Olhos de jabuticaba A gente nunca marcou... Gabriel Parice Lopes

olhos de jabuticaba

A gente nunca marcou de se encontrar.

Essa talvez seja a parte mais estranha da nossa história.

Porque toda vez que eu decido seguir em frente, a vida resolve colocar você no caminho de novo. Num bar qualquer. Na rua. Na festa que eu nem queria ir. Na fila de algum lugar. Sempre parece coincidência demais para ser coincidência e acaso demais para ser destino.

A gente se olha como quem já sabe exatamente o que vai acontecer.

Primeiro vem aquele sorriso tímido, quase educado. Depois uma conversa boba sobre a vida, sobre o trabalho, sobre o tempo que passou. Fingimos que somos duas pessoas que só têm assuntos em comum.

Mas nunca é só isso.

Existe um momento em que o resto do lugar começa a desaparecer. Eu paro de ouvir quem está falando do meu lado. Você também fica um pouco mais perto do que precisava. Ninguém comenta. Ninguém pergunta. Acontece.

E então vem o beijo.

Sempre o beijo.

Como se todos os meses que passamos longe um do outro fossem apagados em poucos segundos.

É engraçado como a gente sempre acredita que dessa vez vai ser diferente.

Você ri e diz que não faz sentido continuar nisso.

Eu concordo.

Você fala que essa foi a última vez.

Eu respondo que também acho.

A gente se despede convencido de que finalmente conseguiu.

E, por algum tempo, consegue mesmo.

Até a vida resolver brincar de novo.

Eu nunca entendi o que somos.

Não somos um casal.

Também nunca fomos apenas duas pessoas que ficaram algumas vezes.

A gente conhece versões um do outro que ninguém mais conheceu. Você sabe como eu fico quando estou ansioso. Eu sei quando seu sorriso é verdadeiro e quando ele só está tentando evitar uma conversa difícil.

Mesmo assim, nunca conseguimos morar na vida um do outro.

Só conseguimos fazer visitas.

Às vezes penso que nosso erro sempre foi acreditar que precisava existir um fim definitivo.

Como se um beijo pudesse encerrar tudo o que veio antes.

Como se fosse possível convencer o coração usando lógica.

“Essa foi a última vez.”

Quantas vezes a gente já disse isso?

Cinco?

Dez?

Vinte?

Eu perdi a conta.

O problema é que nunca foi sobre o beijo.

Era sobre aqueles cinco minutos antes dele.

Quando você me olhava do outro lado e eu já sabia que tinha perdido de novo.

Quando nós dois fingíamos conversar com outras pessoas enquanto esperávamos um dos dois criar coragem para atravessar a distância.

O beijo só confirmava uma decisão que já tinha sido tomada pelos nossos olhos muito antes.

Talvez um dia exista realmente uma última vez.

Talvez a gente se encontre de novo e finalmente consiga passar um pelo outro como dois desconhecidos.

Talvez um de nós esteja apaixonado por outra pessoa.

Talvez a vida, cansada de insistir, resolva nos deixar em paz.

Mas, se esse dia chegar, eu desconfio que nenhum de nós vai perceber.

Porque todas as outras últimas vezes também pareciam verdadeiras.

E, no fim, bastava um reencontro.

Um “quanto tempo”.

Um abraço que demorava um segundo além do normal.

E lá estávamos nós outra vez, prometendo que agora era sério.

Enquanto, no fundo, os dois já sabiam que a única promessa que nunca conseguimos cumprir foi justamente essa.