O gabrieu e o parice Ele começou a... Gabriel Parice Lopes

o gabrieu e o parice


Ele começou a aparecer nos dias em que nada acontecia.


Não nos dias ruins. Nos dias iguais.


Porque o ruim ainda tem alguma coisa de vivo. O ruim machuca, irrita, obriga você a reagir. O problema é quando a vida fica confortável demais para doer e vazia demais para significar alguma coisa. Quando segunda-feira parece terça, terça parece quarta e, de repente, você percebe que passou meses repetindo a mesma conversa com pessoas diferentes, usando as mesmas roupas, fazendo as mesmas promessas e chegando em casa com a sensação de que esteve em algum lugar sem realmente ter ido.


Foi nesses dias que ele apareceu.


Primeiro como uma ideia.


Depois como uma voz.


Depois como uma presença.


Ele nunca dizia nada muito complicado. Só perguntava por que eu continuava aceitando uma vida que eu mesmo não escolheria se pudesse começar de novo.


Eu odiava quando ele fazia isso.


Porque ele não gritava.


Não precisava.


Algumas verdades entram baixo justamente porque sabem que você vai escutá-las.


Eu tentava ignorá-lo. Enchia os dias. Enchia a cabeça. Enchia o silêncio com qualquer coisa que tivesse luz suficiente para não me deixar enxergar o escuro. Funcionava durante algumas horas. Depois ele voltava.


Sempre voltava.


Às três da manhã, quando a cidade parecia abandonada e os prédios tinham aquela aparência de cadáveres gigantes dormindo em pé, eu sentia que ele estava sentado em algum lugar, esperando.


Não parecia alguém que queria me destruir.


Parecia alguém decepcionado porque eu estava desperdiçando uma vida que ele sabia que poderia ser muito maior.


Ele não tinha o meu medo.


Essa era a diferença.


Eu calculava as consequências.


Ele calculava o preço de não fazer nada.


Eu pensava no que poderiam falar.


Ele pensava no que eu falaria comigo mesmo daqui a dez anos.


Eu procurava segurança.


Ele procurava alguma coisa que ainda tivesse pulso.


E quanto mais eu tentava enterrá-lo, mais ele crescia.


Até que comecei a perceber uma coisa estranha: talvez ele não tivesse surgido para mudar a minha vida.


Talvez tivesse surgido porque eu tinha mudado demais para continuar vivendo a mesma.


A gente passa tanto tempo construindo uma versão aceitável de si mesmo que esquece de perguntar se ainda gosta da pessoa que está apresentando.


Você aprende a ser pontual.


Educado.


Responsável.


Previsível.


Aprende a escolher as palavras certas, vestir a roupa certa, responder a mensagem certa, sorrir na hora certa.


E quando percebe, já não está vivendo.


Está administrando uma imagem.


Foi aí que ele começou a ficar perigoso.


Porque ele não queria melhorar minha vida.


Queria arrancar a maquiagem dela.


Queria saber o que sobrava quando ninguém estava olhando.


E eu descobri que existia muita coisa.


Raiva.


Ambição.


Curiosidade.


Desejo de desaparecer por algumas horas e reaparecer diferente.


Vontade de fazer alguma coisa que não pudesse ser explicada em uma legenda bonita.


Talvez seja isso que as pessoas chamam de loucura quando não conseguem chamar de liberdade.


O meu alter ego não era um herói.


Também não era um vilão.


Era simplesmente a versão de mim que nunca aprendeu a pedir licença.


E talvez fosse por isso que eu precisasse tanto dele.


Porque existem momentos em que a pessoa que você construiu para sobreviver é justamente a pessoa que impede você de viver.


Então uma noite eu parei diante do espelho.


Não aconteceu nada cinematográfico.


Nenhuma lâmpada explodiu.


Nenhuma música começou.


Só eu, um banheiro frio e aquela cara que eu conhecia desde sempre.


Mas pela primeira vez eu não perguntei quem estava olhando de volta.


Perguntei quem tinha passado anos olhando através de mim.


E entendi.


Ele nunca esteve atrás do espelho.


Nunca esteve escondido em algum canto da minha cabeça.


Nunca foi outra pessoa.


Era tudo aquilo que eu fui abandonando pelo caminho para conseguir continuar sendo aceito.


Cada vontade engolida.


Cada palavra não dita.


Cada caminho que eu não tomei.


Cada versão minha que eu matei só porque alguém achou mais conveniente aquela outra.


Ele era o acúmulo.


A conta.


A cobrança.


A parte de mim que continuou viva enquanto eu fingia que tinha amadurecido.


Desde então, eu não tento mais expulsá-lo.


Deixo que ele sente comigo.


Deixo que ele me lembre que conforto demais também apodrece.


Que rotina pode ser uma droga administrada em pequenas doses.


Que existem pessoas que passam a vida inteira fugindo do caos sem perceber que o caos também é onde algumas coisas começam.


E que talvez a pior coisa que possa acontecer com alguém não seja perder o controle.


Talvez seja nunca ter tido coragem de segurá-lo.


Hoje, quando a cidade dorme e aquela versão de mim aparece no reflexo de alguma vitrine apagada, eu já não desvio o olhar.


Ele continua ali.


Com a mesma cara.


O mesmo silêncio.


A mesma pergunta.


Só que agora eu tenho uma resposta.


Não preciso virar outra pessoa.


Só preciso parar de desperdiçar a que ainda está tentando nascer.