O lugar dela 🌪️ Talvez o erro tenha... Gabriel Parice Lopes
O lugar dela 🌪️
Talvez o erro tenha sido chamar de espera.
Porque esperar parece uma coisa ativa. Tem relógio, ansiedade, expectativa, alguém olhando para a porta de tempos em tempos.
E não foi exatamente assim.
A verdade é que eu continuei vivendo.
Conheci pessoas. Fui embora de lugares. Voltei para outros. Mudei algumas coisas em mim que eu jurava que nunca mudariam. Aprendi a gostar de dias que antes eu odiava. Aprendi a ficar sozinho sem transformar isso numa tragédia.
A vida continuou acontecendo.
Só que, em algum lugar dela, havia uma cadeira que nunca deixou de estar ocupada.
Mesmo vazia.
Era estranho.
Porque ninguém precisava saber disso. Nem eu gostava muito de admitir.
Mas havia certas coisas que pareciam ter sido feitas para serem divididas com uma pessoa específica.
Uma música que eu pensava: ela entenderia.
Uma notícia que dava vontade de contar.
Um lugar bonito que imediatamente vinha acompanhado de uma ausência.
Até algumas pequenas vitórias tinham esse defeito. Eu conseguia comemorar, mas existia aquele segundo depois da felicidade em que alguma parte de mim procurava alguém.
E era sempre ela.
Não como uma obsessão.
Não como quem passa o dia olhando para trás.
Era mais parecido com uma direção.
Como se, por mais que eu andasse por caminhos diferentes, existisse uma bússola defeituosa apontando para o mesmo lugar.
E talvez seja isso que algumas pessoas fazem.
Elas não ficam necessariamente na nossa rotina.
Ficam no nosso jeito de enxergar as coisas.
Depois delas, certas coisas nunca mais são apenas coisas.
Uma foto tirada por alguém que talvez nem soubesse o que estava fazendo.
Uma mensagem curta demais para explicar uma história inteira.
Um encontro que aconteceu quase por acaso.
Uma reação que dizia mais do que deveria.
Uma pessoa em comum servindo, sem saber, de ponte entre dois mundos que insistiam em continuar se esbarrando.
São detalhes pequenos.
Ridículos, se vistos de fora.
Mas quem conhece a história sabe.
E talvez ela saiba também.
Talvez reconheça algumas dessas pequenas pistas e faça aquela cara de quem entendeu, mas prefere não confirmar.
Porque existe uma intimidade estranha em duas pessoas saberem que certas coisas significam mais do que parecem.
E foi assim que o lugar dela permaneceu.
Não porque eu tenha parado a vida.
Muito pelo contrário.
Eu fui.
Mas nunca coloquei outra pessoa ali.
Não por promessa.
Não por fidelidade a uma história que talvez nem tenha terminado direito.
Foi simplesmente porque algumas posições não são preenchidas.
Você pode colocar alguém ao lado.
Pode conhecer alguém incrível.
Pode viver coisas bonitas.
Pode até gostar de verdade.
Mas existe uma diferença entre gostar de alguém e reconhecer alguém.
E eu reconheci.
Talvez cedo demais.
Talvez tarde demais.
Talvez no único momento em que duas pessoas ainda não tinham maturidade suficiente para entender o tamanho daquilo.
Só que o tempo tem uma mania curiosa de não apagar o que foi verdadeiro.
Ele muda a forma.
Tira as bordas.
Diminui o barulho.
Mas deixa certas coisas intactas.
Por isso, se algum dia ela voltar a aparecer sem grande cena, sem música, sem explicação, talvez até daquele jeito casual que parece não significar nada, eu não acho que precisaria perguntar onde ela esteve.
Eu provavelmente só perceberia que aquele lugar ainda era dela.
Como se ninguém tivesse precisado guardá-lo.
Como se o tempo inteiro ele tivesse sabido.
E talvez essa seja a parte mais bonita e mais injusta de tudo:
eu não estou esperando que ela volte.
Mas se ela voltar,
eu ainda vou saber exatamente onde colocar o meu olhar.
Porque tem gente que a gente escolhe.
E tem gente que, de algum jeito, parece ter sido escolhida antes mesmo da gente entender o que estava acontecendo.
Ela é uma dessas.
Eu nunca esqueci aqueles olhos e como eles sorriam pra mim.
E talvez, no fundo, seja isso que eu nunca consegui explicar:
não era que eu quisesse alguém.
Era que, quando penso em quem deveria estar ali,
eu sempre soube o nome.
