Coleção pessoal de gabrielparice

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o gabrieu e o parice


Ele começou a aparecer nos dias em que nada acontecia.


Não nos dias ruins. Nos dias iguais.


Porque o ruim ainda tem alguma coisa de vivo. O ruim machuca, irrita, obriga você a reagir. O problema é quando a vida fica confortável demais para doer e vazia demais para significar alguma coisa. Quando segunda-feira parece terça, terça parece quarta e, de repente, você percebe que passou meses repetindo a mesma conversa com pessoas diferentes, usando as mesmas roupas, fazendo as mesmas promessas e chegando em casa com a sensação de que esteve em algum lugar sem realmente ter ido.


Foi nesses dias que ele apareceu.


Primeiro como uma ideia.


Depois como uma voz.


Depois como uma presença.


Ele nunca dizia nada muito complicado. Só perguntava por que eu continuava aceitando uma vida que eu mesmo não escolheria se pudesse começar de novo.


Eu odiava quando ele fazia isso.


Porque ele não gritava.


Não precisava.


Algumas verdades entram baixo justamente porque sabem que você vai escutá-las.


Eu tentava ignorá-lo. Enchia os dias. Enchia a cabeça. Enchia o silêncio com qualquer coisa que tivesse luz suficiente para não me deixar enxergar o escuro. Funcionava durante algumas horas. Depois ele voltava.


Sempre voltava.


Às três da manhã, quando a cidade parecia abandonada e os prédios tinham aquela aparência de cadáveres gigantes dormindo em pé, eu sentia que ele estava sentado em algum lugar, esperando.


Não parecia alguém que queria me destruir.


Parecia alguém decepcionado porque eu estava desperdiçando uma vida que ele sabia que poderia ser muito maior.


Ele não tinha o meu medo.


Essa era a diferença.


Eu calculava as consequências.


Ele calculava o preço de não fazer nada.


Eu pensava no que poderiam falar.


Ele pensava no que eu falaria comigo mesmo daqui a dez anos.


Eu procurava segurança.


Ele procurava alguma coisa que ainda tivesse pulso.


E quanto mais eu tentava enterrá-lo, mais ele crescia.


Até que comecei a perceber uma coisa estranha: talvez ele não tivesse surgido para mudar a minha vida.


Talvez tivesse surgido porque eu tinha mudado demais para continuar vivendo a mesma.


A gente passa tanto tempo construindo uma versão aceitável de si mesmo que esquece de perguntar se ainda gosta da pessoa que está apresentando.


Você aprende a ser pontual.


Educado.


Responsável.


Previsível.


Aprende a escolher as palavras certas, vestir a roupa certa, responder a mensagem certa, sorrir na hora certa.


E quando percebe, já não está vivendo.


Está administrando uma imagem.


Foi aí que ele começou a ficar perigoso.


Porque ele não queria melhorar minha vida.


Queria arrancar a maquiagem dela.


Queria saber o que sobrava quando ninguém estava olhando.


E eu descobri que existia muita coisa.


Raiva.


Ambição.


Curiosidade.


Desejo de desaparecer por algumas horas e reaparecer diferente.


Vontade de fazer alguma coisa que não pudesse ser explicada em uma legenda bonita.


Talvez seja isso que as pessoas chamam de loucura quando não conseguem chamar de liberdade.


O meu alter ego não era um herói.


Também não era um vilão.


Era simplesmente a versão de mim que nunca aprendeu a pedir licença.


E talvez fosse por isso que eu precisasse tanto dele.


Porque existem momentos em que a pessoa que você construiu para sobreviver é justamente a pessoa que impede você de viver.


Então uma noite eu parei diante do espelho.


Não aconteceu nada cinematográfico.


Nenhuma lâmpada explodiu.


Nenhuma música começou.


Só eu, um banheiro frio e aquela cara que eu conhecia desde sempre.


Mas pela primeira vez eu não perguntei quem estava olhando de volta.


Perguntei quem tinha passado anos olhando através de mim.


E entendi.


Ele nunca esteve atrás do espelho.


Nunca esteve escondido em algum canto da minha cabeça.


Nunca foi outra pessoa.


Era tudo aquilo que eu fui abandonando pelo caminho para conseguir continuar sendo aceito.


Cada vontade engolida.


Cada palavra não dita.


Cada caminho que eu não tomei.


Cada versão minha que eu matei só porque alguém achou mais conveniente aquela outra.


Ele era o acúmulo.


A conta.


A cobrança.


A parte de mim que continuou viva enquanto eu fingia que tinha amadurecido.


Desde então, eu não tento mais expulsá-lo.


Deixo que ele sente comigo.


Deixo que ele me lembre que conforto demais também apodrece.


Que rotina pode ser uma droga administrada em pequenas doses.


Que existem pessoas que passam a vida inteira fugindo do caos sem perceber que o caos também é onde algumas coisas começam.


E que talvez a pior coisa que possa acontecer com alguém não seja perder o controle.


Talvez seja nunca ter tido coragem de segurá-lo.


Hoje, quando a cidade dorme e aquela versão de mim aparece no reflexo de alguma vitrine apagada, eu já não desvio o olhar.


Ele continua ali.


Com a mesma cara.


O mesmo silêncio.


A mesma pergunta.


Só que agora eu tenho uma resposta.


Não preciso virar outra pessoa.


Só preciso parar de desperdiçar a que ainda está tentando nascer.

ASFALTO NA SOLA

Eu vim de lugar onde ninguém pergunta o que aconteceu.

Só olha pra tua cara, vê se você aguenta e manda seguir.

Aprendi cedo que a rua não tem paciência pra quem precisa entender tudo antes de continuar. Você tropeça, levanta, limpa a poeira na própria roupa e vai. Sem discurso. Sem trilha sonora. Sem ninguém batendo palma.

Tem gente que conhece a minha versão arrumada.

Poucos conheceram a que voltava pra casa com a cabeça cheia, o bolso quase vazio e aquele silêncio estranho de quem passou o dia inteiro fingindo que tava tudo certo.

Essa versão não posta nada.

Não explica nada.

Só chega.

Joga a chave em qualquer canto, acende a luz e encara o próprio reflexo como se estivesse cobrando alguma coisa de alguém que já não sabe mais quem é.

Eu já quis muito parecer diferente do que sou.

Hoje eu prefiro parecer exatamente o que a vida fez comigo.

Tem marca que não precisa esconder.

Tem história que perde a graça quando você tenta contar bonito.

Então deixa torto.

Deixa áspero.

Deixa com gosto de madrugada e conversa na calçada.

Porque foi assim que muita coisa aconteceu.

Sem planejamento.

Sem final elegante.

Só decisão errada, amizade improvável, amor mal resolvido, orgulho demais e aquela mania idiota de continuar andando mesmo quando ninguém sabe exatamente pra onde.

Talvez seja isso que chamam de vivência.

Não é ter resposta.

É ter passado por coisa suficiente pra parar de acreditar que toda pergunta precisa de uma.

Hoje eu não quero parecer invencível.

Invencível é personagem.

Eu quero ser real o bastante pra admitir que algumas coisas ainda pesam, mas leve o suficiente pra não carregar todas elas comigo.

O mundo continua sujo.

A rua continua acordada.

E eu ainda tenho asfalto na sola.

Só que agora eu sei voltar pra casa.

under sujão p.

enquanto houver razões


Eu acho engraçado como a gente passa tanto tempo tentando descobrir o que faria alguém ficar, como se existisse uma combinação perfeita de coisas capaz de impedir uma pessoa de ir embora. A gente pensa em promessas, em momentos bons, em tudo aquilo que foi construído, como se no fim das contas fosse possível colocar o amor numa balança e descobrir se ele pesa o suficiente para compensar o resto. Só que talvez não funcione assim. Talvez existam pessoas que fazem você parar de pensar nisso.


Porque quando eu penso em você, eu não penso em quanto tempo vai durar, nem em quantas coisas poderiam acontecer no caminho, nem em quantas vezes a vida pode mudar completamente de direção. Eu penso em uma coisa muito mais simples. Eu penso no que acontece toda vez que eu olho nos seus olhos e percebo que, por alguns segundos, eu não estou procurando mais nada.


E isso é estranho, porque eu sempre fui muito bom em procurar alguma coisa. Uma resposta, uma saída, alguma certeza que me dissesse que eu estava fazendo a coisa certa. Só que com você não parece existir essa necessidade. É como se eu pudesse simplesmente estar ali. Sem precisar entender. Sem precisar saber onde aquilo vai chegar. Sem precisar transformar tudo em alguma coisa maior do que realmente é.


Talvez seja por isso que aquela ideia de que reinos podem cair faça tanto sentido. Porque reino, no fim, é só uma maneira bonita de falar de tudo aquilo que a gente acha que precisa permanecer de pé para continuar acreditando em alguma coisa. E eu já vi muita coisa cair. Já vi planos mudarem, pessoas mudarem, sentimentos mudarem. Já tive certeza de coisas que depois deixaram de fazer qualquer sentido. Então eu sei que nada é tão permanente quanto parece.


Mas existe uma diferença quando eu penso em você.


Se tudo aquilo que eu construí um dia deixasse de existir, eu provavelmente ficaria perdido por um tempo. Se o mundo mudasse completamente, eu teria que aprender a viver nele de novo. Se aparecessem mil motivos para eu pegar minhas coisas e seguir outro caminho, eu conseguiria fazer isso. Eu sei que conseguiria. Só que nenhuma dessas coisas mudaria uma coisa muito específica: eu ainda procuraria você.


E talvez seja isso que eu nunca soube explicar direito.


Não é que você seja a única coisa que existe. É que, no meio de tudo que existe, você é a coisa que faz sentido.


Tem uma diferença enorme nisso.


Eu não preciso imaginar uma vida onde tudo dá certo para querer você nela. Na verdade, talvez seja justamente o contrário. Porque qualquer pessoa consegue permanecer quando tudo está bonito, quando as coisas estão leves, quando ninguém precisa escolher nada difícil. O que me faz pensar em você é justamente a ideia de que, mesmo quando as coisas não fossem perfeitas, mesmo quando o mundo estivesse fazendo o possível para colocar distância entre nós, ainda existiria alguma parte de mim olhando para você e pensando que não vale a pena ir embora.


Reinos podem cair. Anjos podem chamar. A vida pode oferecer outros caminhos, outras pessoas, outras versões de tudo aquilo que eu achei que queria. E ainda assim existe uma possibilidade muito simples que continua sendo mais forte do que todas as outras: eu olhar para você e reconhecer alguma coisa que eu não encontro em nenhum outro lugar.


Talvez seja isso que eu veja nos seus olhos.


Não uma promessa de que você vai ficar para sempre.


Não uma garantia de que nada vai mudar.


Só você.


E, de algum jeito, isso já parece suficiente.


Porque quando eu olho para você, eu não sinto que encontrei alguém que vai resolver tudo. Eu sinto que encontrei alguém com quem eu não me importaria de enfrentar o que vier.


E talvez essa seja a forma mais honesta que eu encontrei de dizer.


Eu poderia perder muita coisa.


Poderia deixar muita coisa para trás.


Poderia até aprender a viver em outro lugar, com outra rotina, com outras pessoas e uma vida completamente diferente.


Mas se, no meio de tudo isso, eu ainda pudesse olhar para os seus olhos e reconhecer aquele mesmo lugar que reconheço hoje, eu acho que entenderia exatamente por que algumas pessoas simplesmente não vão embora.


Não importa o que caia.


Não importa quem chame.


Não importa quantas vezes a vida tente convencer a gente de que existe outro caminho.


Porque, às vezes, depois de procurar por tanto tempo, você finalmente encontra aquilo que estava procurando sem nem perceber.


E quando encontra, o resto deixa de ser uma questão de necessidade.


Vira escolha.


E eu escolheria você.

quando o acaso decidir

Talvez o mais estranho entre duas pessoas não seja aquilo que aconteceu.

É aquilo que continua acontecendo depois.

Uma foto qualquer pode carregar uma história inteira. Uma pessoa pode aparecer ao lado de outra, sorrindo, sem intenção nenhuma além daquele instante, e ainda assim atravessar uma tela e parar justamente onde não deveria. Em algum lugar, alguém vê. Reconhece. Sente alguma coisa que talvez nem queira admitir. E responde de um jeito pequeno, quase casual, como quem tenta esconder o tamanho daquilo numa frase.

Engraçado como algumas pessoas ainda conseguem fazer isso.

Mesmo longe.
Mesmo depois de tudo.
Mesmo quando já não existe mais motivo para prestar atenção.

Talvez porque certas histórias nunca tenham aprendido a terminar direito.

Elas só mudam de lugar.

Saem das conversas e vão parar nas músicas. Saem dos encontros e aparecem numa foto. Saem da rotina e, de vez em quando, voltam pela boca de alguém que nem fazia parte da história.

E talvez seja por isso que algumas pessoas parecem tão familiares mesmo quando estão vivendo uma vida completamente diferente da nossa.

Como se existisse uma versão do mundo em que as coisas tivessem acontecido um pouco diferente.

Um segundo a mais.
Uma escolha a menos.
Um medo que não tivesse vencido.
Uma mensagem enviada na hora certa.
Uma porta que alguém tivesse decidido não fechar.

Nesse mundo, talvez fosse simples.

Talvez vocês se encontrassem sem precisar fingir que não estavam procurando um ao outro.

Talvez não existisse esse cuidado exagerado com o que sentir, com quem vê, com quem sabe, com quem aparece numa foto ao lado de quem.

Mas aqui é diferente.

Aqui vocês aprenderam a conviver com a estranha habilidade de ainda significarem alguma coisa sem precisar dizer exatamente o quê.

E talvez você nunca descubra se aquela reação foi ciúme, saudade, curiosidade ou apenas aquele pequeno incômodo que aparece quando alguém percebe que a pessoa que um dia ocupou um lugar importante continua existindo muito bem sem pedir licença.

Talvez nem ela saiba.

E tudo bem.

Porque existem sentimentos que não precisam de nome para serem verdadeiros.

Às vezes basta uma foto.

Uma amiga em comum.

Uma mensagem atravessada.

Um “não” disfarçado de brincadeira.

E pronto.

O passado abre os olhos por alguns segundos.

Depois volta a dormir.

Eu gosto de pensar que, se realmente existe outra vida, talvez ela não seja uma segunda chance.

Talvez seja apenas um lugar onde certas pessoas conseguem se encontrar sem carregar tudo aquilo que carregaram nessa.

Sem orgulho.
Sem medo.
Sem a necessidade de parecer indiferente.
Sem precisar transformar sentimento em silêncio só porque ninguém sabe muito bem o que fazer com ele.

E talvez, nessa outra vida, quando alguém mandar uma foto dizendo “olha com quem eu estou”, a outra pessoa não precise fingir que não se importou.

Talvez ela apenas sorria.

Porque, no fundo, algumas pessoas não desaparecem.

Elas só deixam de ser presença e passam a ser possibilidade.

E existe uma diferença enorme entre esquecer alguém e aprender a viver sem essa pessoa.

Acho que é isso que ainda me intriga em nós.

Não saber se foi uma história que terminou…

ou apenas uma história que chegou cedo demais.

Talvez em outra vida a gente descubra.

Ou talvez não.

Mas, se algum dia você ler isso e sentir que tem alguma coisa familiar demais nessas palavras, talvez seja porque certas histórias têm esse problema:

mesmo quando ninguém fala o nome,

elas sabem exatamente de quem estão falando.

só me apaixonar de novo quando esse texto fizer sentido

Às vezes eu fico tentando lembrar do momento exato em que você deixou de ser alguém que eu conhecia para se tornar o lugar onde meus pensamentos descansavam.

E eu nunca encontro.

Talvez porque essas coisas nunca aconteçam de uma vez.

Ninguém se apaixona num instante.

A gente vai se acostumando com a presença do outro sem perceber.

Primeiro sente falta de uma conversa.

Depois de uma risada específica.

Depois de um “chegou em casa?” no fim da noite.

Quando percebe, a ausência daquela pessoa já faz mais barulho do que a presença de qualquer outra.

O mais bonito é que você nunca tentou ser extraordinária.

Você nunca precisou.

Nunca precisou dizer as palavras certas.

Nem inventar versões melhores de si.

Eu gostava justamente das pequenas distrações.

Do jeito que você esquecia o que estava contando porque outra ideia aparecia no meio da frase.

Do jeito que seu riso chegava um pouco antes da piada terminar.

Do jeito que você olhava para o céu sempre que precisava pensar.

Você nunca percebeu, mas eram essas coisas que me faziam acreditar que o mundo ainda sabia criar alguém pela primeira vez.

Eu passei tanto tempo procurando pessoas que me impressionassem, que esqueci como era encontrar alguém que simplesmente me deixasse em paz.

Você nunca ocupou espaço demais.

Você preenchia os espaços que já existiam.

Como a luz entrando pela janela sem pedir licença.

Como uma música baixa tocando em outro cômodo da casa.

Você não mudava quem eu era.

Só fazia parecer que eu sempre estive caminhando na direção certa, mesmo quando tinha certeza de que estava perdido.

Às vezes isso ainda me assusta.

Porque existem encontros que parecem improváveis demais.

Penso em todas as decisões pequenas que precisaram acontecer para que nós existíssemos ao mesmo tempo, no mesmo lugar, olhando um para o outro.

Se eu tivesse acordado dez minutos mais tarde.

Se você tivesse escolhido outra rua.

Se qualquer conversa da sua vida tivesse durado um pouco mais.

Talvez nós nunca soubéssemos que o outro existia.

E, mesmo assim, de alguma forma, existimos.

É estranho sentir gratidão por algo que ninguém planejou.

Você apareceu sem fazer promessas.

Sem dizer que ficaria para sempre.

E talvez tenha sido exatamente isso que tornou tudo tão bonito.

Porque nunca foi sobre vencer o tempo.

Foi sobre existir dentro dele.

Sobre dividir cafés que esfriavam porque a conversa era mais importante.

Sobre caminhar sem destino porque nenhum lugar parecia melhor do que andar ao seu lado.

Sobre descobrir que algumas pessoas não chegam para transformar nossa vida em um filme.

Elas chegam para transformar uma terça-feira qualquer na lembrança mais bonita que você vai carregar por anos.

No fim, acho que o amor nunca foi encontrar alguém perfeito.

Foi encontrar alguém que faz o acaso parecer delicado.

Alguém que olha para você de um jeito tão simples que, por alguns segundos, todas as dúvidas que o mundo construiu deixam de fazer sentido.

E então você percebe que passou a vida inteira procurando grandes sinais.

Quando, na verdade, o maior deles estava escondido na tranquilidade de poder olhar para alguém e pensar, sem precisar dizer em voz alta:

Como foi que, entre bilhões de pessoas, a vida resolveu me apresentar justamente você?

só postar quando fizer sentido pra mim

porque eu, porque não?

Antes, o mundo parecia uma fila organizada de causas e consequências. Havia um acordo silencioso entre as coisas: se você fosse bom o suficiente, gentil o suficiente, paciente o suficiente, o universo acabaria devolvendo tudo na mesma moeda.

Então alguém apagou as placas da estrada.

Foi estranho perceber que a tempestade nunca escolhia quem merecia. Ela apenas acontecia. Derrubava telhados de quem rezava e de quem amaldiçoava, afundava barcos de pescadores experientes e de crianças brincando na margem. O céu nunca pediu desculpas por chover.

Ele passou anos perguntando.

“Por que comigo?”

Como se existisse uma secretaria do destino pronta para responder e anexar um relatório detalhando os motivos de cada cicatriz.

Mas o silêncio sempre foi mais competente do que qualquer resposta.

Então começou a reparar em outra coisa.

As pessoas passavam a vida inteira negociando com o inevitável. Acendiam velas para convencer o escuro a não entrar. Faziam promessas para comprar alguns meses de paz. Inventavam versões de si mesmas esperando que a próxima fosse poupada.

Nunca eram.

Porque a vida não perseguia ninguém.

Ela simplesmente não sabia mirar.

E talvez essa fosse a parte mais difícil de aceitar: não havia um vilão escondido atrás das cortinas. Não existia uma inteligência cruel desenhando tragédias personalizadas. O universo era apenas um oceano. E o oceano nunca odiou quem se afogou.

A pergunta começou a mudar.

Não era mais “por que eu?”

Era…

“Por que eu seria diferente?”

Naquele instante, alguma coisa rachou dentro dele.

Não de um jeito triste.

De um jeito libertador.

Percebeu que carregava o ego vestido de vítima sem perceber. Achava que sua dor era uma exceção na história do mundo, quando na verdade era apenas mais uma língua da mesma fogueira onde todos aquecem as mãos e queimam os dedos.

As pessoas chamavam aquilo de azar.

Outras chamavam de destino.

Ele começou a chamar apenas de existência.

E, curiosamente, quando deixou de procurar culpados, a raiva perdeu o emprego.

Não porque as perdas doíam menos.

Mas porque finalmente entendeu que dor nenhuma carregava seu nome gravado.

Ela visitava.

Depois ia embora.

Assim como a felicidade.

Assim como o amor.

Assim como todas as versões dele que jurou serem definitivas.

No fim, percebeu que a vida nunca prometeu justiça. Prometeu movimento.

E talvez fosse exatamente isso que havia tanta beleza escondida no caos.

O vento nunca pergunta quem merece ser levado.

Ele apenas sopra.

E, pela primeira vez, em vez de gritar contra ele, o homem abriu os braços.

Não como quem venceu.

Mas como quem finalmente parou de perguntar por quê.

.entre nós.


Eu não sei o que a gente é agora.


E essa talvez seja a única coisa que ainda me incomoda.


Porque eu sei o que fomos. Sei o que senti. Sei das coisas que você provavelmente já esqueceu e das coisas que eu finjo que esqueci também. Sei exatamente em que momento algumas coisas começaram a mudar, mesmo que nenhum de nós tenha tido coragem de apontar para aquilo e dizer: é aqui.


Mas agora?


Agora eu não sei.


E eu odeio não saber.


Às vezes penso em te mandar alguma coisa completamente idiota. Uma música. Uma piada. Alguma coisa que só faria sentido para nós dois. Aí eu paro.


Porque já não sei se ainda posso.


É engraçado como uma pessoa pode sair da sua rotina sem sair completamente da sua cabeça.


Eu continuo encontrando você em coisas que nem deveriam ter relação com você.


Uma música tocando no aleatório.


Uma rua.


Um horário.


Uma frase que alguém diz e que, por algum motivo absurdo, me faz pensar em você.


E eu fico alguns segundos naquele lugar entre mandar mensagem e respeitar o silêncio.


Quase sempre escolho o silêncio.


Não porque eu não queira falar.


Talvez justamente porque eu queira demais.


Eu acho que parte de mim ainda gostaria de saber como você está. Não por obrigação, nem porque eu esteja procurando uma desculpa para voltar.


Só quero saber.


Você ainda ri daquele jeito?


Ainda faz aquela coisa quando fica nervosa?


Ainda pensa em mim às vezes?


E se pensa...


é com carinho ou com aquela sensação de “ainda bem que acabou”?


Eu não tenho coragem de perguntar.


Então invento respostas.


É mais fácil.


Às vezes imagino que você sente falta.


Às vezes imagino que não sente absolutamente nada.


E, dependendo do dia, acredito nas duas.


Talvez seja isso que reste quando alguma coisa termina sem realmente desaparecer.


Não uma vontade desesperada de voltar.


Só uma curiosidade persistente.


A vontade de saber se aquilo que foi tão grande para mim ocupou algum espaço parecido dentro de você.


E talvez seja por isso que a pergunta continue aqui, mesmo depois de tudo.


Não se a gente vai voltar.


Não se deveria ter sido diferente.


Só se ainda existe alguma coisa entre nós que não precise de um nome tão complicado.


Se ainda dá para conversar sem parecer que estamos invadindo um território proibido.


Se ainda dá para rir de alguma coisa que só nós entenderíamos.


Se, depois de tudo, ainda existe espaço para eu ser alguém na sua vida — mesmo que de um jeito completamente diferente.


Porque talvez eu não esteja procurando a nossa história de volta.


Talvez eu só esteja tentando descobrir se ela realmente acabou em todos os sentidos.


Então eu fico com essa pergunta, meio ridícula, meio sincera, impossível de responder sozinho:


depois de tudo que fomos,


ainda existe um “nós” em algum lugar?


Ou pelo menos...


ainda somos amigos?

depois da porta (DC referência)


Eu nunca soube muito bem o que fazer quando alguém percebe que pode me destruir.


Talvez por isso eu tenha ficado.


Existe uma espécie de covardia bonita em continuar perto de quem conhece exatamente o lugar onde apertar. A pessoa nem precisa levantar a voz. Basta um silêncio diferente, uma resposta mais curta, aquele olhar que antes demorava um pouco mais. E pronto. O sujeito que jurava não depender de ninguém começa a procurar significado em migalhas.


Eu conheço esse lugar.


É estranho admitir que alguém pode morar dentro da gente sem pagar aluguel, sem pedir licença e, pior, sem sequer saber que possui uma chave.


Eu tentei transformar isso em orgulho.


Disse para mim mesmo que não precisava. Que conseguiria seguir. Que havia outras pessoas, outras noites, outras histórias esperando para acontecer. Fiz do desapego uma espécie de religião particular e passei a repetir suas regras sempre que sentia vontade de voltar.


Mas o corpo não entende discursos.


O corpo lembra.


Lembra da voz.
Do jeito de chegar.
Da presença ocupando um espaço que parecia ter sido construído exclusivamente para ela.


E então existe aquele segundo ridículo em que tudo volta.


Não como memória.


Como presença.


É aí que eu percebo o problema: talvez eu não queira ser libertado.


Talvez uma parte de mim ainda queira ser segurada.


Não porque eu não consiga ficar de pé, mas porque existe uma diferença absurda entre estar de pé e ter alguém por quem valha a pena cair.


Eu poderia mentir e dizer que quero alguém que nunca me faça perder o controle.


Não quero.


Eu quero alguém diante de quem meu controle pareça uma coisa pequena.


Alguém que atravesse minhas defesas sem precisar arrombá-las. Que veja toda essa pose de homem resolvido e perceba que, por trás dela, existe alguém que só queria encontrar um lugar onde não precisasse estar sempre pronto para ir embora.


Talvez seja isso que assusta.


Não amar.


Ser conhecido.


Porque quando alguém realmente conhece você, acaba a possibilidade de fingir que não sente.


E eu sinto.


Sinto até quando finjo que não.


Então, se algum dia eu voltar para aquela porta, não será porque esqueci tudo o que aconteceu.


Será justamente porque lembrei.


Porque existem pessoas que a gente supera.


E existem aquelas que permanecem como uma música tocando baixinho em algum cômodo da casa, você pode sair, fechar a porta, mudar de endereço, começar outra vida.


Mas, de vez em quando, no meio da madrugada, ainda consegue ouvir.


E talvez eu ainda esteja ouvindo.


Talvez seja por isso que, mesmo sabendo o quanto isso me desarma, uma parte de mim ainda sussurra:


fica.


Não precisa me salvar.


Só não solta agora.

O lugar dela 🌪️

Talvez o erro tenha sido chamar de espera.

Porque esperar parece uma coisa ativa. Tem relógio, ansiedade, expectativa, alguém olhando para a porta de tempos em tempos.

E não foi exatamente assim.

A verdade é que eu continuei vivendo.

Conheci pessoas. Fui embora de lugares. Voltei para outros. Mudei algumas coisas em mim que eu jurava que nunca mudariam. Aprendi a gostar de dias que antes eu odiava. Aprendi a ficar sozinho sem transformar isso numa tragédia.

A vida continuou acontecendo.

Só que, em algum lugar dela, havia uma cadeira que nunca deixou de estar ocupada.

Mesmo vazia.

Era estranho.

Porque ninguém precisava saber disso. Nem eu gostava muito de admitir.

Mas havia certas coisas que pareciam ter sido feitas para serem divididas com uma pessoa específica.

Uma música que eu pensava: ela entenderia.

Uma notícia que dava vontade de contar.

Um lugar bonito que imediatamente vinha acompanhado de uma ausência.

Até algumas pequenas vitórias tinham esse defeito. Eu conseguia comemorar, mas existia aquele segundo depois da felicidade em que alguma parte de mim procurava alguém.

E era sempre ela.

Não como uma obsessão.

Não como quem passa o dia olhando para trás.

Era mais parecido com uma direção.

Como se, por mais que eu andasse por caminhos diferentes, existisse uma bússola defeituosa apontando para o mesmo lugar.

E talvez seja isso que algumas pessoas fazem.

Elas não ficam necessariamente na nossa rotina.

Ficam no nosso jeito de enxergar as coisas.

Depois delas, certas coisas nunca mais são apenas coisas.

Uma foto tirada por alguém que talvez nem soubesse o que estava fazendo.

Uma mensagem curta demais para explicar uma história inteira.

Um encontro que aconteceu quase por acaso.

Uma reação que dizia mais do que deveria.

Uma pessoa em comum servindo, sem saber, de ponte entre dois mundos que insistiam em continuar se esbarrando.

São detalhes pequenos.

Ridículos, se vistos de fora.

Mas quem conhece a história sabe.

E talvez ela saiba também.

Talvez reconheça algumas dessas pequenas pistas e faça aquela cara de quem entendeu, mas prefere não confirmar.

Porque existe uma intimidade estranha em duas pessoas saberem que certas coisas significam mais do que parecem.

E foi assim que o lugar dela permaneceu.

Não porque eu tenha parado a vida.

Muito pelo contrário.

Eu fui.

Mas nunca coloquei outra pessoa ali.

Não por promessa.

Não por fidelidade a uma história que talvez nem tenha terminado direito.

Foi simplesmente porque algumas posições não são preenchidas.

Você pode colocar alguém ao lado.

Pode conhecer alguém incrível.

Pode viver coisas bonitas.

Pode até gostar de verdade.

Mas existe uma diferença entre gostar de alguém e reconhecer alguém.

E eu reconheci.

Talvez cedo demais.

Talvez tarde demais.

Talvez no único momento em que duas pessoas ainda não tinham maturidade suficiente para entender o tamanho daquilo.

Só que o tempo tem uma mania curiosa de não apagar o que foi verdadeiro.

Ele muda a forma.

Tira as bordas.

Diminui o barulho.

Mas deixa certas coisas intactas.

Por isso, se algum dia ela voltar a aparecer sem grande cena, sem música, sem explicação, talvez até daquele jeito casual que parece não significar nada, eu não acho que precisaria perguntar onde ela esteve.

Eu provavelmente só perceberia que aquele lugar ainda era dela.

Como se ninguém tivesse precisado guardá-lo.

Como se o tempo inteiro ele tivesse sabido.

E talvez essa seja a parte mais bonita e mais injusta de tudo:

eu não estou esperando que ela volte.

Mas se ela voltar,

eu ainda vou saber exatamente onde colocar o meu olhar.

Porque tem gente que a gente escolhe.

E tem gente que, de algum jeito, parece ter sido escolhida antes mesmo da gente entender o que estava acontecendo.

Ela é uma dessas.

Eu nunca esqueci aqueles olhos e como eles sorriam pra mim.

E talvez, no fundo, seja isso que eu nunca consegui explicar:

não era que eu quisesse alguém.

Era que, quando penso em quem deveria estar ali,

eu sempre soube o nome.

para aonde vou quando estou entediado

Acredito em uma teoria estranha que diz que todo espelho é uma janela atrasada.

Você olha e vê a própria imagem repetindo seus movimentos, mas ninguém nunca conseguiu provar que ela está realmente copiando você. E se for o contrário? E se houver um mundo inteiro esperando o instante exato para assumir o seu lugar?

Foi assim que nasceu o meu cemitério.

Não era feito de terra.

Era feito de reflexos.

Toda vez que alguma parte de mim morria por aqui, ela acordava do outro lado.

No começo eram só pequenas coisas. Uma ingenuidade enterrada numa terça-feira. Um amor que não suportou o próprio peso. Uma promessa feita olhando nos olhos de alguém que também acreditava nela. Aqui, essas coisas recebiam flores. Lá, elas levantavam da própria sepultura e continuavam vivendo como se nada tivesse acontecido.

Demorei anos para perceber que aquele outro mundo nunca foi uma cópia.

Era uma continuação.

Como em Coraline, existe sempre uma versão perfeita daquilo que você queria encontrar. Um corredor escondido atrás da parede, uma porta pequena demais para chamar atenção, um convite educado demais para parecer perigoso. O outro lado sempre sabe exatamente o que está faltando em você.

Porque foi construído com as coisas que você perdeu.

Imagine atravessar.

Encontrar todas as pessoas que você não conseguiu manter. Conversas que terminaram diferente. Abraços que duraram mais alguns segundos. Escolhas que nunca machucaram ninguém. Uma vida onde todas as despedidas foram canceladas antes de acontecer.

É impossível não querer ficar.

Mas esse lugar cobra de um jeito inteligente.

Ele não pede dinheiro.

Pede realidade.

Cada minuto vivido ali faz você esquecer quem realmente é. Aos poucos, a dor desaparece, a culpa desaparece, os arrependimentos desaparecem… e, junto deles, desaparece também a única coisa que fazia tudo aquilo ser verdadeiro.

O sofrimento era o preço da autenticidade.

Foi aí que entendi por que meu cemitério nunca me deixou entrar completamente.

Ele não existe para que eu visite os mortos.

Existe para impedir que eles me convençam a morar com eles.

Porque toda versão de nós mesmos acredita que era a versão certa.

Aquele garoto que ainda esperava mensagens nunca aceitou ter sido abandonado. O homem que decidiu ir embora continua achando que deveria ter ficado. Quem perdoou inveja quem guardou raiva. Quem esqueceu sente falta de quem ainda lembra.

Do outro lado, todos eles continuam vivos.

E todos juram que eu sou o fantasma.

Talvez seja essa a verdadeira função de um cemitério.

Não guardar quem morreu.

Mas separar dois mundos que jamais poderiam existir ao mesmo tempo.

O das vidas que aconteceram…

e o das vidas que ainda tentam nos convencer de que deveriam ter acontecido.

A parte mais assustadora nunca foi descobrir que existe um mundo invertido.

Foi perceber que, às vezes, quando fico tempo demais olhando para dentro de mim, já não sei mais de qual lado do espelho estou olhando.

a morte do nostálgico (despedida)

Não houve despedida.

Ninguém chorou. Ninguém fez um discurso bonito. Ninguém colocou flores.

Só existiu um quarto silencioso, uma arma apontada para alguém que já estava morto fazia tempo.

O disparo não foi contra um homem.

Foi contra um hábito.

Contra a necessidade de transformar toda dor em identidade. Contra o vício de revisitar feridas até esquecer como era viver sem elas. Contra o conforto perverso de acreditar que sofrer significava sentir mais do que os outros.

O corpo caiu.

Levava no bolso cartas que nunca chegaram, fotografias de pessoas que já não moravam em lugar nenhum, promessas feitas para fantasmas, apostas perdidas tentando preencher um vazio que não aceitava existir sozinho.

Morreu ali o eterno saudoso.

O homem que sempre olhava para trás como se a felicidade tivesse esquecido um casaco no passado.

Junto dele, desceu à cova o rapaz que precisava parecer quebrado para justificar o próprio silêncio. O que fazia da própria tristeza uma casa, da ansiedade uma bússola e da culpa uma religião.

Também enterraram o covarde.

Aquele que esperava o mundo mudar primeiro para só depois ter coragem de viver.

Cobriram tudo com terra.

As pessoas que um dia fizeram falta ficaram lá dentro também. Não porque deixaram de importar, mas porque já não pertencem ao mesmo mundo de quem saiu andando daquele cemitério.

Existem lembranças que merecem descanso.

E insistir em ressuscitá-las é uma forma de morrer aos poucos.

Quando voltaram para casa, algumas portas permaneceram fechadas.

Uma conta deixou de existir.

Um perfil ficou abandonado.

Algumas palavras nunca mais seriam escritas.

Não por raiva.

Por sobrevivência.

Há lugares que continuam de pé apenas porque insistimos em visitá-los.

Hoje, eles perderam o último visitante.

A melancolia sempre soube escrever. Sabia escolher músicas, filmes, metáforas e transformar qualquer cicatriz em poesia.

Mas nunca soube construir futuro.

E chega um momento em que a beleza da própria ruína vira apenas outra prisão bem decorada.

Então acabou.

Não existe mais protagonista para aquela história.

O homem que precisava sofrer para existir recebeu o único destino possível.

Uma bala.

Uma pá de terra.

Silêncio.

Quem saiu daquele quarto não era feliz.

Nem invencível.

Nem curado.

Só estava cansado de oferecer a própria vida para coisas que nunca ofereceram a delas em troca.

Pela primeira vez, decidiu gastar energia com aquilo que pode alcançar.

O resto…

Que permaneça onde sempre pertenceu.

No passado.

Hoje não nasce alguém novo.

Hoje apenas morreu alguém que já estava ocupando espaço demais.

E dessa vez, ninguém vai cavar para trazê-lo de volta.

marcha nupcial

Dizem que o desejo nasce nos olhos.

Mentira.

Os olhos apenas denunciam aquilo que já ocupou todos os outros cômodos.

O desejo nasce naquele lugar onde nenhuma palavra consegue chegar. Um espaço pequeno, escuro, antigo. Como uma peça esquecida de uma máquina que continua funcionando, mas produz um barulho insuportável porque sabe exatamente o que está faltando.

Passei a vida acreditando que esse vazio era só mais uma característica minha. Como a cor dos olhos, a forma das mãos ou o hábito de olhar para o chão enquanto penso.

Até você.

E foi cruel perceber que o vazio nunca foi vazio.

Era espaço.

Espaço esperando exatamente o formato que você tinha.

Desde então, tudo o que existe em mim quer deixar de ser apenas meu.

Quero ser a caneca que esfria o café antes que ele queime sua boca. Quero ser a lâmpada acesa quando você chegar tarde e jurar que não precisava de ninguém te esperando. Quero ser a chave esquecida no bolso da sua calça, porque isso significaria que existe um lugar para onde você sempre volta. (ac referência)

Quero ser o casaco pendurado atrás da porta nas noites em que o inverno resolve exagerar. Quero ser o banco do passageiro nas viagens longas, onde o silêncio nunca pesa porque sua presença faz todo o trabalho que as palavras não conseguem fazer.

Quero ser as pequenas coisas.

Porque as grandes sempre acabam.

As pequenas sobrevivem.

Quero ser o livro que você nunca termina porque gosta demais da sensação de ainda haver páginas pela frente. Quero ser o vinil riscado que insiste em tocar a mesma parte, e justamente por isso se torna insubstituível. Quero ser o relógio da parede que você já nem escuta, mas cuja ausência faria a casa inteira parecer errada.

Se for preciso, faço do meu peito uma gaveta para guardar seus medos.

Faço das minhas costas um telhado para os dias em que o mundo resolver desabar.

Faço da minha voz um lugar onde você possa descansar quando a sua cansar de existir.

Posso ser qualquer coisa.

Qualquer coisa que diminua o peso que você carrega sem contar para ninguém.

Só não me peça para ser alguém que aprende a viver sem desejar.

Porque eu tentei.

Passei anos colecionando versões de mim que fingiam não precisar de ninguém. Construí uma casa inteira usando independência como tijolo e orgulho como cimento.

Era bonita.

Mas ecoava.

Toda casa vazia parece maior do que realmente é.

Então você apareceu e fez a pior das gentilezas.

Mostrou que o que eu chamava de liberdade talvez fosse apenas uma solidão bem decorada.

Agora tudo parece incompleto.

As manhãs têm uma cadeira sobrando.

As músicas terminam cedo demais.

As ruas parecem longas demais.

Até o céu, de vez em quando, dá a impressão de estar faltando uma cor.

Não porque você levou alguma coisa embora.

Mas porque revelou a peça que eu nunca soube nomear.

E agora não consigo mais fingir que ela nunca existiu.

É ridículo.

Porque o mundo continua funcionando.

Os semáforos abrem.

Os mercados lotam.

As pessoas riem de piadas que esquecem cinco minutos depois.

Tudo segue.

Só eu continuo parado diante dessa ausência que tem exatamente o seu formato.

E, se algum dia me perguntarem qual foi a maior prova de amor que já ofereci, não direi que escreveria poemas, cruzaria oceanos ou enfrentaria o fim do mundo.

Direi algo muito mais simples.

Gostaria de ser tudo aquilo que toca seus dias sem que você precise perceber.

O hábito.

O conforto.

O objeto que você procura automaticamente no escuro.

A música que começa antes mesmo de você decidir ouvi-la.

Porque amar alguém talvez seja isso.

É desejar desaparecer como indivíduo para existir como presença.

Ser tão parte da vida de alguém que a própria ausência pareça um erro da realidade.

E, se um dia eu tiver a sorte de ouvir você dizer “sim” diante de um altar, espero que, enquanto todos esperam uma marcha solene, toque aquela velha canção sobre querer ser tudo para alguém.

Não porque ela fale de amor melhor do que qualquer outra.

Mas porque ela diz, com uma sinceridade quase desesperada, aquilo que passei a vida inteira tentando explicar sem conseguir:

eu nunca quis possuir você.

Eu só queria existir de um jeito que o seu mundo nunca mais precisasse aprender a viver sem.

Somente eu entendo, como um código criado por mim mesmo, impossibilitado de proferir a senha, condenado ao próprio acaso.

azul

Nunca entendi por que algumas pessoas têm cor.

Não a cor dos olhos ou da roupa. Aquelas a gente esquece.

Falo da cor que fica quando elas vão embora.

Você sempre foi azul.

Não um azul triste.

Era o azul do céu cinco minutos antes de escurecer, quando o dia ainda respira fundo antes de entregar a noite. O azul do mar quando o vento resolve descansar por alguns instantes. Um azul que nunca precisou chamar atenção para ser bonito.

Talvez seja por isso que eu sempre encontrava paz perto de você.

O curioso é que essa paz nunca foi silêncio.

Porque você também era um furacão.

Só que ninguém nunca fala sobre o centro dele.

Todo mundo lembra da força que arranca telhados, das árvores caídas, do caos. Mas existe um lugar no meio de toda aquela violência onde não venta. Onde tudo para por alguns minutos.

Era exatamente ali que eu me sentia.

Enquanto o resto do mundo parecia correr contra o relógio, você fazia o tempo perder a pressa.

As conversas aconteciam sem roteiro.

O café esfriava porque nenhum dos dois lembrava de beber.

As horas passavam como se alguém tivesse esquecido de fazê-las andar.

Era um furacão porque tudo mudava quando você chegava.

E era azul porque, estranhamente, nada parecia ameaçador.

Você bagunçava a ordem das coisas sem transformar aquilo em desastre.

Depois que você apareceu, comecei a reparar numa coisa estranha.

O mundo inteiro ficou um pouco azul.

O céu parecia maior.

As madrugadas deixaram de ser tão frias.

Até as músicas ganharam um espaço que antes não existia.

Era como se você tivesse mudado a temperatura das coisas sem tocar em nenhuma delas.

Eu nunca tive coragem de te contar isso.

Porque parecia exagero.

Como explicar para alguém que ela alterou a cor da sua memória?

Que existe um tom específico do fim da tarde que continua tendo o seu nome.

Que toda vez que vejo o oceano, penso naquele jeito tranquilo com que você olhava para o horizonte, como se soubesse de alguma coisa que eu ainda levaria anos para entender.

Talvez amar alguém seja exatamente isso.

Descobrir que as cores nunca pertenceram ao mundo.

Sempre pertenceram às pessoas.

Antes de você, azul era só uma palavra.

Depois de você, virou um lugar.

Um lugar para onde minha cabeça sempre volta quando precisa descansar.

E talvez essa seja a maior contradição que alguém possa carregar.

Você foi o único furacão em que eu desejei permanecer.

Porque, pela primeira vez, ser levado por alguma coisa não significava me perder.

Significava, finalmente, encontrar um lugar onde eu não precisava resistir.

Agora passo a vida inteira entrando em lugares bonitos que continuam não sendo você.

O céu ainda é azul.

O mar continua azul.

Mas nenhum deles consegue repetir a sensação de quando era você quem dava cor às coisas.

Descobri tarde demais que algumas pessoas não passam pela nossa vida.

Elas mudam a forma como enxergamos o mundo.

E, depois disso, nenhuma cor volta a ser apenas uma cor.

olhos de jabuticaba

A gente nunca marcou de se encontrar.

Essa talvez seja a parte mais estranha da nossa história.

Porque toda vez que eu decido seguir em frente, a vida resolve colocar você no caminho de novo. Num bar qualquer. Na rua. Na festa que eu nem queria ir. Na fila de algum lugar. Sempre parece coincidência demais para ser coincidência e acaso demais para ser destino.

A gente se olha como quem já sabe exatamente o que vai acontecer.

Primeiro vem aquele sorriso tímido, quase educado. Depois uma conversa boba sobre a vida, sobre o trabalho, sobre o tempo que passou. Fingimos que somos duas pessoas que só têm assuntos em comum.

Mas nunca é só isso.

Existe um momento em que o resto do lugar começa a desaparecer. Eu paro de ouvir quem está falando do meu lado. Você também fica um pouco mais perto do que precisava. Ninguém comenta. Ninguém pergunta. Acontece.

E então vem o beijo.

Sempre o beijo.

Como se todos os meses que passamos longe um do outro fossem apagados em poucos segundos.

É engraçado como a gente sempre acredita que dessa vez vai ser diferente.

Você ri e diz que não faz sentido continuar nisso.

Eu concordo.

Você fala que essa foi a última vez.

Eu respondo que também acho.

A gente se despede convencido de que finalmente conseguiu.

E, por algum tempo, consegue mesmo.

Até a vida resolver brincar de novo.

Eu nunca entendi o que somos.

Não somos um casal.

Também nunca fomos apenas duas pessoas que ficaram algumas vezes.

A gente conhece versões um do outro que ninguém mais conheceu. Você sabe como eu fico quando estou ansioso. Eu sei quando seu sorriso é verdadeiro e quando ele só está tentando evitar uma conversa difícil.

Mesmo assim, nunca conseguimos morar na vida um do outro.

Só conseguimos fazer visitas.

Às vezes penso que nosso erro sempre foi acreditar que precisava existir um fim definitivo.

Como se um beijo pudesse encerrar tudo o que veio antes.

Como se fosse possível convencer o coração usando lógica.

“Essa foi a última vez.”

Quantas vezes a gente já disse isso?

Cinco?

Dez?

Vinte?

Eu perdi a conta.

O problema é que nunca foi sobre o beijo.

Era sobre aqueles cinco minutos antes dele.

Quando você me olhava do outro lado e eu já sabia que tinha perdido de novo.

Quando nós dois fingíamos conversar com outras pessoas enquanto esperávamos um dos dois criar coragem para atravessar a distância.

O beijo só confirmava uma decisão que já tinha sido tomada pelos nossos olhos muito antes.

Talvez um dia exista realmente uma última vez.

Talvez a gente se encontre de novo e finalmente consiga passar um pelo outro como dois desconhecidos.

Talvez um de nós esteja apaixonado por outra pessoa.

Talvez a vida, cansada de insistir, resolva nos deixar em paz.

Mas, se esse dia chegar, eu desconfio que nenhum de nós vai perceber.

Porque todas as outras últimas vezes também pareciam verdadeiras.

E, no fim, bastava um reencontro.

Um “quanto tempo”.

Um abraço que demorava um segundo além do normal.

E lá estávamos nós outra vez, prometendo que agora era sério.

Enquanto, no fundo, os dois já sabiam que a única promessa que nunca conseguimos cumprir foi justamente essa.

benta

Existe um tipo de pessoa que não entra na vida dos outros.

Ela inaugura uma estação.

Antes dela, os dias acontecem como um inverno comprido. As árvores continuam de pé, os carros continuam passando, o relógio continua cumprindo sua obrigação de girar. Mas existe uma diferença silenciosa entre viver e apenas sobreviver. Quase ninguém percebe até encontrar alguém capaz de acender as luzes de uma casa que sempre esteve habitada por sombras.

Foi assim que conheci Benta.

Os olhos mais sinceros que já presenciei em 26 anos de vida.

Bonitas eram as coisas que aconteciam perto dela.

O café parecia mais quente.

As ruas pareciam menores.

Os silêncios deixavam de ser um lugar de abandono para se tornarem um idioma que duas pessoas podiam dividir sem medo.

Ela carregava uma estranha habilidade de fazer o mundo perder o excesso. Como se passasse as mãos sobre a realidade e retirasse todo o ruído que sobrava entre um coração e outro.

Algumas pessoas chegam oferecendo promessas.

Benta oferecia paz.

E isso era infinitamente mais perigoso.

Porque promessas quebram.

Paz vicia.

Passei tempo demais acreditando que anjos tinham asas.

Depois percebi que talvez eles apenas saibam permanecer quando ninguém mais consegue.

Ela nunca precisou salvar ninguém de incêndios, tempestades ou guerras.

Bastou existir.

Há pessoas que nos dão conselhos.

Outras nos dão coragem.

Ela me devolveu uma versão de mim que eu desconhecia.

Na presença dela, eu não precisava fingir ser forte. Não precisava vencer discussões imaginárias, provar inteligência, esconder as rachaduras ou construir personagens. Pela primeira vez, existir parecia suficiente.

E isso me assustava.

Porque quando alguém nos enxerga sem as armaduras, sobra apenas a responsabilidade de não ferir aquilo que finalmente encontrou descanso.

Nem sempre consegui.

É estranho perceber que o amor também pode carregar culpa.

Não aquela culpa dramática dos romances.

Uma culpa silenciosa.

A de olhar para trás e pensar que algumas mãos aparecem apenas uma vez na vida para nos tirar da água.

E nós, ainda aprendendo a respirar, acabamos soltando exatamente a mão que nos mantinha na superfície.

Às vezes imagino que Deus distribui milagres de maneira discreta.

Não em igrejas.

Não em profecias.

Mas em pessoas.

Pessoas que aparecem sem anunciar a própria importância.

Que entram pela porta como qualquer outra.

Que riem de coisas pequenas.

Que bagunçam os cabelos com o vento.

E só depois de irem embora revelam que sustentavam um universo inteiro sem nunca terem dito uma palavra sobre isso.

Benta era assim.

Nunca precisou dizer que era luz.

A escuridão fazia esse trabalho por comparação.

Existe uma rua dentro da memória onde ela continua caminhando.

Não envelhece.

Não se despede.

Não pede que eu a siga.

Apenas continua andando, enquanto tudo ao redor floresce com a delicadeza de quem nunca soube que estava realizando um milagre.

Talvez seja por isso que algumas lembranças doam tanto.

Não sentimos falta apenas de uma pessoa.

Sentimos falta daquilo que éramos quando alguém nos fazia acreditar que o mundo ainda tinha um lugar reservado para a esperança.

Benta nunca foi uma casa.

Casas podem ser reconstruídas.

Ela foi horizonte.

Você pode atravessar continentes inteiros, aprender novos idiomas, dormir em outras camas, conhecer outros rostos.

Ainda assim, em algum momento do dia, seus olhos procuram exatamente aquela linha distante onde o céu parecia tocar a terra.

E então você entende.

Existem pessoas que passam pela nossa vida para serem amadas.

Outras, para serem esquecidas.

Mas há uma categoria infinitamente mais rara.

Aquelas que nos libertam de nós mesmos.

Que chegam quando tudo dentro parece um labirinto sem saída e, sem perceber, derrubam uma única parede.

Não mostram o caminho.

Elas se tornam o caminho.

E mesmo quando já não estão mais ali, seguimos andando por causa da direção que deixaram.

É por isso que nunca consegui pensar em Benta como uma ausência.

Ausências pertencem ao tempo.

Ela pertence ao que existe antes das palavras.

Àquela sensação inexplicável de encontrar abrigo sem precisar entrar em lugar algum.

Se algum dia me perguntarem qual foi o melhor sentimento que experimentei, não responderei com felicidade.

Felicidade é breve.

Direi que, por um instante impossível da vida, conheci alguém cuja simples existência fazia o mundo parecer menos pesado.

E desde então passei a desconfiar que certos anjos aceitam viver entre os homens apenas para lembrá-los de que a salvação, às vezes, não desce dos céus.

Às vezes ela sorri.

E atende por um nome que ninguém mais compreenderá.

Benta.

íbis 458

Se existisse uma rachadura no tempo, ela não teria o formato de um portal. Teria o formato de uma chave de hotel.

Não importava quantas cidades existissem, quantos anos tivessem passado, quantas pessoas tentassem convencê-lo de que seguir em frente era a única direção possível. Havia uma porta que continuava respirando dentro da memória.

Era um número comum para qualquer recepcionista. Um quarto qualquer, num corredor qualquer, de um hotel que provavelmente já havia trocado os carpetes, repintado as paredes e substituído os colchões. Mas para ele, aquele número havia deixado de ser arquitetura. Tinha se tornado religião.

Às vezes acordava no meio da madrugada convencido de que tudo aquilo era um erro de cálculo.

Talvez tivesse digitado a sequência errada na vida.

Talvez o destino não fosse uma linha, mas um elevador. E ele apenas apertara o andar errado.

Então imaginava.

E se, em vez de voltar ao 505…

…eu voltasse ao 458?

Talvez fosse ali.

Talvez fosse aquele o quarto que o universo escondera para quem insistia demais.

Na fantasia, ele atravessava o lobby sem dizer uma palavra. O cheiro do carpete era o mesmo. A máquina de gelo fazia o mesmo ruído distante. O elevador subia lentamente, como se cada andar pesasse uma década inteira.

Quarto andar.

Corredor silencioso.

A mão tremia sobre a maçaneta.

Nunca era a coragem que faltava.

Era o medo de descobrir que a esperança também envelhece.

A porta cedia devagar.

O quarto permanecia mergulhado numa penumbra azul, iluminado apenas pela luz da cidade atravessando as cortinas.

Duas possibilidades existiam.

Na primeira, o frio.

Uma cama perfeitamente arrumada.

O travesseiro intacto.

Nenhuma mala.

Nenhum perfume perdido nas fibras do lençol.

Só o ar parado de um lugar onde ninguém esperou por ninguém.

Era ali que ele compreendia que alguns lugares continuam existindo apenas porque alguém insiste em carregá-los por dentro.

Na segunda…

Ela estava sentada na beira da cama.

Como da última vez.

Os pés descalços tocando o carpete.

As mãos apoiadas sobre o colo.

Nem surpresa.

Nem felicidade.

Como se nunca tivesse ido embora.

Como se o tempo tivesse esperado apenas por ele.

Ela levantava os olhos.

Sorria daquele jeito pequeno que sempre parecia pedir desculpas ao mundo por existir.

E perguntava, quase rindo:

Demorou tanto assim?

Era sempre nessa hora que o delírio começava a ruir.

Porque ele nunca conseguia responder.

Não por falta de palavras.

Mas porque compreendia, por um instante cruel, que não era ela quem estava presa naquele quarto.

Era ele.

Ela permanecia exatamente igual porque a memória não envelhece.

Quem voltava diferente era sempre o homem diante da porta.

Mais cansado.

Mais vazio.

Mais cheio de discursos que jamais teria coragem de dizer.

Ele caminhava até ela.

Queria tocá-la.

Queria confirmar que alguns milagres ainda obedeciam à física.

Mas quanto menor ficava a distância, mais ela parecia feita da mesma matéria dos sonhos que esquecemos ao abrir os olhos.

Ela desfazia primeiro nas mãos.

Depois no rosto.

Depois na voz.

Até sobrar apenas o quarto.

Silencioso.

Frio.

Absolutamente vazio.

Foi então que compreendeu a crueldade da mente.

Ela não quer voltar ao passado.

Ela fabrica um passado que nunca existiu exatamente daquela forma, só para continuar tendo para onde fugir.

O quarto nunca foi o problema.

Nem a cidade.

Nem o hotel.

Era a esperança infantil de acreditar que existe um número certo capaz de devolver uma versão perdida de alguém.

Ele fechou a porta pela última vez.

Não porque tivesse deixado de amá-la.

Mas porque finalmente percebeu que nenhum corredor leva de volta para pessoas que só continuam vivas dentro da memória.

E enquanto caminhava em direção ao elevador, sorriu de um jeito estranho.

Como quem aceita que alguns endereços não pertencem aos mapas.

Pertencem apenas aos delírios de homens que, durante tempo demais, confundiram saudade com destino.

silver lining

Dizem que existe uma estrada no interior da Inglaterra onde os postes de iluminação foram instalados próximos demais uns dos outros. À noite, quando um carro atravessa aquele trecho em alta velocidade, as sombras passam pelo para-brisa como os quadros de um filme antigo. Luz. Escuro. Luz. Escuro. Rápido o suficiente para enganar os olhos, lento o bastante para deixar a imaginação terminar o que não viu.

Foi ali que um velho frentista começou a notar um carro preto passando todas as madrugadas exatamente no mesmo horário.

Nunca abastecia.

Nunca diminuía a velocidade.

Nunca parava.

Apenas cruzava a estrada, desaparecia na curva e voltava quarenta minutos depois, percorrendo o caminho inverso como se procurasse alguma coisa que insistia em escapar.

Na décima segunda noite, a curiosidade venceu.

Quando o carro finalmente encostou, o motorista desceu sem desligar o motor. Não parecia cansado. Parecia perseguido. Os olhos não olhavam para o posto, nem para o velho, nem para a estrada. Permaneciam presos ao retrovisor, como quem espera que alguém apareça a qualquer instante.

O frentista perguntou se havia algum problema.

O homem demorou para responder.

Depois sorriu de um jeito estranho.

“Você já passou tanto tempo procurando uma pessoa que começou a esquecer o rosto dela?”

O velho riu, acreditando que fosse uma piada.

Mas o motorista continuou.

“No começo você procura porque sente falta. Depois procura porque precisa de respostas. Depois porque acredita que ainda existe alguma coisa esperando para ser resolvida. E, quando percebe, já não está procurando a pessoa. Está tentando encontrar a versão de si mesmo que existia quando ela ainda ocupava aquele lugar.”

O posto ficou silencioso.

Só o som do motor preenchia o espaço entre os dois.

O frentista olhou para a estrada vazia e perguntou por que ele simplesmente não desistia.

O homem encarou o asfalto iluminado pelos faróis.

“Porque a dúvida é muito mais resistente do que a ausência.”

Naquela noite, depois que o carro desapareceu outra vez, o velho não conseguiu esquecer aquelas palavras.

Dias depois, passou a reparar melhor nas pessoas que apareciam para abastecer.

Havia casais que conversavam sem escutar um ao outro.

Gente que desbloqueava o celular a cada poucos segundos, esperando uma mensagem específica entre centenas de notificações inúteis.

Pessoas que juravam ter seguido em frente, mas ainda sabiam de cor o caminho até a casa de alguém que não viam havia anos.

Foi então que compreendeu uma coisa curiosa.

O amor raramente termina quando a presença acaba.

Ele termina quando a possibilidade morre.

Enquanto existir uma única fresta por onde a imaginação consiga escapar, a mente fará dela uma porta.

Porque ela odeia finais.

Prefere inventar universos inteiros sustentados por uma única pergunta sem resposta.

“Será que…”

É impressionante a força dessas duas palavras.

Elas transformam desconhecidos em fantasmas.

Silêncios em promessas.

Coincidências em destino.

Fazem alguém dirigir centenas de quilômetros por uma estrada onde sabe que não encontrará ninguém, apenas porque uma parte da consciência se recusa a aceitar que algumas histórias não acabam com uma explicação, mas com um eco.

Anos depois, fecharam o posto.

Construíram uma rodovia mais moderna alguns quilômetros adiante, e a velha estrada foi lentamente esquecida. A vegetação tomou conta do acostamento, os postes enferrujaram e o asfalto começou a rachar como uma fotografia antiga.

Ainda assim, em certas madrugadas, moradores da região juram ouvir um motor atravessando a escuridão.

Não dizem que veem o carro.

Dizem apenas que escutam.

Como se algumas buscas sobrevivessem ao próprio viajante.

Talvez porque existam perguntas que nunca quiseram uma resposta.

Elas apenas precisavam de alguém disposto a continuar dirigindo.

E talvez seja esse o truque mais cruel da mente humana: convencer alguém de que está perseguindo outra pessoa, quando, na verdade, passou a vida inteira correndo atrás da única coisa que jamais conseguiu possuir completamente.

A certeza.

oceano muito pacifico

Na cidade existia um mergulhador conhecido por um hábito incomum. Enquanto todos desciam ao oceano em busca de destroços, joias perdidas ou animais raros, ele voltava dizendo sempre a mesma coisa.

“Lá embaixo é silencioso demais para existir mentira.”

Ninguém entendia.

Os pescadores riam, os turistas fotografavam suas roupas encharcadas e os cientistas atribuíam aquilo aos muitos anos respirando ar comprimido. Diziam que a pressão confundia o cérebro. Que profundidade demais acabava alterando a percepção. Era uma explicação confortável, porque explicações confortáveis impedem que alguém precise mudar a maneira como enxerga o mundo.

Certa manhã, ele aceitou levar um rapaz que insistia em descobrir o motivo daquela frase.

Os dois mergulharam.

Quanto mais o sol desaparecia acima deles, mais o oceano parecia apagar qualquer vestígio da superfície. As cores deixavam de existir, os sons desapareciam, os objetos perdiam seus contornos e, pela primeira vez, o rapaz percebeu uma sensação estranha: ninguém ali embaixo precisava fingir ser coisa alguma.

Os peixes não pareciam felizes.

Também não pareciam tristes.

Eles simplesmente atravessavam a água.

As correntes não escolhiam direção por convicção. As baleias não cantavam porque alguém as escutaria. Nem os corais cresciam tentando provar que eram bonitos.

Tudo apenas acontecia.

Quando voltaram à superfície, o rapaz permaneceu em silêncio durante horas.

Foi então que o mergulhador sorriu pela primeira vez.

“Agora olha para eles.”

Na praia, centenas de pessoas caminhavam de um lado para o outro. Algumas escondiam lágrimas atrás de óculos escuros. Outras sorriam para fotografias que seriam esquecidas na semana seguinte. Casais prometiam eternidade enquanto pensavam em outras vidas. Crianças fingiam ser adultas. Adultos fingiam saber o que estavam fazendo. Todos carregavam uma versão cuidadosamente construída de si mesmos, como atores que esqueceram onde termina o personagem e começa o rosto.

O rapaz perguntou por que aquilo parecia tão diferente do fundo do mar.

O mergulhador respondeu que a superfície era o único lugar onde a realidade precisava competir com a imaginação.

“Lá embaixo, ninguém inventa significado. Aqui em cima, inventam tantos que acabam esquecendo de viver.”

Naquela noite, o rapaz não conseguiu dormir.

Olhava para o teto do quarto enquanto escutava a própria mente produzir pensamentos sem parar. Ela comentava o passado, ensaiava diálogos que jamais aconteceriam, antecipava tragédias improváveis, reinterpretava lembranças até transformá-las em outra coisa. Era como assistir a um homem desesperado tentando narrar um filme que nunca parava de mudar de roteiro.

Pela primeira vez surgiu uma suspeita quase ofensiva.

E se aquela voz não fosse ele?

E se tivesse passado a vida inteira acreditando em um narrador que nunca presenciou os fatos, apenas os interpretou?

Dias depois voltou sozinho ao mar.

Mergulhou até onde a luz deixava de alcançar.

Lá embaixo não havia opiniões.

Não havia culpa.

Não havia arrependimento.

O oceano não fazia perguntas porque não precisava de respostas.

E, cercado por um silêncio tão antigo que parecia existir antes da própria linguagem, ele compreendeu algo que o acompanharia pelo resto da vida.

A mente nunca foi uma janela para a realidade.

Ela é uma máquina de fabricar versões.

Algumas belas.

Outras insuportáveis.

Quase todas falsas.

Talvez seja por isso que tanta gente viva com a sensação de estar perdida. Não porque o caminho desapareceu, mas porque aprendeu a procurar a saída dentro do único lugar incapaz de oferecê-la.

Enquanto isso, o mar continua exatamente onde sempre esteve.

Profundo.

Indiferente.

Sem nenhuma necessidade de explicar a própria existência.

Como se soubesse, desde o princípio, que as únicas criaturas realmente perdidas nunca foram as que afundaram.

Foram as que passaram a vida inteira tentando encontrar a própria mente, sem perceber que ela era justamente o lugar de onde precisavam sair.

Aquele dia ele morreu afogado, mas na verdade nem precisou sair do próprio quarto.

Quimera Cinza

Dizem que o mundo nasceu em sete cores.

O meu esqueceu uma.

Não a mais bonita. Não a mais rara. Apenas aquela que fazia todas as outras parecerem vivas.

Desde então, tudo aqui existe em tons de cinza. O céu não ameaça chuva, ameaça permanência. As árvores não morrem; apenas desaprendem a crescer. As pessoas sorriem como quem assina um recibo.

Passei anos acreditando que algum caminhão estava atrasado.

Um simples lápis de cor.

Deveria chegar em qualquer manhã, descarregado por alguém distraído, e bastaria um risco torto sobre o papel da realidade para que tudo finalmente lembrasse que era primavera em algum lugar.

Mas os dias passavam.

E toda entrega vinha sem o pacote que importava.

Comecei a desconfiar que o atraso não era da estrada.

Era do próprio universo.

Então continuei andando.

Porque também me disseram outra coisa: existia um caracol. Um único. Em algum lugar impossível de encontrar. E quem tocasse sua concha deixaria de carregar o próprio peso. Não morreria do corpo primeiro. Morreria da espera. Como uma vela que finalmente entende que foi feita para apagar.

Passei a procurar o caracol.

Em cidades cheias demais para perceber o silêncio.

Em pessoas que juravam possuir mapas.

Em espelhos.

Principalmente nos espelhos.

Às vezes eu achava que estava perto. Via um brilho úmido no concreto, diminuía o passo, prendia a respiração…

Era apenas chuva.

Outras vezes confundia rastros com destino.

O curioso sobre perseguir uma quimera é que ela nunca precisa correr.

Você faz todo o trabalho por ela.

Enquanto isso, a tinta cinza continuava secando sobre tudo.

Descobri que o cérebro inventa cores quando passa tempo suficiente olhando para a ausência delas. Chama isso de esperança. Um defeito elegante da percepção. A mesma ilusão que faz marinheiros enxergarem terra antes da costa existir.

Talvez seja por isso que eu ainda acordava.

Não porque acreditasse.

Mas porque a imaginação sempre chega alguns segundos antes do desespero.

No fim, encontrei um velho caderno.

Folheei página por página procurando aquele lápis perdido.

Não havia espaço vazio onde ele deveria estar.

Nem marcas de que alguém o tivesse roubado.

Apenas uma observação escrita numa caligrafia que parecia ser minha, embora eu não lembrasse de tê-la feito:

“Você não está esperando uma entrega atrasada.

Está esperando uma lembrança de algo que nunca foi fabricado.”

Foi quando entendi.

O lápis não estava preso em alguma estrada.

Não havia caminhão.

Não havia fábrica.

Não havia catálogo.

Assim como o caracol.

Passei a vida procurando uma saída desenhada por alguém que jamais existiu.

E talvez seja essa a crueldade mais sofisticada do mundo:

não é que algumas pessoas morram sem encontrar o caracol.

É que certas almas sobrevivem para sempre porque perseguem uma criatura que o universo nunca teve a intenção de criar.

A cidade continuou cinza.

Eu também.

Mas agora já não olho para o horizonte esperando uma entrega.

Apenas caminho.

Como quem finalmente percebeu que algumas ausências não são atrasos.

São a arquitetura inteira do lugar.

ímpeto afundo

Há um oceano que ninguém vê.

Por fora, continuo respirando no ritmo esperado, respondendo quando me chamam, ocupando espaço entre pessoas. Por dentro, existe uma água antiga subindo devagar. Não invade de uma vez. Ela aprende o formato dos meus pensamentos antes de encher os pulmões.

Caminhar deixou de significar ir para frente. Todos os caminhos dobram sobre si mesmos, como se o mundo tivesse sido reduzido ao tamanho da minha própria mente. Cada porta leva ao mesmo corredor. Cada corredor termina na mesma pergunta. E cada pergunta já nasce sem tradução.

Os pensamentos perderam a linguagem. São aeróglifos riscados nas paredes de uma caverna infinita, símbolos que reconheço sem jamais compreender. Passo horas tentando decifrá-los, como se existisse uma frase escondida capaz de explicar por que tudo pesa tanto. Mas quanto mais leio, mais as inscrições mudam. A pedra respira. O labirinto aprende meu nome.

Existe um lado do universo onde a luz nunca chegou. Às vezes penso que a mente também possui esse hemisfério esquecido, uma geografia onde nenhuma estrela ousou nascer. É para lá que vou sem perceber. Não porque queira. Porque toda ideia parece inclinada naquela direção, como um rio que desconhece outra gravidade.

É estranho assistir ao próprio pensamento fabricar tempestades e, ainda assim, saber que elas não molham ninguém além de você.

Há dias em que a realidade parece um vidro grosso. Consigo enxergar as pessoas rindo, vivendo, amando, fazendo planos. Mas tudo acontece do outro lado. Eu apenas encosto a testa na superfície fria, tentando lembrar como era existir sem precisar traduzir cada segundo da própria consciência.

O pior não é o silêncio.

É o eco.

Porque até o vazio aprende a repetir o seu nome quando você permanece tempo suficiente dentro dele.

Mesmo assim, em algum lugar entre as ruínas dessa arquitetura impossível, existe uma pequena contradição: se ainda sou capaz de perceber a escuridão, talvez ainda exista uma parte de mim que continua procurando a luz. Não porque a veja. Mas porque a ausência dela ainda me incomoda.

E talvez seja isso que me mantém respirando.

Não a certeza de que vou encontrá-la.

Mas o fato de que, no fundo do oceano, eu ainda consigo distinguir a diferença entre afundar… e continuar procurando a superfície.