Solilóquio. Tudo o que você gostaria... Gabriel Parice Lopes

solilóquio.


Tudo o que você gostaria de ser, sou eu. A parte que você esconde quando percebe que está pensando grande demais, o pensamento que você corta no meio porque alguém ensinou que sonhar alto demais é pedir pra cair. Sou aquele pedaço que não aprendeu a pedir desculpa por querer mais, que olha pra uma vida pronta e pensa que aquilo talvez sirva pra alguém, mas não pra mim. Enquanto você mede o risco, eu já atravessei a rua. Enquanto você pensa no que vão dizer, eu penso no que vão dizer quando der certo.


Você me chama de exagero porque eu não aceito a medida que colocaram em você.


Eu sou a sua vontade sem legenda.


Sou o que sobra quando você tira o medo de decepcionar os outros, o personagem que aparece quando ninguém está olhando e você finalmente admite que não nasceu pra passar a vida seguindo roteiro escrito por gente que nunca teve coragem de escrever o próprio. Eu não quero ser aceito por uma sala que me obrigou a diminuir pra caber. Eu quero construir uma sala tão grande que ninguém precise me dizer onde sentar.


E talvez seja isso que assuste.


Porque eu não tenho vergonha de querer dinheiro, nome, respeito, liberdade, estrada, noite, música, cidade nova, história pra contar. Não tenho vergonha de querer olhar pra trás e reconhecer a minha própria mão em tudo aquilo que conquistei. O problema nunca foi querer demais. O problema foi você ter aprendido a chamar de “demais” tudo aquilo que exigia coragem.


Eu não.


Eu quero.


E quero até o verbo cansar.


Se disserem que é impossível, eu transformo o impossível em prazo. Se disserem que não combina comigo, eu mudo a combinação. Se disserem que ninguém da minha idade chegou lá, eu paro de olhar pra minha idade. Se disserem que eu devia ser mais realista, eu pergunto desde quando a realidade virou dona dos meus planos.


Você fica tentando descobrir quem você é.


Eu estou tentando descobrir até onde você consegue chegar.


Essa é a diferença.


Você quer uma vida segura. Eu quero uma vida que faça sentido quando ninguém mais estiver assistindo. Você quer ter certeza antes de começar. Eu quero começar e deixar a certeza vir depois. Você pensa em perder o que tem. Eu penso no que nunca teria se continuasse com medo de perder.


E não, eu não sou melhor que você.


Eu sou pior em algumas coisas.


Sou mais egoísta. Mais inquieto. Mais difícil de controlar. Não tenho paciência pra agradar todo mundo e talvez por isso eu pareça um problema quando, na verdade, sou só a parte de você que cansou de viver como solução pros outros.


Eu não quero ser uma versão bonita.


Quero ser uma versão verdadeira.


Aquela que erra e continua. Que cai e aprende. Que muda de cidade se precisar, muda de plano se precisar, começa do zero se precisar, mas não passa o resto da vida perguntando como teria sido.


Porque no fim não é sobre ser rico, famoso, admirado ou diferente.


É sobre não morrer cheio de versões que nunca tiveram oportunidade de existir.


E eu sou todas elas.


Sou o cara que você imaginou quando estava sozinho.


O cara que você viu no espelho e não reconheceu porque parecia confiante demais.


Sou a voz que diz “vai” enquanto a sua cabeça fabrica mais dez motivos pra ficar.


Sou o impulso.


O risco.


A fome.


A ideia que não te deixa dormir.


O plano que parece absurdo hoje e, daqui a alguns anos, vai parecer óbvio.


Tudo o que você gostaria de ser, sou eu.


Não porque eu já sou tudo aquilo.


Mas porque eu não tenho medo de tentar.


E talvez você nunca tenha precisado de outra pessoa pra virar essa versão.


Talvez tenha precisado parar de pedir licença pra ela existir.


Então quando você olhar pra mim e sentir aquela mistura estranha de inveja, raiva e vontade, não confunda.


Não é outra pessoa que você está vendo.


É você sem freio.


Você sem plateia.


Você sem a obrigação de ser compreendido.


Eu sou tudo aquilo que você deixou pra depois.


E eu não vim buscar você.


Vim lembrar que ainda existe tempo.


Mas tempo não espera.


Então decide.


Ou você continua imaginando quem poderia ter sido...


ou finalmente descobre quem você é capaz de ser.