Só postar quando fizer sentido pra mim... Gabriel Parice Lopes
só postar quando fizer sentido pra mim
porque eu, porque não?
Antes, o mundo parecia uma fila organizada de causas e consequências. Havia um acordo silencioso entre as coisas: se você fosse bom o suficiente, gentil o suficiente, paciente o suficiente, o universo acabaria devolvendo tudo na mesma moeda.
Então alguém apagou as placas da estrada.
Foi estranho perceber que a tempestade nunca escolhia quem merecia. Ela apenas acontecia. Derrubava telhados de quem rezava e de quem amaldiçoava, afundava barcos de pescadores experientes e de crianças brincando na margem. O céu nunca pediu desculpas por chover.
Ele passou anos perguntando.
“Por que comigo?”
Como se existisse uma secretaria do destino pronta para responder e anexar um relatório detalhando os motivos de cada cicatriz.
Mas o silêncio sempre foi mais competente do que qualquer resposta.
Então começou a reparar em outra coisa.
As pessoas passavam a vida inteira negociando com o inevitável. Acendiam velas para convencer o escuro a não entrar. Faziam promessas para comprar alguns meses de paz. Inventavam versões de si mesmas esperando que a próxima fosse poupada.
Nunca eram.
Porque a vida não perseguia ninguém.
Ela simplesmente não sabia mirar.
E talvez essa fosse a parte mais difícil de aceitar: não havia um vilão escondido atrás das cortinas. Não existia uma inteligência cruel desenhando tragédias personalizadas. O universo era apenas um oceano. E o oceano nunca odiou quem se afogou.
A pergunta começou a mudar.
Não era mais “por que eu?”
Era…
“Por que eu seria diferente?”
Naquele instante, alguma coisa rachou dentro dele.
Não de um jeito triste.
De um jeito libertador.
Percebeu que carregava o ego vestido de vítima sem perceber. Achava que sua dor era uma exceção na história do mundo, quando na verdade era apenas mais uma língua da mesma fogueira onde todos aquecem as mãos e queimam os dedos.
As pessoas chamavam aquilo de azar.
Outras chamavam de destino.
Ele começou a chamar apenas de existência.
E, curiosamente, quando deixou de procurar culpados, a raiva perdeu o emprego.
Não porque as perdas doíam menos.
Mas porque finalmente entendeu que dor nenhuma carregava seu nome gravado.
Ela visitava.
Depois ia embora.
Assim como a felicidade.
Assim como o amor.
Assim como todas as versões dele que jurou serem definitivas.
No fim, percebeu que a vida nunca prometeu justiça. Prometeu movimento.
E talvez fosse exatamente isso que havia tanta beleza escondida no caos.
O vento nunca pergunta quem merece ser levado.
Ele apenas sopra.
E, pela primeira vez, em vez de gritar contra ele, o homem abriu os braços.
Não como quem venceu.
Mas como quem finalmente parou de perguntar por quê.
