Coleção pessoal de gabrielparice
por que é proibido pisar na grama?.
Talvez essa seja uma das proibições mais estranhas que inventamos.
Uma placa fincada no chão, algumas letras vermelhas dizendo “PROIBIDO PISAR NA GRAMA”, e de repente um pedaço de terra deixa de ser apenas terra. Aquele lugar que poderia ser atravessado vira fronteira. O caminho mais curto passa a ser o caminho errado. E ninguém precisa mais construir um muro, porque basta ensinar as pessoas a terem medo de ultrapassar uma linha que, na verdade, só existe porque alguém decidiu que ela deveria existir.
Vezes me pergunto se não fizemos o mesmo com certas pessoas.
Talvez você seja a minha grama.
Não porque exista alguma placa dizendo que não podemos nos encontrar, mas porque existem tantas pequenas proibições invisíveis entre nós. O que vão pensar? O que aconteceu antes? E se voltarmos para um lugar que doeu? E se as nossas vidas já tiverem seguido por caminhos que não combinam mais? E se aquilo que um dia foi tão bonito não couber mais nas pessoas que nos tornamos?
E então ficamos parados na calçada.
Olhando.
Tão perto.
Com vontade de atravessar.
Mas esperando alguém nos dizer que pode.
É curioso como a gente aprende a obedecer antes mesmo de entender a regra. A gente cresce acreditando que algumas coisas simplesmente não podem ser feitas. Que certas portas não devem ser abertas novamente. Que alguns lugares pertencem ao passado. Que determinadas pessoas precisam permanecer onde as deixamos, mesmo quando alguma coisa dentro da gente ainda reconhece o caminho até elas de olhos fechados.
Mas quem decidiu isso?
Quem disse que a felicidade precisa pedir autorização?
Quem determinou onde eu posso pisar para viver aquilo que sinto?
E, principalmente, por que eu deveria ter medo de uma placa colocada por alguém que nunca sentiu o que eu senti?
Talvez seja esse o maior problema da vida confundimos limite com verdade.
Nem tudo que nos disseram que era proibido realmente era.
As vezes era apenas perigoso. As vezes era apenas difícil. As vezes alguém antes de nós se machucou naquele mesmo lugar e, por isso, decidiu que ninguém mais deveria pisar ali.
Mas a grama continuou crescendo.
Verde, silenciosa, bonita.
Como se não soubesse que alguém havia transformado aquele pedaço de mundo em território proibido.
E talvez seja isso que mais me incomode.
Porque a grama não tem culpa da história que aconteceu sobre ela.
Ela não sabe das nossas dores antigas. Não sabe dos erros, das despedidas, das coisas que não foram ditas. Não sabe quem éramos quando estivemos ali pela primeira vez. Ela só continua crescendo no mesmo lugar, esperando que algum dia alguém tenha coragem de atravessá-la novamente.
E talvez nós sejamos exatamente isso.
Duas pessoas olhando para o mesmo lugar onde um dia foram felizes, com medo de descobrir que ainda existe alguma coisa ali.
Com medo de pisar.
Com medo de lembrar.
Com medo de não sentir nada.
Com medo de sentir tudo.
Talvez exista uma vida inteira entre uma calçada e outra. Uma nova versão de mim. Uma nova versão de você. Outras pessoas, outras histórias, outras cicatrizes. Talvez nossas vidas já não se encaixem como antes. Talvez não exista mais espaço para aquilo que fomos.
Mas e se existir?
E se a gente estiver deixando uma possibilidade morrer apenas porque alguém nos ensinou que voltar é sempre um erro?
Eu não quero romantizar aquilo que machucou. Não quero fingir que o passado não existiu. Não quero apagar as consequências das coisas que fizemos ou das coisas que fizeram conosco.
Só não quero transformar o passado em uma sentença.
Porque existe uma diferença enorme entre voltar para o passado e reencontrar alguém que também conseguiu sair dele.
Talvez pisar na grama não seja esquecer a placa.
Talvez seja simplesmente entender que ela nunca teve autoridade sobre os nossos sentimentos.
E talvez seja por isso que eu ainda olhe para aquele lugar.
Porque a grama é bonita.
Porque foi ali que alguma parte da nossa história aconteceu.
Porque, entre tantos lugares possíveis no mundo, foi justamente aquele que nos encontrou.
E talvez ela seja sagrada não porque ninguém possa pisar nela, mas porque foi testemunha de algo que ninguém mais viu.
Então, por que é proibido pisar na grama?
Talvez porque alguém tenha medo de que ela seja destruída.
Talvez porque seja mais fácil proteger alguma coisa mantendo todos afastados do que permitir que alguém descubra como caminhar sobre ela sem machucá-la.
Mas eu não sei se quero viver assim.
Não quero passar a vida inteira olhando para lugares onde poderia estar.
Não quero deixar que o medo dos outros escolha o caminho dos meus pés.
Se eu sentir vontade de atravessar, talvez eu atravesse.
Não porque tenha certeza de que do outro lado existe felicidade.
Mas porque, pela primeira vez, quero que a escolha seja minha.
E se você estiver do outro lado da grama, talvez eu não precise prometer que tudo será como antes.
Talvez eu só precise perguntar:
você ainda quer caminhar comigo?
Porque talvez liberdade seja isso.
Não fazer tudo que queremos sem consequências.
Mas ter coragem de escolher aquilo que queremos, mesmo sabendo que algumas escolhas podem nos assustar.
E talvez amor seja ainda mais simples.
É olhar para uma placa dizendo “proibido pisar na grama”, olhar para a pessoa que você ama do outro lado e finalmente perceber que algumas regras foram feitas para manter desconhecidos separados.
Não pessoas que ainda se reconhecem.
E então, por um instante, antes de pensar no passado, no julgamento, no medo ou na vida que mudou, existe apenas a grama entre nós.
Verde.
Linda.
Intocada.
Esperando.
E talvez tudo o que sempre quiséssemos fosse descobrir se ainda existe um caminho entre duas pessoas quando ninguém mais está dizendo onde elas podem pisar.
favorita.
Sabe quando a gente cai na real que aquela é a nossa pessoa favorita no mundo?
Não que fosse um mistério. Não que eu não soubesse antes. É mais como se, em algum momento, a vida começasse a apresentar as confirmações necessárias, as provas cabais de uma coisa que, no fundo, a gente já sabia. Como se o quebra-cabeça complexo que somos nós finalmente encontrasse uma peça que sempre pareceu ter sido feita exatamente para aquele espaço.
E o mais bonito é que essas confirmações nunca vêm em grandes acontecimentos.
Elas vem nas coisas mais simples do mundo.
Vem no cotidiano, naquele lugar onde ninguém está tentando impressionar ninguém, onde o amor não precisa fazer discurso porque está ocupado demais existindo. Vem numa mania que só aquela pessoa tem, numa maneira específica de rir, em uma frase que ela sempre fala, no jeito incomparável de enxergar alguma coisa. Vêm nos defeitos que, de tão únicos, acabam deixando de parecer defeitos. Naquelas pequenas particularidades que poderiam passar despercebidas para qualquer pessoa, mas que, para quem ama, se tornam quase uma impressão digital.
Você é assim pra mim.
E talvez seja justamente por isso que eu tenha tanta certeza.
Porque você costuma ter vários endereços. Está sempre em constante mudança, e não necessariamente geográfica. A vida te move, te transforma, te leva para lugares diferentes, muda algumas versões suas, acrescenta outras, tira algumas pelo caminho. Você pode estar na rua Joaquim de Paula 1129, na rua Matias Perez 183, na nossa própria Jorge Leite Vieira Home, ou até mesmo em alguma cidade perdida da Terra da Rainha.
E ainda assim, de algum jeito, continua sendo você.
Continua sendo aquela menina que eu aprendi a amar.
Não uma versão congelada no tempo, não alguém que precise permanecer exatamente como eu conheci para continuar sendo especial. Mas você, com todas as suas únicas e ímpares qualidades e defeitos. Até os defeitos eu amo. Talvez porque amar alguém de verdade seja justamente perceber que a pessoa não é uma coleção de características perfeitas, mas um conjunto inteiro, indivisível, de coisas que fazem dela quem ela é.
E acho que foi no cotidiano que eu mais entendi isso.
O momento que eu mais senti amor por alguém foi no cotidiano.
Foi ao acordar e ter café pronto.
Foi cozinhar junto ouvindo música.
Foi depois de limpar a casa inteira e deitar pra assistir.
Foi naquela sensação quase boba de olhar para o lado e pensar que, entre todas as possibilidades do mundo, era justamente aquela pessoa que estava ali comigo, dividindo uma manhã qualquer, uma cozinha qualquer, uma sala qualquer, uma música qualquer.
E talvez seja essa a maior prova de todas.
Porque grandes momentos podem ser confundidos com euforia. Viagens podem ser confundidas com felicidade. Declarações podem ser confundidas com paixão. Mas o cotidiano não mente.
TUDO TUDO que é amor nasce no cotidiano e tudo que não é amor, se desfaz no cotidiano.
É ali que a gente descobre quem realmente quer por perto.
Quando não existe viagem marcada, quando não existe ocasião especial, quando não existe nada para comemorar. Só existe uma terça-feira qualquer, uma casa para arrumar, alguma coisa para comer, uma música tocando baixo e duas pessoas dividindo o mesmo espaço.
É ali que o amor deixa de ser uma ideia bonita e vira presença.
E talvez seja por isso que você consiga estar em tantos lugares sem deixar de ser a mesma pessoa para mim.
Porque eu não aprendi a amar um endereço.
Eu aprendi a amar você.
E endereço nenhum consegue mudar isso.
Pode mudar a rua, a cidade, o país, a distância, a rotina, os planos, os mapas. Você pode estar em qualquer canto do mundo, construindo novas versões de si mesma, aprendendo coisas que eu ainda nem conheço, vivendo dias que eu talvez nunca veja.
Ainda assim, existe alguma coisa em você que permanece reconhecível para mim.
Aquela menina.
A menina das pequenas coisas.
Aquela que existe nos detalhes que ninguém mais percebe.
A pessoa que, sem fazer esforço, conseguiu ocupar um espaço que parecia ter sido desenhado para ela dentro de mim.
E talvez seja isso que significa encontrar a nossa pessoa favorita no mundo.
Não é descobrir alguém perfeito.
É descobrir alguém cuja imperfeição parece familiar.
Alguém que você reconhece mesmo quando ela muda.
Alguém que poderia atravessar o mundo inteiro, trocar de endereço quantas vezes quisesse, aparecer em outra cidade, em outro país, em outra fase da vida, e ainda assim fazer você pensar:
“É ela.”
Não porque você nunca teve dúvidas.
Mas porque, depois de tantas pequenas confirmações, você simplesmente não precisa mais delas.
Você sabe.
E se algum dia alguém me perguntasse onde exatamente mora a pessoa que eu aprendi a amar, talvez eu não soubesse responder.
Por isso eu vivo me perguntando porque é proibido pisar na grama?
Mas, no fundo, eu saberia que nenhum desses endereços seria suficiente.
Porque você não mora em nenhum deles.
Você mora no cotidiano.
Na memória do café pronto.
Na música enquanto a gente cozinha.
Na casa limpa depois de um dia inteiro de esforço.
No sofá onde duas pessoas simplesmente deitam e assistem alguma coisa sem precisar que o mundo aconteça.
E talvez seja justamente por isso que, não importa onde você esteja, eu continue sabendo exatamente quem você é para mim.
Minha peça.
Do meu quebra-cabeça complexo.
Minha pessoa favorita no mundo.
Aquela que a vida pode levar para qualquer endereço, mas que, de algum jeito, continua sempre encontrando o caminho de volta para o mesmo lugar.
Aqui
julie.
Há uma menina que ainda não existe no mundo, mas que, de alguma forma, já existe dentro de mim.
O nome dela vai ser Julie.
Eu ainda não sei quando ela vai chegar. Não sei se será daqui a alguns anos, se a vida vai demorar para colocá-la nos meus braços ou se o destino ainda está decidindo se nossos caminhos realmente precisam se encontrar. Talvez ela nem saiba que eu já penso nela. Talvez, enquanto eu escrevo isso, ela esteja em algum lugar que eu jamais poderia imaginar, vivendo uma vida que ainda não tem nenhuma relação com a minha.
Mas eu já a amo.
E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas sobre o amor de um pai. Ele pode começar antes mesmo de existir um rosto para olhar.
As vezes eu me pego imaginando os olhos dela. Não sei exatamente como serão, mas já consigo imaginar a maneira como eles vão me procurar quando ela estiver assustada, quando precisar de colo ou simplesmente quando quiser encontrar o pai no meio de uma multidão. Imagino o sorriso, o jeito de falar, as manias que provavelmente vão me tirar do sério e, ainda assim, fazer com que eu queira guardar cada uma delas para sempre.
Imagino seus primeiros passos pela casa.
Imagino a voz me chamando de pai.
E acho que é nesse momento que eu percebo que existe uma versão de mim que ainda não conheço.
O pai da Julie.
Talvez ela transforme completamente a minha vida sem sequer perceber. Talvez eu passe a dirigir mais devagar, a olhar o relógio com mais frequência, a pensar duas vezes antes de tomar certas decisões. Talvez minhas preocupações deixem de ser apenas sobre mim. Talvez eu descubra que existe alguém capaz de ocupar um espaço dentro de mim que eu nem sabia que estava vazio.
Eu imagino uma menina pequena segurando meu dedo com a mão inteira.
E acho que, naquele instante, eu entenderia que faria qualquer coisa por aquilo.
Não porque ela teria feito alguma coisa para merecer.
Não porque ela precisaria me devolver alguma coisa.
Mas simplesmente porque seria minha filha.
Esse é o amor que ainda não conheço, mas que já consigo sentir chegando de longe. Um amor que não pede reciprocidade, que não depende de respostas, que não precisa ser escolhido todos os dias porque já nasceu decidido. Um amor que provavelmente vai me ensinar que existem pessoas pelas quais você não pensa duas vezes antes de colocar o mundo inteiro nas costas.
Eu penso na Julie crescendo.
Na primeira vez que ela cair e olhar para mim esperando que eu diga que está tudo bem.
Na primeira vez que ela chegar em casa chorando porque alguém machucou seu coração.
Na primeira vez que ela quiser sair sozinha e eu precisar aprender que protegê-la também significa deixá-la ir.
Talvez eu seja aquele pai meio bobo que vai querer saber onde ela está, com quem está, se chegou bem. Talvez eu seja exageradamente protetor. Talvez eu precise aprender, todos os dias, que ela não nasceu para viver dentro das minhas mãos, mas para construir a própria vida.
E mesmo assim, em algum lugar dentro de mim, sempre vai existir aquele homem olhando para uma menina pequena e pensando:
"Como pode alguém tão pequena significar tanto?"
Eu não sei como serão os olhos dela.
Não sei se ela vai gostar de música, de livros, de filmes, de desenhar ou de qualquer coisa que eu imagine hoje.
Não sei se ela vai parecer comigo.
Não sei se vai torcer para o Palmeiras(mas deveria)
Não sei se vai herdar meu jeito, minhas manias ou se vai ser completamente diferente de mim.
E talvez seja justamente isso que torne tudo tão bonito.
Porque eu não amo uma pessoa que conheço.
Eu amo a possibilidade dela.
A possibilidade de um dia abrir uma porta e encontrar uma menina correndo na minha direção.
A possibilidade de ouvir uma voz dizendo "papai".
A possibilidade de segurar alguém nos braços e perceber que, depois daquele momento, minha vida nunca mais vai ser somente minha.
Julie ainda não sabe se vem.
Eu também não sei quando.
Mas, se um dia ela vier, espero que encontre em mim um lugar seguro para voltar.
Espero que ela saiba que pode errar sem deixar de ser amada, cair sem ter vergonha de pedir ajuda, crescer sem medo de me perder.
Espero que, quando ela for grande o suficiente para entender essas coisas, saiba que antes mesmo de existir para o mundo, já existia em meus pensamentos.
Que antes de eu conhecer seu rosto, eu já imaginava seus olhos.
Antes de ouvir sua voz, eu já imaginava como seria escutar "papai".
E antes de poder segurá-la no colo, eu já sabia que, se a vida me desse a oportunidade de ser o pai dela, eu faria tudo o que estivesse ao meu alcance para que ela nunca duvidasse do quanto é amada.
Talvez esse seja o maior sonho que eu ainda não vivi.
Uma menina chamada Julie.
A menina do papai.
Uma pequena pessoa que ainda não chegou, mas que já ocupa um pedaço enorme de um coração que nem sabia que estava esperandp por ela.
E quando ela finalmente chegar, se chegar, talvez eu olhe para aqueles olhos que passei tantos anos imaginando e perceba que eu estava errado sobre uma coisa.
Porque talvez eu tenha passado a vida inteira tentando imaginar como seria amar minha filha.
Quando na verdade, bastaria conhecê-la
autobahn.
Não tenho GPS, mas, de tanto memorizar filmes, me parece que estou na Autobahn. A música alta quase não deixa escutar o ronco do carro em que estou pilotando. Acho que estou ficando maluco, porque fechei os olhos, abaixei o volume e continuo dirigindo esse carro que, por algum motivo, deve ser meu. Sem me guiar pela visão, apenas pelo barulho reconhecido do motor, já devo estar batendo uns cento e noventa por hora.
Como eu vim parar aqui?
Nem precisei sair da minha cidade. Talvez tenha saído apenas da minha sanidade.
Quero sentir que o perigo que estou correndo de morrer vai queimar mais nas minhas veias com a junção do que está tocando ao fundo, porque talvez seja onde eu consiga chegar mais perto daquela sensação. Quero me afogar nesse sentido.
O que fizeram comigo?
Você é alguma espécie de droga?
Porque eu não consigo parar.
Talvez seja isso que uma droga faça. Não necessariamente aquilo que entra no corpo, mas aquilo que entra na cabeça e começa a convencer a gente de que, por alguns segundos, viver no limite é melhor do que viver normalmente.
A pista continua.
Ou talvez seja a minha cabeça que continue inventando uma pista.
Não vejo placas. Não vejo outros carros. Não vejo nada além daquele pedaço de estrada que minha imaginação decidiu construir para mim. E, ainda assim, tudo parece tão real que consigo sentir o volante vibrando nas minhas mãos.
Talvez eu esteja tentando fugir.
Engraçado.
Passei tanto tempo querendo ir embora daqui que agora nem sei mais se estou dirigindo para algum lugar ou apenas tentando chegar longe de mim.
A cidade ficou para trás.
As pessoas também.
Os planos, as promessas, os nomes que um dia significaram alguma coisa. Tudo parece pequeno quando visto pelo retrovisor, até desaparecer completamente.
A música muda.
Por alguns segundos, eu não reconheço a próxima faixa.
E isso me assusta mais do que a velocidade.
Porque eu sempre reconheci as músicas.
Sempre soube qual vinha depois. Sempre soube qual música ouvir quando alguma coisa doía, como um médico que receita exatamente o remédio para onde você precisa resolver a dor, qual colocar quando precisava lembrar de alguém, qual deixar tocar quando queria fingir que estava tudo bem.
Mas agora não reconheço.
Talvez eu esteja finalmente chegando em algum lugar que nunca conheci.
Acelero.
Não porque quero morrer.
Isso seria fácil demais de explicar.
Acelero porque quero sentir alguma coisa que não seja essa espécie de vazio educado que me acompanha todos os dias. Quero que o coração bata por alguma razão que não seja ansiedade. Quero que minhas mãos tremam porque estou vivo, não porque estou tentando entender por que ainda me importo com certas coisas.
Quero um motivo físico para sentir aquilo que já não sei explicar por dentro.
E então percebo que talvez eu tenha confundido intensidade com vida.
Talvez tenha passado tanto tempo procurando alguma coisa que me fizesse sentir que comecei a aceitar qualquer coisa que doesse o suficiente.
É por isso que você parece uma droga.
Porque eu sei que não deveria precisar de você.
E mesmo assim, quando você aparece, tudo fica mais alto.
As músicas.
As lembranças.
As vontades.
Até o silêncio.
Você não precisa fazer nada. Basta existir em algum canto da minha cabeça para que eu volte a ser aquele idiota que acredita que talvez dessa vez seja diferente.
Talvez seja por isso que eu estou nessa estrada.
Não estou fugindo da cidade.
Estou fugindo da possibilidade de que a minha vida tenha se acostumado demais com a ausência de certas coisas.
E talvez eu tenha vindo parar aqui porque precisava de um lugar onde ninguém pudesse me perguntar para onde estou indo.
Porque eu não sei.
Não sei onde termina essa estrada.
Não sei quem colocou essa música.
Não sei por que o velocímetro continua subindo.
Não sei por que ainda estou segurando o volante.
Só sei que, pela primeira vez em muito tempo, existe alguma coisa dentro de mim gritando.
E eu acho que estava com saudade de ouvir minha própria voz.
Então diminuo.
Não paro.
Apenas diminuo.
O suficiente para ouvir o motor.
Depois o vento.
Depois minha respiração.
E, por último, aquilo que eu vinha tentando calar desde o começo.
Meu próprio pensamento.
Talvez eu não precise morrer para descobrir que estou vivo.
Talvez eu só precise parar de correr como se a vida estivesse sempre alguns quilômetros à minha frente.
Olho para a estrada.
Dessa vez, com os olhos abertos.
E ela continua.
Longa, escura, absurda.
Como quase tudo que ainda não sei resolver.
Mas, pela primeira vez, eu não tenho tanta pressa de chegar.
Porque talvez o destino nunca tenha sido a parte mais importante,
E sim…
utopia?
Tem dias em que acordar parece menos um começo e mais uma conferência.
Antes mesmo de levantar da cama, existe uma lista invisível esperando por ele. Não são grandes sonhos escritos em papel, nem promessas bonitas feitas para o futuro. São necessidades pequenas, quase ridículas quando colocadas lado a lado, mas que juntas dizem muito sobre quem ele se tornou.
Precisa de dinheiro. Não pelo dinheiro em si, mas pela tranquilidade que ele promete. Precisa guardar, investir, construir alguma coisa que permita olhar para a velhice sem sentir que o futuro é uma ameaça. Existe uma vontade cada vez maior de sair do lugar onde está, conhecer outro país, aprender outra língua, começar de novo em algum canto onde ninguém saiba seu nome.
Precisa ser forte também.
E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis.
Porque existe uma contradição nele que ninguém vê de primeira. Por fora, aprende a ser durão. Engole certas palavras, segura algumas vontades, finge que determinadas coisas não doem. Mas por dentro continua sendo sentimental demais. Ainda se importa. Ainda espera. Ainda sente falta. Ainda consegue transformar uma conversa pequena em alguma coisa enorme dentro da cabeça.
Precisa falar com alguém.
Não necessariamente para ser aconselhado. Às vezes, só precisa encontrar alguém que também esteja cansado de guardar coisas dentro de si. Alguém que não tenha medo do silêncio depois da conversa. Alguém que entenda que existem sentimentos que não querem solução, só companhia.
Precisa escrever também.
Talvez seja por isso que transforma tanta coisa em texto. Porque quando não consegue dizer, escreve. Quando não sabe para quem falar, escreve. Quando alguma lembrança insiste em voltar, escreve. Como se cada palavra colocada no papel fosse uma maneira de impedir que alguma parte dele desaparecesse.
Precisa de uma vitória do Palmeiras, dessas que fazem o mundo parecer menos complicado por algumas horas. Precisa de uma música certa no momento certo. Precisa de uma noite em que o celular fique virado para baixo e a cabeça finalmente fique quieta. Precisa rir de alguma coisa idiota. Precisa encontrar motivos pequenos para continuar acreditando que a vida não é feita apenas das coisas que deram errado.
Precisa cuidar da família.
Precisa cuidar de si.
Precisa ter fé, mesmo quando não entende muito bem o que está esperando.
E, principalmente, precisa de carinho.
Talvez esse seja o item mais difícil de admitir.
Porque dinheiro se procura. Trabalho se conquista. Uma passagem pode ser comprada. Um idioma pode ser aprendido. Um carro pode ser trocado. Uma cidade pode ser deixada para trás.
Mas carinho não funciona assim.
Carinho precisa vir de alguém.
E talvez por isso ainda exista, em algum canto dele, aquela pergunta que não sabe morrer, será que alguém ainda gosta dele? Será que alguma pessoa ainda pensa nele quando uma música toca? Será que alguém sente vontade de mandar uma mensagem e desiste? Será que existe alguém passando pela mesma rua, no mesmo horário, carregando uma saudade que ele desconhece?
Ele não precisa necessariamente de uma resposta.
Precisa apenas saber se ainda existe alguma coisa esperando por ele do outro lado.
E é curioso perceber que, no meio de tantos planos grandes, ele ainda se pega querendo entender coisas pequenas.
Por que o coração insiste justamente onde a razão já colocou uma placa dizendo para não entrar?
E, no fim, talvez seja essa a maior contradição da vida adulta, a gente passa anos tentando descobrir como construir um futuro, enquanto continua fazendo perguntas que parecem ter sido inventadas na infância.
Ele quer dinheiro, uma casa, uma vida em outro lugar, estabilidade, conquistas, viagens, histórias.
Mas também quer ser compreendido.
Quer alguém para conversar.
Quer alguém para amar.
Quer alguém que olhe para toda essa confusão e, em vez de perguntar por que ele é assim, simplesmente diga que entende.
Talvez seja isso que ele esteja procurando.
Não uma vida perfeita.
Só uma vida em que suas necessidades não pareçam exageradas.
Uma vida em que possa ser forte sem precisar esconder que sente.
Em que possa ir embora sem sentir que está fugindo.
Em que possa construir o futuro sem precisar abandonar tudo o que ainda sente.
E talvez, no fundo, ele tenha acordado naquela manhã apenas para descobrir que ainda precisa de muita coisa.
Mas também descobriu uma coisa importante
ainda existe vontade.
E enquanto houver vontade de conhecer o mundo, ganhar dinheiro, escrever, amar, cuidar, acreditar, viajar, torcer, recomeçar e entender por que certas coisas são proibidas sem que ninguém saiba explicar direito…
ainda existe vida acontecendo.
Mesmo que, as vezes, ela pareça apenas uma longa lista de coisas que ele ainda precisa.
morango.
Morango tem uma coisa curiosa, parece frágil, mas nunca passa despercebido.
Talvez seja a cor. Aquele vermelho vivo, quase exagerado, como se tivesse sido feito para chamar atenção mesmo quando está perdido no meio de tantas outras frutas. Talvez seja o contraste entre o doce e o azedo, entre aquilo que parece delicado por fora e aquilo que permanece na boca depois da primeira mordida.
Eu nunca gostei de morango.
E talvez seja justamente isso que torne tudo mais bonito.
Porque, antes de você, morango era só uma coisa que eu não gostava. Não fazia questão, não procurava, não sentia falta. Se estivesse na minha frente, provavelmente eu deixaria para lá.
Até você aparecer e, de algum jeito, me fazer gostar.
Não sei exatamente quando aconteceu. Talvez tenha sido aos poucos, como quase tudo que realmente muda a gente. Um dia eu provei. Depois outro. E, quando percebi, aquilo que antes eu não gostava já tinha se tornado uma das pequenas coisas que eu gostava.
E agora eu gosto de morango.
Só que existe um problema nisso.
Eu gosto de morango e lembro de você.
E talvez você tenha percebido hoje.
Ou talvez não.
Porque eu passei o dia inteiro falando de morango para você.
Morango pra cá.
Morango pra lá.
Uma hora era sobre comer morango, outra era sobre gostar de morango, outra eu simplesmente dava um jeito de colocar morango no meio da conversa.
E você não entendeu.
Achou que eu estava falando de morango.
E eu estava.
Mas não estava só falando de morango.
Esse era o jogo.
Você funciona assim pra mim, como o morango hoje.
E o morango?
Ai vem na cabeça o morango, falo sobre o morango, penso no morango, o morango hoje como foi pra você.
É como se o morango tivesse instalado numa parte lá, e fica chato, repetitivo, e porque você tá falando do morango o dia inteiro? porque você escreve sobre o morango o dia inteiro?
nem você mesma se fosse um morango iria querer ouvir falar do morango o dia inteiro.
Imagina como deve ser para as pessoas que me ouvem falar de morango.
A graça estava justamente em deixar a palavra passar pela sua frente o dia inteiro sem explicar por que ela estava ali. Eu queria ver se, em algum momento, você perceberia que eu estava tentando dizer alguma coisa sem realmente dizer.
Porque, para qualquer outra pessoa, era só uma fruta.
Para mim, era você disfarçada de fruta.
E talvez seja engraçado pensar que eu passei o dia inteiro te falando de morango sem falar de você nenhuma vez.
Ou melhor, falando o tempo inteiro.
Penso nas coisas que você gosta, nos pequenos detalhes que talvez nem perceba que deixou pelo caminho. Na maneira como certos sabores parecem ter sido feitos para você, nas pequenas preferências que foram ficando conhecidas por mim quase sem perceber.
E morango acabou entrando nesse lugar.
Talvez porque tenha a mesma contradição que você carrega. Uma coisa bonita, doce, quase delicada, mas que também sabe ser intensa. Que não precisa fazer esforço para ocupar espaço. Que basta aparecer para mudar alguma coisa ao redor.
E existe uma parte engraçada nisso tudo.
Porque eu posso olhar para um morango hoje e pensar que é só um morango. Posso cortar, comer, deixar de lado. Mas em algum momento vou lembrar que existe uma pessoa que fez aquela fruta significar alguma coisa diferente.
Você me fez gostar de uma coisa que eu nunca gostei.
E talvez você nem saiba o tamanho disso.
Porque algumas pessoas passam pela nossa vida e deixam fotos. Outras deixam frases. Outras deixam lugares.
Você deixou tudo isso, incluindo gostos novos.
Deixou pequenas preferências espalhadas em mim, como se tivesse colocado um pouco de você em coisas que continuam existindo mesmo quando você não está.
E talvez, se algum dia ler essas palavras, vá entender imediatamente.
Talvez você entenda e finalmente perceba que eu estava tentando te contar uma coisa.
Que quando eu dizia morango, eu queria que você pensasse em você.
Que quando eu insistia em morango, talvez estivesse esperando que você percebesse a coincidência.
Que eu nunca gostei de morango.
Mas você me fez gostar.
E agora eu gosto de morango.
E por gostar de morango, eu lembro de você.
Talvez seja justamente por isso que eu não precise dizer seu nome.
Porque morango já basta.
Você sabe.
Eu sei.
E, no fim, existem coisas que só fazem sentido para duas pessoas. O resto do mundo pode olhar e enxergar uma fruta vermelha, bonita, doce, comum.
Eu olho e vejo tudo aquilo que, de alguma maneira, ficou associado a você.
O gosto.
A cor.
As coisas que você gosta.
E aquela brincadeira que você não entendeu .
Talvez agora entenda.
Talvez tenha entendido e só tenha fingido que não.
Mas tudo bem.
Alguns jogos são melhores quando a outra pessoa demora para descobrir a resposta.
E a minha resposta foi simples:
morango.
Porque eu nunca gostei de morango.
Até você.
E agora, toda vez que eu gosto de morango, eu lembro de você.
seus olhos.
Antes mesmo de entender o que estava acontecendo, eu já tinha encontrado alguma coisa nos olhos dela que não sabia explicar. Eu falava dos olhos porque era a maneira mais fácil de falar do que acontecia comigo quando olhava para ela. Pareciam ter profundidade suficiente para esconder tudo aquilo que eu não conseguia dizer. E talvez fosse exatamente por isso que eu gostasse tanto de mergulhar neles.
Porque havia dias em que o mundo parecia fundo demais.
As coisas lá fora tinham aquele peso que a gente tenta fingir que não sente. A vida seguia, as pessoas continuavam falando, os dias continuavam passando, mas existiam momentos em que tudo parecia difícil de levar. E então eu encontrava aqueles olhos.
Era como cair no mar sem ter medo de afundar.
Eu não precisava saber nadar. Não precisava saber para onde estava indo. Bastava entrar.
Talvez seja isso que algumas pessoas fazem com a gente. Elas não resolvem necessariamente aquilo que está quebrado, não apagam os problemas, não tornam o mundo mais fácil. Elas apenas conseguem fazer com que, por alguns instantes, a gente não precise lutar contra ele.
Ela era esse intervalo.
Eu podia passar horas tentando organizar dentro de mim aquilo que não tinha nome e, ainda assim, bastava olhar para ela para alguma coisa se aquietar. Havia um tipo de silêncio naqueles olhos que não era vazio. Era abrigo. Um lugar onde eu podia deixar todas as coisas que carregava sem precisar explicar por que elas pesavam tanto.
E talvez eu tenha amado também essa sensação.
A de ser recebido por alguém sem precisar chegar inteiro.
Eu acreditava que amar era isso: oferecer alguma coisa de si e perceber que, de alguma forma, aquilo também fazia o outro respirar melhor. Cada gesto pequeno parecia carregar uma energia que não precisava ser anunciada. Um cuidado aqui, uma presença ali, uma tentativa de estar perto quando o mundo ficava difícil. Como se amar fosse construir, aos poucos, um lugar onde dois poderiam descansar.
E eu queria ser esse lugar para ela também.
Talvez por isso a distância sempre tenha parecido tão cruel. Porque quando alguém se transforma em refúgio, a ausência deixa de ser simplesmente ausência. Ela começa a parecer uma porta fechada para um lugar onde você costumava conseguir respirar.
E ainda havia a saudade.
Aquela espécie de presença que continua existindo mesmo quando a pessoa não está. As lembranças permanecem vibrantes, ocupando espaços inesperados, aparecendo no meio de uma música, de uma noite, de um pensamento qualquer. Você percebe que algumas pessoas conseguem permanecer dentro da gente mesmo quando já não estão ao nosso lado.
Foi assim que ela ficou em mim.
Não como uma foto parada no passado, mas como uma paisagem que ainda aparece quando fecho os olhos.
E talvez seja por isso que aquela imagem do mar sempre tenha feito tanto sentido.
Porque eu não mergulhava apenas nos olhos dela.
Eu mergulhava naquilo que sentia quando estava ali.
Na tranquilidade que encontrava. Na versão de mim que aparecia quando não precisava me defender de nada. Na sensação de que, por alguns minutos, eu estava exatamente onde deveria estar.
Ao lado dela.
E talvez algumas pessoas sejam mesmo obra de alguma força que a gente não entende. Não necessariamente porque foram feitas para ficar para sempre, mas porque, em algum momento da nossa história, precisavam existir.
Ela existiu.
E me ensinou que existem olhos capazes de ser oceano.
Que existem abraços que parecem margem depois de muito tempo à deriva.
Que existe amor que não chega fazendo barulho, mas vai preenchendo os espaços vazios até a gente perceber que já não sabe exatamente onde termina a nossa solidão e começa a presença do outro.
Hoje, talvez eu entenda que mergulhar nos olhos dela nunca foi apenas sobre olhar.
Era sobre confiar.
Sobre fechar os olhos para o mundo por alguns segundos e acreditar que, se eu afundasse, alguém me encontraria.
E talvez seja essa a coisa mais bonita e mais dolorosa sobre amar alguém profundamente: às vezes, a pessoa se torna o mar onde você aprendeu a respirar.
E quando ela vai embora, você passa um tempo tentando descobrir como voltar a superfície.
Mas algumas profundidades não desaparecem.
A gente apenas aprende a carregá-las.
E eu ainda carrego aqueles olhos comigo.
Como quem um dia caiu no mar e, em vez de ter medo da profundidade, descobriu nela um lar.
dona.
Há músicas que a gente escuta.
E há aquelas que parecem ter guardado uma parte da nossa vida dentro delas.
Talvez seja por isso que, quando essa música toca, eu não escute apenas uma melodia. Eu escuto uma voz. A sua voz. Como se o tempo, por alguns minutos, esquecesse de continuar e devolvesse aquilo que um dia foi nosso.
Você cantava pra mim.
E talvez você nunca tenha percebido o tamanho disso.
Porque enquanto você cantava, eu não estava apenas ouvindo uma música. Eu estava vivendo uma pequena eternidade. Havia alguma coisa naquele momento que fazia o mundo parecer menos urgente. As coisas podiam esperar. A noite podia durar um pouco mais. E, por alguns instantes, parecia que nós dois éramos suficientes para preencher tudo aquilo que existia.
A música fala sobre sermos donos do amanhã se estivermos juntos.
E eu acho bonito pensar que, naquela época, nós realmente acreditávamos nisso.
Não porque éramos iguais, nunca fomos. Talvez justamente porque não éramos. Havia diferenças demais entre nós, distâncias demais, caminhos que às vezes pareciam apontar para lugares completamente diferentes. Mas existia uma coisa estranha e bonita mesmo sem sermos iguais, conseguíamos dividir o mesmo idioma, os mesmos sonhos.
As mesmas noites.
As mesmas ruas.
Os mesmos silêncios.
E, principalmente, a mesma história.
Hoje eu entendo que algumas pessoas entram na nossa vida como quem chega a uma cidade desconhecida e, sem perceber, começa a colocar placas nas ruas. Depois de um tempo, você já não sabe mais onde termina a cidade e onde começa a pessoa.
Você esteve em muitos lugares da minha.
Talvez seja por isso que lembrar de você nunca tenha sido simplesmente lembrar de alguém.
É lembrar de uma época.
De quem eu era.
De quem você era.
Daquilo que acreditávamos que seríamos.
E de tudo que ainda não sabíamos que perderíamos.
A vida, depois, colocou seus dragões na nossa frente.
Vieram as distâncias, os erros, as palavras que deveriam ter sido ditas e não foram, as verdades que demoraram a chegar, os caminhos que se separaram sem pedir licença. E nós fizemos o que quase todo mundo faz quando precisa sobreviver, seguimos andando.
Mas algumas histórias não desaparecem quando terminam.
Elas apenas mudam de lugar.
Deixam de morar no presente e passam a morar em algum canto silencioso da memória, onde continuam existindo sem exigir nada.
Você ficou ali.
Não como uma promessa.
Não como uma espera.
Mas como parte daquilo que fui.
E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de amar alguém que já não caminha ao nosso lado, aceitar que a pessoa pode deixar de pertencer a nossa vida sem deixar de pertencer a nossa história.
Porque você foi história.
E algumas histórias não precisam continuar para terem sido verdadeiras.
Às vezes eu penso naquela frase sobre a lua dançar.
E penso que talvez a lua tenha visto tudo.
Tenha visto duas pessoas jovens demais para entender a dimensão do que estavam vivendo, acreditando que algumas noites nunca terminariam. Tenha visto você cantar para mim enquanto eu guardava aquilo sem saber que um dia sentiria falta até da sua voz dizendo coisas que, naquele momento, pareciam tão simples.
Hoje, se eu pudesse voltar aquela noite, eu não pediria para mudar nada.
Nem os erros.
Nem o fim.
Nem aquilo que machucou.
Eu apenas ficaria mais alguns minutos.
Prestaria mais atenção.
Olharia para você enquanto cantava.
Porque existem momentos que só descobrimos que eram eternos depois que se tornam passado.
E você foi um desses momentos.
Talvez eu nunca mais encontre exatamente aquilo que existia entre nós. Não porque tenha sido perfeito, mas porque era nosso. E coisas verdadeiramente nossas não possuem substitutos.
Podemos amar novamente.
Podemos sorrir novamente.
Podemos construir outras histórias.
Mas nunca conseguimos voltar a ser exatamente aquelas duas pessoas que dividiram aquelas noites, aquelas ruas e aqueles sonhos.
E tudo bem.
Talvez crescer seja aprender que algumas pessoas não ficam.
Algumas pessoas nos atravessam.
E você me atravessou.
Deixou marcas que o tempo não apagou, apenas tornou mais silenciosas.
Por isso, quando essa música tocar, talvez uma parte de mim ainda procure a sua voz no meio dela.
E talvez eu sorria.
Porque um dia você esteve aqui.
Porque um dia nós fomos jovens, fomos intensos, fomos imperfeitos e fomos felizes de um jeito que só conseguimos compreender depois.
E se existe alguma coisa que eu gostaria de brindar hoje, não é ao que poderíamos ter sido.
É ao que fomos.
A nossa história.
As noites que ninguém pode nos devolver, mas também ninguém pode nos tirar.
E, principalmente, a menina que um dia cantou essa música para mim e, sem saber, fez com que ela deixasse de ser apenas uma música.
Ela virou memória.
Virou saudade.
Virou um pedaço de céu guardado dentro de uma canção.
E talvez seja por isso que, mesmo depois de tantos caminhos, quando eu ouço aquelas palavras, ainda existe uma pequena parte de mim que olha para a lua e pensa:
que bom que, em algum momento da vida, você esteve aqui.
Nossa história.
Nossa história.
E, onde quer que o tempo tenha levado cada um de nós, essa parte ninguém consegue apagar.
Você fez eu gostar mim,
Dona.
Dona do meu pensamento.
Você.
Nossa história. e se puder, me faça tocar o céu, Lua... venha sorrir de novo pra mim.
catching lightning
Eles não avisam quando vem.
Você pode passar uma vida inteira olhando para o céu e nunca estar no lugar certo, na hora certa, com os olhos voltados para cima. Pode ouvir trovões de longe, assistir tempestades pela janela, ver o céu se partir em luz durante alguns segundos e ainda assim nunca tocar naquilo. Porque ser atingido por um raio não é apenas difícil. É quase absurdo.
E talvez seja por isso que algumas pessoas parecem tempestades.
Elas chegam sem pedir licença, iluminam alguma coisa dentro da gente que estava há muito tempo no escuro e, quando a gente percebe, já não sabe mais se estava procurando por elas ou se apenas teve a sorte improvável de estar olhando para o céu no instante certo.
Foi assim que algumas histórias começaram.
Não com grandes promessas. Não com a certeza de que durariam para sempre. Às vezes começaram apenas com dois desconhecidos em uma festa aleatória, numa química absurda descobrindo que conseguiam conversar por horas, rir das mesmas coisas, encontrar abrigo um no outro e, sem perceber, transformar dias comuns em lembranças que o tempo teria dificuldade de apagar.
E então veio a parte que ninguém conta nas histórias de amor.
O futuro.
Porque amar alguém enquanto tudo está dando certo é quase fácil. Difícil é continuar acreditando quando a vida começa a colocar quilômetros, silêncio, mudanças e versões diferentes de vocês mesmos no caminho.
É aí que a dança começa.
Não aquela dança perfeita dos filmes, em que ninguém erra o passo e os dois sabem exatamente para onde ir.
A verdadeira.
Aquela em que um avança enquanto o outro hesita.
Em que às vezes alguém pisa no pé.
Em que uma mão se solta por alguns segundos e, ainda assim, existe alguma coisa dentro dos dois procurando o caminho de volta.
Então te pergunto
“Can I have this dance?”
Nunca foi apenas sobre uma dança.
É quase como perguntar
Você ainda segura minha mão mesmo sem saber onde isso termina?
Você ainda confia em mim quando a música muda?
Se eu tropeçar, você fica?
E talvez a resposta mais bonita não seja uma promessa de eternidade.
Talvez seja simplesmente:
eu não sei.
Mas ainda quero dançar.
Porque ninguém sabe.
Ninguém que ama de verdade recebe um mapa mostrando onde aquela história vai terminar. Não existe garantia de que duas pessoas permanecerão iguais enquanto a vida acontece ao redor delas. Não existe contrato contra a distância, contra o tempo, contra os erros ou contra aquilo que cada um ainda precisa aprender sozinho.
Existe apenas a escolha de continuar dando um passo.
Depois outro.
E outro.
Até perceber que, de alguma maneira, os dois já atravessaram uma parte enorme da música.
Talvez por isso encontrar alguém seja tão raro.
Não raro como encontrar alguém bonito.
Não raro como encontrar alguém que goste das mesmas músicas, tenha os mesmos planos ou consiga preencher perfeitamente os espaços vazios.
Raro como um raio.
Porque existem bilhões de pessoas.
Milhares de encontros possíveis.
Centenas de histórias que poderiam ter acontecido.
E, entre todas essas possibilidades, duas pessoas específicas precisam nascer na mesmo época(4 ANOS NÃO É NADA), cruzar os mesmos caminhos, dizer certas palavras, estar disponíveis naquele instante, olhar uma para a outra de determinada maneira e reconhecer alguma coisa que talvez nem saibam explicar.
A probabilidade de ser atingido por um raio é pequena.
Mas menor ainda talvez seja a chance de encontrar alguém que, depois de tudo, ainda consiga fazer você olhar para trás e pensar
“Como é que, entre tanta gente no mundo, foi justamente você?”
E é aí que a história deixa de parecer coincidência.
Não porque o destino tenha garantido um final.
Mas porque algumas pessoas são importantes demais para serem explicadas apenas pela estatística.
Talvez algumas apareçam para ficar.
Talvez outras apareçam para ensinar.
Talvez algumas precisem ir embora para que a gente compreenda o tamanho do espaço que ocupavam.
E talvez existam aquelas histórias que não cabem em nenhuma dessas categorias.
Histórias que terminam sem realmente parecer terminadas.
Que continuam existindo em pequenas coisas: uma música, uma lembrança, uma frase, uma cidade distante, uma noite qualquer em que o passado bate a porta sem avisar, você sabe que eu não mordo, né?
E então a gente entende que o tempo não apaga tudo.
Às vezes ele apenas muda a maneira como carregamos.
Eu não sei onde essa música termina.
Talvez ninguém saiba.
Mas existe alguma beleza em admitir isso.
Porque talvez amar alguém nunca tenha sido sobre saber se chegaremos ao último acorde.
Talvez tenha sido sobre olhar para a pessoa ao lado, estender a mão e perguntar novamente, mesmo depois de tudo:
“Can I have this dance?”
E se ela aceitar, não importa quantos passos já foram errados.
Não importa quantas vezes a música tenha parado.
Não importa quantos quilômetros existam entre um lugar e outro.
A gente começa de novo.
Devagar.
Sem prometer que nunca vamos cair.
Apenas lembrando que, quando duas pessoas realmente querem continuar dançando, elas não precisam conhecer o próximo passo.
Precisam apenas confiar que, quando ele chegar, haverá uma mão esperando pela outra.
E talvez seja isso que torna algumas histórias tão improváveis.
Não o fato de terem acontecido.
Mas o fato de, entre todos os raios que poderiam nunca ter caído, um ter escolhido exatamente aquele pedaço do céu.
não me importa quanto tempo vai levar.
Talvez o problema nunca tenha sido falta de amor.
Talvez tenha sido excesso de certeza.
Aquela certeza perigosa de quem acredita que algumas pessoas não precisam ser escolhidas todos os dias porque, de algum jeito, elas já escolheram ficar.
E foi assim que ele aprendeu uma das coisas mais caras sobre amar alguém, não basta sentir. É preciso perceber.
Perceber quando uma conversa está sendo adiada demais.
Quando um abraço deveria durar mais alguns segundos.
Quando alguém está tentando dizer alguma coisa sem encontrar coragem para usar as palavras.
Porque o amor raramente acaba como nos filmes.
Posso me basear no Diário de Uma Paixão, mas
Não existe sempre uma última frase, uma porta batendo ou uma despedida perfeita.
Às vezes ele vai ficando menor em detalhes tão insignificantes que ninguém percebe.
Uma mensagem que não foi respondida direito.
Um encontro que poderia ter acontecido.
Um "depois a gente conversa".
Um orgulho que parecia tão pequeno naquele momento.
E, quando você percebe, já está tentando lembrar em qual dessas pequenas coisas começou a perder alguém.
Ele demorou para entender isso.
Achava que amar era uma coisa grandiosa. Que precisava de declarações, planos impossíveis, promessas que coubessem em anos.
Mas descobriu que talvez o amor more justamente no contrário.
Em prestar atenção.
Em lembrar de uma coisa que a pessoa disse semanas atrás.
Em perguntar como foi o dia e realmente querer saber.
Em escolher ficar mais cinco minutos quando seria mais fácil ir embora.
Em olhar para alguém e pensar:
eu não quero descobrir o valor disso depois.
Talvez maturidade seja isso.
Não saber amar perfeitamente, porque ninguém sabe.
Mas aprender a reconhecer aquilo que não deveria ser tratado como garantido.
Porque existe uma diferença enorme entre ter alguém e continuar tendo alguém.
A primeira coisa pode acontecer por acaso.
A segunda exige presença.
E talvez seja por isso que algumas pessoas só entendam o tamanho de um amor quando já não podem mais alcançá-lo com a mesma facilidade.
Não porque eram ruins.
Não porque não sentiam.
Mas porque confundiram sentimento com permanência.
E permanência nunca foi promessa.
Naquela noite, ele não queria voltar no tempo.
Queria apenas ter tido os olhos que tinha agora quando ainda havia tempo.
E talvez essa seja a parte mais bonita de tudo:
nem todo arrependimento precisa terminar em tristeza.
Alguns servem como mapa.
Mostram onde erramos para que, quando a vida colocar outra pessoa diante de nós, não precisemos aprender a mesma lição duas vezes.
Porque talvez o amor não esteja procurando alguém que nunca erre.
Talvez esteja procurando alguém que, quando finalmente encontrar algo verdadeiro, tenha coragem de não deixar para amanhã aquilo que merece ser vivido hoje.
E talvez, no fim das contas, seja disso que aquela velha frase realmente fale.
Não sobre esperar alguém voltar.
Mas sobre perceber que, enquanto houver tempo, ainda existe uma escolha.
E algumas escolhas são simples:
olhar.
ficar.
dizer.
tentar.
amar.
Antes que o amor precise partir para finalmente ser compreendido.
Porque as vezes ainda não é tarde demais.
Só é preciso parar de agir como se fosse cedo demais.
suspicaz.
Cheguei em casa e não acendi a luz.
Não porque estivesse com medo.
Era só que, depois de certo tempo, você começa a perceber que algumas coisas ficam mais nítidas no escuro.
Deixei a chave sobre a mesa, tirei o relógio, sentei no sofá e fiquei ali. Sem música. Sem televisão. Sem aquela necessidade moderna de preencher cada segundo com alguma coisa.
Naquela noite, entendi uma coisa estranha:
ninguém tinha armado uma tocaia para mim.
Eu mesmo tinha armado.
Durante anos, desconfiei de todo mundo. Li segundas intenções onde talvez só existissem palavras mal colocadas. Esperei a mentira antes da verdade. Guardei sentimentos como quem guarda munição. Quando alguém se aproximava demais, eu já imaginava a distância que teria de atravessar depois.
Chamava aquilo de experiência.
Era medo com um nome bonito.
O problema de viver esperando o tiro é que, depois de um tempo, você começa a atirar primeiro.
Não necessariamente nos outros.
Às vezes, atira em coisas que poderiam ter dado certo.
Em conversas que poderiam ter sido honestas.
Em pessoas que talvez tivessem ficado.
Em versões de mim mesmo que ainda sabiam confiar.
Percebi isso sentado no escuro.
A pior tocaia não é aquela preparada por quem quer te derrubar.
É aquela que você prepara para impedir alguém de chegar perto o suficiente para fazer isso.
E então veio a parte difícil.
Não havia vilão para culpar.
Não havia mensagem escondida, traição conveniente ou monstro esperando atrás da porta.
Havia apenas eu.
Um homem cansado, segurando a própria vida com tanta força que já não sabia se estava protegendo alguma coisa ou impedindo que ela respirasse.
E talvez essa tenha sido a primeira vez em muito tempo que eu não tentei fugir dessa conclusão.
Fiquei sentado.
Olhei para o escuro.
E deixei que ela doesse um pouco.
Porque talvez eu tenha passado tanto tempo tentando descobrir quem poderia me machucar que nunca parei para perceber quantas coisas eu estava machucando sozinho.
Na manhã seguinte, saí de casa.
Não estava curado.
Não estava transformado.
Não tinha aprendido nenhuma grande lição.
Só deixei a porta destrancada.
Talvez fosse pouco.
Mas, para alguém que passou tanto tempo construindo armadilhas para não ser ferido, aquilo já parecia quase uma revolução.
Porque talvez confiar não seja acreditar que ninguém vai me machucar.
Talvez seja simplesmente aceitar que, se eu passar a vida inteira tentando impedir qualquer possibilidade de dor, também vou acabar impedindo qualquer possibilidade de amor.
E eu já não queria viver assim.
Não queria mais confundir distância com segurança.
Nem silêncio com controle.
Nem medo com experiência.
Naquele dia, não prometi que nunca mais teria medo.
Só prometi que, da próxima vez que alguém chegasse perto, eu tentaria não preparar a tocaia antes de abrir a porta.
napoli.
Eu ainda não conheço Napoli.
E talvez seja justamente por isso que Napoli tenha conseguido existir tanto dentro de mim.
Antes de conhecer uma cidade, a gente inventa uma versão dela. Junta fotos, histórias, músicas, filmes, partidas de futebol, prédios antigos, ruas que nunca atravessou e um mar que só conhece pela tela. Vai montando, aos poucos, um lugar que talvez nem exista exatamente daquele jeito.
Mas existe Napoli.
Pelo menos a Napoli que eu imagino.
Napoli, para mim, começa antes do avião pousar.
Começa naquele instante em que eu imagino sair de algum lugar e simplesmente caminhar sem saber direito para onde estou indo. Napoli sendo o nome das placas, o idioma nas conversas, as roupas penduradas entre os prédios, o barulho das pessoas atravessando uma rua estreita enquanto alguma janela permanece aberta.
Eu imagino Napoli assim.
Imperfeita.
Viva.
Um pouco suja, um pouco caótica, um pouco triste.
Bonita justamente porque não parece estar preocupada em ser.
Napoli não é uma foto que eu quero visitar.
É uma sensação que eu quero descobrir se existe.
Eu penso em Napoli e penso no Vesúvio.
Não pelo vulcão em si, mas pela ideia de uma cidade inteira vivendo diante de alguma coisa que poderia destruí-la e, ainda assim, acordando todos os dias para continuar.
Isso me fascina.
Talvez porque eu goste de lugares que carregam uma ameaça sem precisar falar sobre ela.
Napoli parece ter alguma coisa disso.
Uma cidade que sabe que o chão pode tremer, que o passado pode voltar em forma de cinzas, que o mar pode guardar histórias demais, mas que ainda assim existe café pela manhã, futebol à tarde e gente voltando para casa à noite.
É assim que eu imagino Napoli.
Não como um paraíso.
Como um lugar humano.
Eu imagino o futebol em Napoli quase como uma religião antiga. Imagino o nome de Maradona ainda atravessando paredes, camisas, conversas, crianças que talvez nem tenham nascido quando ele jogava, mas cresceram ouvindo que houve um homem que fez uma cidade acreditar em alguma coisa.
E talvez seja isso que eu procuro quando penso em Napoli.
Não uma cidade perfeita.
Uma cidade que acredita.
Napoli acredita no futebol.
Napoli acredita no mar.
Napoli acredita na própria história.
Napoli acredita até nas próprias contradições.
E talvez eu queira acreditar também.
Às vezes penso em como seria estar em Napoli sem ter nada para fazer.
Sem roteiro.
Sem obrigação.
Sem aquela pressa de transformar cada lugar em foto.
Só estar.
Sentar em algum lugar e observar uma cidade que eu passei tanto tempo imaginando finalmente existir na minha frente.
Talvez eu olhasse para o Vesúvio.
Talvez para o mar.
Talvez para uma rua qualquer.
E provavelmente pensaria:
"Então era isso que eu estava tentando imaginar."
Mas existe uma coisa ainda mais bonita em não conhecer Napoli.
Eu ainda posso sonhar.
Ainda posso colocar em Napoli tudo aquilo que procuro no mundo.
A possibilidade de recomeçar.
A sensação de estar longe o suficiente para ouvir meus próprios pensamentos.
A liberdade de ser desconhecido.
A melancolia de perceber que uma vida pode caber em outro lugar.
Eu não sei se Napoli é assim.
Talvez não seja.
Talvez eu chegue lá e descubra que algumas das coisas que inventei nunca existiram.
Talvez o café seja apenas café.
Talvez as ruas sejam mais barulhentas do que bonitas.
Talvez o Vesúvio não pareça tão imenso.
Talvez Napoli não tenha nada da Napoli que eu criei.
E tudo bem.
Porque existe uma beleza estranha em desejar um lugar antes de conhecê-lo.
Você começa a construir uma casa dentro de uma cidade onde ainda não colocou os pés.
Napoli é essa casa, por enquanto.
Uma casa imaginada.
Um nome repetido.
Napoli.
Napoli.
Napoli.
Como se repetir fosse uma maneira de aproximar.
E talvez um dia eu chegue…
Talvez eu desça do avião, respire aquele ar pela primeira vez e perceba que a cidade real é completamente diferente da cidade que construí na cabeça.
Mas talvez, no meio de alguma rua qualquer, com o Vesúvio aparecendo ao longe e o mar existindo onde eu só conhecia por fotos imaginárias, eu entenda uma coisa
Alguns lugares a gente visita pela primeira vez duas vezes.
A primeira é quando chega.
A segunda é quando percebe que passou anos sonhando com aquele momento.
E quando esse dia chegar, eu não vou querer que Napoli seja exatamente como imaginei.
Vou querer apenas olhar para ela e pensar:
Napoli.
Então era você.
A cidade que eu conheci antes de chegar.
fantasma oficial.
Ela tem um jeito estranho de fazer o mundo parecer menos barulhento.
Não sei exatamente quando comecei a perceber isso. Talvez tenha sido antes mesmo de admitir que estava olhando diferente para ela. Porque algumas pessoas chegam na nossa vida fazendo presença, ocupando espaço, querendo ser notadas. Ela não. Ela simplesmente existe, e de algum jeito isso já basta para mudar o ambiente inteiro. É como se houvesse alguma coisa nela que não precisasse pedir atenção, porque a atenção simplesmente vai até ela.
E eu gosto de olhar para ela.
Não daquele jeito apressado de quem olha só para admirar. Eu gosto de olhar como quem tenta entender. Como se houvesse alguma coisa escondida atrás dos olhos dela que eu ainda não consegui alcançar completamente. E talvez seja justamente isso que me prende. Ela não parece inteira na superfície. Existe sempre alguma coisa acontecendo por dentro, mesmo quando ela não diz nada.
Às vezes eu fico pensando no quanto alguém pode caber dentro de um olhar.
Porque quando olho para ela, não vejo só o rosto que eu gosto, o sorriso que me desmonta ou os pequenos gestos que talvez ela nem perceba que faz. Eu vejo uma história. Vejo tudo aquilo que ela precisou ser para chegar até aqui. Vejo a parte doce, a parte cansada, a parte que ainda acredita nas coisas mesmo depois de ter motivos suficientes para não acreditar mais. E talvez eu goste dela justamente por enxergar essas contradições.
Ela consegue ser forte sem parecer dura.
Consegue ser doce sem parecer frágil.
E existe alguma coisa nisso que me faz querer ficar perto.
Não para consertá-la, porque eu nunca achei que ela precisasse ser consertada. Talvez seja o contrário. Eu só queria conhecer as partes dela que quase ninguém conhece. As coisas que ela pensa quando está sozinha. O que passa pela cabeça dela quando o mundo fica quieto. Os medos que ela esconde atrás de um sorriso. As coisas pequenas que fazem o coração dela ficar leve.
Queria saber o que ela vê quando olha para o céu sem motivo.
Queria saber qual lembrança ainda mora nela mesmo depois de tantos anos.
Queria saber quais sonhos ela abandonou pelo caminho e quais ainda guarda em segredo.
Porque gostar dela, para mim, nunca foi simplesmente gostar da presença. É querer atravessar a superfície.
E talvez esse seja o perigo.
Quanto mais eu olho, mais fundo parece.
É como se eu mergulhasse nos olhos dela sem perceber que estava deixando a margem para trás. E quando percebo, já não estou mais tentando entender quem ela é. Estou apenas ali, dentro daquele sentimento estranho de querer conhecer alguém sem precisar transformar isso em posse.
Eu não quero que ela seja minha porque eu não acho que pessoas devam pertencer umas às outras.
Eu quero que ela escolha ficar.
E existe uma diferença enorme nisso.
Porque se um dia ela olhar para mim e decidir permanecer, eu quero que seja porque encontrou em mim um lugar onde não precisa diminuir nenhuma parte de quem é. Quero que ela possa chegar cansada, confusa, feliz, perdida, exagerada, silenciosa, e ainda assim sentir que pode ser exatamente quem é.
Talvez seja isso que eu sinto quando penso nela.
Não é só vontade.
Não é só saudade.
Não é só encanto.
É uma espécie de paz inquieta.
Como se alguma parte de mim tivesse encontrado alguma coisa que não estava procurando.
E talvez eu nunca consiga explicar exatamente o que existe nela que me faz sentir assim. Talvez algumas pessoas simplesmente não sejam feitas para serem explicadas. São feitas para serem sentidas.
E ela é assim para mim.
Eu olho para ela e, por alguns segundos, esqueço que existe um mundo inteiro acontecendo do lado de fora.
Talvez porque, quando mergulho nos olhos dela, eu não esteja procurando uma saída.
Estou procurando o fundo.
E, pela primeira vez, não tenho pressa nenhuma de voltar à superfície.
antes de mim.
Naquela noite eu recebi uma ligação de um número que não existia.
Não era número privado. Não era desconhecido.
Simplesmente não existia.
Ainda assim, atendi.
- Alô?
Do outro lado, silêncio.
Depois uma voz.
A minha.
- Não vá dormir hoje.
Eu ri.
Não porque fosse engraçado. Ri porque algumas coisas assustam menos quando a gente finge que são ridículas.
- Quem é?
- Você.
- Isso não tem graça.
- Eu sei.
A ligação caiu.
Fiquei olhando para o telefone por alguns segundos, esperando alguma explicação aparecer na tela. Nada.
Joguei o celular na cama e tentei esquecer.
Cinco minutos depois, bateram na porta.
Três batidas.
Sempre três.
Levantei.
Não havia ninguém.
Só um envelope no chão.
Meu nome estava escrito à mão.
Dentro havia uma foto.
Era uma foto minha dormindo.
No verso, uma frase:
“Você tem oito horas.”
Eu deveria ter chamado alguém.
Não chamei.
Talvez porque, no fundo, uma parte de mim já soubesse que aquilo não tinha começado naquela noite.
Passei a madrugada tentando encontrar uma explicação.
Procurei a origem do número.
Nada.
Revirei mensagens antigas.
Nada.
Olhei as câmeras.
Às 02:13, alguém entrou.
Era eu.
A mesma roupa que eu estava usando.
O mesmo rosto.
A mesma cicatriz pequena perto da sobrancelha.
Eu parei o vídeo.
Voltei.
Assisti de novo.
Eu entrava em casa às 02:13.
Mas eu estava em casa.
Sentado na frente daquela tela.
O vídeo continuava.
Eu aparecia no corredor.
Parava diante da minha porta.
Olhava diretamente para a câmera.
E sorria.
Depois levantava a mão.
Três batidas.
A gravação terminava.
Eu olhei para a minha porta.
Três batidas vieram do outro lado.
Não abri.
Às 05:40, alguém bateu novamente.
Dessa vez, uma mulher falou meu nome.
Eu conhecia aquela voz.
Era impossível.
Ela tinha morrido há seis meses.
Fiquei parado no meio da sala.
Ela disse:
- Você prometeu que não faria isso de novo.
Não respondi.
- Eu sei que você está aí.
Meu corpo inteiro ficou frio.
- O que eu fiz?
Silêncio.
Depois:
- Ainda não fez.
Às 06:15, recebi outra mensagem.
Uma localização.
Um endereço que eu não reconhecia.
Abaixo, apenas:
“Se quiser saber por que todos estão tentando impedir você, venha sozinho.”
Fui.
Não sei por quê.
Talvez porque algumas perguntas sejam mais perigosas quando ficam sem resposta.
O lugar era uma casa abandonada.
Entrei.
Havia fotos nas paredes.
Centenas.
Todas minhas.
Eu criança.
Eu adolescente.
Eu adulto.
Eu dormindo.
Eu chorando.
Eu dirigindo.
Eu trabalhando.
Eu abraçando pessoas.
Eu terminando relacionamentos.
Eu sozinho.
E então encontrei uma foto que me fez parar.
Era eu, sentado naquela mesma casa.
Com cinquenta e poucos anos.
Ao meu lado havia uma mulher.
Não reconheci.
Atrás da foto estava escrito:
“Primeira tentativa.”
Outra foto.
Eu, mais velho.
Sozinho.
“Segunda tentativa.”
Outra.
Eu sorrindo.
Uma família ao meu redor.
“Terceira tentativa.”
E então uma última.
Eu, exatamente como estava naquela manhã.
Abaixo:
“Quarta tentativa.”
Foi quando ouvi passos.
Virei.
Um homem entrou.
Eu conhecia aquele rosto.
Era o homem do vídeo.
Era eu.
Só que mais velho.
Muito mais velho.
Ele fechou a porta.
- Finalmente.
- O que está acontecendo?
Ele sentou.
- Você vai me odiar.
- Quem é você?
Ele respirou fundo.
- Sou a única versão sua que conseguiu chegar até aqui.
- Até onde?
Ele olhou para o relógio.
06:59.
- Até antes da escolha.
Ele explicou tudo como se estivesse contando uma história que já tinha contado muitas vezes.
Disse que aquela noite acontecia repetidamente.
Sempre.
Eu recebia a ligação.
Recebia a foto.
Via as câmeras.
Ia até aquela casa.
Encontrava ele.
E então precisava escolher.
Existiam quatro possibilidades.
Em uma, eu permanecia exatamente como era.
Em outra, mudava tudo.
Na terceira, esquecia completamente aquela noite.
Na quarta...
Ele parou.
- Na quarta, você me mata.
Eu ri.
- Por que eu faria isso?
Ele olhou para mim.
- Porque eu sou a única coisa impedindo você de ter a vida que quer.
- Que vida?
Ele não respondeu.
Foi até uma parede.
Havia uma porta.
Uma porta que eu não tinha visto antes.
Ele colocou a mão na maçaneta.
- Você precisa escolher antes das oito.
- E se eu não escolher?
- Já escolheu.
- O quê?
Ele abriu a porta.
Do outro lado havia meu quarto.
O meu quarto.
Exatamente como estava naquela noite.
Minha cama.
Meu celular.
A janela.
O envelope.
Tudo.
Eu entrei.
Na cama havia alguém dormindo.
Eu.
Ele estava dormindo profundamente.
O homem mais velho apareceu atrás de mim.
- Essa é a primeira vez.
- Primeira vez o quê?
- A primeira vez que você conseguiu chegar até aqui sem lembrar.
Olhei para o homem na cama.
- Então quem é ele?
O velho ficou em silêncio.
- Você.
- Não.
- Sim.
- Mas eu estou aqui.
Ele sorriu.
- Esse é o problema.
O relógio marcou 07:59.
Uma sirene começou a tocar em algum lugar distante.
Eu olhei novamente para a cama.
O homem dormindo abriu os olhos.
Sentou.
Olhou diretamente para mim.
E falou:
- Não vá dormir hoje.
Eu senti o sangue desaparecer do rosto.
Era a mesma frase.
A mesma voz.
A minha voz.
O velho começou a chorar.
- Não...
- O quê?
- Dessa vez foi diferente.
- O que foi diferente?
Ele apontou para mim.
- Você nunca deveria ter me visto.
A luz apagou.
Por alguns segundos, não existiu absolutamente nada.
Então ouvi uma porta fechando.
Quando a luz voltou, o velho tinha desaparecido.
A casa estava vazia.
As fotos haviam sumido.
A porta também.
Só havia uma coisa sobre a mesa.
Meu celular.
Ele estava tocando.
Olhei para a tela.
Era uma chamada recebida.
O número não existia.
Atendi.
Do outro lado, silêncio.
Depois uma voz:
- Alô?
Era minha voz.
Mas dessa vez eu não falei nada.
A voz continuou:
- Quem é?
Eu reconheci a frase.
Era exatamente o que eu havia dito naquela noite.
Então percebi.
A história não estava se repetindo.
Eu estava dentro dela.
Eu não tinha recebido uma ligação do futuro.
Eu estava ligando para o passado.
E o homem que eu havia encontrado não era uma versão futura minha.
Era a versão que existia antes de mim.
A quarta tentativa.
A terceira.
A segunda.
A primeira.
Todas as vidas.
Todas as mortes.
Todos aqueles homens.
Não eram versões diferentes.
Eram pessoas diferentes que tinham recebido a mesma ligação.
Todas achando que eram eu.
Todas tentando descobrir quem começou aquilo.
Todas chegando àquela mesma casa.
Todas encontrando alguém mais velho esperando por elas.
Até que uma delas finalmente entendesse.
Não havia nenhum primeiro homem.
Não havia começo.
Só havia o próximo.
A ligação continuava.
Eu poderia desligar.
Poderia falar.
Poderia perguntar.
Mas alguma coisa me impediu.
Então fiz a única coisa que ainda não tinha feito.
Olhei para o relógio.
08:00.
E disse:
- Não vá dormir hoje.
A ligação caiu.
Fiquei parado.
Esperando.
Três batidas vieram da porta.
Eu não me mexi.
Mais três.
Depois ouvi minha própria voz do outro lado:
- Quem é?
Eu olhei para a porta.
E, pela primeira vez, entendi o que estava acontecendo.
Não havia alguém tentando entrar.
Havia alguém tentando sair.
E eu não sabia mais de qual lado da porta estava.
Fim.
Ou talvez só mais uma tentativa.
o dado.
Dizem que existem decisões que não parecem decisões quando chegam. Parecem portas. Você olha para elas e sabe que, depois de atravessar, alguma coisa vai ficar para trás.
Naquela noite, ele colocou um dado sobre a mesa.
Era pequeno. Branco. Com os números pretos perfeitamente desenhados nas faces. Uma coisa ridiculamente simples para carregar o peso de uma vida inteira.
Você sabe como funciona - disse o homem sentado do outro lado da mesa.
Ele sabia.
Um dado justo tinha seis faces. Seis possibilidades. Cada uma com exatamente 16,67% de chance de aparecer.
Mas aquele não era um dado comum.
Cada número representava uma vida.
E para jogar, ele teria que entregar a que já tinha.
Não existia voltar depois.
O número 1 era a vida medíocre.
Não era uma vida ruim. Talvez esse fosse justamente o problema.
Ele teria trabalho, teria dinheiro suficiente para pagar as contas, algumas pessoas ao redor, alguns domingos felizes, algumas sextas-feiras vazias. Amaria alguém, talvez. Teria uma casa, um carro, fotografias de momentos que um dia pareceriam importantes. Nada seria grande o bastante para destruí-lo, mas nada seria grande o bastante para fazê-lo sentir que realmente venceu.
Uma vida inteira sem tragédia.
E sem milagre.
16,67%.
O número 2 era pior.
Uma vida onde tudo funcionava, menos aquilo que importava.
Ele teria estabilidade, mas acordaria cansado. Teria amigos, mas se sentiria sozinho no meio deles. Teria dinheiro suficiente para comprar coisas e pouco tempo para aproveitá-las. Amaria, mas sempre existiria alguma coisa faltando. Um tipo de vida que não machuca de uma vez apenas desgasta.
Aquela era a vida de quem envelhece perguntando onde foi parar o tempo.
16,67%.
O 3 era diferente.
Ali existia uma espécie de felicidade calma.
Não haveria fortuna, nem histórias dignas de filme. Mas haveria paz.
Uma pessoa esperando por ele em casa.
Um cachorro correndo pela sala.
Café feito de manhã.
Uma mesa cheia em alguns domingos.
Uma vida pequena, mas inteira.
Ele poderia olhar pela janela aos cinquenta anos e pensar:
Eu não tive tudo.
E, pela primeira vez, aquilo não seria uma reclamação.
Seria suficiente.
16,67%.
Então havia o 4.
O homem sorriu quando falou dele.
- Essa é a vida que todo mundo acha que quer.
Dinheiro.
Muito dinheiro.
Sucesso.
Viagens.
Casas enormes.
Carros.
O tipo de vida em que ninguém pergunta quanto custa.
O tipo de vida em que os problemas passam a ter números.
Mas havia uma condição.
O 4 não prometia amor.
Poderia existir.
Poderia não existir.
Ele poderia passar a vida inteira comprando coisas que não sabia com quem dividir.
16,67%.
O 5 era o mais perigoso.
Porque não prometia dinheiro.
Não prometia fama.
Prometia algo muito pior de desejar:
a possibilidade de encontrar o amor da vida.
Aquela pessoa.
Não uma pessoa boa.
Não alguém compatível.
Não alguém que simplesmente ficasse.
Aquela pessoa que faria o mundo parecer ter sido construído para que os dois se encontrassem.
O problema era que ninguém sabia quanto tempo duraria.
Talvez fosse para sempre.
Talvez fossem dez anos.
Talvez três meses.
Talvez ele tivesse a sorte de encontrá-la aos vinte e cinco e o azar de perdê-la aos trinta.
Mas a chance estava ali.
16,67%.
E então existia o 6.
O homem ficou em silêncio antes de falar.
- O seis é a morte.
Ele olhou para o dado.
Não havia metáfora.
Não havia segunda chance.
Se caísse seis, terminava.
Não existiria dinheiro.
Não existiria amor.
Não existiria arrependimento.
Não existiria amanhã.
16,67%.
Ele encarou o objeto por alguns segundos.
- Então são cinco vidas e uma morte?
- Não.
- Não?
- São seis vidas. Uma delas só termina mais cedo.
Aquilo o incomodou.
Porque era verdade.
A morte não era uma possibilidade fora do jogo.
Ela estava em uma das faces.
Como estava escondida em todas as vidas que ele poderia viver.
Ele pegou o dado.
E naquele instante percebeu a verdadeira crueldade da proposta.
Não estava jogando para ganhar.
Estava jogando para trocar.
Se escolhesse não jogar, continuaria vivendo a vida que tinha.
Com os erros que já conhecia.
Com as pessoas que já conhecia.
Com os amores que deram certo e os que deram errado.
Com o dinheiro que tinha ou não tinha.
Com os sonhos ainda distantes.
Com aquela versão de si mesmo que, apesar de tudo, continuava respirando.
Se jogasse, poderia ganhar tudo.
Poderia perder tudo.
Poderia encontrar o amor que sempre imaginou.
Poderia acordar rico.
Poderia viver uma vida tranquila.
Poderia passar décadas sentindo que escolheu a existência errada.
Ou poderia simplesmente morrer.
E talvez fosse isso que ninguém entendia sobre sorte.
A gente fala em ganhar quando aposta alguma coisa.
Mas toda aposta começa com uma perda.
Ele fechou o dado na mão.
Pensou nas manhãs que ainda não tinham acontecido.
Pensou em alguém que ainda não conhecia.
Pensou nas versões de si mesmo que nunca existiriam se ele permanecesse exatamente onde estava.
Pensou em todas as vezes em que desejou uma vida diferente sem perceber que uma vida diferente também significava perder aquela que possuía.
Então levantou a mão.
Por um segundo, o mundo inteiro coube dentro daquele pequeno objeto.
Seis faces.
Cinco futuros.
Uma morte.
E uma única certeza:
a vida que ele tinha estava sendo trocada pela possibilidade de uma vida que ele sequer conhecia.
Ele lançou o dado.
O som dele batendo na madeira pareceu alto demais.
Uma volta.
Duas.
Três.
Quatro.
O dado começou a perder força.
E, enquanto girava, ele percebeu a coisa mais assustadora de todas:
pela primeira vez na vida, ele não estava com medo do resultado.
Estava com medo de descobrir que a vida que desejava nunca foi a que estava do outro lado do dado.
Talvez fosse aquela.
A que ele estava prestes a perder.
O dado parou.
Ele não olhou imediatamente.
Ficou alguns segundos encarando aquela pequena coisa imóvel sobre a mesa.
Porque enquanto o número estivesse virado para baixo, todas as vidas ainda existiam.
O amor ainda era possível.
O dinheiro ainda era possível.
A felicidade ainda era possível.
A morte ainda não tinha acontecido.
E a vida que ele tinha...
ainda era dele.
Então ele entendeu.
Talvez o maior golpe da sorte não seja aquilo que ela pode te dar.
É fazer você perceber o valor daquilo que estava disposto a abandonar para tentar conseguir outra coisa.
Ele virou o dado.
E foi aí que a história realmente começou.
won’t live here reference
Eu sei que existe coisa em mim que talvez você nunca consiga entender.
Talvez nem eu consiga.
Eu tenho meus defeitos, meus impulsos, meus dias em que parece que tudo dentro de mim escolhe o caminho errado. Eu sei que nem sempre sou fácil de amar. Sei que existem momentos em que minhas intenções chegam quebradas antes de chegarem até você, e aquilo que eu queria fazer certo acaba parecendo exatamente o contrário.
Mas eu preciso que você olhe além disso.
Porque eu nunca quis ser o homem que te machuca.
Nunca quis que minhas falhas fossem maiores do que aquilo que eu sinto.
Existe uma diferença entre ser bom e acertar sempre. Eu descobri isso tarde. Às vezes alguém pode querer fazer o bem e ainda assim fazer tudo errado. Pode amar de verdade e ainda não saber demonstrar. Pode ter o coração no lugar certo e as mãos completamente perdidas.
E talvez eu seja isso.
Alguém tentando aprender a ser aquilo que ainda não conseguiu ser.
Por isso, quando você acordar e me encontrar ao seu lado, quando olhar para mim sem nenhuma das desculpas que eu poderia inventar, eu só queria saber uma coisa:
o que você ainda enxerga em mim?
Você vê os meus erros primeiro?
Vê o homem que eu fui nos dias em que não soube cuidar?
Ou consegue enxergar também aquele que está tentando?
Porque eu ainda estou aqui.
Não pronto.
Não perfeito.
Não acabado.
Mas tentando.
Eu não quero que você decida quem eu sou pelo pior momento que teve comigo.
Não quero que uma versão minha seja a sentença de todas as outras que ainda podem existir.
Eu sei que palavras não consertam tudo.
Sei que prometer mudança é fácil quando a mudança ainda não aconteceu.
Por isso eu não estou te pedindo para acreditar cegamente.
Só não fecha a porta antes de descobrir quem eu posso me tornar.
Eu ainda tenho muito para aprender.
Ainda vou errar.
Ainda vou precisar reconhecer coisas em mim que talvez doam.
Mas eu não quero permanecer igual.
Eu quero crescer para dentro daquilo que nós poderíamos ser.
Quero aprender a amar sem transformar amor em peso.
Quero aprender a cuidar sem precisar ser lembrado.
Quero que um dia você olhe para mim e perceba que aquele homem que tantas vezes não soube o que fazer finalmente entendeu.
Não porque alguém o obrigou.
Mas porque amar você fez ele querer ser maior do que aquilo que sempre foi.
Então não me veja como terminado.
Eu ainda estou sendo construído.
Ainda estou aprendendo meu próprio nome dentro daquilo que significa ser homem, ser companheiro, ser alguém em quem outra pessoa possa descansar.
Talvez hoje eu ainda não seja esse homem.
Mas eu estou indo na direção dele.
E, se existe alguma coisa que eu gostaria que você soubesse antes de desistir de mim, é isso
eu não estou pedindo que você ame aquilo que eu fui.
Estou pedindo apenas a chance de você descobrir aquilo que eu ainda posso me tornar.
sangue.
Tem coisa que a gente só acredita depois que dói.
Você pode passar a vida inteira ouvindo que o sangue é vermelho, pode ver em filme, em fotografia, no corte de outra pessoa, pode até saber disso de cor. Mas existe uma diferença brutal entre saber alguma coisa e descobrir alguma coisa dentro da própria pele.
Sabe quando você tem que sangrar pra saber que a cor do seu sangue é vermelho?
Talvez algumas verdades sejam assim.
Elas não chegam quando a gente está preparado. Não batem na porta, não pedem licença, não vêm acompanhadas de uma explicação bonita. Elas rasgam alguma coisa. E é só quando aquilo começa a escorrer que você entende que certas coisas só podem ser aprendidas pelo preço de senti-las.
Foi assim com quase tudo que realmente mudou alguém.
A queda ensina que o chão existe. A ausência ensina o tamanho de uma presença. A perda mostra o peso de algo que, enquanto estava ali, parecia leve. E algumas pessoas precisam ir embora para que você finalmente perceba quantas vezes estava se diminuindo só para que elas continuassem por perto.
A gente passa muito tempo tentando evitar o corte, como se não sangrar fosse a mesma coisa que estar inteiro. Mas às vezes o corte já aconteceu faz tempo. A diferença é que você ainda está tentando fingir que não viu.
Então um dia a pele abre.
E você olha.
Vermelho.
Não é bonito. Não é poético. Não tem música tocando ao fundo. É só a prova de que alguma coisa dentro de você era real o bastante para doer.
E talvez seja isso que assuste tanto na verdade: ela não precisa ser bonita para ser verdadeira.
Tem coisa que a gente só entende depois que perde. Só acredita depois que quebra. Só valoriza depois que sente falta. Só aprende depois que sangra.
E talvez amadurecer seja justamente parar de perguntar por que precisou doer tanto para entender.
Porque algumas respostas nunca estiveram escondidas.
A gente só ainda não tinha sangrado o suficiente para enxergá-las.
Sigo estancando minhas hemorragias.
zelo verde.
Existem pessoas que a gente aprende a guardar sem nunca ter assinado esse compromisso. Não existe promessa, não existe cerimônia, ninguém entrega nada nas nossas mãos dizendo “agora é sua responsabilidade”. Acontece antes. Num olhar pequeno demais para entender o mundo, num par de olhos verdes que ainda não conheciam a crueldade das coisas, e de repente alguma parte da gente decide que aquilo precisa chegar inteiro até a vida adulta.
Foi assim.
Antes de saber o que era proteger alguém, eu já queria protegê-la.
Talvez porque eu tenha visto cedo demais que nem todo lugar chamado de casa sabe ser abrigo. Enquanto algumas crianças aprendiam que os adultos eram aqueles que resolviam as coisas, ali se aprendia o contrário. Aprendia-se a reconhecer o peso de uma discussão pelo jeito que o silêncio vinha depois. A perceber quando alguma coisa estava errada antes mesmo de alguém dizer. A amadurecer não porque queria, mas porque certas coisas não deixam escolha.
E ela amadureceu cedo.
Talvez cedo demais.
Carregou coisas que não deveriam caber em alguém tão nova e, ainda assim, conseguiu conservar uma das coisas mais bonitas que alguém pode conservar depois de conhecer o lado difícil da vida: a doçura.
Isso sempre me impressionou.
Porque seria fácil endurecer. Seria compreensível fechar as portas, perder a delicadeza, deixar o mundo ensinar que sentir demais é uma fraqueza. Mas não foi isso que aconteceu. Ainda existe nela esse jeito doce, essa capacidade de se importar, de amar os animais quase como se eles fossem pequenos pedaços de um mundo que ainda vale a pena, de olhar para quem ama e se entregar de verdade.
E existe esse amor pelos irmãos também.
Talvez ela nem perceba o tamanho que isso tem.
Mas eu percebo.
Eu sempre percebi.
Talvez seja por isso que exista dentro de mim esse instinto quase absurdo de proteção. Tive que aprender a ter olhos de pai sem ser pai, cuidado de mãe sem ser mãe, e aquela vigilância silenciosa de quem sabe que alguma coisa preciosa está atravessando um lugar que nem sempre é gentil.
Eu não podia impedir tudo.
Mas queria.
Queria colocar meu corpo na frente de qualquer coisa que pudesse feri-la. Queria que certas palavras nunca chegassem até ela. Queria que certas noites não existissem. Queria que ela pudesse crescer sem precisar entender tão cedo coisas que ninguém deveria precisar entender cedo.
Só que o mundo não pede licença.
E talvez uma das coisas mais difíceis de assistir seja justamente perceber que alguém que você ama possui suas próprias tempestades.
Existem altas e baixas.
Dias em que tudo parece respirar melhor e dias em que a própria cabeça parece um lugar difícil de morar. Momentos em que aquela doçura aparece com força, em que ela se ilumina pelas pequenas coisas, pelos animais, pelas pessoas que ama, pela própria vontade de continuar sendo quem é. E existem momentos em que tudo parece perder o tamanho certo, em que sentimentos chegam como ondas grandes demais e levam consigo aquilo que parecia estável.
Eu gostaria de poder estar presente em todos.
Mas não posso.
Hoje existe distância.
Goiânia está longe. A vida mudou. Cada um está vivendo seus próprios dias, carregando seus próprios problemas, e eu não consigo mais estar perto de cada silêncio estranho, cada noite difícil, cada momento em que alguma coisa parece sair do lugar.
Mas a preocupação não diminuiu.
Ela só aprendeu a viajar.
Agora ela aparece numa mensagem.
Num “saudade ga”.
Num pensamento que surge do nada no meio do dia.
Na vontade de saber como está, mesmo quando ninguém disse que havia alguma coisa errada.
Porque certas responsabilidades não obedecem a quilômetros.
E talvez seja isso que a distância tenha me ensinado: eu não preciso conseguir salvá-la de tudo para continuar cuidando.
Existem batalhas que ninguém consegue lutar pelo outro. Existem dores que não desaparecem porque alguém ama muito. Existem momentos em que tudo o que eu posso fazer é permanecer disponível, lembrar que existe um lugar para voltar, uma voz que não vai julgar, alguém que não vai transformar uma fase ruim na definição de uma pessoa inteira.
Eu não quero que ela seja reduzida às partes difíceis.
Não quero que as baixas apaguem as altas.
Porque eu conheço a pessoa que existe entre uma tempestade e outra.
Conheço a menina que gosta de animais, que ama os irmãos, que ainda consegue ser doce depois de tudo. Conheço aquela parte que sente muito, talvez até mais do que deveria, mas que justamente por isso consegue oferecer um tipo de carinho que pouca gente sabe oferecer.
E talvez seja isso que eu queira proteger de verdade.
Não uma versão perfeita.
Não uma versão sem remédios, sem crises, sem dias ruins.
Quero proteger a essência.
Aquela capacidade de amar.
Aquela delicadeza que sobreviveu ao caos.
Porque algumas pessoas passam pelo inferno e voltam diferentes.
Ela passou por coisas que poderiam ter feito dela alguém frio, mas ainda existe ternura ali.
E isso, para mim, sempre foi uma vitória.
Às vezes eu volto naquela lembrança antiga. Uma criança pequena, aqueles olhos verdes, sem saber que alguém já tinha decidido silenciosamente que ela seria cuidada.
E talvez ela nunca tenha percebido o tamanho disso.
Tudo bem.
Algumas formas de amor funcionam melhor quando não fazem barulho.
Eu não preciso estar ao lado o tempo inteiro para continuar sendo abrigo. Não preciso aparecer em todas as fases para continuar fazendo parte daquilo que permanece. Existe uma parte de mim que continua em vigília, mesmo de longe, mesmo quando estou ocupado, mesmo quando tenho meus próprios demônios batendo na porta.
Porque existe coisa que a gente não abandona só porque cresceu.
Existe coisa que a gente não deixa de guardar só porque aprendeu que não pode controlar o mundo.
E talvez esse seja o verdadeiro espírito de quem nasceu primeiro: carregar uma espécie de radar permanente para aquilo que ama. Querer enfrentar monstros que nem existem ainda. Imaginar perigos antes deles aparecerem. E, mesmo sabendo que não pode impedir todas as quedas, continuar disposto a correr quando ouvir o barulho de alguma coisa quebrando.
Eu não posso blindá-la do mundo.
Ninguém pode.
Mas posso ser uma das poucas coisas que o mundo nunca precisará ensinar a ela:
que existe amor que não depende de distância, de fase, de humor ou de circunstância.
Amor que observa de longe.
Amor que espera.
Amor que não exige nada.
Amor que sabe que existem altas e baixas, dias claros e dias em que tudo pesa, e ainda assim permanece.
Porque, no fim, proteger alguém talvez nunca tenha sido impedir que a vida a machuque.
Talvez tenha sido apenas garantir que, depois de tudo, ela ainda tenha alguém olhando para aqueles olhos verdes e enxergando muito mais do que as cicatrizes.
Enxergando a doçura.
A força.
A menina que amadureceu cedo demais.
A pessoa que ama os animais, que ama os irmãos, que sente o mundo de um jeito próprio e que, apesar de tudo, continua aqui.
E talvez seja por isso que, mesmo de tão longe, uma parte de mim ainda permaneça exatamente onde sempre esteve:
de guarda
esquiva e subterfúgio.
Eu me escondo pra fugir. Talvez essa seja a coisa mais honesta que alguém possa admitir quando já passou tempo demais fingindo que está tudo bem.
Não é covardia. Pelo menos não do jeito que as pessoas entendem. É só que chega uma hora em que ficar sozinho parece menos doloroso do que ser visto de verdade. Então você fecha a porta, apaga a luz, deixa o telefone virado para baixo e começa a desaparecer aos poucos, como quem acredita que se ninguém conseguir encontrar você, ninguém também vai conseguir tocar naquilo que ainda dói.
Eu me escondo porque fugir é mais fácil quando ninguém sabe onde você está.
E por um tempo funciona.
Você se convence de que está em paz. Diz que gosta da própria companhia. Que não precisa de ninguém. Que está focado em outras coisas. Que certas pessoas ficaram para trás e que determinadas histórias já não significam nada. Só que existe uma diferença entre estar sozinho e estar escondido. Quem está sozinho escolheu o silêncio. Quem está escondido está esperando alguma coisa não encontrá-lo.
E eu sempre estive esperando.
Esperando a lembrança passar. Esperando a saudade cansar. Esperando aquela versão de mim que queria tanto alguma coisa simplesmente morrer de fome. Esperando que, depois de algum tempo, eu pudesse sair do esconderijo sem precisar explicar por que desapareci.
Mas algumas coisas não desaparecem quando você corre delas.
Elas aprendem o caminho.
Entram no quarto quando ninguém está olhando. Sentam do seu lado quando a madrugada fica grande demais. Aparecem naquela música que você jurou que nunca mais ouviria, naquela conversa que você evita lembrar, naquele nome que você finge que não procura. E aí você percebe a verdade mais incômoda de todas: talvez eu não estivesse me escondendo do mundo.
Talvez eu estivesse me escondendo de mim.
Porque o mundo eu consigo enganar. Posso vestir qualquer cara, responder qualquer "tá tudo bem" com um sorriso, sair de casa como se nada tivesse acontecido. Posso parecer indiferente, ocupado, distante, até feliz. Mas existe um lugar dentro de mim onde não existe personagem, não existe postura, não existe fuga. E é justamente esse lugar que eu passo a vida tentando evitar.
Eu me escondo pra fugir, mas sempre acabo encontrando o mesmo homem no escuro.
O homem que queria ter ido mais longe. Que queria ter dito mais. Que queria ter amado sem medo. Que queria ter sido visto sem precisar se explicar. Que olhou para tantas possibilidades da própria vida e, em algum momento, começou a acreditar que talvez elas fossem grandes demais para ele.
E talvez seja por isso que fugir nunca resolveu nada.
Porque fugir pode afastar pessoas, lugares, memórias e até destruir pontes. Mas não consegue apagar aquilo que você sabe sobre si mesmo.
Uma hora a porta precisa abrir.
Não porque o mundo ficou mais seguro.
Mas porque continuar escondido começa a custar mais caro do que aquilo de que você estava fugindo.
E quando eu sair, talvez ninguém reconheça quem está vindo.
Ainda bem.
hourglass II
Talvez algumas coisas não terminem quando deixam de acontecer. Talvez terminem quando deixam de significar. E existe uma diferença enorme entre as duas.
Por um tempo, ele achou que distância fosse uma resposta. Que quilômetros, horários diferentes, novas rotinas e dias que não se encontravam mais fossem suficientes para colocar cada coisa no seu devido lugar. Como se a vida tivesse uma maneira própria de organizar aquilo que ficou para trás, empurrando algumas pessoas para uma parte da memória onde ninguém mais precisa mexer.
Só que a vida é péssima em respeitar lugares marcados.
Às vezes uma lembrança aparece no meio de um dia absolutamente comum e, sem pedir licença, muda a temperatura de tudo. Não porque exista uma vontade desesperada de voltar, mas porque certas pessoas deixam uma espécie de idioma dentro da gente. Depois delas, algumas coisas passam a ser sentidas de um jeito que não tinha nome antes.
E talvez seja isso que ainda exista.
Não uma espera.
Não uma promessa.
Muito menos a certeza de que dois caminhos precisam se encontrar novamente.
Apenas uma parte da história que nunca recebeu uma explicação definitiva.
Porque houve um tempo em que parecia fácil imaginar o amanhã. Havia planos que não precisavam ser anunciados porque já pareciam naturalmente incluídos na vida dos dois. O futuro não era uma coisa distante; era quase uma extensão do presente. E então, em algum momento, aquilo que parecia tão certo virou passado sem que ninguém conseguisse apontar exatamente o instante em que tudo mudou.
É estranho perceber isso depois.
A gente costuma procurar um culpado para o fim das coisas porque é mais confortável acreditar que alguma decisão, alguma palavra ou algum erro foi responsável por tudo. Mas existem histórias que simplesmente chegam a um ponto onde duas pessoas continuam sendo importantes e, ainda assim, não conseguem mais caminhar na mesma direção.
Isso talvez seja uma das coisas mais difíceis de aceitar.
Que alguém pode ter sido verdadeiro e ainda assim não ter ficado.
Que uma história pode ter sido bonita e ainda assim ter terminado.
Que o amor pode ter existido sem necessariamente saber sobreviver a todas as versões que vieram depois.
E talvez o tempo não tenha apagado nada.
Talvez ele só tenha feito uma coisa mais cruel: deu espaço para enxergar sem a urgência de antes.
Hoje, olhando de longe, ele consegue perceber que não sente falta apenas de uma pessoa. Sente falta de uma época em que algumas coisas pareciam possíveis. Daquela versão de si mesmo que ainda não sabia o quanto a vida mudaria. Das conversas que tinham outro peso. Da familiaridade de saber que existia alguém do outro lado sem precisar perguntar.
Mas existe algo curioso nisso.
Ele não gostaria de voltar no tempo.
Gostaria de saber o que aconteceria se pudesse encontrar aquela pessoa agora.
Sem tentar reconstruir nada.
Sem fingir que os anos não aconteceram.
Sem exigir que o passado volte a funcionar.
Só para descobrir o que sobra quando duas pessoas que já souberam tanto uma da outra se encontram depois de terem se tornado quase desconhecidas.
Talvez não sobrasse nada.
E talvez essa fosse a resposta mais honesta.
Ou talvez sobrasse aquele segundo estranho em que os olhos reconhecem antes da boca dizer qualquer coisa. Aquele pequeno silêncio em que toda uma história passa rápido demais para caber numa conversa.
Quem sabe.
Talvez algumas pessoas não voltem porque ainda existe algo entre elas.
Talvez voltem justamente para descobrir que não existe mais.
E existe uma liberdade estranha nisso também.
Porque nem toda porta precisa ser aberta novamente para provar que um dia foi importante.
Algumas só precisam continuar existindo em algum lugar da casa.
Não para que alguém volte.
Mas porque demolir completamente aquele cômodo seria mentir sobre quem você foi enquanto esteve lá.
Então ele segue.
Sem esperar uma mensagem.
Sem construir encontros imaginários.
Sem transformar saudade em destino.
Só carregando a estranha tranquilidade de quem finalmente entendeu que certas histórias não precisam continuar para terem sido enormes.
E se algum dia os caminhos se cruzarem outra vez, ele não sabe o que vai sentir.
Talvez nada.
Talvez tudo.
Talvez apenas aquela velha sensação de reconhecer alguém que a vida ensinou a chamar de passado.
Mas, dessa vez, ele não vai precisar perguntar o que aquilo significa.
Vai apenas olhar.
E deixar que o momento diga, sozinho, tudo aquilo que os dois nunca conseguiram dizer quando ainda havia tempo.
