nunca morreu completamente.
E talvez algumas perguntas sejam assim.
Não precisam de resposta para continuar sendo verdade.
Só precisam de duas pessoas, em algum lugar do mundo, olhando para a mesma história e pensando, cada uma do seu lado:
e se ainda houver alguma coisa aqui?
eu tô bem.
Tem uma mentira que a gente aprende a contar tão bem que, depois de um tempo, começa a acreditar nela. “Eu tô bem.” Sai automático, quase educado. A pessoa pergunta como você está e você responde sem pensar, porque explicar o que acontece por dentro dá trabalho demais e, sinceramente, tem coisa que nem cabe numa resposta curta.
Eu tô bem, é o que ele diz. Só que ninguém vê o silêncio depois que a porta fecha, o quarto escuro, a cabeça procurando respostas onde já não existe pergunta. Ninguém vê as coisas que ele deixou de falar porque percebeu que algumas verdades, quando ditas em voz alta, deixam de ser esperança e viram despedida.
E talvez estar bem não seja ter esquecido. Talvez seja conseguir carregar sem deixar cair tudo o que ainda pesa. É passar pelos lugares onde antes existia alguém e continuar andando. É ouvir uma música e não precisar procurar significado em cada palavra. É lembrar de uma conversa sem imaginar como ela poderia ter terminado diferente.
Porque tem gente que vai embora, mas deixa uma versão sua morando no lugar onde ela esteve. E demora até essa versão entender que acabou. Ela continua esperando uma mensagem, uma ligação, qualquer sinal de que aquilo não foi só mais uma coisa bonita que não soube durar.
Mas uma hora a gente entende.
Nem tudo que foi verdadeiro precisava ser eterno. Nem todo amor que marcou a vida precisava ficar nela. Algumas pessoas chegam para mostrar uma parte do mundo que você ainda não conhecia e depois seguem o caminho delas, levando algumas versões antigas suas embora junto.
Então, sim, eu tô bem.
Não porque nada mais dói. Não porque eu virei pedra. Não porque deixei de sentir.
Eu tô bem porque finalmente entendi que sentir falta não é o mesmo que precisar voltar. Que lembrar não significa esperar. Que amar alguém também pode significar aceitar que aquela história terminou antes que o coração estivesse pronto para terminar junto.
E talvez esse seja o verdadeiro significado de estar bem: não é quando você para de sentir. É quando aquilo que um dia te derrubava começa a caber dentro de você sem te destruir.
Eu tô bem.
E dessa vez, talvez eu esteja falando sério.
protegido.
Não peço que meus inimigos desapareçam. peço coisa pior, que continuem existindo, mas que nunca encontrem o caminho até mim.
Que tenham pés, mas que nenhum passo os traga na minha direção. Que tenham mãos, mas que toda tentativa de tocar aquilo que é meu encontre o vazio. Que tenham olhos, mas que não me vejam, não reconheçam meu rosto no meio da multidão, não saibam onde eu piso, onde eu durmo, onde eu levanto.
E que nem mesmo em pensamento eles possam ter espaço suficiente para me fazer mal.
Porque há guerra que não começa com barulho. Começa com intenção. Com inveja guardada atrás de um sorriso, com palavra atravessada, com desejo silencioso de ver alguém cair. E contra esse tipo de inimigo eu não quero apenas distância. Quero proteção. Quero que toda maldade enviada encontre uma parede antes de chegar.
Armas de fogo não alcançarão meu corpo. Facas e espadas se quebrarão antes de tocar minha pele. Cordas e correntes arrebentarão antes de me amarrar. Toda porta que tentarem fechar diante de mim vai encontrar uma chave que ainda não conheciam. Todo caminho que tentarem bloquear vai me ensinar outro caminho.
Não porque eu seja intocável.
Mas porque aprendi que nem toda batalha precisa ser travada.
Algumas guerras se vencem continuando de pé enquanto quem desejava a sua queda se cansa de esperar.
Então que venham os olhos que procuram, as mãos que apontam, os pés que perseguem, as bocas que amaldiçoam. Que façam seus planos, que gastem suas noites pensando em como me diminuir. Eu não preciso devolver o mal. Só preciso não permitir que ele atravesse a porta.
Porque existe uma proteção que não faz barulho.
Ela nasce quando alguém decide que aquilo que tentou destruí-lo não terá o privilégio de definir quem ele será.
E desde então, tudo que vier contra mim encontrará o mesmo destino: pés sem caminho, mãos sem alcance, olhos sem visão, armas sem força, facas sem corte, espadas partidas, cordas arrebentadas e correntes no chão.
Eu sigo.
E aquilo que foi feito para me parar aprende, tarde demais, que nem tudo que se move pode ser alcançado.
solilóquio.
Tudo o que você gostaria de ser, sou eu. A parte que você esconde quando percebe que está pensando grande demais, o pensamento que você corta no meio porque alguém ensinou que sonhar alto demais é pedir pra cair. Sou aquele pedaço que não aprendeu a pedir desculpa por querer mais, que olha pra uma vida pronta e pensa que aquilo talvez sirva pra alguém, mas não pra mim. Enquanto você mede o risco, eu já atravessei a rua. Enquanto você pensa no que vão dizer, eu penso no que vão dizer quando der certo.
Você me chama de exagero porque eu não aceito a medida que colocaram em você.
Eu sou a sua vontade sem legenda.
Sou o que sobra quando você tira o medo de decepcionar os outros, o personagem que aparece quando ninguém está olhando e você finalmente admite que não nasceu pra passar a vida seguindo roteiro escrito por gente que nunca teve coragem de escrever o próprio. Eu não quero ser aceito por uma sala que me obrigou a diminuir pra caber. Eu quero construir uma sala tão grande que ninguém precise me dizer onde sentar.
E talvez seja isso que assuste.
Porque eu não tenho vergonha de querer dinheiro, nome, respeito, liberdade, estrada, noite, música, cidade nova, história pra contar. Não tenho vergonha de querer olhar pra trás e reconhecer a minha própria mão em tudo aquilo que conquistei. O problema nunca foi querer demais. O problema foi você ter aprendido a chamar de “demais” tudo aquilo que exigia coragem.
Eu não.
Eu quero.
E quero até o verbo cansar.
Se disserem que é impossível, eu transformo o impossível em prazo. Se disserem que não combina comigo, eu mudo a combinação. Se disserem que ninguém da minha idade chegou lá, eu paro de olhar pra minha idade. Se disserem que eu devia ser mais realista, eu pergunto desde quando a realidade virou dona dos meus planos.
Você fica tentando descobrir quem você é.
Eu estou tentando descobrir até onde você consegue chegar.
Essa é a diferença.
Você quer uma vida segura. Eu quero uma vida que faça sentido quando ninguém mais estiver assistindo. Você quer ter certeza antes de começar. Eu quero começar e deixar a certeza vir depois. Você pensa em perder o que tem. Eu penso no que nunca teria se continuasse com medo de perder.
E não, eu não sou melhor que você.
Eu sou pior em algumas coisas.
Sou mais egoísta. Mais inquieto. Mais difícil de controlar. Não tenho paciência pra agradar todo mundo e talvez por isso eu pareça um problema quando, na verdade, sou só a parte de você que cansou de viver como solução pros outros.
Eu não quero ser uma versão bonita.
Quero ser uma versão verdadeira.
Aquela que erra e continua. Que cai e aprende. Que muda de cidade se precisar, muda de plano se precisar, começa do zero se precisar, mas não passa o resto da vida perguntando como teria sido.
Porque no fim não é sobre ser rico, famoso, admirado ou diferente.
É sobre não morrer cheio de versões que nunca tiveram oportunidade de existir.
E eu sou todas elas.
Sou o cara que você imaginou quando estava sozinho.
O cara que você viu no espelho e não reconheceu porque parecia confiante demais.
Sou a voz que diz “vai” enquanto a sua cabeça fabrica mais dez motivos pra ficar.
Sou o impulso.
O risco.
A fome.
A ideia que não te deixa dormir.
O plano que parece absurdo hoje e, daqui a alguns anos, vai parecer óbvio.
Tudo o que você gostaria de ser, sou eu.
Não porque eu já sou tudo aquilo.
Mas porque eu não tenho medo de tentar.
E talvez você nunca tenha precisado de outra pessoa pra virar essa versão.
Talvez tenha precisado parar de pedir licença pra ela existir.
Então quando você olhar pra mim e sentir aquela mistura estranha de inveja, raiva e vontade, não confunda.
Não é outra pessoa que você está vendo.
É você sem freio.
Você sem plateia.
Você sem a obrigação de ser compreendido.
Eu sou tudo aquilo que você deixou pra depois.
E eu não vim buscar você.
Vim lembrar que ainda existe tempo.
Mas tempo não espera.
Então decide.
Ou você continua imaginando quem poderia ter sido...
ou finalmente descobre quem você é capaz de ser.
like Sosa
Ninguém sabia exatamente quando ele tinha começado a ficar grande. Esse era o tipo de coisa que ninguém conseguia explicar direito. Um dia ele era só mais um nome circulando entre homens que queriam subir, no outro já tinha gente esperando ele terminar de falar antes de encostar no copo.
Sosa não fazia questão de ser simpático. Também não precisava. Ele chegava, cumprimentava quem precisava ser cumprimentado, olhava o lugar inteiro como quem já conhecia tudo aquilo antes mesmo de entrar e sentava. Não tinha pressa. Nunca parecia ter.
E era isso que deixava os outros desconfortáveis.
Porque todo mundo ali queria alguma coisa.
Ele não parecia querer nada.
Ou pior, parecia já ter conseguido.
Os caras comentavam dele nos corredores, nos carros, depois das reuniões. Diziam que era arrogante, que não confiava em ninguém, que tratava gente como peça. Alguns falavam que ele era louco. Outros falavam que era inteligente demais pra ser enganado. No fundo, ninguém sabia qual das duas coisas era verdade, então era melhor não testar.
Tinha gente que odiava Sosa sem nunca ter conversado com ele.
Tinha gente que admirava sem admitir.
E tinha os que entendiam exatamente o que ele era e preferiam ficar longe.
Porque Sosa tinha uma coisa que incomodava mais do que dinheiro: ele não parecia impressionado com dinheiro.
O dinheiro era ferramenta. O nome era ferramenta. Os homens ao redor eram ferramenta. Tudo tinha uma função e ele parecia saber exatamente qual era.
Quando alguém chegava perto demais, ele percebia.
Quando alguém começava a fazer pergunta demais, ele percebia.
Quando alguém mudava de comportamento, ele percebia.
Era como se estivesse sempre esperando alguma coisa acontecer.
E talvez estivesse.
Ninguém conseguia relaxar completamente perto dele porque nunca sabiam o que ele estava pensando. Sosa podia passar vinte minutos em silêncio enquanto todo mundo falava e, no final, lembrar de uma frase que alguém tinha dito no começo da noite.
Era esse tipo de homem.
O tipo que fazia os outros pensarem duas vezes antes de mentir.
E quanto mais crescia, mais isolado ficava. Não porque faltassem pessoas ao redor. Pelo contrário. Sempre tinha gente entrando e saindo, telefone tocando, carro chegando, homem importante querendo reunião.
Mas ninguém realmente chegava perto.
Todo mundo queria alguma coisa dele.
Poucos queriam conhecê-lo.
E talvez ele preferisse assim.
Porque quando você chega num lugar onde qualquer pessoa pode estar sorrindo por interesse, confiança começa a parecer luxo.
Então ele mantinha todo mundo a uma distância calculada. Não precisava ameaçar. Não precisava fazer cena. Bastava olhar.
E os outros entendiam.
Era por isso que, quando Sosa entrava numa sala, as conversas diminuíam.
Não paravam.
Só diminuíam.
Como se todo mundo soubesse que, dali pra frente, era melhor escolher as palavras com cuidado.
Porque Sosa não precisava ser o homem mais barulhento do lugar.
Ele só precisava ser o homem que ninguém queria ter contra si.
E isso, naquele mundo, valia mais que dinheiro.
Muito mais.
o gabrieu e o parice II
Existe alguém dentro de mim que não tem paciência.
Eu descobri isso tarde, depois de passar tempo demais tentando ser uma pessoa fácil de carregar. Ele apareceu quando eu já estava acostumado a me abandonar em pequenas doses, quando dizer não para mim mesmo tinha virado uma forma de educação e desistir dos meus sonhos parecia apenas uma consequência natural de crescer.
Ele odiou isso.
Odiou a minha prudência.
Odiou o jeito como eu transformava medo em maturidade e acomodação em paz.
Odiou principalmente quando eu dizia “um dia”.
Porque ele sabia.
Ele sabia de todas as coisas que eu já imaginei fazer, de todas as versões de mim que já existiram na minha cabeça antes que eu tivesse coragem de colocá-las no mundo. Sabia dos lugares onde eu queria chegar, das coisas que queria construir, da pessoa que eu dizia que seria quando tivesse tempo, dinheiro, coragem, oportunidade, certeza.
Ele escutou todas essas promessas.
E um dia perdeu a paciência.
Não veio me consolar.
Veio me buscar.
Disse que eu estava correndo na direção errada e que, se precisasse, me arrancaria dela à força. Não porque me odiasse, mas porque talvez fosse a única coisa dentro de mim que ainda me amasse o suficiente para não aceitar a minha própria desistência.
Eu tentei explicar.
Falei de responsabilidade.
De pessoas.
De consequências.
De tudo aquilo que existe do lado de fora de nós e que aprendemos a carregar como se fosse nossa obrigação.
Ele riu.
Não porque aquilo fosse engraçado.
Porque estava cansado.
“E você?”
Foi só isso.
E você?
Eu não tinha resposta.
Porque passei tanto tempo perguntando o que os outros precisavam que esqueci de perguntar o que eu queria.
Ele não esqueceu.
Ele queria tudo.
Queria as viagens que eu adiei.
Os projetos que eu deixei morrer antes de nascer.
As noites em que eu deveria ter saído.
As conversas que eu deveria ter tido.
As portas que eu não bati.
As cidades que eu só conheci pela tela.
Queria que eu fosse até o fim de cada coisa que um dia fez meus olhos brilharem.
Não importava se eu fracassasse.
Fracasso, para ele, ainda era movimento.
O que ele não aceitava era a covardia sofisticada de chamar desistência de escolha.
Então começou a destruir.
Não minha vida.
A vida antiga.
Aquela que tinha sido construída para me manter pequeno.
Quebrou os móveis imaginários daquele apartamento mental onde tudo estava sempre no lugar, mas nada realmente acontecia. Pegou as fotografias das versões antigas de mim e rasgou uma por uma. Incendiou as desculpas. Jogou no asfalto os planos que nunca saíam do papel.
Eu fiquei desesperado.
“Você está acabando com tudo.”
Ele respondeu:
“Não. Estou acabando com aquilo que acabou com você.”
E eu odiei ouvir aquilo porque alguma parte de mim sabia que era verdade.
Ele não tinha delicadeza.
Delicadeza demais tinha sido justamente o problema.
Ele era egoísta.
Completamente.
Se alguém precisasse ficar para trás para que eu pudesse avançar, ele não passaria a noite inteira se culpando.
Se uma porta exigisse que eu deixasse uma versão antiga de mim do lado de fora, ele fecharia.
Se uma vida inteira tivesse sido construída em cima da ideia de agradar todo mundo, ele preferiria colocar fogo na casa a continuar morando nela.
Ele não queria ser uma pessoa melhor.
Queria que eu fosse inteiro.
Essa era a diferença.
E talvez fosse por isso que eu tivesse tanto medo dele.
Porque ele não negociava com a parte de mim que queria continuar pequena.
Quando eu dizia “não consigo”, ele perguntava “ainda não ou nunca?”
Quando eu dizia “não é a hora”, ele perguntava “quando foi que você decidiu que teria outra?”
Quando eu dizia “e se der errado?”, ele respondia que pelo menos o erro teria o meu nome.
Ele tinha raiva.
Uma raiva quase sagrada.
Raiva de tudo que transforma pessoas em versões aceitáveis delas mesmas.
Raiva da cadeira confortável onde sonhos morrem lentamente.
Raiva das frases que começam com “se eu pudesse”.
Raiva de olhar para uma vida inteira pela frente e escolher viver como se já estivesse no fim.
Ele ardia.
Eu conseguia sentir.
Era como carregar uma pequena tempestade atrás das costelas.
E quanto mais eu tentava apagá-lo, mais fogo ele colocava nas coisas.
Só que, estranhamente, quanto mais ele queimava, mais frio ficava o mundo ao redor.
Eu corria dele.
Ele corria atrás de mim.
Eu procurava abrigo.
Ele derrubava o teto.
Eu queria voltar.
Ele apontava para frente.
E essa talvez seja a parte mais cruel:
eu quero ficar.
Quero ficar exatamente onde estou.
Quero preservar as pessoas, os lugares, os hábitos, as versões que conheço.
Quero acreditar que ainda posso ter tudo sem precisar perder nada.
Mas ele sabe que não.
Ele sabe que algumas versões de nós não cabem na próxima.
E quando chega a hora, ele não pede permissão.
Ele pega minha mão.
Eu puxo de volta.
Ele segura mais forte.
Eu digo que tenho medo.
Ele diz que também.
E continua andando.
Porque talvez coragem nunca tenha sido ausência de medo.
Talvez coragem seja ter alguém dentro de você que tenha medo também e, mesmo assim, continue arrastando você para frente.
Hoje eu ainda reluto.
Ainda tento negociar.
Ainda olho para trás.
Ainda sinto falta daquilo que ele destruiu.
Mas existe uma coisa que não consigo mais negar.
Aquele monstro nunca quis me machucar.
Ele queria me impedir de passar o resto da vida me machucando devagar.
Ele não apareceu para tomar minha vida.
Apareceu porque eu tinha deixado de tomá-la para mim.
E agora, quando sinto o fogo dele subindo, quando aquela voz começa a dizer que já chega, que não existe mais espaço para adiar, eu sei o que está acontecendo.
Ele está acordando.
E eu sei que vou correr.
Vou relutar.
Vou tentar convencê-lo a me deixar em paz.
Mas, no fundo, existe uma parte de mim que já sabe exatamente para onde estamos indo.
Para tudo aquilo que um dia eu imaginei.
Para tudo aquilo que ainda não existe.
Para a vida que eu continuei prometendo que começaria algum dia.
Ele não quer esperar.
Ele quer agora.
E talvez seja por isso que eu tenha tanto medo de olhar para ele.
Porque quando olho, não vejo um monstro.
Vejo a única versão de mim que nunca desistiu de nós dois.
Assuma o controle Parice, eu lhe permito, não existe mais nada pra mim aqui.
o gabrieu e o parice
Ele começou a aparecer nos dias em que nada acontecia.
Não nos dias ruins. Nos dias iguais.
Porque o ruim ainda tem alguma coisa de vivo. O ruim machuca, irrita, obriga você a reagir. O problema é quando a vida fica confortável demais para doer e vazia demais para significar alguma coisa. Quando segunda-feira parece terça, terça parece quarta e, de repente, você percebe que passou meses repetindo a mesma conversa com pessoas diferentes, usando as mesmas roupas, fazendo as mesmas promessas e chegando em casa com a sensação de que esteve em algum lugar sem realmente ter ido.
Foi nesses dias que ele apareceu.
Primeiro como uma ideia.
Depois como uma voz.
Depois como uma presença.
Ele nunca dizia nada muito complicado. Só perguntava por que eu continuava aceitando uma vida que eu mesmo não escolheria se pudesse começar de novo.
Eu odiava quando ele fazia isso.
Porque ele não gritava.
Não precisava.
Algumas verdades entram baixo justamente porque sabem que você vai escutá-las.
Eu tentava ignorá-lo. Enchia os dias. Enchia a cabeça. Enchia o silêncio com qualquer coisa que tivesse luz suficiente para não me deixar enxergar o escuro. Funcionava durante algumas horas. Depois ele voltava.
Sempre voltava.
Às três da manhã, quando a cidade parecia abandonada e os prédios tinham aquela aparência de cadáveres gigantes dormindo em pé, eu sentia que ele estava sentado em algum lugar, esperando.
Não parecia alguém que queria me destruir.
Parecia alguém decepcionado porque eu estava desperdiçando uma vida que ele sabia que poderia ser muito maior.
Ele não tinha o meu medo.
Essa era a diferença.
Eu calculava as consequências.
Ele calculava o preço de não fazer nada.
Eu pensava no que poderiam falar.
Ele pensava no que eu falaria comigo mesmo daqui a dez anos.
Eu procurava segurança.
Ele procurava alguma coisa que ainda tivesse pulso.
E quanto mais eu tentava enterrá-lo, mais ele crescia.
Até que comecei a perceber uma coisa estranha: talvez ele não tivesse surgido para mudar a minha vida.
Talvez tivesse surgido porque eu tinha mudado demais para continuar vivendo a mesma.
A gente passa tanto tempo construindo uma versão aceitável de si mesmo que esquece de perguntar se ainda gosta da pessoa que está apresentando.
Você aprende a ser pontual.
Educado.
Responsável.
Previsível.
Aprende a escolher as palavras certas, vestir a roupa certa, responder a mensagem certa, sorrir na hora certa.
E quando percebe, já não está vivendo.
Está administrando uma imagem.
Foi aí que ele começou a ficar perigoso.
Porque ele não queria melhorar minha vida.
Queria arrancar a maquiagem dela.
Queria saber o que sobrava quando ninguém estava olhando.
E eu descobri que existia muita coisa.
Raiva.
Ambição.
Curiosidade.
Desejo de desaparecer por algumas horas e reaparecer diferente.
Vontade de fazer alguma coisa que não pudesse ser explicada em uma legenda bonita.
Talvez seja isso que as pessoas chamam de loucura quando não conseguem chamar de liberdade.
O meu alter ego não era um herói.
Também não era um vilão.
Era simplesmente a versão de mim que nunca aprendeu a pedir licença.
E talvez fosse por isso que eu precisasse tanto dele.
Porque existem momentos em que a pessoa que você construiu para sobreviver é justamente a pessoa que impede você de viver.
Então uma noite eu parei diante do espelho.
Não aconteceu nada cinematográfico.
Nenhuma lâmpada explodiu.
Nenhuma música começou.
Só eu, um banheiro frio e aquela cara que eu conhecia desde sempre.
Mas pela primeira vez eu não perguntei quem estava olhando de volta.
Perguntei quem tinha passado anos olhando através de mim.
E entendi.
Ele nunca esteve atrás do espelho.
Nunca esteve escondido em algum canto da minha cabeça.
Nunca foi outra pessoa.
Era tudo aquilo que eu fui abandonando pelo caminho para conseguir continuar sendo aceito.
Cada vontade engolida.
Cada palavra não dita.
Cada caminho que eu não tomei.
Cada versão minha que eu matei só porque alguém achou mais conveniente aquela outra.
Ele era o acúmulo.
A conta.
A cobrança.
A parte de mim que continuou viva enquanto eu fingia que tinha amadurecido.
Desde então, eu não tento mais expulsá-lo.
Deixo que ele sente comigo.
Deixo que ele me lembre que conforto demais também apodrece.
Que rotina pode ser uma droga administrada em pequenas doses.
Que existem pessoas que passam a vida inteira fugindo do caos sem perceber que o caos também é onde algumas coisas começam.
E que talvez a pior coisa que possa acontecer com alguém não seja perder o controle.
Talvez seja nunca ter tido coragem de segurá-lo.
Hoje, quando a cidade dorme e aquela versão de mim aparece no reflexo de alguma vitrine apagada, eu já não desvio o olhar.
Ele continua ali.
Com a mesma cara.
O mesmo silêncio.
A mesma pergunta.
Só que agora eu tenho uma resposta.
Não preciso virar outra pessoa.
Só preciso parar de desperdiçar a que ainda está tentando nascer.
ASFALTO NA SOLA
Eu vim de lugar onde ninguém pergunta o que aconteceu.
Só olha pra tua cara, vê se você aguenta e manda seguir.
Aprendi cedo que a rua não tem paciência pra quem precisa entender tudo antes de continuar. Você tropeça, levanta, limpa a poeira na própria roupa e vai. Sem discurso. Sem trilha sonora. Sem ninguém batendo palma.
Tem gente que conhece a minha versão arrumada.
Poucos conheceram a que voltava pra casa com a cabeça cheia, o bolso quase vazio e aquele silêncio estranho de quem passou o dia inteiro fingindo que tava tudo certo.
Essa versão não posta nada.
Não explica nada.
Só chega.
Joga a chave em qualquer canto, acende a luz e encara o próprio reflexo como se estivesse cobrando alguma coisa de alguém que já não sabe mais quem é.
Eu já quis muito parecer diferente do que sou.
Hoje eu prefiro parecer exatamente o que a vida fez comigo.
Tem marca que não precisa esconder.
Tem história que perde a graça quando você tenta contar bonito.
Então deixa torto.
Deixa áspero.
Deixa com gosto de madrugada e conversa na calçada.
Porque foi assim que muita coisa aconteceu.
Sem planejamento.
Sem final elegante.
Só decisão errada, amizade improvável, amor mal resolvido, orgulho demais e aquela mania idiota de continuar andando mesmo quando ninguém sabe exatamente pra onde.
Talvez seja isso que chamam de vivência.
Não é ter resposta.
É ter passado por coisa suficiente pra parar de acreditar que toda pergunta precisa de uma.
Hoje eu não quero parecer invencível.
Invencível é personagem.
Eu quero ser real o bastante pra admitir que algumas coisas ainda pesam, mas leve o suficiente pra não carregar todas elas comigo.
O mundo continua sujo.
A rua continua acordada.
E eu ainda tenho asfalto na sola.
Só que agora eu sei voltar pra casa.
under sujão p.
enquanto houver razões
Eu acho engraçado como a gente passa tanto tempo tentando descobrir o que faria alguém ficar, como se existisse uma combinação perfeita de coisas capaz de impedir uma pessoa de ir embora. A gente pensa em promessas, em momentos bons, em tudo aquilo que foi construído, como se no fim das contas fosse possível colocar o amor numa balança e descobrir se ele pesa o suficiente para compensar o resto. Só que talvez não funcione assim. Talvez existam pessoas que fazem você parar de pensar nisso.
Porque quando eu penso em você, eu não penso em quanto tempo vai durar, nem em quantas coisas poderiam acontecer no caminho, nem em quantas vezes a vida pode mudar completamente de direção. Eu penso em uma coisa muito mais simples. Eu penso no que acontece toda vez que eu olho nos seus olhos e percebo que, por alguns segundos, eu não estou procurando mais nada.
E isso é estranho, porque eu sempre fui muito bom em procurar alguma coisa. Uma resposta, uma saída, alguma certeza que me dissesse que eu estava fazendo a coisa certa. Só que com você não parece existir essa necessidade. É como se eu pudesse simplesmente estar ali. Sem precisar entender. Sem precisar saber onde aquilo vai chegar. Sem precisar transformar tudo em alguma coisa maior do que realmente é.
Talvez seja por isso que aquela ideia de que reinos podem cair faça tanto sentido. Porque reino, no fim, é só uma maneira bonita de falar de tudo aquilo que a gente acha que precisa permanecer de pé para continuar acreditando em alguma coisa. E eu já vi muita coisa cair. Já vi planos mudarem, pessoas mudarem, sentimentos mudarem. Já tive certeza de coisas que depois deixaram de fazer qualquer sentido. Então eu sei que nada é tão permanente quanto parece.
Mas existe uma diferença quando eu penso em você.
Se tudo aquilo que eu construí um dia deixasse de existir, eu provavelmente ficaria perdido por um tempo. Se o mundo mudasse completamente, eu teria que aprender a viver nele de novo. Se aparecessem mil motivos para eu pegar minhas coisas e seguir outro caminho, eu conseguiria fazer isso. Eu sei que conseguiria. Só que nenhuma dessas coisas mudaria uma coisa muito específica: eu ainda procuraria você.
E talvez seja isso que eu nunca soube explicar direito.
Não é que você seja a única coisa que existe. É que, no meio de tudo que existe, você é a coisa que faz sentido.
Tem uma diferença enorme nisso.
Eu não preciso imaginar uma vida onde tudo dá certo para querer você nela. Na verdade, talvez seja justamente o contrário. Porque qualquer pessoa consegue permanecer quando tudo está bonito, quando as coisas estão leves, quando ninguém precisa escolher nada difícil. O que me faz pensar em você é justamente a ideia de que, mesmo quando as coisas não fossem perfeitas, mesmo quando o mundo estivesse fazendo o possível para colocar distância entre nós, ainda existiria alguma parte de mim olhando para você e pensando que não vale a pena ir embora.
Reinos podem cair. Anjos podem chamar. A vida pode oferecer outros caminhos, outras pessoas, outras versões de tudo aquilo que eu achei que queria. E ainda assim existe uma possibilidade muito simples que continua sendo mais forte do que todas as outras: eu olhar para você e reconhecer alguma coisa que eu não encontro em nenhum outro lugar.
Talvez seja isso que eu veja nos seus olhos.
Não uma promessa de que você vai ficar para sempre.
Não uma garantia de que nada vai mudar.
Só você.
E, de algum jeito, isso já parece suficiente.
Porque quando eu olho para você, eu não sinto que encontrei alguém que vai resolver tudo. Eu sinto que encontrei alguém com quem eu não me importaria de enfrentar o que vier.
E talvez essa seja a forma mais honesta que eu encontrei de dizer.
Eu poderia perder muita coisa.
Poderia deixar muita coisa para trás.
Poderia até aprender a viver em outro lugar, com outra rotina, com outras pessoas e uma vida completamente diferente.
Mas se, no meio de tudo isso, eu ainda pudesse olhar para os seus olhos e reconhecer aquele mesmo lugar que reconheço hoje, eu acho que entenderia exatamente por que algumas pessoas simplesmente não vão embora.
Não importa o que caia.
Não importa quem chame.
Não importa quantas vezes a vida tente convencer a gente de que existe outro caminho.
Porque, às vezes, depois de procurar por tanto tempo, você finalmente encontra aquilo que estava procurando sem nem perceber.
E quando encontra, o resto deixa de ser uma questão de necessidade.
Vira escolha.
E eu escolheria você.
quando o acaso decidir
Talvez o mais estranho entre duas pessoas não seja aquilo que aconteceu.
É aquilo que continua acontecendo depois.
Uma foto qualquer pode carregar uma história inteira. Uma pessoa pode aparecer ao lado de outra, sorrindo, sem intenção nenhuma além daquele instante, e ainda assim atravessar uma tela e parar justamente onde não deveria. Em algum lugar, alguém vê. Reconhece. Sente alguma coisa que talvez nem queira admitir. E responde de um jeito pequeno, quase casual, como quem tenta esconder o tamanho daquilo numa frase.
Engraçado como algumas pessoas ainda conseguem fazer isso.
Mesmo longe.
Mesmo depois de tudo.
Mesmo quando já não existe mais motivo para prestar atenção.
Talvez porque certas histórias nunca tenham aprendido a terminar direito.
Elas só mudam de lugar.
Saem das conversas e vão parar nas músicas. Saem dos encontros e aparecem numa foto. Saem da rotina e, de vez em quando, voltam pela boca de alguém que nem fazia parte da história.
E talvez seja por isso que algumas pessoas parecem tão familiares mesmo quando estão vivendo uma vida completamente diferente da nossa.
Como se existisse uma versão do mundo em que as coisas tivessem acontecido um pouco diferente.
Um segundo a mais.
Uma escolha a menos.
Um medo que não tivesse vencido.
Uma mensagem enviada na hora certa.
Uma porta que alguém tivesse decidido não fechar.
Nesse mundo, talvez fosse simples.
Talvez vocês se encontrassem sem precisar fingir que não estavam procurando um ao outro.
Talvez não existisse esse cuidado exagerado com o que sentir, com quem vê, com quem sabe, com quem aparece numa foto ao lado de quem.
Mas aqui é diferente.
Aqui vocês aprenderam a conviver com a estranha habilidade de ainda significarem alguma coisa sem precisar dizer exatamente o quê.
E talvez você nunca descubra se aquela reação foi ciúme, saudade, curiosidade ou apenas aquele pequeno incômodo que aparece quando alguém percebe que a pessoa que um dia ocupou um lugar importante continua existindo muito bem sem pedir licença.
Talvez nem ela saiba.
E tudo bem.
Porque existem sentimentos que não precisam de nome para serem verdadeiros.
Às vezes basta uma foto.
Uma amiga em comum.
Uma mensagem atravessada.
Um “não” disfarçado de brincadeira.
E pronto.
O passado abre os olhos por alguns segundos.
Depois volta a dormir.
Eu gosto de pensar que, se realmente existe outra vida, talvez ela não seja uma segunda chance.
Talvez seja apenas um lugar onde certas pessoas conseguem se encontrar sem carregar tudo aquilo que carregaram nessa.
Sem orgulho.
Sem medo.
Sem a necessidade de parecer indiferente.
Sem precisar transformar sentimento em silêncio só porque ninguém sabe muito bem o que fazer com ele.
E talvez, nessa outra vida, quando alguém mandar uma foto dizendo “olha com quem eu estou”, a outra pessoa não precise fingir que não se importou.
Talvez ela apenas sorria.
Porque, no fundo, algumas pessoas não desaparecem.
Elas só deixam de ser presença e passam a ser possibilidade.
E existe uma diferença enorme entre esquecer alguém e aprender a viver sem essa pessoa.
Acho que é isso que ainda me intriga em nós.
Não saber se foi uma história que terminou…
ou apenas uma história que chegou cedo demais.
Talvez em outra vida a gente descubra.
Ou talvez não.
Mas, se algum dia você ler isso e sentir que tem alguma coisa familiar demais nessas palavras, talvez seja porque certas histórias têm esse problema:
mesmo quando ninguém fala o nome,
elas sabem exatamente de quem estão falando.
só me apaixonar de novo quando esse texto fizer sentido
Às vezes eu fico tentando lembrar do momento exato em que você deixou de ser alguém que eu conhecia para se tornar o lugar onde meus pensamentos descansavam.
E eu nunca encontro.
Talvez porque essas coisas nunca aconteçam de uma vez.
Ninguém se apaixona num instante.
A gente vai se acostumando com a presença do outro sem perceber.
Primeiro sente falta de uma conversa.
Depois de uma risada específica.
Depois de um “chegou em casa?” no fim da noite.
Quando percebe, a ausência daquela pessoa já faz mais barulho do que a presença de qualquer outra.
O mais bonito é que você nunca tentou ser extraordinária.
Você nunca precisou.
Nunca precisou dizer as palavras certas.
Nem inventar versões melhores de si.
Eu gostava justamente das pequenas distrações.
Do jeito que você esquecia o que estava contando porque outra ideia aparecia no meio da frase.
Do jeito que seu riso chegava um pouco antes da piada terminar.
Do jeito que você olhava para o céu sempre que precisava pensar.
Você nunca percebeu, mas eram essas coisas que me faziam acreditar que o mundo ainda sabia criar alguém pela primeira vez.
Eu passei tanto tempo procurando pessoas que me impressionassem, que esqueci como era encontrar alguém que simplesmente me deixasse em paz.
Você nunca ocupou espaço demais.
Você preenchia os espaços que já existiam.
Como a luz entrando pela janela sem pedir licença.
Como uma música baixa tocando em outro cômodo da casa.
Você não mudava quem eu era.
Só fazia parecer que eu sempre estive caminhando na direção certa, mesmo quando tinha certeza de que estava perdido.
Às vezes isso ainda me assusta.
Porque existem encontros que parecem improváveis demais.
Penso em todas as decisões pequenas que precisaram acontecer para que nós existíssemos ao mesmo tempo, no mesmo lugar, olhando um para o outro.
Se eu tivesse acordado dez minutos mais tarde.
Se você tivesse escolhido outra rua.
Se qualquer conversa da sua vida tivesse durado um pouco mais.
Talvez nós nunca soubéssemos que o outro existia.
E, mesmo assim, de alguma forma, existimos.
É estranho sentir gratidão por algo que ninguém planejou.
Você apareceu sem fazer promessas.
Sem dizer que ficaria para sempre.
E talvez tenha sido exatamente isso que tornou tudo tão bonito.
Porque nunca foi sobre vencer o tempo.
Foi sobre existir dentro dele.
Sobre dividir cafés que esfriavam porque a conversa era mais importante.
Sobre caminhar sem destino porque nenhum lugar parecia melhor do que andar ao seu lado.
Sobre descobrir que algumas pessoas não chegam para transformar nossa vida em um filme.
Elas chegam para transformar uma terça-feira qualquer na lembrança mais bonita que você vai carregar por anos.
No fim, acho que o amor nunca foi encontrar alguém perfeito.
Foi encontrar alguém que faz o acaso parecer delicado.
Alguém que olha para você de um jeito tão simples que, por alguns segundos, todas as dúvidas que o mundo construiu deixam de fazer sentido.
E então você percebe que passou a vida inteira procurando grandes sinais.
Quando, na verdade, o maior deles estava escondido na tranquilidade de poder olhar para alguém e pensar, sem precisar dizer em voz alta:
Como foi que, entre bilhões de pessoas, a vida resolveu me apresentar justamente você?
só postar quando fizer sentido pra mim
porque eu, porque não?
Antes, o mundo parecia uma fila organizada de causas e consequências. Havia um acordo silencioso entre as coisas: se você fosse bom o suficiente, gentil o suficiente, paciente o suficiente, o universo acabaria devolvendo tudo na mesma moeda.
Então alguém apagou as placas da estrada.
Foi estranho perceber que a tempestade nunca escolhia quem merecia. Ela apenas acontecia. Derrubava telhados de quem rezava e de quem amaldiçoava, afundava barcos de pescadores experientes e de crianças brincando na margem. O céu nunca pediu desculpas por chover.
Ele passou anos perguntando.
“Por que comigo?”
Como se existisse uma secretaria do destino pronta para responder e anexar um relatório detalhando os motivos de cada cicatriz.
Mas o silêncio sempre foi mais competente do que qualquer resposta.
Então começou a reparar em outra coisa.
As pessoas passavam a vida inteira negociando com o inevitável. Acendiam velas para convencer o escuro a não entrar. Faziam promessas para comprar alguns meses de paz. Inventavam versões de si mesmas esperando que a próxima fosse poupada.
Nunca eram.
Porque a vida não perseguia ninguém.
Ela simplesmente não sabia mirar.
E talvez essa fosse a parte mais difícil de aceitar: não havia um vilão escondido atrás das cortinas. Não existia uma inteligência cruel desenhando tragédias personalizadas. O universo era apenas um oceano. E o oceano nunca odiou quem se afogou.
A pergunta começou a mudar.
Não era mais “por que eu?”
Era…
“Por que eu seria diferente?”
Naquele instante, alguma coisa rachou dentro dele.
Não de um jeito triste.
De um jeito libertador.
Percebeu que carregava o ego vestido de vítima sem perceber. Achava que sua dor era uma exceção na história do mundo, quando na verdade era apenas mais uma língua da mesma fogueira onde todos aquecem as mãos e queimam os dedos.
As pessoas chamavam aquilo de azar.
Outras chamavam de destino.
Ele começou a chamar apenas de existência.
E, curiosamente, quando deixou de procurar culpados, a raiva perdeu o emprego.
Não porque as perdas doíam menos.
Mas porque finalmente entendeu que dor nenhuma carregava seu nome gravado.
Ela visitava.
Depois ia embora.
Assim como a felicidade.
Assim como o amor.
Assim como todas as versões dele que jurou serem definitivas.
No fim, percebeu que a vida nunca prometeu justiça. Prometeu movimento.
E talvez fosse exatamente isso que havia tanta beleza escondida no caos.
O vento nunca pergunta quem merece ser levado.
Ele apenas sopra.
E, pela primeira vez, em vez de gritar contra ele, o homem abriu os braços.
Não como quem venceu.
Mas como quem finalmente parou de perguntar por quê.
.entre nós.
Eu não sei o que a gente é agora.
E essa talvez seja a única coisa que ainda me incomoda.
Porque eu sei o que fomos. Sei o que senti. Sei das coisas que você provavelmente já esqueceu e das coisas que eu finjo que esqueci também. Sei exatamente em que momento algumas coisas começaram a mudar, mesmo que nenhum de nós tenha tido coragem de apontar para aquilo e dizer: é aqui.
Mas agora?
Agora eu não sei.
E eu odeio não saber.
Às vezes penso em te mandar alguma coisa completamente idiota. Uma música. Uma piada. Alguma coisa que só faria sentido para nós dois. Aí eu paro.
Porque já não sei se ainda posso.
É engraçado como uma pessoa pode sair da sua rotina sem sair completamente da sua cabeça.
Eu continuo encontrando você em coisas que nem deveriam ter relação com você.
Uma música tocando no aleatório.
Uma rua.
Um horário.
Uma frase que alguém diz e que, por algum motivo absurdo, me faz pensar em você.
E eu fico alguns segundos naquele lugar entre mandar mensagem e respeitar o silêncio.
Quase sempre escolho o silêncio.
Não porque eu não queira falar.
Talvez justamente porque eu queira demais.
Eu acho que parte de mim ainda gostaria de saber como você está. Não por obrigação, nem porque eu esteja procurando uma desculpa para voltar.
Só quero saber.
Você ainda ri daquele jeito?
Ainda faz aquela coisa quando fica nervosa?
Ainda pensa em mim às vezes?
E se pensa...
é com carinho ou com aquela sensação de “ainda bem que acabou”?
Eu não tenho coragem de perguntar.
Então invento respostas.
É mais fácil.
Às vezes imagino que você sente falta.
Às vezes imagino que não sente absolutamente nada.
E, dependendo do dia, acredito nas duas.
Talvez seja isso que reste quando alguma coisa termina sem realmente desaparecer.
Não uma vontade desesperada de voltar.
Só uma curiosidade persistente.
A vontade de saber se aquilo que foi tão grande para mim ocupou algum espaço parecido dentro de você.
E talvez seja por isso que a pergunta continue aqui, mesmo depois de tudo.
Não se a gente vai voltar.
Não se deveria ter sido diferente.
Só se ainda existe alguma coisa entre nós que não precise de um nome tão complicado.
Se ainda dá para conversar sem parecer que estamos invadindo um território proibido.
Se ainda dá para rir de alguma coisa que só nós entenderíamos.
Se, depois de tudo, ainda existe espaço para eu ser alguém na sua vida — mesmo que de um jeito completamente diferente.
Porque talvez eu não esteja procurando a nossa história de volta.
Talvez eu só esteja tentando descobrir se ela realmente acabou em todos os sentidos.
Então eu fico com essa pergunta, meio ridícula, meio sincera, impossível de responder sozinho:
depois de tudo que fomos,
ainda existe um “nós” em algum lugar?
Ou pelo menos...
ainda somos amigos?
depois da porta (DC referência)
Eu nunca soube muito bem o que fazer quando alguém percebe que pode me destruir.
Talvez por isso eu tenha ficado.
Existe uma espécie de covardia bonita em continuar perto de quem conhece exatamente o lugar onde apertar. A pessoa nem precisa levantar a voz. Basta um silêncio diferente, uma resposta mais curta, aquele olhar que antes demorava um pouco mais. E pronto. O sujeito que jurava não depender de ninguém começa a procurar significado em migalhas.
Eu conheço esse lugar.
É estranho admitir que alguém pode morar dentro da gente sem pagar aluguel, sem pedir licença e, pior, sem sequer saber que possui uma chave.
Eu tentei transformar isso em orgulho.
Disse para mim mesmo que não precisava. Que conseguiria seguir. Que havia outras pessoas, outras noites, outras histórias esperando para acontecer. Fiz do desapego uma espécie de religião particular e passei a repetir suas regras sempre que sentia vontade de voltar.
Mas o corpo não entende discursos.
O corpo lembra.
Lembra da voz.
Do jeito de chegar.
Da presença ocupando um espaço que parecia ter sido construído exclusivamente para ela.
E então existe aquele segundo ridículo em que tudo volta.
Não como memória.
Como presença.
É aí que eu percebo o problema: talvez eu não queira ser libertado.
Talvez uma parte de mim ainda queira ser segurada.
Não porque eu não consiga ficar de pé, mas porque existe uma diferença absurda entre estar de pé e ter alguém por quem valha a pena cair.
Eu poderia mentir e dizer que quero alguém que nunca me faça perder o controle.
Não quero.
Eu quero alguém diante de quem meu controle pareça uma coisa pequena.
Alguém que atravesse minhas defesas sem precisar arrombá-las. Que veja toda essa pose de homem resolvido e perceba que, por trás dela, existe alguém que só queria encontrar um lugar onde não precisasse estar sempre pronto para ir embora.
Talvez seja isso que assusta.
Não amar.
Ser conhecido.
Porque quando alguém realmente conhece você, acaba a possibilidade de fingir que não sente.
E eu sinto.
Sinto até quando finjo que não.
Então, se algum dia eu voltar para aquela porta, não será porque esqueci tudo o que aconteceu.
Será justamente porque lembrei.
Porque existem pessoas que a gente supera.
E existem aquelas que permanecem como uma música tocando baixinho em algum cômodo da casa, você pode sair, fechar a porta, mudar de endereço, começar outra vida.
Mas, de vez em quando, no meio da madrugada, ainda consegue ouvir.
E talvez eu ainda esteja ouvindo.
Talvez seja por isso que, mesmo sabendo o quanto isso me desarma, uma parte de mim ainda sussurra:
fica.
Não precisa me salvar.
Só não solta agora.
O lugar dela 🌪️
Talvez o erro tenha sido chamar de espera.
Porque esperar parece uma coisa ativa. Tem relógio, ansiedade, expectativa, alguém olhando para a porta de tempos em tempos.
E não foi exatamente assim.
A verdade é que eu continuei vivendo.
Conheci pessoas. Fui embora de lugares. Voltei para outros. Mudei algumas coisas em mim que eu jurava que nunca mudariam. Aprendi a gostar de dias que antes eu odiava. Aprendi a ficar sozinho sem transformar isso numa tragédia.
A vida continuou acontecendo.
Só que, em algum lugar dela, havia uma cadeira que nunca deixou de estar ocupada.
Mesmo vazia.
Era estranho.
Porque ninguém precisava saber disso. Nem eu gostava muito de admitir.
Mas havia certas coisas que pareciam ter sido feitas para serem divididas com uma pessoa específica.
Uma música que eu pensava: ela entenderia.
Uma notícia que dava vontade de contar.
Um lugar bonito que imediatamente vinha acompanhado de uma ausência.
Até algumas pequenas vitórias tinham esse defeito. Eu conseguia comemorar, mas existia aquele segundo depois da felicidade em que alguma parte de mim procurava alguém.
E era sempre ela.
Não como uma obsessão.
Não como quem passa o dia olhando para trás.
Era mais parecido com uma direção.
Como se, por mais que eu andasse por caminhos diferentes, existisse uma bússola defeituosa apontando para o mesmo lugar.
E talvez seja isso que algumas pessoas fazem.
Elas não ficam necessariamente na nossa rotina.
Ficam no nosso jeito de enxergar as coisas.
Depois delas, certas coisas nunca mais são apenas coisas.
Uma foto tirada por alguém que talvez nem soubesse o que estava fazendo.
Uma mensagem curta demais para explicar uma história inteira.
Um encontro que aconteceu quase por acaso.
Uma reação que dizia mais do que deveria.
Uma pessoa em comum servindo, sem saber, de ponte entre dois mundos que insistiam em continuar se esbarrando.
São detalhes pequenos.
Ridículos, se vistos de fora.
Mas quem conhece a história sabe.
E talvez ela saiba também.
Talvez reconheça algumas dessas pequenas pistas e faça aquela cara de quem entendeu, mas prefere não confirmar.
Porque existe uma intimidade estranha em duas pessoas saberem que certas coisas significam mais do que parecem.
E foi assim que o lugar dela permaneceu.
Não porque eu tenha parado a vida.
Muito pelo contrário.
Eu fui.
Mas nunca coloquei outra pessoa ali.
Não por promessa.
Não por fidelidade a uma história que talvez nem tenha terminado direito.
Foi simplesmente porque algumas posições não são preenchidas.
Você pode colocar alguém ao lado.
Pode conhecer alguém incrível.
Pode viver coisas bonitas.
Pode até gostar de verdade.
Mas existe uma diferença entre gostar de alguém e reconhecer alguém.
E eu reconheci.
Talvez cedo demais.
Talvez tarde demais.
Talvez no único momento em que duas pessoas ainda não tinham maturidade suficiente para entender o tamanho daquilo.
Só que o tempo tem uma mania curiosa de não apagar o que foi verdadeiro.
Ele muda a forma.
Tira as bordas.
Diminui o barulho.
Mas deixa certas coisas intactas.
Por isso, se algum dia ela voltar a aparecer sem grande cena, sem música, sem explicação, talvez até daquele jeito casual que parece não significar nada, eu não acho que precisaria perguntar onde ela esteve.
Eu provavelmente só perceberia que aquele lugar ainda era dela.
Como se ninguém tivesse precisado guardá-lo.
Como se o tempo inteiro ele tivesse sabido.
E talvez essa seja a parte mais bonita e mais injusta de tudo:
eu não estou esperando que ela volte.
Mas se ela voltar,
eu ainda vou saber exatamente onde colocar o meu olhar.
Porque tem gente que a gente escolhe.
E tem gente que, de algum jeito, parece ter sido escolhida antes mesmo da gente entender o que estava acontecendo.
Ela é uma dessas.
Eu nunca esqueci aqueles olhos e como eles sorriam pra mim.
E talvez, no fundo, seja isso que eu nunca consegui explicar:
não era que eu quisesse alguém.
Era que, quando penso em quem deveria estar ali,
eu sempre soube o nome.
para aonde vou quando estou entediado
Acredito em uma teoria estranha que diz que todo espelho é uma janela atrasada.
Você olha e vê a própria imagem repetindo seus movimentos, mas ninguém nunca conseguiu provar que ela está realmente copiando você. E se for o contrário? E se houver um mundo inteiro esperando o instante exato para assumir o seu lugar?
Foi assim que nasceu o meu cemitério.
Não era feito de terra.
Era feito de reflexos.
Toda vez que alguma parte de mim morria por aqui, ela acordava do outro lado.
No começo eram só pequenas coisas. Uma ingenuidade enterrada numa terça-feira. Um amor que não suportou o próprio peso. Uma promessa feita olhando nos olhos de alguém que também acreditava nela. Aqui, essas coisas recebiam flores. Lá, elas levantavam da própria sepultura e continuavam vivendo como se nada tivesse acontecido.
Demorei anos para perceber que aquele outro mundo nunca foi uma cópia.
Era uma continuação.
Como em Coraline, existe sempre uma versão perfeita daquilo que você queria encontrar. Um corredor escondido atrás da parede, uma porta pequena demais para chamar atenção, um convite educado demais para parecer perigoso. O outro lado sempre sabe exatamente o que está faltando em você.
Porque foi construído com as coisas que você perdeu.
Imagine atravessar.
Encontrar todas as pessoas que você não conseguiu manter. Conversas que terminaram diferente. Abraços que duraram mais alguns segundos. Escolhas que nunca machucaram ninguém. Uma vida onde todas as despedidas foram canceladas antes de acontecer.
É impossível não querer ficar.
Mas esse lugar cobra de um jeito inteligente.
Ele não pede dinheiro.
Pede realidade.
Cada minuto vivido ali faz você esquecer quem realmente é. Aos poucos, a dor desaparece, a culpa desaparece, os arrependimentos desaparecem… e, junto deles, desaparece também a única coisa que fazia tudo aquilo ser verdadeiro.
O sofrimento era o preço da autenticidade.
Foi aí que entendi por que meu cemitério nunca me deixou entrar completamente.
Ele não existe para que eu visite os mortos.
Existe para impedir que eles me convençam a morar com eles.
Porque toda versão de nós mesmos acredita que era a versão certa.
Aquele garoto que ainda esperava mensagens nunca aceitou ter sido abandonado. O homem que decidiu ir embora continua achando que deveria ter ficado. Quem perdoou inveja quem guardou raiva. Quem esqueceu sente falta de quem ainda lembra.
Do outro lado, todos eles continuam vivos.
E todos juram que eu sou o fantasma.
Talvez seja essa a verdadeira função de um cemitério.
Não guardar quem morreu.
Mas separar dois mundos que jamais poderiam existir ao mesmo tempo.
O das vidas que aconteceram…
e o das vidas que ainda tentam nos convencer de que deveriam ter acontecido.
A parte mais assustadora nunca foi descobrir que existe um mundo invertido.
Foi perceber que, às vezes, quando fico tempo demais olhando para dentro de mim, já não sei mais de qual lado do espelho estou olhando.
a morte do nostálgico (despedida)
Não houve despedida.
Ninguém chorou. Ninguém fez um discurso bonito. Ninguém colocou flores.
Só existiu um quarto silencioso, uma arma apontada para alguém que já estava morto fazia tempo.
O disparo não foi contra um homem.
Foi contra um hábito.
Contra a necessidade de transformar toda dor em identidade. Contra o vício de revisitar feridas até esquecer como era viver sem elas. Contra o conforto perverso de acreditar que sofrer significava sentir mais do que os outros.
O corpo caiu.
Levava no bolso cartas que nunca chegaram, fotografias de pessoas que já não moravam em lugar nenhum, promessas feitas para fantasmas, apostas perdidas tentando preencher um vazio que não aceitava existir sozinho.
Morreu ali o eterno saudoso.
O homem que sempre olhava para trás como se a felicidade tivesse esquecido um casaco no passado.
Junto dele, desceu à cova o rapaz que precisava parecer quebrado para justificar o próprio silêncio. O que fazia da própria tristeza uma casa, da ansiedade uma bússola e da culpa uma religião.
Também enterraram o covarde.
Aquele que esperava o mundo mudar primeiro para só depois ter coragem de viver.
Cobriram tudo com terra.
As pessoas que um dia fizeram falta ficaram lá dentro também. Não porque deixaram de importar, mas porque já não pertencem ao mesmo mundo de quem saiu andando daquele cemitério.
Existem lembranças que merecem descanso.
E insistir em ressuscitá-las é uma forma de morrer aos poucos.
Quando voltaram para casa, algumas portas permaneceram fechadas.
Uma conta deixou de existir.
Um perfil ficou abandonado.
Algumas palavras nunca mais seriam escritas.
Não por raiva.
Por sobrevivência.
Há lugares que continuam de pé apenas porque insistimos em visitá-los.
Hoje, eles perderam o último visitante.
A melancolia sempre soube escrever. Sabia escolher músicas, filmes, metáforas e transformar qualquer cicatriz em poesia.
Mas nunca soube construir futuro.
E chega um momento em que a beleza da própria ruína vira apenas outra prisão bem decorada.
Então acabou.
Não existe mais protagonista para aquela história.
O homem que precisava sofrer para existir recebeu o único destino possível.
Uma bala.
Uma pá de terra.
Silêncio.
Quem saiu daquele quarto não era feliz.
Nem invencível.
Nem curado.
Só estava cansado de oferecer a própria vida para coisas que nunca ofereceram a delas em troca.
Pela primeira vez, decidiu gastar energia com aquilo que pode alcançar.
O resto…
Que permaneça onde sempre pertenceu.
No passado.
Hoje não nasce alguém novo.
Hoje apenas morreu alguém que já estava ocupando espaço demais.
E dessa vez, ninguém vai cavar para trazê-lo de volta.
marcha nupcial
Dizem que o desejo nasce nos olhos.
Mentira.
Os olhos apenas denunciam aquilo que já ocupou todos os outros cômodos.
O desejo nasce naquele lugar onde nenhuma palavra consegue chegar. Um espaço pequeno, escuro, antigo. Como uma peça esquecida de uma máquina que continua funcionando, mas produz um barulho insuportável porque sabe exatamente o que está faltando.
Passei a vida acreditando que esse vazio era só mais uma característica minha. Como a cor dos olhos, a forma das mãos ou o hábito de olhar para o chão enquanto penso.
Até você.
E foi cruel perceber que o vazio nunca foi vazio.
Era espaço.
Espaço esperando exatamente o formato que você tinha.
Desde então, tudo o que existe em mim quer deixar de ser apenas meu.
Quero ser a caneca que esfria o café antes que ele queime sua boca. Quero ser a lâmpada acesa quando você chegar tarde e jurar que não precisava de ninguém te esperando. Quero ser a chave esquecida no bolso da sua calça, porque isso significaria que existe um lugar para onde você sempre volta. (ac referência)
Quero ser o casaco pendurado atrás da porta nas noites em que o inverno resolve exagerar. Quero ser o banco do passageiro nas viagens longas, onde o silêncio nunca pesa porque sua presença faz todo o trabalho que as palavras não conseguem fazer.
Quero ser as pequenas coisas.
Porque as grandes sempre acabam.
As pequenas sobrevivem.
Quero ser o livro que você nunca termina porque gosta demais da sensação de ainda haver páginas pela frente. Quero ser o vinil riscado que insiste em tocar a mesma parte, e justamente por isso se torna insubstituível. Quero ser o relógio da parede que você já nem escuta, mas cuja ausência faria a casa inteira parecer errada.
Se for preciso, faço do meu peito uma gaveta para guardar seus medos.
Faço das minhas costas um telhado para os dias em que o mundo resolver desabar.
Faço da minha voz um lugar onde você possa descansar quando a sua cansar de existir.
Posso ser qualquer coisa.
Qualquer coisa que diminua o peso que você carrega sem contar para ninguém.
Só não me peça para ser alguém que aprende a viver sem desejar.
Porque eu tentei.
Passei anos colecionando versões de mim que fingiam não precisar de ninguém. Construí uma casa inteira usando independência como tijolo e orgulho como cimento.
Era bonita.
Mas ecoava.
Toda casa vazia parece maior do que realmente é.
Então você apareceu e fez a pior das gentilezas.
Mostrou que o que eu chamava de liberdade talvez fosse apenas uma solidão bem decorada.
Agora tudo parece incompleto.
As manhãs têm uma cadeira sobrando.
As músicas terminam cedo demais.
As ruas parecem longas demais.
Até o céu, de vez em quando, dá a impressão de estar faltando uma cor.
Não porque você levou alguma coisa embora.
Mas porque revelou a peça que eu nunca soube nomear.
E agora não consigo mais fingir que ela nunca existiu.
É ridículo.
Porque o mundo continua funcionando.
Os semáforos abrem.
Os mercados lotam.
As pessoas riem de piadas que esquecem cinco minutos depois.
Tudo segue.
Só eu continuo parado diante dessa ausência que tem exatamente o seu formato.
E, se algum dia me perguntarem qual foi a maior prova de amor que já ofereci, não direi que escreveria poemas, cruzaria oceanos ou enfrentaria o fim do mundo.
Direi algo muito mais simples.
Gostaria de ser tudo aquilo que toca seus dias sem que você precise perceber.
O hábito.
O conforto.
O objeto que você procura automaticamente no escuro.
A música que começa antes mesmo de você decidir ouvi-la.
Porque amar alguém talvez seja isso.
É desejar desaparecer como indivíduo para existir como presença.
Ser tão parte da vida de alguém que a própria ausência pareça um erro da realidade.
E, se um dia eu tiver a sorte de ouvir você dizer “sim” diante de um altar, espero que, enquanto todos esperam uma marcha solene, toque aquela velha canção sobre querer ser tudo para alguém.
Não porque ela fale de amor melhor do que qualquer outra.
Mas porque ela diz, com uma sinceridade quase desesperada, aquilo que passei a vida inteira tentando explicar sem conseguir:
eu nunca quis possuir você.
Eu só queria existir de um jeito que o seu mundo nunca mais precisasse aprender a viver sem.
Somente eu entendo, como um código criado por mim mesmo, impossibilitado de proferir a senha, condenado ao próprio acaso.
azul
Nunca entendi por que algumas pessoas têm cor.
Não a cor dos olhos ou da roupa. Aquelas a gente esquece.
Falo da cor que fica quando elas vão embora.
Você sempre foi azul.
Não um azul triste.
Era o azul do céu cinco minutos antes de escurecer, quando o dia ainda respira fundo antes de entregar a noite. O azul do mar quando o vento resolve descansar por alguns instantes. Um azul que nunca precisou chamar atenção para ser bonito.
Talvez seja por isso que eu sempre encontrava paz perto de você.
O curioso é que essa paz nunca foi silêncio.
Porque você também era um furacão.
Só que ninguém nunca fala sobre o centro dele.
Todo mundo lembra da força que arranca telhados, das árvores caídas, do caos. Mas existe um lugar no meio de toda aquela violência onde não venta. Onde tudo para por alguns minutos.
Era exatamente ali que eu me sentia.
Enquanto o resto do mundo parecia correr contra o relógio, você fazia o tempo perder a pressa.
As conversas aconteciam sem roteiro.
O café esfriava porque nenhum dos dois lembrava de beber.
As horas passavam como se alguém tivesse esquecido de fazê-las andar.
Era um furacão porque tudo mudava quando você chegava.
E era azul porque, estranhamente, nada parecia ameaçador.
Você bagunçava a ordem das coisas sem transformar aquilo em desastre.
Depois que você apareceu, comecei a reparar numa coisa estranha.
O mundo inteiro ficou um pouco azul.
O céu parecia maior.
As madrugadas deixaram de ser tão frias.
Até as músicas ganharam um espaço que antes não existia.
Era como se você tivesse mudado a temperatura das coisas sem tocar em nenhuma delas.
Eu nunca tive coragem de te contar isso.
Porque parecia exagero.
Como explicar para alguém que ela alterou a cor da sua memória?
Que existe um tom específico do fim da tarde que continua tendo o seu nome.
Que toda vez que vejo o oceano, penso naquele jeito tranquilo com que você olhava para o horizonte, como se soubesse de alguma coisa que eu ainda levaria anos para entender.
Talvez amar alguém seja exatamente isso.
Descobrir que as cores nunca pertenceram ao mundo.
Sempre pertenceram às pessoas.
Antes de você, azul era só uma palavra.
Depois de você, virou um lugar.
Um lugar para onde minha cabeça sempre volta quando precisa descansar.
E talvez essa seja a maior contradição que alguém possa carregar.
Você foi o único furacão em que eu desejei permanecer.
Porque, pela primeira vez, ser levado por alguma coisa não significava me perder.
Significava, finalmente, encontrar um lugar onde eu não precisava resistir.
Agora passo a vida inteira entrando em lugares bonitos que continuam não sendo você.
O céu ainda é azul.
O mar continua azul.
Mas nenhum deles consegue repetir a sensação de quando era você quem dava cor às coisas.
Descobri tarde demais que algumas pessoas não passam pela nossa vida.
Elas mudam a forma como enxergamos o mundo.
E, depois disso, nenhuma cor volta a ser apenas uma cor.
olhos de jabuticaba
A gente nunca marcou de se encontrar.
Essa talvez seja a parte mais estranha da nossa história.
Porque toda vez que eu decido seguir em frente, a vida resolve colocar você no caminho de novo. Num bar qualquer. Na rua. Na festa que eu nem queria ir. Na fila de algum lugar. Sempre parece coincidência demais para ser coincidência e acaso demais para ser destino.
A gente se olha como quem já sabe exatamente o que vai acontecer.
Primeiro vem aquele sorriso tímido, quase educado. Depois uma conversa boba sobre a vida, sobre o trabalho, sobre o tempo que passou. Fingimos que somos duas pessoas que só têm assuntos em comum.
Mas nunca é só isso.
Existe um momento em que o resto do lugar começa a desaparecer. Eu paro de ouvir quem está falando do meu lado. Você também fica um pouco mais perto do que precisava. Ninguém comenta. Ninguém pergunta. Acontece.
E então vem o beijo.
Sempre o beijo.
Como se todos os meses que passamos longe um do outro fossem apagados em poucos segundos.
É engraçado como a gente sempre acredita que dessa vez vai ser diferente.
Você ri e diz que não faz sentido continuar nisso.
Eu concordo.
Você fala que essa foi a última vez.
Eu respondo que também acho.
A gente se despede convencido de que finalmente conseguiu.
E, por algum tempo, consegue mesmo.
Até a vida resolver brincar de novo.
Eu nunca entendi o que somos.
Não somos um casal.
Também nunca fomos apenas duas pessoas que ficaram algumas vezes.
A gente conhece versões um do outro que ninguém mais conheceu. Você sabe como eu fico quando estou ansioso. Eu sei quando seu sorriso é verdadeiro e quando ele só está tentando evitar uma conversa difícil.
Mesmo assim, nunca conseguimos morar na vida um do outro.
Só conseguimos fazer visitas.
Às vezes penso que nosso erro sempre foi acreditar que precisava existir um fim definitivo.
Como se um beijo pudesse encerrar tudo o que veio antes.
Como se fosse possível convencer o coração usando lógica.
“Essa foi a última vez.”
Quantas vezes a gente já disse isso?
Cinco?
Dez?
Vinte?
Eu perdi a conta.
O problema é que nunca foi sobre o beijo.
Era sobre aqueles cinco minutos antes dele.
Quando você me olhava do outro lado e eu já sabia que tinha perdido de novo.
Quando nós dois fingíamos conversar com outras pessoas enquanto esperávamos um dos dois criar coragem para atravessar a distância.
O beijo só confirmava uma decisão que já tinha sido tomada pelos nossos olhos muito antes.
Talvez um dia exista realmente uma última vez.
Talvez a gente se encontre de novo e finalmente consiga passar um pelo outro como dois desconhecidos.
Talvez um de nós esteja apaixonado por outra pessoa.
Talvez a vida, cansada de insistir, resolva nos deixar em paz.
Mas, se esse dia chegar, eu desconfio que nenhum de nós vai perceber.
Porque todas as outras últimas vezes também pareciam verdadeiras.
E, no fim, bastava um reencontro.
Um “quanto tempo”.
Um abraço que demorava um segundo além do normal.
E lá estávamos nós outra vez, prometendo que agora era sério.
Enquanto, no fundo, os dois já sabiam que a única promessa que nunca conseguimos cumprir foi justamente essa.
