Hourglass. Existe uma espécie de... Gabriel Parice Lopes

hourglass.


Existe uma espécie de loucura em reconhecer alguém mesmo depois de tanto tempo. Não porque a pessoa continuou presente, mas justamente porque conseguiu ir embora e, ainda assim, alguma coisa dela ficou funcionando em silêncio, escondida entre coisas que pareciam resolvidas.


Ele já tinha aprendido a viver sem procurar. Tinha colocado outras pessoas em lugares diferentes, conhecido outras versões de si mesmo, seguido dias que não tinham mais aquele nome no meio. E talvez tivesse acreditado que certas histórias acabam simplesmente porque o tempo passa. Até perceber que algumas não acabam. Só deixam de fazer barulho.


O estranho é que não era saudade o tempo inteiro. Era pior. Era aquela sensação ocasional de que, se aquela pessoa aparecesse de novo, talvez uma parte dele reconhecesse antes mesmo que a cabeça pudesse entender. Como se anos não fossem apenas anos, mas uma quantidade absurda de pequenas coisas que o tempo não sabe apagar: uma maneira específica de olhar, uma conversa que ficou sem conclusão, um lugar que ainda parece ocupado mesmo depois de tanto tempo.


E talvez ninguém esteja pedindo para voltar ao que era. Talvez o que assuste seja justamente imaginar que, depois de tudo, ainda poderia existir alguma forma de proximidade que não precisasse repetir o passado. Não o mesmo relacionamento, não as mesmas promessas, não aquela versão dos dois que um dia pareceu ter futuro garantido.


Só a pergunta.


Ainda existe amizade onde antes existia amor?


Ainda dá para conversar sem que tudo aquilo que ficou para trás sente à mesa junto?


Ainda dá para rir de alguma coisa antiga sem precisar fingir que não doeu quando terminou?


Porque algumas pessoas não precisam voltar para a nossa vida do mesmo jeito. Às vezes basta saber que, apesar da distância, das escolhas e de tudo que mudou, ainda existe um caminho possível entre dois pontos que um dia foram inseparáveis.


E talvez seja isso que ele nunca conseguiu descobrir.


Se ela tivesse voltado, ele teria escolhido ficar?


Se ela tivesse chamado, ele teria atendido?


Se os dois se encontrassem agora, seriam estranhos com uma história em comum ou duas pessoas que ainda reconhecem alguma coisa uma na outra?


Ele não sabe.


E quanto mais tenta encontrar uma resposta, mais percebe que talvez certas histórias não tenham sido feitas para terminar com uma conclusão bonita. Algumas simplesmente ficam ali, como uma porta que ninguém trancou completamente.


Talvez por isso ele ainda olhe para certas lembranças sem saber exatamente o que procura.


Não necessariamente uma segunda chance.


Talvez só a confirmação de que aquilo foi real.


Porque quando alguém já ocupou um lugar tão grande na sua vida, você não precisa querer aquela pessoa de volta para continuar imaginando como seria se ela estivesse por perto.


Às vezes basta uma pequena possibilidade.


E é aí que tudo fica perigoso.


Porque talvez exista um futuro onde os dois se encontrem novamente, talvez exista outro onde nunca mais aconteça nada. Talvez a distância tenha sido apenas distância. Talvez tenha sido o ponto final que nenhum dos dois teve coragem de escrever.


Quem sabe?


Talvez ela esteja vivendo uma vida completamente diferente agora, cercada de coisas que ele nunca vai conhecer. Talvez ele também tenha se tornado alguém que ela não reconheceria de primeira. E talvez seja justamente por isso que a ideia ainda tenha alguma beleza: se um dia os caminhos se cruzassem novamente, nenhum dos dois estaria encontrando exatamente quem deixou para trás.


Seriam duas versões novas carregando a memória de duas versões antigas.


E talvez isso fosse suficiente.


Porque algumas pessoas vão embora, atravessam oceanos, mudam a própria vida e deixam de fazer parte da rotina.


Mas existe uma diferença entre sair da sua vida e deixar de existir dentro dela.


E essa diferença pode durar muito mais do que qualquer distância.


No fim, ele não sabe se ainda existe alguma coisa esperando por eles.


Não sabe se existe amizade, amor, acaso ou simplesmente memória.


Não sabe se ela pensa nele quando alguma música toca, quando alguma lembrança aparece ou quando a noite fica silenciosa demais.


Não sabe nem se deveria querer saber.


Só sabe que, entre tudo aquilo que o tempo levou, ainda existe uma pergunta que nunca morreu completamente.


E talvez algumas perguntas sejam assim.


Não precisam de resposta para continuar sendo verdade.


Só precisam de duas pessoas, em algum lugar do mundo, olhando para a mesma história e pensando, cada uma do seu lado:


e se ainda houver alguma coisa aqui?