Para aonde vou quando estou entediado... Gabriel Parice Lopes
para aonde vou quando estou entediado
Acredito em uma teoria estranha que diz que todo espelho é uma janela atrasada.
Você olha e vê a própria imagem repetindo seus movimentos, mas ninguém nunca conseguiu provar que ela está realmente copiando você. E se for o contrário? E se houver um mundo inteiro esperando o instante exato para assumir o seu lugar?
Foi assim que nasceu o meu cemitério.
Não era feito de terra.
Era feito de reflexos.
Toda vez que alguma parte de mim morria por aqui, ela acordava do outro lado.
No começo eram só pequenas coisas. Uma ingenuidade enterrada numa terça-feira. Um amor que não suportou o próprio peso. Uma promessa feita olhando nos olhos de alguém que também acreditava nela. Aqui, essas coisas recebiam flores. Lá, elas levantavam da própria sepultura e continuavam vivendo como se nada tivesse acontecido.
Demorei anos para perceber que aquele outro mundo nunca foi uma cópia.
Era uma continuação.
Como em Coraline, existe sempre uma versão perfeita daquilo que você queria encontrar. Um corredor escondido atrás da parede, uma porta pequena demais para chamar atenção, um convite educado demais para parecer perigoso. O outro lado sempre sabe exatamente o que está faltando em você.
Porque foi construído com as coisas que você perdeu.
Imagine atravessar.
Encontrar todas as pessoas que você não conseguiu manter. Conversas que terminaram diferente. Abraços que duraram mais alguns segundos. Escolhas que nunca machucaram ninguém. Uma vida onde todas as despedidas foram canceladas antes de acontecer.
É impossível não querer ficar.
Mas esse lugar cobra de um jeito inteligente.
Ele não pede dinheiro.
Pede realidade.
Cada minuto vivido ali faz você esquecer quem realmente é. Aos poucos, a dor desaparece, a culpa desaparece, os arrependimentos desaparecem… e, junto deles, desaparece também a única coisa que fazia tudo aquilo ser verdadeiro.
O sofrimento era o preço da autenticidade.
Foi aí que entendi por que meu cemitério nunca me deixou entrar completamente.
Ele não existe para que eu visite os mortos.
Existe para impedir que eles me convençam a morar com eles.
Porque toda versão de nós mesmos acredita que era a versão certa.
Aquele garoto que ainda esperava mensagens nunca aceitou ter sido abandonado. O homem que decidiu ir embora continua achando que deveria ter ficado. Quem perdoou inveja quem guardou raiva. Quem esqueceu sente falta de quem ainda lembra.
Do outro lado, todos eles continuam vivos.
E todos juram que eu sou o fantasma.
Talvez seja essa a verdadeira função de um cemitério.
Não guardar quem morreu.
Mas separar dois mundos que jamais poderiam existir ao mesmo tempo.
O das vidas que aconteceram…
e o das vidas que ainda tentam nos convencer de que deveriam ter acontecido.
A parte mais assustadora nunca foi descobrir que existe um mundo invertido.
Foi perceber que, às vezes, quando fico tempo demais olhando para dentro de mim, já não sei mais de qual lado do espelho estou olhando.
