Azul Nunca entendi por que algumas... Gabriel Parice Lopes

azul

Nunca entendi por que algumas pessoas têm cor.

Não a cor dos olhos ou da roupa. Aquelas a gente esquece.

Falo da cor que fica quando elas vão embora.

Você sempre foi azul.

Não um azul triste.

Era o azul do céu cinco minutos antes de escurecer, quando o dia ainda respira fundo antes de entregar a noite. O azul do mar quando o vento resolve descansar por alguns instantes. Um azul que nunca precisou chamar atenção para ser bonito.

Talvez seja por isso que eu sempre encontrava paz perto de você.

O curioso é que essa paz nunca foi silêncio.

Porque você também era um furacão.

Só que ninguém nunca fala sobre o centro dele.

Todo mundo lembra da força que arranca telhados, das árvores caídas, do caos. Mas existe um lugar no meio de toda aquela violência onde não venta. Onde tudo para por alguns minutos.

Era exatamente ali que eu me sentia.

Enquanto o resto do mundo parecia correr contra o relógio, você fazia o tempo perder a pressa.

As conversas aconteciam sem roteiro.

O café esfriava porque nenhum dos dois lembrava de beber.

As horas passavam como se alguém tivesse esquecido de fazê-las andar.

Era um furacão porque tudo mudava quando você chegava.

E era azul porque, estranhamente, nada parecia ameaçador.

Você bagunçava a ordem das coisas sem transformar aquilo em desastre.

Depois que você apareceu, comecei a reparar numa coisa estranha.

O mundo inteiro ficou um pouco azul.

O céu parecia maior.

As madrugadas deixaram de ser tão frias.

Até as músicas ganharam um espaço que antes não existia.

Era como se você tivesse mudado a temperatura das coisas sem tocar em nenhuma delas.

Eu nunca tive coragem de te contar isso.

Porque parecia exagero.

Como explicar para alguém que ela alterou a cor da sua memória?

Que existe um tom específico do fim da tarde que continua tendo o seu nome.

Que toda vez que vejo o oceano, penso naquele jeito tranquilo com que você olhava para o horizonte, como se soubesse de alguma coisa que eu ainda levaria anos para entender.

Talvez amar alguém seja exatamente isso.

Descobrir que as cores nunca pertenceram ao mundo.

Sempre pertenceram às pessoas.

Antes de você, azul era só uma palavra.

Depois de você, virou um lugar.

Um lugar para onde minha cabeça sempre volta quando precisa descansar.

E talvez essa seja a maior contradição que alguém possa carregar.

Você foi o único furacão em que eu desejei permanecer.

Porque, pela primeira vez, ser levado por alguma coisa não significava me perder.

Significava, finalmente, encontrar um lugar onde eu não precisava resistir.

Agora passo a vida inteira entrando em lugares bonitos que continuam não sendo você.

O céu ainda é azul.

O mar continua azul.

Mas nenhum deles consegue repetir a sensação de quando era você quem dava cor às coisas.

Descobri tarde demais que algumas pessoas não passam pela nossa vida.

Elas mudam a forma como enxergamos o mundo.

E, depois disso, nenhuma cor volta a ser apenas uma cor.