Coleção pessoal de gabrielparice

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veneno.

Sei como ele desce pela garganta e como parece ficar preso no meio do peito antes de chegar no estômago. No começo é quase nada, só um gosto amargo na boca. Depois vem o calor. A barriga começa a apertar, como se tivesse alguma coisa se espalhando por dentro, queimando devagar.

Eu sei que ele está ali porque começo a pensar diferente.

Qualquer coisa ganha outro peso. Uma coisa pequena fica grande. Um silêncio parece esconder alguma coisa. Uma ausência começa a incomodar. Uma conversa que eu nem ouvi parece ter mil possibilidades dentro dela. E eu fico tentando descobrir o que aconteceu sem ter como saber.

Quanto mais eu penso, mais ele queima. Quanto mais tento entender, mais parece que preciso entender outra coisa antes. Eu volto para os mesmos pensamentos, lembro de coisas que já aconteceram, misturo com coisas que poderiam acontecer e, quando percebo, já estou sentindo no corpo alguma coisa que ainda nem aconteceu de verdade.

Minha boca fica seca. A respiração muda. O estômago fecha. Fica aquela sensação quente e ruim, como se eu tivesse engolido alguma coisa que meu corpo sabe que não deveria estar ali.

E eu não sei exatamente do que tenho medo.


Eu tenho medo do que não conheço, do que não consigo ver, do que acontece quando não estou perto. Tenho medo das coisas que não consigo controlar e das coisas que não consigo perguntar sem parecer que estou procurando um problema onde talvez não exista nenhum.

Mas o corpo não entende muito de talvez.

Ele sente primeiro.

Sinto, eu.

Sinto mesmo quando uma parte de mim sabe que pode não significar nada. Sinto mesmo quando não tenho uma resposta concreta. Sinto porque existem coisas que já vivi, coisas que ficaram em mim de algum jeito, e quando alguma coisa toca nesse lugar o gosto do veneno volta.

Eu não escolho sentir isso.

Queria conseguir simplesmente olhar para alguma coisa e deixar passar. Não ficar imaginando, não procurar significado, não sentir aquela pressão no estômago. Só que eu não consigo mandar a sensação embora só porque sei que ela pode estar errada.

Eu sei o quanto esse veneno pode me fazer mal, mas não sei se vou conseguir impedir que ele entre.

Porque não é só uma coisa que eu penso.

Eu sinto no corpo.

Sinto a garganta fechar um pouco, o peito pesar, a barriga queimar. Sinto vontade de me afastar, de ficar quieto, de não falar enquanto tento entender o que está acontecendo dentro de mim.


Guerra interna e é só dentro que acontece tudo.

Eu não quero viver assim. Não quero transformar tudo que não conheço em alguma coisa que preciso temer. Não quero que o medo faça com que eu enxergue perigo onde talvez exista apenas uma coisa que eu ainda não entendo.

Mas também não consigo fingir que não sinto.

Então acho aue é isso que eu ainda não sei fazer, sentir o gosto do veneno sem deixar que ele me convença de que tudo ao redor está contaminado.

Porque algumas vezes ele vai voltar.

E eu ainda não sei quanto tempo vou levar para aprender a sentir a queimação sem precisar descobrir de onde ela veio.

efervescência.

Uma estação meteorológica no meio do oceano passa os dias registrando o que acontece ao redor dela, embora ninguém esteja realmente ali para olhar. Ela fica sozinha, recebendo vento, chuva, mudança de pressão, correnteza, e mandando números para algum lugar muito distante, onde alguém provavelmente olha para aqueles dados tentando descobrir se o que está acontecendo no meio do mar vai chegar até a costa. Gosto de imaginar que, em algum momento, alguém começou a perceber pequenas alterações nos registros e passou a acompanhá-las com mais atenção do que deveria, não porque houvesse uma tempestade, mas porque havia alguma coisa diferente acontecendo e a diferença, quando a gente não entende de onde veio, costuma ser suficiente para ocupar mais espaço do que deveria.

Por isso que eu tenho tanta facilidade para me perder em pequenas coisas. Não é preciso que o céu fique preto ou que o mar se levante para eu começar a prestar atenção, as vezes basta uma mudança tão pequena que ninguém mais percebe, uma direção diferente do vento ou uma nuvem que parece estar se formando mais longe do que de costume, e de repente aquilo que era apenas parte da paisagem começa a parecer uma mensagem que eu ainda não consegui decifrar. Eu sei que existe uma diferença enorme entre observar e interpretar, mas quando alguma coisa importa de verdade parece que o cérebro esquece dessa diferença e começa a tratar qualquer detalhe como se tivesse sido colocado ali especialmente para ser encontrado.

O curioso é que, quando a gente está longe, tudo parece maior do que realmente é. Um barco se transforma num ponto no horizonte e, justamente por ser pequeno demais para enxergar direito, passa a carregar todas as possibilidades que a distância permite. Você não sabe quem está dentro, não sabe para onde vai, não sabe se está indo embora ou apenas seguindo uma corrente que você não consegue ver, e mesmo assim existe uma vontade de continuar acompanhando aquele ponto até que ele desapareça, como se olhar por tempo suficiente pudesse finalmente revelar alguma coisa.

Eu acho que é aí que começa a confusão, porque não existe nada de errado em querer entender o que está diante dos olhos, mas existe alguma coisa profundamente cansativa em sentir que só consegue ficar tranquilo depois de entender tudo. A pessoa passa a observar o próprio pensamento como se estivesse tentando encontrar uma rachadura numa parede, e quanto mais procura, mais pequenas imperfeições aparecem. Uma palavra que poderia ter sido dita de outro jeito, um intervalo que poderia ter sido menor, uma mudança que talvez nem tenha acontecido, e tudo isso vai sendo colocado lado a lado até formar uma imagem que parecia não existir antes.

Depois vem aquela sensação desagradável de ter ido longe demais, e

eu queria que fosse diferente. Queria conseguir deixar certas coisas simplesmente existirem sem precisar acompanhar o tempo inteiro, porque existe uma maturidade muito bonita em quem consegue confiar no que não está vendo e continuar vivendo sem transfomar a distância numa ameaça. admiro isso nas pessoas. Essa capacidade de deixar uma janela aberta sem precisar passar a noite inteira verificando se ainda está aberta, de saber que existe um mundo acontecendo fora do próprio campo de visão e não sentir que precisa conhecer inteiro para permanecer em paz.

Ainda estou aprendendo essa parte,

porque existe uma coisa muito estranha em perceber que, as vezes, a vontade de proteger alguma coisa começa a se parecer com a vontade de apertá-la. É parecido com uma sutura que você fica examinando porque está preocupado com a cicatrização e, sem perceber, passa a mão perto demais, encosta onde não devia, sente aquela queimadura fina que vem de dentro e imediatamente quer mexer outra vez para descobrir se está tudo bem. Só que a pele não entende preocupação como a gente entende. Ela só entende que foi tocada antes da hora, e aquilo que estava fechando começa a reclamar.

pode ser que, certas partes de nós funcionem assim também.

A gente sente uma coisa, tenta descobrir de onde veio, volta nela, procura outra explicação, encontra uma terceira, e quando percebe já está cansado de uma história que começou pequena demais para merecer tudo aquilo. O que torna tudo pior, porque ninguém gosta de admitir que passou tempo demais olhando para uma nuvem tentando descobrir se ela significava chuva quando talvez ela estivesse apenas passando.

Eu gostaria de conseguir fazer diferente sem precisar deixar de sentir. Não quero me tornar alguém indiferente, porque acho que a indiferença seria uma solução muito fácil para um problema que não deveria precisar de solução. O que eu quero é aprender a não transformar aquilo que sinto em uma obrigação de agir, aprender que uma inquietação pode existir dentro de mim sem precisar virar pergunta, investigação ou resposta, e que nem toda coisa que queima precisa ser aberta para descobrir por que está queimando.

E seja isso que o tempo faça quando finalmente consegue trabalhar sem a nossa interferência, ele pega aquilo que parecia impossível de deixar quieto e, pouco a pouco, ensina o corpo a não procurar mais a ferida.

Enquanto isso, a estação continua no meio do oceano registrando o vento, a pressão e a temperatura, mandando seus números para algum lugar que não consegue enxergar o mar inteiro de uma vez. Alguém recebe aqueles registros e passa horas tentando descobrir o que eles significam, talvez alguém simplesmente arquive tudo e espere a próxima medição. O oceano continua existindo nos dois casos, indiferente à quantidade de atenção que recebe, e talvez haja alguma paz escondida justamente nisso, em entender que nem tudo precisa ser acompanhado para continuar sendo verdadeiro.

Eu ainda olho para o horizonte mais vezes do que gostaria, ainda existe uma parte de mim que tenta encontrar formas nas nuvens e imaginar o que existe depois delas, mas estou começando a entender que crescer talvez não seja deixar de olhar. E sim olhar e conseguir permanecer onde estou, sem transformar aquilo que não alcanço em alguma coisa que preciso possuir, explicar ou impedir.

E, quem sabe, depois de algum tempo, o céu volte a ser apenas céu, o mar volte a ser apenas mar e aquilo que hoje parece tão urgente consiga finalmente passar por mim sem deixar a mesma queimadura.

em nome de quem?

Eu passei tanto tempo procurando respostas que, em algum momento, comecei a desconfiar da própria pergunta. Talvez seja esse o castigo de quem tenta encontrar sentido em tudo, quanto mais fundo se procura, mais coisas deixam de fazer sentido. Eu olho para a minha vida e não consigo decidir se devo agradecer ou perguntar porque. Sei que existem pessoas atravessando dores que eu sequer seria capaz de imaginar, sei que seria pequeno demais colocar a minha história acima de todas as outras, e justamente por isso me sinto ainda mais ingrato quando reclamo. Mas agradecer não apaga a dúvida. Eu posso reconhecer tudo o que recebi e, ainda assim, olhar para o céu e perguntar que espécie de amor exige tanto de alguém antes de deixá-lo simplesmente viver.

Se tu realmente estás no controle das coisas, então eu preciso entender algumas delas. Quantos aprendizados ainda faltam? Quantas vezes uma pessoa precisa quebrar para finalmente compreender o que tu queres dela? Porque eu fui abandonado quando ainda nem sabia o que significava ser abandonado? Por que algumas ausências aconteceram justamente quando eu precisava aprender o que era presença? Por que certas coisas precisaram acontecer dentro de uma criança para que um adulto tivesse que passar anos tentando consertar aquilo que não foi ele quem quebrou? Se tudo isso deveria me moldar, por que a forma dessa moldura ainda dói tanto? Se existia um propósito naquilo, por que o propósito parece ter vindo acompanhado de feridas que eu continuo carregando sem saber onde colocar?

E então tu tiraste de mim quem eu mais amava, ou pelo menos foi assim que pareceu. Colocaste outras pessoas no meio da história, outras mãos, outras bocas, outros caminhos, como se cada uma carregasse uma peça de alguma resposta que nunca chegou inteira. Algumas não serviram para nada. Algumas só me confundiram. Algumas fizeram estrago e foram embora como se nunca tivessem passado por aqui. E depois, quando eu já estava tentando aprender a viver com a falta, tu devolveste aquela pessoa para mim. E isso talvez seja uma das coisas que mais me confundem, porque eu não sei se chamo de milagre, coincidência, consequência ou simplesmente vida acontecendo enquanto eu tento atribuir significado ao que não consigo controlar. Se foi tu quem devolveu, por que tirou? Se foi tu quem juntou novamente, por que permitiu que a história precisasse se perder antes? O que eu deveria ter aprendido com a distância que eu não aprenderia com a presença?

É nesse ponto que a minha fé começa a parecer uma conversa unilateral. Eu falo, tu não respondes. Eu interpreto o silêncio, encontro sinais onde consigo, transformo coincidências em pequenas revelações porque preciso acreditar que existe alguma coisa do outro lado me ouvindo. Mas existe? Você está me escutando? Porque eu não quero um Deus inventado para caber nas minhas necessidades. Não quero transformar qualquer coisa boa que aconteça em prova da tua existência e qualquer coisa ruim em uma lição conveniente. Não quero ser aquele que só acredita quando a vida obedece. Eu quero saber onde termina a minha responsabilidade e começa a tua. Quero saber quanto da minha história foi escolha, quanto foi consequência, quanto foi acaso e quanto foi simplesmente uma coisa que aconteceu porque o mundo é cruel o bastante para não precisar de uma explicação.

Eu tenho culpa. Sei disso. Carrego decisões que foram minhas, impulsos que foram meus, erros que ninguém colocou na minha cabeça além de mim. Eu me saboto, volto para lugares que sei que podem me ferir, destruo com as próprias mãos algumas coisas que passei anos pedindo para construir. Não posso colocar tudo em tuas costas só porque é mais fácil acreditar que alguém escreveu a minha história antes de mim. Mas então por que eu sou assim? Se tu me conhecias antes que eu pudesse me conhecer, se cada parte minha já era conhecida antes de eu aprender a pronunciá-la, onde termina aquilo que fizeram comigo e começa aquilo que eu escolhi ser? Quanto de mim é liberdade e quanto é herança? Quanto das minhas ruínas é responsabilidade minha e quanto foi construído por coisas que eu nunca tive idade suficiente para entender?

Eu queria acreditar sem precisar pertencer. É estranho, porque quando me perguntam no que eu acredito, nenhuma resposta parece suficientemente minha. Eu não consigo me encaixar perfeitamente em dogma nenhum, não consigo transformar o mistério em regra, não consigo fingir certeza onde só existe uma espécie de intuição. O que eu acredito parece íntimo demais para caber numa instituição, pessoal demais para ser resumido por alguém que nunca esteve dentro da minha cabeça. E talvez isso também me assuste, porque se a minha fé é tão particular, como sei que não estou apenas adorando uma versão de Deus criada pela minha própria necessidade de que alguma coisa faça sentido?

E se eu estiver perseguindo um fantasma?

E se todas essas conversas que tenho contigo forem apenas o homem tentando responder a si mesmo através do céu? E se eu não for teu filho? E se não houver ninguém ouvindo quando eu falo sozinho no escuro? E se a humanidade passou séculos construindo templos para uma ausência, ajoelhando diante de algo que nunca respondeu, inventando nomes para o desconhecido porque era insuportável admitir que talvez não soubéssemos de nada? Estamos adorando o quê, afinal? Uma presença? Uma ideia? Uma esperança? Um pai? Um espelho? O medo de descobrir que a morte é simplesmente o fim?

Eu não sei.

E talvez essa seja a coisa mais honesta que consigo te oferecer.

Porque o mundo inteiro parece estar andando na contramão daquilo que deveria ser. Gente boa sofre sem explicação, gente cruel parece prosperar, crianças carregam dores que nunca deveriam conhecer, pessoas se encontram depois de anos quando já deveriam ter seguido caminhos completamente diferentes, outras se perdem justamente quando tudo parecia finalmente no lugar. Eu vejo isso e tento encontrar uma ordem escondida, uma linha invisível costurando tudo, mas as vezes parece que estamos apenas jogando os dados e depois chamando o resultado de destino.

E ainda assim eu continuo falando contigo.

Isso é o que mais me irrita.

Depois de todas as dúvidas, de todas as perguntas, de todas as vezes em que achei que tu me abandonaste, alguma coisa em mim continua olhando para cima. Não sei se isso é fé ou medo. Não sei se é amor ou necessidade. Não sei se estou procurando Deus ou procurando alguém que consiga me dizer que a minha vida não foi uma sucessão aleatória de dores, encontros, perdas, escolhas e consequências.

Porque eu preciso saber para onde estou indo.

Não quero viver acreditando que cada sofrimento precisa necessariamente esconder uma lição. as vezes uma dor é apenas uma dor, e talvez o significado venha depois, quando alguém decide o que fazer com aquilo que recebeu. Mas se for assim, então o sentido da vida não está em descobrir por que tudo aconteceu, e sim em decidir o que fazer com o que aconteceu. E isso me assusta porque devolve para mim uma responsabilidade que eu gostaria de entregar a alguém maior.

Eu reclamo quando as coisas não andam, mas também sei quantas coisas andaram. Sei quantas vezes a vida me deu uma oportunidade que eu não reconheci, quantas pessoas chegaram, quantas portas se abriram, quantas vezes eu sobrevivi a versões de mim que eu jurava que não sobreviveriam. E mesmo assim, quando tudo para, quando aquilo que eu queria não acontece, quando o caminho fica silencioso, eu volto a perguntar onde Tu estás. Como se a Tua presença pudesse ser medida pela velocidade com que os meus desejos acontecem.

Talvez eu seja ingrato. Talvez eu seja humano. Talvez sejam as duas coisas.

Eu só sei que estou cansado de sentir que preciso escolher entre agradecer e questionar. Eu quero poder agradecer com raiva. Quero poder te amar sem te entender. Quero poder dizer que não gosto do caminho e ainda assim continuar andando. Quero poder admitir que algumas coisas me parecem injustas sem transformar isso numa sentença contra ti. Quero poder dizer que tenho medo de ter sido abandonado e, ao mesmo tempo, reconhecer que talvez nunca tenha estado sozinho.

Mas preciso de alguma coisa além do silêncio.

Porque se tu realmente está aí, eu preciso entender por que me fizeste tão capaz de sentir e tão incapaz de compreender. Por que me deste esse impulso de procurar significado em cada detalhe, de transformar encontros em destino, perdas em sinais, retornos em milagres e fracassos em culpa. Por que me deixaste com essa cabeça que não consegue simplesmente viver sem perguntar o motivo de estar viva.

Qual é o sentido de eu estar me questionando tanto?

Qual é o sentido de existir, se existir parece ser aprender a perder, aprender a amar, aprender a errar, aprender a perdoar, aprender a recomeçar e, depois de tudo isso, perceber que ainda não sabemos absolutamente nada?

Eu não quero uma vida sem dor. Talvez isso nem exista. Eu quero apenas saber se a dor está indo para algum lugar.

Porque as vezes eu olho para tudo o que aconteceu comigo e penso que fui punido por alguma coisa que não lembro de ter feito. Outras vezes olho para tudo o que recebi e me sinto um miserável por ainda pedir mais. Em alguns dias acho que sou forte. Em outros, acho que só aprendi a esconder melhor aquilo que ainda dói. E entre uma coisa e outra continuo tentando construir uma vida enquanto carrego perguntas que não cabem em lugar nenhum.

Então me diz, se tu está me escutando quantas vezes eu ainda preciso me perder para entender quem sou? Quantas pessoas ainda precisam entrar e sair da minha história antes que eu compreenda por que algumas foram permitidas e outras foram devolvidas? Quantas versões minhas precisam morrer para que eu finalmente pare de fugir de mim mesmo? Quanto da minha história ainda é minha para escrever e quanto já estava escrito antes que eu pudesse segurá-la?

E, principalmente, se tu realmente me ama, por que amar a vida as vezes parece tão difícil?

Eu continuo aqui.

Não porque tenha encontrado as respostas, mas porque, apesar de todas elas, alguma coisa em mim ainda espera.

E talvez seja isso que me mantém olhando para o céu mesmo quando tenho vontade de virar as costas.

Não a certeza de que existe alguém lá.

A esperança de que, se existir, tu finalmente esteja me ouvindo.

hereditário, até mim.


Meu filho, minha filha, eu ainda não sei como será o seu rosto, se você vai carregar os meus olhos, o meu sorriso ou alguma mania tão parecida comigo que vai me fazer parar por alguns segundos diante de você tentando entender como alguém que ainda nem existia conseguiu carregar alguma parte de mim, mas existe uma coisa que eu já sei antes mesmo de conhecer a sua voz, você nunca vai precisar olhar para dentro de si procurando uma razão para o meu amor. Eu quero que você cresça sabendo que foi desejado antes de ser visto, amado antes de ser tocado e esperado antes mesmo de ter um nome, porque eu conheço o estrago que a dúvida pode fazer quando ela cresce junto com uma criança.


Eu sei como é olhar para os próprios pais e não entender por que o carinho parece tão difícil de alcançar, como se existisse alguma distância invisível entre você e as pessoas que deveriam ser o seu primeiro abrigo. Passei boa parte da infância tentando compreender coisas que uma criança nunca deveria precisar compreender, observando meu pai, observando minha mãe, tentando encontrar algum sentido nas dores que existiam dentro daquela casa e que, embora não tivessem começado comigo, acabavam chegando até mim.


Meu pai tinha as próprias feridas, os próprios erros e as próprias maneiras de fazer o mundo pesar sobre quem estava perto dele, e minha mãe carregava as consequências de muitas dessas coisas dentro dela, junto com a sensação de ter perdido uma parte da própria juventude e de ter precisado amadurecer em lugares onde talvez só devesse ter vivido. Eu era pequeno demais para saber separar a dor dela da minha, então muitas vezes aquilo que machucava minha mãe encontrava em mim um lugar para continuar existindo, e eu recebia sentimentos que não sabia nomear, muito menos entender de onde vinham.


Hoje eu consigo olhar para isso com outros olhos e perceber que ela também era uma pessoa tentando sobreviver às próprias circunstâncias, mas naquela época eu não tinha essa capacidade. Eu só sabia que alguma coisa estava errada e, como toda criança que ainda não conhece a complexidade dos adultos, comecei a procurar a resposta em mim. Talvez eu tivesse feito alguma coisa. Talvez eu não fosse bom o bastante. Talvez se eu fosse diferente, mais obediente, mais quieto, mais fácil de amar, alguma coisa dentro daquela casa finalmente encontrasse paz.


Foi assim que algumas culpas cresceram comigo.


A culpa por não conseguir proteger minha mãe, como se fosse responsabilidade de uma criança impedir a dor de um adulto. A culpa por sentir raiva de quem também estava sofrendo. A culpa por ter precisado de afeto justamente quando as pessoas ao meu redor estavam ocupadas demais tentando sobreviver às próprias dores para perceber que eu também precisava ser cuidado. E, enquanto outras pessoas podiam simplesmente atravessar a infância, eu fui aprendendo cedo demais a observar o ambiente, medir palavras, perceber mudanças de humor e tentar descobrir quando era seguro simplesmente existir.


Eu não quero isso para você.


Quero que a sua infância tenha espaço para ser infância, que você possa desperdiçar uma tarde brincando de alguma coisa que eu não entendo, que possa voltar para casa cheio de histórias inúteis e maravilhosas, que possa se apaixonar pela primeira vez sem medo de contar, errar sem imaginar que o seu erro vai fazer alguém deixar de amar você e crescer sem precisar descobrir cedo demais como os adultos escondem suas próprias dores.


Quando alguma coisa acontecer, eu quero que você pense em mim como alguém para quem você pode correr, não alguém de quem precisa se esconder. Se o mundo te machucar, eu quero conhecer a ferida antes de perguntar quem teve razão. Se você fizer alguma coisa da qual tenha vergonha, quero que a primeira coisa que encontre nos meus olhos seja a certeza de que aquilo não mudou o lugar que você ocupa em mim. Se um dia você não souber o que está sentindo, quero que possa sentar ao meu lado em silêncio e ainda assim sentir que não está sozinho.


Porque eu sei o que acontece quando uma criança aprende que precisa resolver tudo dentro dela.


Ela cresce.


E leva essa criança consigo.


Durante muito tempo eu carreguei a sensação de que precisava ser forte antes mesmo de saber o que força significava, e talvez parte dos problemas que vieram depois tenham nascido justamente dessa falta de colo, dessa dificuldade de acreditar que alguém poderia ficar quando eu deixasse de ser conveniente, dessa necessidade de procurar nos outros aquilo que deveria ter aprendido primeiro dentro de casa. A ausência de afeto não desaparece quando a infância termina, as vezes ela apenas muda de roupa e passa a aparecer nos relacionamentos, nas escolhas, nos medos, na maneira como alguém ama e até na maneira como espera ser abandonado.


Eu não quero que você precise aprender amor pela falta dele.


Quero que você aprenda pelo excesso.


Quero que você saiba que pode ser amado sem produzir nada em troca, que pode existir sem precisar provar o próprio valor, que pode discordar de mim sem perder meu respeito, que pode seguir uma vida completamente diferente da que eu imaginei e ainda encontrar em mim alguém torcendo por você. Não quero criar uma versão de você que corresponda às minhas expectativas, quero conhecer a pessoa que vai nascer quando você descobrir quem é.


E se algum dia você se parecer comigo, que seja apenas nas coisas bonitas que eu conseguir deixar para trás. Talvez você tenha meu rosto, minha voz, meus gestos ou alguma mania que vai fazer sua mãe rir porque ela vai reconhecer imediatamente de onde veio, mas eu não quero que você precise carregar aquilo que me feriu só porque veio antes de você. Você não é a continuação das minhas dores, assim como eu não deveria ter sido responsável pelas dores dos meus pais.


Eu passei muito tempo tentando não me tornar aquilo que me machucou e descobri que não basta fugir de uma herança para quebrá-la, é preciso olhar para ela de frente, reconhecer onde ela deixou marcas e decidir conscientemente o que termina ali. Eu não posso mudar o pai que tive, não posso devolver a infância que perdi, não posso apagar as vezes em que precisei entender sozinho coisas que deveriam ter sido explicadas com carinho, nem posso voltar no tempo para abraçar aquele menino e dizer que nada daquilo era culpa dele.


Mas posso fazer uma coisa que talvez seja ainda mais importante.


Posso impedir que ele continue existindo através de você.


Se algum dia eu errar, quero que você veja em mim alguém capaz de reconhecer o próprio erro. Se eu estiver errado, quero que minha idade não seja uma desculpa para estar certo. Se você me mostrar uma dor que eu não consigo compreender, quero que minha primeira reação seja tentar conhecê-la, não diminuí-la. Eu não quero usar a autoridade de ser seu pai para impedir que você tenha voz, porque sei demais sobre o que acontece quando uma criança aprende que seus sentimentos precisam desaparecer para que os adultos consigam continuar.


Você não vai precisar carregar a culpa pelo casamento dos seus pais, pelas dificuldades deles, pelas escolhas deles ou pelas coisas que aconteceram antes de você chegar. Se eu e sua mãe tivermos problemas, eles serão nossos. Se estivermos cansados, será nossa responsabilidade encontrar uma maneira de cuidar um do outro sem transformar você em testemunha ou responsável por aquilo que não lhe pertence.


Eu quero que você tenha uma coisa que para mim demorou muito para existir, a certeza de que os adultos ao seu redor são responsáveis pelas próprias feridas.


Você será filho.


Nada além disso.


E talvez seja justamente essa a maior forma de proteção que eu possa oferecer.


Não quero que você seja meu confidente quando eu estiver quebrado, não quero que você precise escolher lados, não quero que sinta que precisa me salvar, muito menos que precise amadurecer para me entender. Se um dia eu estiver mal, vou tentar encontrar outros adultos para dividir o peso, porque você não nasceu para carregar aquilo que eu não consegui resolver.


Você nasceu para viver.


E eu quero assistir.


Quero assistir você descobrir as coisas, mudar de ideia, escolher caminhos que eu jamais escolheria, quebrar a cara, voltar para casa, se apaixonar, perder alguém, ganhar alguma coisa importante, rir até faltar ar e chegar aos trinta anos contando uma história da sua adolescência que eu provavelmente vou fingir que já sabia. Quero estar presente nas partes bonitas e nas partes difíceis, não para controlar a sua vida, mas para que você nunca precise atravessar nenhuma delas acreditando que está sozinho.


Talvez algum dia você me pergunte sobre o meu passado e eu precise falar das coisas que me fizeram ser quem sou. Talvez eu conte sobre um menino que cresceu cercado por adultos que também não sabiam muito bem como cuidar das próprias dores, sobre um pai que deixou marcas e uma mãe que também carregava marcas demais, sobre a culpa de ter visto coisas que nunca deveria ter visto e sobre a sensação de ter perdido pedaços de uma juventude tentando entender uma família que não sabia como permanecer inteira.


Eu provavelmente vou chorar quando contar.


Mas espero que, depois de ouvir tudo, você consiga perceber que aquelas histórias chegam até mim e param aqui.


Não atravessam você.


Porque você não precisa pagar pela minha infância, assim como eu nunca deveria ter precisado pagar pela infância dos meus pais. Eu não quero transformar aquilo que me faltou em uma dívida que você precisa quitar sendo o filho perfeito. Quero transformar aquilo em consciência, para que eu saiba exatamente o tipo de pai que quero ser quando você precisar de mim.


E talvez seja por isso que pensar em você tenha uma tristeza tão bonita.


Porque, de alguma maneira, eu consigo imaginar uma criança recebendo aquilo que um dia eu procurei sem saber como pedir. Consigo imaginar alguém crescendo com a certeza de que existe uma pessoa no mundo para quem sua existência nunca será um peso. Consigo imaginar você entrando pela porta depois de um dia ruim, jogando as coisas no chão, sentando ao meu lado e contando alguma coisa que para qualquer outra pessoa pareceria pequena, mas que para mim será importante simplesmente porque aconteceu com você.


E talvez naquele momento eu entenda que não consegui voltar para buscar aquela criança que fui, mas consegui impedir que ela desaparecesse sem deixar nada de bom para trás.


Ela me ensinou o que eu não quero repetir.


Ela me mostrou onde dói.


E, de alguma forma, me trouxe até você.


Se um dia você olhar para mim e perceber que somos parecidos, eu espero que não seja preciso ter medo daquilo que encontrou. Quero que você possa reconhecer meu rosto no seu sem encontrar nele a obrigação de repetir minha história. Quero que você carregue meu sangue sem carregar meus fantasmas, que tenha meus olhos sem enxergar o mundo através das minhas cicatrizes e que, quando pensar em mim, a palavra que venha antes de qualquer outra seja abrigo.


Porque eu quero ser o homem que fica.


O homem para quem você liga quando não sabe para onde ir.


O homem cujo abraço não precisa ser merecido.


O homem que consegue ouvir um “eu errei” sem transformar aquilo em vergonha.


O homem que, mesmo depois de uma discussão, ainda deixa a porta aberta.


E, principalmente, quero ser aquele pai que você nunca precisará perguntar se ama você, porque isso estará tão presente na maneira como eu te olho, te escuto, te protejo e te deixo ser quem você é que a pergunta sequer vai precisar nascer.


Quando você for adulto, talvez já não precise tanto de mim. Talvez tenha sua própria casa, sua própria família, seus próprios problemas e uma vida que eu só vou conhecer em partes. Mas eu espero que alguma coisa permaneça intacta dentro de você, uma memória simples de quando era pequeno e acreditava que o mundo podia ser enfrentado porque seu pai estava por perto.


E se algum dia você tiver um filho, talvez compreenda por que eu escrevi tudo isso antes mesmo de saber quem você seria.


Eu não estava tentando imaginar uma criança perfeita.


Estava tentando imaginar uma criança livre daquilo que me aprisionou.


Eu não quero ser lembrado como o pai que nunca errou. Quero ser lembrado como o pai que tentou não fazer você pagar pelos erros que vieram antes dele. Quero que você saiba que eu também tive medo, que também carreguei culpa, que também precisei aprender a amar sem confundir amor com abandono, mas que em algum momento decidi que a minha história não precisava continuar exatamente como começou.


Algumas heranças são feitas de sangue.


Outras são feitas de silêncio.


Eu quero que a minha para você seja feita de amor.


E talvez seja essa a única maneira que encontrei de conversar com aquela criança que ainda existe em algum lugar dentro de mim, prometendo a ela que o que faltou não será esquecido, mas também não será repetido.


Porque um dia você vai nascer, vai olhar para mim sem saber absolutamente nada sobre o homem que está diante de você, e eu vou ter a vida inteira para te mostrar.


Nesse primeiro olhar, eu espero que você não veja perfeição.


Espero que veja presença.


E, quando você crescer, quando puder entender todas as coisas que eu não consegui explicar enquanto era pequeno, talvez finalmente consiga compreender a promessa que fiz antes mesmo de você existir


eu não posso mudar o pai que eu tive, nem a mãe que tive, nem salvar o menino que fui, mas posso amar você de uma maneira que faça aquela história terminar em mim.


E, se eu conseguir fazer isso, talvez pela primeira vez uma coisa que começou como ausência termine como presença, uma coisa que começou como culpa termine como proteção, e tudo aquilo que um dia me fez perguntar se eu era digno de amor encontre finalmente uma resposta em você.


Não porque você veio me curar.


Mas porque você nunca precisará ser ferido para aprender o que é ser amado.

pródigo.

Eu não pareço com ele.

Pelo menos não quando me olho.

Algumas pessoas dizem que sim.

Dizem que existe alguma coisa no meu rosto, no meu jeito, em alguma expressão que faço sem perceber.

Eu escuto.

Talvez elas estejam certas.

Talvez exista alguma coisa.

Mas eu nunca soube enxergar.

Quando olho para mim, não vejo ele.

Vejo a mim.

E talvez seja justamente isso que me faça pensar tanto nele.

Porque, se existe alguma coisa que eu realmente herdei, não foram os olhos, nem a voz, nem o rosto.

Foram os vícios.

Os malditos vícios.

Talvez essa tenha sido a única herança que encontrou um jeito de chegar até mim.

E é estranho pensar nisso.

Porque eu não herdei as conversas que poderiam ter existido.

Não herdei conselhos.

Não herdei lembranças de infância ao lado dele.

Não herdei aquelas pequenas coisas que parecem tão banais até você perceber que passou a vida inteira sem elas.

Mas herdei isso.

E, as vezes, parece que meu próprio corpo conhece caminhos que eu nunca quis aprender.

Eu tento parar.

Consigo por um tempo.

Depois volto.

E quando volto, existe aquela sensação incômoda de que talvez eu esteja repetindo alguma coisa que começou muito antes de mim.

É aí que ele aparece.

Não na minha frente.

Dentro da minha cabeça.

No subconsciente.

Naquela parte de mim que funciona antes que eu consiga pensar.

Uma reação.

Um impulso.

Uma escolha.

E, por um segundo, eu paro e penso:

“Isso veio de mim?”

Ou veio dele?

Eu odeio não saber.

Talvez seja por isso que eu não consiga perdoá-lo.

Não é só pela ausência.

É pelo que a ausência deixou.

Porque é fácil imaginar que alguém que foi embora simplesmente desapareceu.

O problema é quando a pessoa vai embora e alguma coisa dela continua funcionando dentro de você.

Aí você não sabe mais se está tentando esquecer alguém ou tentando arrancar uma parte de si mesmo.

E eu não quero ser ele.

Nunca quis.

Não quero olhar para as minhas próprias mãos e encontrar as escolhas dele.

Não quero reconhecer nele aquilo que existe em mim.

Não quero que os meus erros tenham o nome dele escondido em algum lugar.

Mas talvez eu precise admitir uma coisa.

Talvez algumas pessoas estejam certas.

Talvez eu realmente carregue alguma coisa dele.

Só que não é isso que me define.

Porque eu também carrego tudo o que veio depois.

As pessoas que me ensinaram.

As que me machucaram.

As que eu amei.

As escolhas que fiz sozinho.

As vezes em que consegui ser diferente.

As vezes em que falhei.

Tudo isso também sou eu.

E talvez seja essa a parte que ele nunca vai conseguir tocar.

Ele pode ter deixado os vícios.

Pode ter deixado perguntas.

Pode ter deixado uma raiva que ainda não sei onde colocar.

Mas não pode decidir o que eu faço com tudo isso.

Talvez eu nunca consiga perdoá-lo.

Talvez um dia consiga.

Hoje eu não sei.

E talvez eu não precise saber.

Porque perdoar não pode significar fingir que nada aconteceu.

Nem transformar ausência em presença só porque seria mais bonito contar a história assim.

Ele não esteve.

Isso também faz parte da história.

E eu não preciso inventar outra para conseguir seguir.

Talvez um dia eu consiga me livrar de tudo aquilo que herdei sem escolher.

Talvez um dia eu olhe para algum vício e não reconheça nele nenhuma sombra.

Talvez eu consiga pensar nele sem sentir que alguma coisa dentro de mim se contrai.

Mas, enquanto esse dia não chega, eu continuo tentando.

Não para provar que sou diferente dele.

Mas porque quero descobrir quem eu seria se não precisasse passar tanto tempo tentando não ser.

Porque eu não sou ele.

Mesmo que exista alguma coisa dele em mim.

Mesmo que às vezes eu me reconheça em coisas que gostaria de não reconhecer.

Mesmo que o subconsciente ainda saiba o nome dele.

Ele pode fazer parte daquilo que explica de onde eu vim.

Mas não precisa fazer parte daquilo que eu vou me tornar.

E talvez seja isso que eu esteja tentando aprender:

eu não escolhi o que herdei.

Mas ainda posso escolher o que fica.

clone.

Com o avanço da tecnologia e, principalmente, com a minha completa falta de bom senso diante da modernidade, decidi que vou criar um clone seu.

Não precisa se assustar. É só um projeto científico.

Mais ou menos.

A primeira especificação é simples, ele precisa ter a sua aparência. E quando eu digo a sua aparência, não estou falando apenas de cabelo, olhos, boca, altura, essas coisas básicas que qualquer programador preguiçoso colocaria no código. Quero o conjunto completo. Quero aquele rosto que parece ter sido desenhado com uma certa má intenção, porque não é possível uma pessoa sair por aí com essa cara e ainda esperar que os outros funcionem normalmente.

Quero os seus olhos também.

Mas não basta colocar a cor, o formato e a distância entre eles. Quero o jeito que você olha.

Isso vai dar trabalho.

Porque tem um tipo específico de olhar seu que provavelmente não existe em nenhum banco de dados. Aquele olhar que muda de significado dependendo do que está acontecendo. as vezes parece que você está prestando atenção. as vezes parece que está julgando. as vezes parece que sabe exatamente o que eu estou pensando e decidiu não comentar só para me deixar nervoso.

O clone precisa disso.

Inclusive, vou precisar instalar um módulo chamado “olhar de Luana”.

Ainda estou tentando descobrir se é inteligência artificial ou ameaça psicológica.

A voz também é indispensável.

Não quero uma voz parecida. Quero a sua.

Quero a maneira como você fala determinadas palavras, as pausas que você faz, o jeito como muda a voz quando está rindo, quando está brava, quando está com vergonha e principalmente quando tenta fingir que não está com vergonha, nessa sua defensiva absurda.

Quero até aquelas palavras que só você falaria em determinadas situações.

Porque uma inteligência artificial pode aprender milhões de idiomas, mas se ela não souber exatamente qual palavra você usaria para me tirar do sério, ela é simplesmente inútil.

Pode desligar.

Também quero suas manias.

Todas.

As pequenas, as bobas, as que você provavelmente nem percebe que tem.

Quero que o clone faça aquela coisa específica que você faz quando está pensando. Quero que ele tenha suas reações involuntárias, suas implicâncias, seus jeitos, suas mudanças repentinas de assunto e até aquela capacidade impressionante de transformar uma conversa completamente normal em alguma coisa que eu vou ficar lembrando três dias depois.

E, obviamente, quero instalar o seu senso de humor.

Mas esse é perigoso.

Porque o objetivo é criar um clone seu, não uma arma de destruição em massa.

Embora, pensando bem, talvez as duas coisas sejam praticamente a mesma tecnologia.

Também quero as nossas memórias.

Todas.

Quero que, quando chegar aquela hora silenciosa da noite em que o mundo inteiro parece diminuir o volume, eu possa sentar ao lado dele e dizer

“Você lembra?”

E ele lembrar.

Lembrar das coisas que ninguém mais entenderia.

Das conversas que começaram falando de uma coisa e terminaram em absolutamente nada.

Das piadas que, explicadas para qualquer outra pessoa, perderiam completamente a graça.

Dos momentos pequenos que não pareciam importantes quando aconteceram, mas que, depois de algum tempo, ganharam aquele peso estranho de coisa que a gente gostaria de viver de novo.

Quero que ele ria das nossas lembranças.

E quero que, as vezes, ele fique em silêncio comigo.

Porque talvez seja essa a parte mais difícil de copiar.

O silêncio.

O seu silêncio nunca foi simplesmente ausência de palavras. as vezes ele dizia mais do que você conseguiria explicar falando.

Então eu quero isso também.

Quero até a sua maneira de ficar quieta.

Quero o seu jeito de existir perto de mim sem precisar fazer nada.

E, claro, existe uma especificação absolutamente indispensável

o toque.

Não adianta ter aparência perfeita, voz perfeita, memória perfeita, inteligência perfeita.

Se eu não puder reconhecer você pelo jeito que a sua mão encontra a minha, o projeto fracassou.

Se o abraço não tiver aquele negócio inexplicável que faz o resto do mundo parecer um pouco menos urgente, pode devolver para a fábrica.

Se o toque não tiver a mesma capacidade de dizer “estou aqui” sem precisar pronunciar uma única palavra, nem instala.

Porque, no fim, talvez seja esse o defeito fundamental da tecnologia.

Ela consegue copiar quase tudo.

Rosto.

Voz.

Movimento.

Memória.

Comportamento.

Pode até aprender a responder exatamente como você responderia.

Mas ainda não descobriu como fabricar a sensação de encontrar alguém e pensar, sem precisar dizer

“Ah

Era você.”

E acho que é aí que o meu projeto começa a dar errado.

Porque quanto mais eu tento especificar o que o clone precisa ter, mais percebo que não estou tentando criar uma segunda Luana.

Estou tentando construir uma máquina capaz de reproduzir aquilo que acontece comigo quando você está por perto.

E isso, infelizmente, não cabe em código.

Não tem atualização.

Não tem backup.

Não tem versão premium.

Nem a inteligência artificial mais avançada do mundo conseguiria entender por que uma determinada risada sua consegue mudar completamente o clima de uma noite.

Então eu poderia continuar.

Posso pedir o seu jeito de andar, o jeito de mexer no cabelo, as expressões que você faz sem perceber, as frases que só você fala, o seu olhar quando está feliz, o seu olhar quando está tentando esconder alguma coisa, a maneira como você pronuncia certas palavras, o seu abraço, o seu silêncio, as nossas memórias, as nossas piadas, os nossos códigos secretos...

Mas quer saber?

AH, DEIXA PRA LÁ.

É MUITA COISA.

O projeto ficou caro demais, a tecnologia ainda não chegou nesse nível e aparentemente eu descobri que fabricar uma Luana exige mais engenharia do que eu imaginava.

Tem como você voltar logo mesmo?

KKKK

Porque, pensando bem, eu nem queria um clone.

Eu só queria você.

E, convenhamos, essa versão original ainda é infinitamente mais bonita.

a parte mais bonita de mim.


Eu não sei em que momento você deixou de ser apenas alguém que eu amava e passou a ser um lugar. Talvez tenha sido aos poucos, como essas coisas importantes costumam acontecer, primeiro na maneira como sua presença mudava o peso dos meus dias, depois na falta que fazia quando não estava, até chegar ao ponto em que já não era possível distinguir saudade de vontade, lembrança de esperança, passado de alguma coisa que ainda insistia em nascer.


Existem amores que chegam como tempestade. O nosso nunca me pareceu assim.


O nosso sempre teve mais a ver com a luz entrando devagar pela janela de manhã, com aquela paz estranha de encontrar alguém e sentir que, por alguns minutos, o mundo finalmente parou de exigir alguma coisa. Você tinha esse efeito sobre mim. Não precisava fazer nada extraordinário. Bastava existir perto o suficiente para que as coisas comuns ganhassem outro tipo de beleza.


É o que mais me assusta.


Porque eu poderia esquecer uma conversa, uma data, uma tarde específica. Poderia até tentar convencer a memória de que determinados momentos não foram tão importantes assim. Mas como se esquece a sensação de ter encontrado alguém diante de quem a própria alma parecia descansar?


Eu te amo também nas pequenas coisas.


No silêncio que não precisava ser preenchido. No jeito como eu imaginava seus olhos encontrando os meus depois de um dia difícil. Na vontade de te contar alguma coisa quando acontecia, mesmo que fosse absolutamente insignificante. No desejo de dividir contigo não apenas as grandes conquistas, mas também as partes mais complicadas da vida, o cansaço, a preguiça, uma música, uma rua bonita, uma noite qualquer.


Porque amar você nunca foi somente querer você.


Foi querer a vida quando ela tinha você dentro.


E talvez por isso tenha existido tanta gratidão.


Gratidão por ter conhecido uma pessoa capaz de despertar em mim uma ternura que eu nem sabia que ainda possuía. Gratidão pelos momentos em que o mundo parecia pequeno o bastante para caber entre duas pessoas. Gratidão por cada instante em que eu olhei para você e pensei, quase sem perceber como pode alguém ser tão bonita quando simplesmente está sendo ela mesma?


Eu não precisava de uma versão perfeita sua.


Nunca precisei.


Queria que você se enxergasse pelos meus olhos...


Queria justamente aquilo que não podia ser ensaiado, seus defeitos, suas contradições, seus dias bons e seus dias difíceis, o que você escondia e o que deixava escapar sem perceber. Queria conhecer aquilo que existia por trás daquilo que todo mundo conseguia enxergar.


Porque há uma intimidade maior do que tocar alguém.


É ser autorizado a conhecer seus lugares inacessíveis.


E eu teria ficado ali.


Mesmo quando você não soubesse o que dizer. Mesmo quando o mundo pesasse demais. Mesmo quando você duvidasse de si. Eu teria querido ser aquela presença que não exige que você seja forte o tempo inteiro. Aquela espécie de abrigo silencioso onde você pudesse simplesmente existir.


A fita de amar alguém é isso, olhar para uma pessoa e, em vez de desejar que ela se torne aquilo que você imaginou, desejar que ela tenha liberdade suficiente para continuar sendo aquilo que é.


E ainda assim permanecer.


Ainda assim escolher.


Ainda assim olhar.


Porque algumas pessoas não são apenas desejadas. São reconhecidas.


Como se alguma parte nossa dissesse, antes mesmo que a razão consiga explicar, é você.


E eu reconheci você.


Reconheci na primeira vez e reconheceria em outras vidas, em outras cidades, em outros nomes, sob outras versões de nós mesmos. Reconheceria sua maneira de existir mesmo que tudo ao redor mudasse. Talvez porque certas coisas não sejam guardadas pela memória, mas por uma região muito mais profunda da gente.


Por isso, se um dia tudo aquilo que fomos virar apenas uma lembrança distante, eu ainda vou considerar bonito o fato de ter existido.


Não porque tenha sido perfeito.


Mas porque foi verdadeiro enquanto aconteceu.


E se o amor tiver mesmo alguma forma de eternidade, talvez ela não esteja em permanecer para sempre ao lado de alguém. Talvez esteja em conseguir carregar uma pessoa dentro de si sem precisar aprisioná-la.


Então eu não quero transformar o que senti em posse.


Quero transformar em permanência.


Daquelas que não fazem barulho.


Que continuam existindo numa música qualquer, numa noite silenciosa, numa lua cheia, numa vontade repentina de olhar para o céu e lembrar que, em algum lugar do mundo, alguém já fez você enxergar beleza onde antes havia apenas escuridão.


E se algum dia você se perguntar se foi amada de verdade, espero que a resposta encontre você antes mesmo da pergunta terminar.


Porque houve alguém que olhou para você e não viu apenas uma pessoa bonita.


Viu casa.


Viu oceano.


Viu a parte mais delicada de si mesmo refletida em outros olhos.


E, por um instante raro e inexplicável, teve a sensação de que finalmente tinha encontrado aquilo que tantas músicas tentam descrever quando falam sobre amor.


Não tô falando do amor que grita.


Não tô falando do amor que prende.


Mas aquele que simplesmente olha para alguém e pensa


se for para existir alguma coisa bonita neste mundo, que seja o tempo que eu tiver ao seu lado.

reamar.


Enterro o que fomos sem negar o que fomos,
deixo o antigo amor repousar sem pesar
há coisas que morrem para que, entre os escombros,
duas mãos diferentes se possam tocar.


Não quero o retorno do mesmo começo,
nem repetir promessas que o tempo desfez
se ela vier, que eu saiba encontrá-la de novo,
como quem conhece e descobre outra vez.


Imagino nós dois numa mesa qualquer,
ela contando alguma coisa e eu distraído,
não pelo que diz, mas pelo jeito de dizer
como se o amor tivesse enfim aprendido


que amar não é saber quem o outro será,
é ter curiosidade de vê-lo mudar.


E talvez, quando a tarde cair sobre nós,
eu perceba, sorrindo, uma coisa singela
não foi o tempo que trouxe de volta a nós,
foi o que aprendemos enquanto faltava ela.


Porque ainda seremos estranhos em certas manhãs,
ainda haverá perguntas que não saberemos fazer
e eu quero justamente essas partes humanas:
descobrir sua nova maneira de ser.


Que ela também me encontre sem me procurar, nas versões antigas que um dia conheceu. Eu não quero que ela volte para o homem de lá, quero que ela conheça o homem que o tempo me deu.


E se algum dia estivermos, sem perceber,
em qualquer canto do mundo, sem nada especial, eu quero olhar para ela e finalmente entender


o nosso amor não voltou.


Ele começou de novo.

te contemplo.



Se a vejo, o mundo perde a compostura,
e tudo ao redor parece recuar
meu olhar, que antes buscava alguma altura,
encontra nela um modo de pousar.


Não sei que espécie de feitiço encerra
o gesto mais simples que ela faz sem ver
mas há qualquer beleza sobre a terra
que só me parece inteira ao lhe pertencer.


Eu poderia olhá-la por mil anos,
sem que o encanto aprendesse a terminar;
como se o tempo, cúmplice dos enganos,
também quisesse um pouco contemplar.


E se me perguntam onde eu me perdi,
não foi no mundo, foi diante dela que eu me vi.

nossa liturgia.

Entre nós há uma distância
que nenhum mapa saberia medir,
porque não se mede em léguas
o que duas almas precisam conter
quando nasceram querendo se encontrar.

Há cidades entre nossos passos,
noites inteiras entre nossas mãos,
e uma espécie de silêncio
que aprendemos a chamar de prudência
para não chamar de paixão.

Tu sabe.
Eu sei.

E talvez seja justamente isso
o que torna tudo tão difícil
não há dúvida que nos salve,
nem inocência que nos proteja.
Há apenas essa certeza mútua,
quieta e quase cruel,
de que se fosse fácil,
nós já teríamos vivido tudo.

Porque há um amor reprimido
morando no intervalo das palavras,
um incêndio educado pela distância,
uma vontade que baixa os olhos
toda vez que o desejo ameaça dizer seu nome.

E quando penso em ti,
não penso somente no encontro.

Penso naquilo que viria depois dele
a demora dos dedos,
o repouso da cabeça junto ao peito,
o abraço que não teria pressa de acabar,
como se nossos corpos finalmente descobrissem
uma língua que a boca jamais aprendeu.

Talvez nossas mãos já se procurem
sem que saibam.

Talvez, em alguma noite distante,
quando o sono demora e o quarto se cala,
tu também imagine minha presença
chegando devagar,
como quem atravessa a escuridão
sem querer acordar a saudade.

E eu te imagino fazendo o mesmo.

Dois desejos separados por quilômetros,
dois corações fingindo serenidade,
duas vontades absurdamente próximas
vivendo em geografias diferentes.

É estranho amar assim.

Ter alguém tão perto do pensamento
e tão longe da pele.

Saber o caminho até os olhos,
mas não poder percorrê-lo.
Conhecer a curva do sorriso,
mas não poder guardar o rosto entre as mãos.
Querer dizer fica
quando tudo ao redor insiste em dizer longe.

E talvez seja por isso
que nosso amor pareça tão pequeno por fora
e tão imenso por dentro.

Porque aquilo que poderia ser vivido
precisa ser imaginado.

O beijo se torna hipótese.
O abraço, memória de um futuro.
O toque, uma espécie de oração
que ambos fazemos em silêncio.

Mas há uma coisa que a distância não conseguiu levar

a vontade.

Ela permanece.

Permanece quando conversamos,
quando nos despedimos,
quando fingimos que certas palavras
não carregam segundas intenções.

Permanece naquela fração de segundo
em que nossos olhos se encontram
e ninguém sabe muito bem
quem desviou primeiro.

E se um dia a distância ceder,
se o acaso for gentil conosco,
se as estradas finalmente resolverem
terminar no mesmo lugar,

não haverá muito o que explicar.

Talvez apenas silêncio.

Porque depois de tanto tempo
reprimindo o que sentimos,
o primeiro toque dirá tudo.

E haverá nos nossos corpos
a estranha familiaridade
de quem esperou demais
por algo que sempre soube reconhecer.

Então talvez descubriremos
que não era exagero,
nem carência,
nem fantasia.

Era somente amor
sem espaço suficiente para acontecer.

E quando houver espaço,
quando não houver mais quilômetros
entre a tua mão e a minha,

não haverá pressa.

Haverá fome de presença.

Haverá o abraço demorado
de quem finalmente pode tocar
aquilo que passou tanto tempo
amando de longe.

E talvez seja essa a nossa tragédia

não nos falta amor.

sobre amar e ser livre.

A luz atravessa a janela sem pedir passagem.

O cheiro da chuva permanece no ar mesmo depois que o céu se abre. Uma música termina, mas, por algum motivo, continua acontecendo dentro de mim.

Talvez ela pertença a essa mesma categoria.

Não porque seja distante, mas porque existe nela alguma coisa que não pode ser alcançada pela matéria.

Eu posso conhecer seus hábitos, saber o que ela gosta, reconhecer sua voz em meio a outras, decorar suas pequenas manias. Posso conhecer os caminhos que ela percorre, os silêncios que prefere, as palavras que costuma escolher.

E, ainda assim, existe uma parte dela que permanece intocável.

Uma espécie de território sem mapa.

É justamente essa parte que mais me interessa.

Não aquilo que ela oferece ao mundo, mas aquilo que existe quando ninguém está olhando. A pessoa que permanece depois que todas as expectativas desaparecem. O pensamento que ela não diz. A versão dela que não precisa ser compreendida para continuar sendo verdadeira.

Talvez seja ali que ela realmente more.

Não em uma casa, nem em uma foto, nem nas lembranças que consigo organizar.

Mas naquele lugar estranho onde ela se tornou uma influência silenciosa sobre mim.

Ela não precisa estar perto para existir em mim.

E isso não tem nada de tristeza.

É quase o contrário.

Existe uma beleza imensa em descobrir que ela pode atravessar minha vida sem precisar ocupar todos os meus espaços. Como uma constelação, distante, impossível de tocar, mas capaz de mudar a maneira como atravesso a noite.

Talvez eu goste dela justamente porque nunca consigo terminar de entendê-la.

Existe alguma coisa muito bonita em não possuir a explicação completa de alguém.

O mistério não está naquilo que ela esconde.

Está naquilo que, mesmo quando revela, continua profundo.

E talvez seja esse o tipo de amor que eu aprendi a reconhecer nela, aquele que não tenta transformá-la em propriedade, certeza ou destino.

Um amor que olha para ela e pensa

eu não preciso ter todas as respostas para reconhecer o que isso significa.

Porque o que sinto por ela não pede conclusão.

Pede que, por alguns instantes, eu pare de tentar definir o que sinto e simplesmente permaneça diante daquilo.

Como quem observa o oceano sabendo que jamais poderá carregá-lo.

Ainda assim, entra na água.

Ainda assim, fica.

Talvez porque eu tenha entendido que o valor de certas coisas nunca esteve na possibilidade de possuí-las.

O céu não é menos bonito porque não posso guardá-lo.

A lua não me pertence porque a contemplo todas as noites.

E ela também não precisa ser minha para ser profundamente minha em algum lugar que a linguagem não alcança.

Existe uma parte dela que não é minha.

Nunca foi.

E talvez seja exatamente por isso que eu a ame tanto.

Porque não posso tocá-la.

Não posso prendê-la.

Não posso pedir que permaneça exatamente onde a encontrei.

Só posso reconhecê-la quando aparece.

Na maneira como ela existe.

Naquilo que ela desperta.

Na pequena alteração que acontece dentro de mim quando o mundo, por alguma coincidência, me devolve alguma coisa que lembra ela.

Talvez amar seja aprender essa delicadeza:

saber que ela é livre, e ainda assim escolhê-la.

Saber que ela pode ir, e ainda assim não transformar o amor em uma prisão.

Saber que não tenho o direito de possuir seus caminhos, seus pensamentos, seus silêncios ou qualquer parte dela que queira permanecer somente dela.

E talvez exista uma liberdade ainda maior em amar assim.

Não porque eu queira amá-la de longe.

Mas porque quero que, quando ela estiver perto, seja porque escolheu estar.

Quero sua presença sem precisar da sua obrigação.

Seu carinho sem precisar da sua promessa.

Sua permanência sem precisar segurá-la pelos braços.

Quero que ela possa continuar sendo inteira, mesmo quando estiver comigo.

Porque, no fim, talvez amar alguém seja justamente isso:

não tentar diminuir o tamanho do mundo dela para caber dentro do meu.

É olhar para ela sabendo que existe um universo inteiro acontecendo por trás dos seus olhos e, em vez de querer possuir esse universo, sentir admiração por poder conhecê-lo.

Algumas coisas foram feitas para permanecer conosco sem jamais permanecerem ao nosso alcance.

E, ainda assim, eu escolho olhar.

Escolho sentir.

Escolho ficar alguns segundos a mais diante dela, diante de tudo aquilo que não posso segurar.

Porque, no fim, talvez o que realmente permanece nunca seja aquilo que consigo possuir.

Seja aquilo que, mesmo depois de partir de todos os lugares possíveis, continua existindo em mim.

E talvez amar e ser livre seja exatamente isso

eu não preciso prender ela para querer que fique.

Não preciso chamá-la de minha para saber o quanto ela significa para mim.

Não preciso ter posse sobre nada que exista nela para reconhecer que, entre tantas coisas que a vida poderia ter colocado diante dos meus olhos, foi ela quem conseguiu permanecer dentro deles.

E talvez seja essa a forma mais bonita que encontrei de amá-la:

deixando a porta aberta,

não porque eu queira que ela vá,

mas porque quero que ela saiba que, se ficar,

será livre para ficar.

o dom de me apaixonar por você outra vez.

O mais estranho é que eu nunca terminei de me apaixonar por você.

Eu apenas fui mudando o jeito.

No começo, bastava pouco.

Um olhar demorava um segundo a mais e alguma coisa dentro de mim já encontrava morada. Uma conversa se estendia pela noite e eu descobria que gostava da maneira como você ocupava o tempo. Gostava do seu jeito, da sua presença, das pequenas coisas que, naquele momento, pareciam pequenas demais para saber que um dia seriam enormes.

Depois veio outra versão sua.

E eu me apaixonei de novo.

Não pela lembrança do que você tinha sido, mas por aquilo que você estava se tornando diante dos meus olhos. Algumas coisas mudaram. Outras permaneceram exatamente onde estavam. E eu descobri que também sabia amar suas mudanças.

Me apaixonei pela mulher que você se tornou.

Pelas novas manias.
Pelas novas palavras.
Pelos novos silêncios.
Pelo jeito diferente de olhar para determinadas coisas.

Me apaixonei pelo que aprendi sobre você e, principalmente, pelo que ainda não sabia.

Depois me apaixonei outra vez.

E outra.

E outra.

É quase engraçado pensar que eu poderia conhecer alguém tão profundamente e, ainda assim, continuar encontrando lugares desconhecidos.

Como se você tivesse sido escrita em capítulos que o tempo insiste em reescrever.

Eu volto para a mesma pessoa e encontro outra paisagem.

O mesmo sorriso, mas com outra história por trás.

Os mesmos olhos, mas carregando coisas que antes não carregavam.

A mesma voz, dizendo coisas que eu nunca tinha escutado daquele jeito.

E eu me apaixono.

De novo.

Não porque esqueci o que senti antes.

Justamente porque lembro.

Lembro de cada versão de você que passou por mim e percebo que nenhuma delas precisou morrer para dar espaço à próxima.

Elas ficaram.

Ficaram em mim.

E talvez seja por isso que o meu amor nunca pareceu uma linha reta. Ele se parece mais com uma espiral volta ao mesmo ponto, mas nunca exatamente na mesma altura.

Eu volto para você e sinto coisas que não sentia antes.

Presto atenção em detalhes que antes passavam despercebidos.

Entendo gestos que um dia não compreendia.

Encontro beleza em coisas que antes sequer sabia observar.

E penso que me apaixonar por você novamente não significa repetir o que já vivi.

Significa viver de outro jeito aquilo que ainda continua sendo você.

Eu me apaixono pela sua força.

Depois pela sua delicadeza.

Pelo que você mostra.

Depois pelo que guarda.

Pela sua presença.

Depois pela falta dela.

Pelo que você foi comigo.

Pelo que é agora.

Pelo que ainda está aprendendo a ser.

E continuo descobrindo maneiras.

Essa é a parte que mais me impressiona.

Eu poderia passar anos tentando explicar o que sinto e, ainda assim, bastaria você mudar uma pequena coisa no jeito de existir para eu encontrar uma palavra nova.

Um sentimento novo.

Uma forma nova de ficar.

Meu amor por você não precisou ser recuperado porque nunca foi embora.

Ele só ficou quieto em alguns lugares.

Esperou outras fases.

Aprendeu outras formas de respirar.

E quando você apareceu de novo, ele não precisou ser chamado.

Reconheceu você.

Como se soubesse exatamente onde estava.

E foi assim que aconteceu mais uma vez.

Eu me apaixonei.

Sem precisar esquecer das vezes anteriores.

Sem precisar escolher qual versão sua amar.

Amei a que chegou.

Amei a que mudou.

Amei a que permaneceu.

Amei a que eu conheci por acaso em pequenos detalhes.

E sigo amando a que ainda estou descobrindo.

Porque o que sinto por você não parece ter sido feito para caber numa única experiência.

Ele se repete sem ser repetitivo.

Volta sem ser o mesmo.

Recomeça sem ter acabado.

E toda vez que penso que finalmente entendi como é amar você, alguma coisa acontece.

E talvez não, com certeza, eu esteja muito ocupado sendo seu para me apaixonar por outra pessoa*

Você sorri de um jeito diferente.

Diz alguma coisa que eu nunca tinha ouvido.

Me olha por alguns segundos a mais.

E pronto.

Lá estou eu outra vez.

Me apaixonando por você.

Pela mesma pessoa.

Pelo mesmo amor.

Por uma versão que eu ainda não conhecia.

Assim mesmo, redundante como sou, e mesmo sendo.

E, pela primeira vez, não quero descobrir onde isso termina.

Quero descobrir quantas vezes ainda vou conseguir me apaixonar por você antes de perceber que, no fundo, nunca parei.

elegia à lua

Amei-te como a lua ama o mar,
de longe, mas inteira em seu encanto
sem nunca precisar de o alcançar,
fazendo da distância o próprio canto.

Teus olhos tinham luz de madrugada,
um brilho que nenhuma estrela imita
e havia neles qualquer coisa sagrada,
dessas que a alma reconhece e acredita.

Eu te guardei nas margens do pensamento,
como quem guarda o verão depois da chuva
e mesmo quando veio o esquecimento,
teu nome permaneceu onde a saudade atua.

Talvez amar seja isso, afinal
ser mar quando o outro é lua distante
saber que o impossível pode ser real
quando um olhar transforma tudo num instante.

E se algum dia o oceano se calar,
e a lua perder seu brilho sobre a areia,
ainda haverá em mim um lugar
onde a tua luz, silenciosa, incendeia.

Porque há amores que o tempo não desfaz,
nem a distância consegue levar
eles apenas aprendem a viver em paz
no espaço entre a lua, o céu e o mar.

E se me perguntarem onde te encontrei,
direi: num lugar que não sei explicar
entre tudo aquilo que um dia sonhei
e tudo aquilo que ainda quero amar.

a níveis cósmicos

Talvez algumas pessoas não voltem para a nossa vida.

Talvez elas nunca tenham realmente saído.

A gente só aprende a conviver com a distância. Aprende a seguir a rotina, conhecer outras pessoas, ocupar os espaços vazios e fingir que certas histórias ficaram para trás.

(receio de parecer redundante)

E funciona.

Até o dia em que a gente se encontra de novo.

Então acontece uma coisa simples demais para ser ignorada, parece que nada precisou ser recuperado.

A conversa volta ao lugar onde parou. A risada ainda tem o mesmo efeito. Os apelidos continuam fazendo sentido. É como se o tempo tivesse passado para todo mundo, menos para nós dois.

Talvez seja isso que torna algumas pessoas tão difíceis de transformar em passado. Porque, com elas, o passado nunca parece completamente encerrado.

A gente pode passar meses tentando ficar longe, convencendo a si mesmo de que é melhor seguir caminhos diferentes. Mas, quando estamos no “mesmo lugar”, existe uma familiaridade que não precisa ser chamada.

Ela simplesmente aparece.

Como se alguma coisa dentro de mim dissesse

“Ah. Era aqui.”

E tudo volta a funcionar. Não de um jeito perfeito, mas natural.

A conversa se desenrola sem esforço. Uma piada puxa outra, um assunto qualquer vira uma conversa de horas e, quando percebo, estou falando de coisas que COM CERTEZA não contaria para mais ninguém.

Com você, eu não preciso escolher tanto as palavras. Existe um idioma que construímos sem perceber. Você sabe onde tocar para me fazer rir, entende meus silêncios, reconhece minhas manias e percebe qual versão de mim está aparecendo.

Talvez essa seja uma das formas mais profundas de intimidade, não precisar reaprender alguém.

A gente já se conhece.

Só precisou se reencontrar.

E é aí que tudo fica estranho.

Quando estamos longe, parece possível seguir em frente, colocar cada coisa no seu lugar e aceitar que algumas histórias pertencem ao passado. Mas, quando estamos juntos, o mundo parece discordar.

As cores ficam mais vivas. As coisas pequenas ganham importância. Uma conversa qualquer parece suficiente para salvar o dia. Um problema enorme perde o tamanho, não porque foi resolvido, mas porque estamos ali.

Você não melhora a minha vida como quem chega para consertá-la. Você me faz lembrar de como é gostar dela.

Não precisa trazer respostas, prometer que tudo vai dar certo ou mudar alguma coisa. Basta estar. E alguma coisa em mim descansa.

É como se meu corpo reconhecesse uma casa que minha cabeça passou muito tempo tentando esquecer.

Talvez por isso eu tenha a sensação de que nos conhecemos há mais tempo do que deveríamos. Como se a nossa história tivesse começado antes da primeira página que consigo lembrar.

E existe uma coisa ainda mais difícil de explicar mesmo quando a distância vence, alguma parte de mim parece continuar orientada na sua direção.

Não é pensamento. Não é exatamente saudade. É uma espécie de insistência silenciosa.

Como se os olhos ainda soubessem procurar você antes mesmo de eu perceber que estou procurando. Como se meu corpo tivesse guardado, em algum lugar que a razão não alcança, uma noção muito particular de onde você está.

Talvez seja por isso que, entre tantas pessoas, tantos lugares e tantos caminhos possíveis, existe sempre alguma coisa estranhamente familiar quando o caminho termina em você.

Como se certas conexões não dependessem de proximidade para continuar existindo.

A gente pode até tentar ficar longe, mas distância não é o mesmo que ausência. Distância é quando não estamos juntos. Ausência é quando a pessoa deixa de existir dentro da gente.

E você nunca chegou a esse lugar.

Não é que eu precise de você para existir. Nós dois conseguimos viver separados. Mas, quando existe a possibilidade de compartilhar a vida, aparece uma vontade maior do que a lógica.

Ela não pergunta se é conveniente. Não calcula a distância, não consulta o calendário nem faz uma lista de motivos. Apenas olha para tudo que está no caminho e pergunta

“Tá. Mas como a gente faz?”

Os obstáculos continuam existindo. Só deixam de parecer maiores do que a vontade.

A distância vira um detalhe. O tempo pode ser atravessado. O medo vira conversa. O passado deixa de ser uma sentença e passa a ser apenas parte da história.

Porque existe alguma coisa entre nós que não se repete.

Não é só química, saudade ou carinho.

É reconhecimento.

É olhar para alguém que eu já conheci de tantas formas e ainda encontrar algo novo. É saber quem você é e, mesmo assim, continuar querendo descobrir quem está se tornando. É ter história suficiente para entender o silêncio e curiosidade suficiente para continuar perguntando.

E talvez seja justamente isso que torna tudo tão difícil de explicar, há coisas que a gente entende sem saber dizer como. Um olhar que encontra o outro no meio de uma sala. Uma presença que o corpo percebe antes da cabeça. A sensação de que, mesmo depois de tantos caminhos diferentes, existe uma espécie de direção que nunca deixou de existir.

Não sei se algumas pessoas ficam gravadas na memória.

Talvez fiquem em lugares mais profundos do que isso.

Quando compartilhamos a vida, mesmo que por pouco tempo, existe uma paz difícil de explicar para quem olha de fora.

Ninguém entende completamente as nossas piadas, os apelidos, os silêncios ou o motivo de uma frase qualquer fazer nós dois rirmos daquele jeito.

E talvez nem precise entender.

Algumas coisas ficam mais bonitas quando não podem ser traduzidas. Existem relações que podem ser explicadas e existem relações que só podem ser vividas.

A nossa parece pertencer a segunda categoria.

É por isso que nada se compara. Não porque não existam outras pessoas incríveis, mas porque nenhuma delas é você. Nenhuma carrega exatamente a nossa história, conhece a nossa língua ou sabe chegar naquele lugar específico dentro de mim.

O que mais me impressiona é que nós já tentamos ficar fora da vida um do outro. E, ainda assim, quando voltamos a compartilhá-la, tudo parece fazer sentido rápido demais.

Como se, apesar de todos os caminhos diferentes, alguma parte de nós ainda soubesse voltar.

E talvez o mistério não seja entender por que continuamos sendo puxados um para o outro.

Talvez seja perceber o que acontece quando paramos de resistir.

O mundo fica mais leve. A conversa acontece. A vontade vence algumas distâncias. Os problemas diminuem de tamanho. A gente volta a falar aquela língua que só nós dois conhecemos.

Por algumas horas, não existe passado, futuro ou necessidade de definir nada.

Existe você.

Existe eu.

E existe a sensação quase inacreditável de que, entre todas as possibilidades da vida, estamos exatamente onde deveríamos estar.

Quando estamos juntos, não parece que estamos começando de novo.

Parece que, depois de tanto tempo tentando ficar longe, finalmente paramos de lutar contra algo que sempre soubemos

juntos, existe paz.

Existe paz quando abraçamos as nossas crianças internas, um refúgio.

E talvez você não faça a minha vida parecer melhor.

Talvez você faça a vida parecer o lugar certo.

por que é proibido pisar na grama?.


Talvez essa seja uma das proibições mais estranhas que inventamos.


Uma placa fincada no chão, algumas letras vermelhas dizendo “PROIBIDO PISAR NA GRAMA”, e de repente um pedaço de terra deixa de ser apenas terra. Aquele lugar que poderia ser atravessado vira fronteira. O caminho mais curto passa a ser o caminho errado. E ninguém precisa mais construir um muro, porque basta ensinar as pessoas a terem medo de ultrapassar uma linha que, na verdade, só existe porque alguém decidiu que ela deveria existir.

Vezes me pergunto se não fizemos o mesmo com certas pessoas.


Talvez você seja a minha grama.


Não porque exista alguma placa dizendo que não podemos nos encontrar, mas porque existem tantas pequenas proibições invisíveis entre nós. O que vão pensar? O que aconteceu antes? E se voltarmos para um lugar que doeu? E se as nossas vidas já tiverem seguido por caminhos que não combinam mais? E se aquilo que um dia foi tão bonito não couber mais nas pessoas que nos tornamos?


E então ficamos parados na calçada.


Olhando.


Tão perto.


Com vontade de atravessar.


Mas esperando alguém nos dizer que pode.


É curioso como a gente aprende a obedecer antes mesmo de entender a regra. A gente cresce acreditando que algumas coisas simplesmente não podem ser feitas. Que certas portas não devem ser abertas novamente. Que alguns lugares pertencem ao passado. Que determinadas pessoas precisam permanecer onde as deixamos, mesmo quando alguma coisa dentro da gente ainda reconhece o caminho até elas de olhos fechados.


Mas quem decidiu isso?


Quem disse que a felicidade precisa pedir autorização?


Quem determinou onde eu posso pisar para viver aquilo que sinto?


E, principalmente, por que eu deveria ter medo de uma placa colocada por alguém que nunca sentiu o que eu senti?


Talvez seja esse o maior problema da vida confundimos limite com verdade.


Nem tudo que nos disseram que era proibido realmente era.


As vezes era apenas perigoso. As vezes era apenas difícil. As vezes alguém antes de nós se machucou naquele mesmo lugar e, por isso, decidiu que ninguém mais deveria pisar ali.


Mas a grama continuou crescendo.


Verde, silenciosa, bonita.


Como se não soubesse que alguém havia transformado aquele pedaço de mundo em território proibido.


E talvez seja isso que mais me incomode.


Porque a grama não tem culpa da história que aconteceu sobre ela.


Ela não sabe das nossas dores antigas. Não sabe dos erros, das despedidas, das coisas que não foram ditas. Não sabe quem éramos quando estivemos ali pela primeira vez. Ela só continua crescendo no mesmo lugar, esperando que algum dia alguém tenha coragem de atravessá-la novamente.


E talvez nós sejamos exatamente isso.


Duas pessoas olhando para o mesmo lugar onde um dia foram felizes, com medo de descobrir que ainda existe alguma coisa ali.


Com medo de pisar.


Com medo de lembrar.


Com medo de não sentir nada.


Com medo de sentir tudo.


Talvez exista uma vida inteira entre uma calçada e outra. Uma nova versão de mim. Uma nova versão de você. Outras pessoas, outras histórias, outras cicatrizes. Talvez nossas vidas já não se encaixem como antes. Talvez não exista mais espaço para aquilo que fomos.


Mas e se existir?


E se a gente estiver deixando uma possibilidade morrer apenas porque alguém nos ensinou que voltar é sempre um erro?


Eu não quero romantizar aquilo que machucou. Não quero fingir que o passado não existiu. Não quero apagar as consequências das coisas que fizemos ou das coisas que fizeram conosco.


Só não quero transformar o passado em uma sentença.


Porque existe uma diferença enorme entre voltar para o passado e reencontrar alguém que também conseguiu sair dele.


Talvez pisar na grama não seja esquecer a placa.


Talvez seja simplesmente entender que ela nunca teve autoridade sobre os nossos sentimentos.


E talvez seja por isso que eu ainda olhe para aquele lugar.


Porque a grama é bonita.


Porque foi ali que alguma parte da nossa história aconteceu.


Porque, entre tantos lugares possíveis no mundo, foi justamente aquele que nos encontrou.


E talvez ela seja sagrada não porque ninguém possa pisar nela, mas porque foi testemunha de algo que ninguém mais viu.


Então, por que é proibido pisar na grama?


Talvez porque alguém tenha medo de que ela seja destruída.


Talvez porque seja mais fácil proteger alguma coisa mantendo todos afastados do que permitir que alguém descubra como caminhar sobre ela sem machucá-la.


Mas eu não sei se quero viver assim.


Não quero passar a vida inteira olhando para lugares onde poderia estar.


Não quero deixar que o medo dos outros escolha o caminho dos meus pés.


Se eu sentir vontade de atravessar, talvez eu atravesse.


Não porque tenha certeza de que do outro lado existe felicidade.


Mas porque, pela primeira vez, quero que a escolha seja minha.


E se você estiver do outro lado da grama, talvez eu não precise prometer que tudo será como antes.


Talvez eu só precise perguntar:


você ainda quer caminhar comigo?


Porque talvez liberdade seja isso.


Não fazer tudo que queremos sem consequências.


Mas ter coragem de escolher aquilo que queremos, mesmo sabendo que algumas escolhas podem nos assustar.


E talvez amor seja ainda mais simples.


É olhar para uma placa dizendo “proibido pisar na grama”, olhar para a pessoa que você ama do outro lado e finalmente perceber que algumas regras foram feitas para manter desconhecidos separados.


Não pessoas que ainda se reconhecem.


E então, por um instante, antes de pensar no passado, no julgamento, no medo ou na vida que mudou, existe apenas a grama entre nós.


Verde.


Linda.


Intocada.


Esperando.


E talvez tudo o que sempre quiséssemos fosse descobrir se ainda existe um caminho entre duas pessoas quando ninguém mais está dizendo onde elas podem pisar.

favorita.

Sabe quando a gente cai na real que aquela é a nossa pessoa favorita no mundo?

Não que fosse um mistério. Não que eu não soubesse antes. É mais como se, em algum momento, a vida começasse a apresentar as confirmações necessárias, as provas cabais de uma coisa que, no fundo, a gente já sabia. Como se o quebra-cabeça complexo que somos nós finalmente encontrasse uma peça que sempre pareceu ter sido feita exatamente para aquele espaço.

E o mais bonito é que essas confirmações nunca vêm em grandes acontecimentos.

Elas vem nas coisas mais simples do mundo.

Vem no cotidiano, naquele lugar onde ninguém está tentando impressionar ninguém, onde o amor não precisa fazer discurso porque está ocupado demais existindo. Vem numa mania que só aquela pessoa tem, numa maneira específica de rir, em uma frase que ela sempre fala, no jeito incomparável de enxergar alguma coisa. Vêm nos defeitos que, de tão únicos, acabam deixando de parecer defeitos. Naquelas pequenas particularidades que poderiam passar despercebidas para qualquer pessoa, mas que, para quem ama, se tornam quase uma impressão digital.

Você é assim pra mim.

E talvez seja justamente por isso que eu tenha tanta certeza.

Porque você costuma ter vários endereços. Está sempre em constante mudança, e não necessariamente geográfica. A vida te move, te transforma, te leva para lugares diferentes, muda algumas versões suas, acrescenta outras, tira algumas pelo caminho. Você pode estar na rua Joaquim de Paula 1129, na rua Matias Perez 183, na nossa própria Jorge Leite Vieira Home, ou até mesmo em alguma cidade perdida da Terra da Rainha.

E ainda assim, de algum jeito, continua sendo você.

Continua sendo aquela menina que eu aprendi a amar.

Não uma versão congelada no tempo, não alguém que precise permanecer exatamente como eu conheci para continuar sendo especial. Mas você, com todas as suas únicas e ímpares qualidades e defeitos. Até os defeitos eu amo. Talvez porque amar alguém de verdade seja justamente perceber que a pessoa não é uma coleção de características perfeitas, mas um conjunto inteiro, indivisível, de coisas que fazem dela quem ela é.

E acho que foi no cotidiano que eu mais entendi isso.

O momento que eu mais senti amor por alguém foi no cotidiano.

Foi ao acordar e ter café pronto.

Foi cozinhar junto ouvindo música.

Foi depois de limpar a casa inteira e deitar pra assistir.

Foi naquela sensação quase boba de olhar para o lado e pensar que, entre todas as possibilidades do mundo, era justamente aquela pessoa que estava ali comigo, dividindo uma manhã qualquer, uma cozinha qualquer, uma sala qualquer, uma música qualquer.

E talvez seja essa a maior prova de todas.

Porque grandes momentos podem ser confundidos com euforia. Viagens podem ser confundidas com felicidade. Declarações podem ser confundidas com paixão. Mas o cotidiano não mente.

TUDO TUDO que é amor nasce no cotidiano e tudo que não é amor, se desfaz no cotidiano.

É ali que a gente descobre quem realmente quer por perto.

Quando não existe viagem marcada, quando não existe ocasião especial, quando não existe nada para comemorar. Só existe uma terça-feira qualquer, uma casa para arrumar, alguma coisa para comer, uma música tocando baixo e duas pessoas dividindo o mesmo espaço.

É ali que o amor deixa de ser uma ideia bonita e vira presença.

E talvez seja por isso que você consiga estar em tantos lugares sem deixar de ser a mesma pessoa para mim.

Porque eu não aprendi a amar um endereço.

Eu aprendi a amar você.

E endereço nenhum consegue mudar isso.

Pode mudar a rua, a cidade, o país, a distância, a rotina, os planos, os mapas. Você pode estar em qualquer canto do mundo, construindo novas versões de si mesma, aprendendo coisas que eu ainda nem conheço, vivendo dias que eu talvez nunca veja.

Ainda assim, existe alguma coisa em você que permanece reconhecível para mim.

Aquela menina.

A menina das pequenas coisas.

Aquela que existe nos detalhes que ninguém mais percebe.

A pessoa que, sem fazer esforço, conseguiu ocupar um espaço que parecia ter sido desenhado para ela dentro de mim.

E talvez seja isso que significa encontrar a nossa pessoa favorita no mundo.

Não é descobrir alguém perfeito.

É descobrir alguém cuja imperfeição parece familiar.

Alguém que você reconhece mesmo quando ela muda.

Alguém que poderia atravessar o mundo inteiro, trocar de endereço quantas vezes quisesse, aparecer em outra cidade, em outro país, em outra fase da vida, e ainda assim fazer você pensar:

“É ela.”

Não porque você nunca teve dúvidas.

Mas porque, depois de tantas pequenas confirmações, você simplesmente não precisa mais delas.

Você sabe.

E se algum dia alguém me perguntasse onde exatamente mora a pessoa que eu aprendi a amar, talvez eu não soubesse responder.

Por isso eu vivo me perguntando porque é proibido pisar na grama?

Mas, no fundo, eu saberia que nenhum desses endereços seria suficiente.

Porque você não mora em nenhum deles.

Você mora no cotidiano.

Na memória do café pronto.

Na música enquanto a gente cozinha.

Na casa limpa depois de um dia inteiro de esforço.

No sofá onde duas pessoas simplesmente deitam e assistem alguma coisa sem precisar que o mundo aconteça.

E talvez seja justamente por isso que, não importa onde você esteja, eu continue sabendo exatamente quem você é para mim.

Minha peça.

Do meu quebra-cabeça complexo.

Minha pessoa favorita no mundo.

Aquela que a vida pode levar para qualquer endereço, mas que, de algum jeito, continua sempre encontrando o caminho de volta para o mesmo lugar.

Aqui

julie.


Há uma menina que ainda não existe no mundo, mas que, de alguma forma, já existe dentro de mim.


O nome dela vai ser Julie.


Eu ainda não sei quando ela vai chegar. Não sei se será daqui a alguns anos, se a vida vai demorar para colocá-la nos meus braços ou se o destino ainda está decidindo se nossos caminhos realmente precisam se encontrar. Talvez ela nem saiba que eu já penso nela. Talvez, enquanto eu escrevo isso, ela esteja em algum lugar que eu jamais poderia imaginar, vivendo uma vida que ainda não tem nenhuma relação com a minha.


Mas eu já a amo.


E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas sobre o amor de um pai. Ele pode começar antes mesmo de existir um rosto para olhar.


As vezes eu me pego imaginando os olhos dela. Não sei exatamente como serão, mas já consigo imaginar a maneira como eles vão me procurar quando ela estiver assustada, quando precisar de colo ou simplesmente quando quiser encontrar o pai no meio de uma multidão. Imagino o sorriso, o jeito de falar, as manias que provavelmente vão me tirar do sério e, ainda assim, fazer com que eu queira guardar cada uma delas para sempre.


Imagino seus primeiros passos pela casa.


Imagino a voz me chamando de pai.


E acho que é nesse momento que eu percebo que existe uma versão de mim que ainda não conheço.


O pai da Julie.


Talvez ela transforme completamente a minha vida sem sequer perceber. Talvez eu passe a dirigir mais devagar, a olhar o relógio com mais frequência, a pensar duas vezes antes de tomar certas decisões. Talvez minhas preocupações deixem de ser apenas sobre mim. Talvez eu descubra que existe alguém capaz de ocupar um espaço dentro de mim que eu nem sabia que estava vazio.


Eu imagino uma menina pequena segurando meu dedo com a mão inteira.


E acho que, naquele instante, eu entenderia que faria qualquer coisa por aquilo.


Não porque ela teria feito alguma coisa para merecer.


Não porque ela precisaria me devolver alguma coisa.


Mas simplesmente porque seria minha filha.


Esse é o amor que ainda não conheço, mas que já consigo sentir chegando de longe. Um amor que não pede reciprocidade, que não depende de respostas, que não precisa ser escolhido todos os dias porque já nasceu decidido. Um amor que provavelmente vai me ensinar que existem pessoas pelas quais você não pensa duas vezes antes de colocar o mundo inteiro nas costas.


Eu penso na Julie crescendo.


Na primeira vez que ela cair e olhar para mim esperando que eu diga que está tudo bem.


Na primeira vez que ela chegar em casa chorando porque alguém machucou seu coração.


Na primeira vez que ela quiser sair sozinha e eu precisar aprender que protegê-la também significa deixá-la ir.


Talvez eu seja aquele pai meio bobo que vai querer saber onde ela está, com quem está, se chegou bem. Talvez eu seja exageradamente protetor. Talvez eu precise aprender, todos os dias, que ela não nasceu para viver dentro das minhas mãos, mas para construir a própria vida.


E mesmo assim, em algum lugar dentro de mim, sempre vai existir aquele homem olhando para uma menina pequena e pensando:


"Como pode alguém tão pequena significar tanto?"


Eu não sei como serão os olhos dela.


Não sei se ela vai gostar de música, de livros, de filmes, de desenhar ou de qualquer coisa que eu imagine hoje.


Não sei se ela vai parecer comigo.


Não sei se vai torcer para o Palmeiras(mas deveria)


Não sei se vai herdar meu jeito, minhas manias ou se vai ser completamente diferente de mim.


E talvez seja justamente isso que torne tudo tão bonito.


Porque eu não amo uma pessoa que conheço.


Eu amo a possibilidade dela.


A possibilidade de um dia abrir uma porta e encontrar uma menina correndo na minha direção.


A possibilidade de ouvir uma voz dizendo "papai".


A possibilidade de segurar alguém nos braços e perceber que, depois daquele momento, minha vida nunca mais vai ser somente minha.


Julie ainda não sabe se vem.


Eu também não sei quando.


Mas, se um dia ela vier, espero que encontre em mim um lugar seguro para voltar.


Espero que ela saiba que pode errar sem deixar de ser amada, cair sem ter vergonha de pedir ajuda, crescer sem medo de me perder.


Espero que, quando ela for grande o suficiente para entender essas coisas, saiba que antes mesmo de existir para o mundo, já existia em meus pensamentos.


Que antes de eu conhecer seu rosto, eu já imaginava seus olhos.


Antes de ouvir sua voz, eu já imaginava como seria escutar "papai".


E antes de poder segurá-la no colo, eu já sabia que, se a vida me desse a oportunidade de ser o pai dela, eu faria tudo o que estivesse ao meu alcance para que ela nunca duvidasse do quanto é amada.


Talvez esse seja o maior sonho que eu ainda não vivi.


Uma menina chamada Julie.


A menina do papai.


Uma pequena pessoa que ainda não chegou, mas que já ocupa um pedaço enorme de um coração que nem sabia que estava esperandp por ela.


E quando ela finalmente chegar, se chegar, talvez eu olhe para aqueles olhos que passei tantos anos imaginando e perceba que eu estava errado sobre uma coisa.


Porque talvez eu tenha passado a vida inteira tentando imaginar como seria amar minha filha.


Quando na verdade, bastaria conhecê-la

autobahn.

Não tenho GPS, mas, de tanto memorizar filmes, me parece que estou na Autobahn. A música alta quase não deixa escutar o ronco do carro em que estou pilotando. Acho que estou ficando maluco, porque fechei os olhos, abaixei o volume e continuo dirigindo esse carro que, por algum motivo, deve ser meu. Sem me guiar pela visão, apenas pelo barulho reconhecido do motor, já devo estar batendo uns cento e noventa por hora.

Como eu vim parar aqui?

Nem precisei sair da minha cidade. Talvez tenha saído apenas da minha sanidade.

Quero sentir que o perigo que estou correndo de morrer vai queimar mais nas minhas veias com a junção do que está tocando ao fundo, porque talvez seja onde eu consiga chegar mais perto daquela sensação. Quero me afogar nesse sentido.

O que fizeram comigo?

Você é alguma espécie de droga?

Porque eu não consigo parar.

Talvez seja isso que uma droga faça. Não necessariamente aquilo que entra no corpo, mas aquilo que entra na cabeça e começa a convencer a gente de que, por alguns segundos, viver no limite é melhor do que viver normalmente.

A pista continua.

Ou talvez seja a minha cabeça que continue inventando uma pista.

Não vejo placas. Não vejo outros carros. Não vejo nada além daquele pedaço de estrada que minha imaginação decidiu construir para mim. E, ainda assim, tudo parece tão real que consigo sentir o volante vibrando nas minhas mãos.

Talvez eu esteja tentando fugir.

Engraçado.

Passei tanto tempo querendo ir embora daqui que agora nem sei mais se estou dirigindo para algum lugar ou apenas tentando chegar longe de mim.

A cidade ficou para trás.

As pessoas também.

Os planos, as promessas, os nomes que um dia significaram alguma coisa. Tudo parece pequeno quando visto pelo retrovisor, até desaparecer completamente.

A música muda.

Por alguns segundos, eu não reconheço a próxima faixa.

E isso me assusta mais do que a velocidade.

Porque eu sempre reconheci as músicas.

Sempre soube qual vinha depois. Sempre soube qual música ouvir quando alguma coisa doía, como um médico que receita exatamente o remédio para onde você precisa resolver a dor, qual colocar quando precisava lembrar de alguém, qual deixar tocar quando queria fingir que estava tudo bem.

Mas agora não reconheço.

Talvez eu esteja finalmente chegando em algum lugar que nunca conheci.

Acelero.

Não porque quero morrer.

Isso seria fácil demais de explicar.

Acelero porque quero sentir alguma coisa que não seja essa espécie de vazio educado que me acompanha todos os dias. Quero que o coração bata por alguma razão que não seja ansiedade. Quero que minhas mãos tremam porque estou vivo, não porque estou tentando entender por que ainda me importo com certas coisas.

Quero um motivo físico para sentir aquilo que já não sei explicar por dentro.

E então percebo que talvez eu tenha confundido intensidade com vida.

Talvez tenha passado tanto tempo procurando alguma coisa que me fizesse sentir que comecei a aceitar qualquer coisa que doesse o suficiente.

É por isso que você parece uma droga.

Porque eu sei que não deveria precisar de você.

E mesmo assim, quando você aparece, tudo fica mais alto.

As músicas.

As lembranças.

As vontades.

Até o silêncio.

Você não precisa fazer nada. Basta existir em algum canto da minha cabeça para que eu volte a ser aquele idiota que acredita que talvez dessa vez seja diferente.

Talvez seja por isso que eu estou nessa estrada.

Não estou fugindo da cidade.

Estou fugindo da possibilidade de que a minha vida tenha se acostumado demais com a ausência de certas coisas.

E talvez eu tenha vindo parar aqui porque precisava de um lugar onde ninguém pudesse me perguntar para onde estou indo.

Porque eu não sei.

Não sei onde termina essa estrada.

Não sei quem colocou essa música.

Não sei por que o velocímetro continua subindo.

Não sei por que ainda estou segurando o volante.

Só sei que, pela primeira vez em muito tempo, existe alguma coisa dentro de mim gritando.

E eu acho que estava com saudade de ouvir minha própria voz.

Então diminuo.

Não paro.

Apenas diminuo.

O suficiente para ouvir o motor.

Depois o vento.

Depois minha respiração.

E, por último, aquilo que eu vinha tentando calar desde o começo.

Meu próprio pensamento.

Talvez eu não precise morrer para descobrir que estou vivo.

Talvez eu só precise parar de correr como se a vida estivesse sempre alguns quilômetros à minha frente.

Olho para a estrada.

Dessa vez, com os olhos abertos.

E ela continua.

Longa, escura, absurda.

Como quase tudo que ainda não sei resolver.

Mas, pela primeira vez, eu não tenho tanta pressa de chegar.

Porque talvez o destino nunca tenha sido a parte mais importante,

E sim…

utopia?

Tem dias em que acordar parece menos um começo e mais uma conferência.

Antes mesmo de levantar da cama, existe uma lista invisível esperando por ele. Não são grandes sonhos escritos em papel, nem promessas bonitas feitas para o futuro. São necessidades pequenas, quase ridículas quando colocadas lado a lado, mas que juntas dizem muito sobre quem ele se tornou.

Precisa de dinheiro. Não pelo dinheiro em si, mas pela tranquilidade que ele promete. Precisa guardar, investir, construir alguma coisa que permita olhar para a velhice sem sentir que o futuro é uma ameaça. Existe uma vontade cada vez maior de sair do lugar onde está, conhecer outro país, aprender outra língua, começar de novo em algum canto onde ninguém saiba seu nome.

Precisa ser forte também.

E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis.

Porque existe uma contradição nele que ninguém vê de primeira. Por fora, aprende a ser durão. Engole certas palavras, segura algumas vontades, finge que determinadas coisas não doem. Mas por dentro continua sendo sentimental demais. Ainda se importa. Ainda espera. Ainda sente falta. Ainda consegue transformar uma conversa pequena em alguma coisa enorme dentro da cabeça.

Precisa falar com alguém.

Não necessariamente para ser aconselhado. Às vezes, só precisa encontrar alguém que também esteja cansado de guardar coisas dentro de si. Alguém que não tenha medo do silêncio depois da conversa. Alguém que entenda que existem sentimentos que não querem solução, só companhia.

Precisa escrever também.

Talvez seja por isso que transforma tanta coisa em texto. Porque quando não consegue dizer, escreve. Quando não sabe para quem falar, escreve. Quando alguma lembrança insiste em voltar, escreve. Como se cada palavra colocada no papel fosse uma maneira de impedir que alguma parte dele desaparecesse.

Precisa de uma vitória do Palmeiras, dessas que fazem o mundo parecer menos complicado por algumas horas. Precisa de uma música certa no momento certo. Precisa de uma noite em que o celular fique virado para baixo e a cabeça finalmente fique quieta. Precisa rir de alguma coisa idiota. Precisa encontrar motivos pequenos para continuar acreditando que a vida não é feita apenas das coisas que deram errado.

Precisa cuidar da família.

Precisa cuidar de si.

Precisa ter fé, mesmo quando não entende muito bem o que está esperando.

E, principalmente, precisa de carinho.

Talvez esse seja o item mais difícil de admitir.

Porque dinheiro se procura. Trabalho se conquista. Uma passagem pode ser comprada. Um idioma pode ser aprendido. Um carro pode ser trocado. Uma cidade pode ser deixada para trás.

Mas carinho não funciona assim.

Carinho precisa vir de alguém.

E talvez por isso ainda exista, em algum canto dele, aquela pergunta que não sabe morrer, será que alguém ainda gosta dele? Será que alguma pessoa ainda pensa nele quando uma música toca? Será que alguém sente vontade de mandar uma mensagem e desiste? Será que existe alguém passando pela mesma rua, no mesmo horário, carregando uma saudade que ele desconhece?

Ele não precisa necessariamente de uma resposta.

Precisa apenas saber se ainda existe alguma coisa esperando por ele do outro lado.

E é curioso perceber que, no meio de tantos planos grandes, ele ainda se pega querendo entender coisas pequenas.

Por que o coração insiste justamente onde a razão já colocou uma placa dizendo para não entrar?

E, no fim, talvez seja essa a maior contradição da vida adulta, a gente passa anos tentando descobrir como construir um futuro, enquanto continua fazendo perguntas que parecem ter sido inventadas na infância.

Ele quer dinheiro, uma casa, uma vida em outro lugar, estabilidade, conquistas, viagens, histórias.

Mas também quer ser compreendido.

Quer alguém para conversar.

Quer alguém para amar.

Quer alguém que olhe para toda essa confusão e, em vez de perguntar por que ele é assim, simplesmente diga que entende.

Talvez seja isso que ele esteja procurando.

Não uma vida perfeita.

Só uma vida em que suas necessidades não pareçam exageradas.

Uma vida em que possa ser forte sem precisar esconder que sente.

Em que possa ir embora sem sentir que está fugindo.

Em que possa construir o futuro sem precisar abandonar tudo o que ainda sente.

E talvez, no fundo, ele tenha acordado naquela manhã apenas para descobrir que ainda precisa de muita coisa.

Mas também descobriu uma coisa importante

ainda existe vontade.

E enquanto houver vontade de conhecer o mundo, ganhar dinheiro, escrever, amar, cuidar, acreditar, viajar, torcer, recomeçar e entender por que certas coisas são proibidas sem que ninguém saiba explicar direito…

ainda existe vida acontecendo.

Mesmo que, as vezes, ela pareça apenas uma longa lista de coisas que ele ainda precisa.

morango.


Morango tem uma coisa curiosa, parece frágil, mas nunca passa despercebido.


Talvez seja a cor. Aquele vermelho vivo, quase exagerado, como se tivesse sido feito para chamar atenção mesmo quando está perdido no meio de tantas outras frutas. Talvez seja o contraste entre o doce e o azedo, entre aquilo que parece delicado por fora e aquilo que permanece na boca depois da primeira mordida.


Eu nunca gostei de morango.


E talvez seja justamente isso que torne tudo mais bonito.


Porque, antes de você, morango era só uma coisa que eu não gostava. Não fazia questão, não procurava, não sentia falta. Se estivesse na minha frente, provavelmente eu deixaria para lá.


Até você aparecer e, de algum jeito, me fazer gostar.


Não sei exatamente quando aconteceu. Talvez tenha sido aos poucos, como quase tudo que realmente muda a gente. Um dia eu provei. Depois outro. E, quando percebi, aquilo que antes eu não gostava já tinha se tornado uma das pequenas coisas que eu gostava.


E agora eu gosto de morango.


Só que existe um problema nisso.


Eu gosto de morango e lembro de você.


E talvez você tenha percebido hoje.


Ou talvez não.


Porque eu passei o dia inteiro falando de morango para você.


Morango pra cá.


Morango pra lá.


Uma hora era sobre comer morango, outra era sobre gostar de morango, outra eu simplesmente dava um jeito de colocar morango no meio da conversa.


E você não entendeu.


Achou que eu estava falando de morango.


E eu estava.


Mas não estava só falando de morango.


Esse era o jogo.


Você funciona assim pra mim, como o morango hoje.


E o morango?


Ai vem na cabeça o morango, falo sobre o morango, penso no morango, o morango hoje como foi pra você.


É como se o morango tivesse instalado numa parte lá, e fica chato, repetitivo, e porque você tá falando do morango o dia inteiro? porque você escreve sobre o morango o dia inteiro?
nem você mesma se fosse um morango iria querer ouvir falar do morango o dia inteiro.


Imagina como deve ser para as pessoas que me ouvem falar de morango.


A graça estava justamente em deixar a palavra passar pela sua frente o dia inteiro sem explicar por que ela estava ali. Eu queria ver se, em algum momento, você perceberia que eu estava tentando dizer alguma coisa sem realmente dizer.


Porque, para qualquer outra pessoa, era só uma fruta.


Para mim, era você disfarçada de fruta.


E talvez seja engraçado pensar que eu passei o dia inteiro te falando de morango sem falar de você nenhuma vez.


Ou melhor, falando o tempo inteiro.


Penso nas coisas que você gosta, nos pequenos detalhes que talvez nem perceba que deixou pelo caminho. Na maneira como certos sabores parecem ter sido feitos para você, nas pequenas preferências que foram ficando conhecidas por mim quase sem perceber.


E morango acabou entrando nesse lugar.


Talvez porque tenha a mesma contradição que você carrega. Uma coisa bonita, doce, quase delicada, mas que também sabe ser intensa. Que não precisa fazer esforço para ocupar espaço. Que basta aparecer para mudar alguma coisa ao redor.


E existe uma parte engraçada nisso tudo.


Porque eu posso olhar para um morango hoje e pensar que é só um morango. Posso cortar, comer, deixar de lado. Mas em algum momento vou lembrar que existe uma pessoa que fez aquela fruta significar alguma coisa diferente.


Você me fez gostar de uma coisa que eu nunca gostei.


E talvez você nem saiba o tamanho disso.


Porque algumas pessoas passam pela nossa vida e deixam fotos. Outras deixam frases. Outras deixam lugares.


Você deixou tudo isso, incluindo gostos novos.


Deixou pequenas preferências espalhadas em mim, como se tivesse colocado um pouco de você em coisas que continuam existindo mesmo quando você não está.


E talvez, se algum dia ler essas palavras, vá entender imediatamente.


Talvez você entenda e finalmente perceba que eu estava tentando te contar uma coisa.


Que quando eu dizia morango, eu queria que você pensasse em você.


Que quando eu insistia em morango, talvez estivesse esperando que você percebesse a coincidência.


Que eu nunca gostei de morango.


Mas você me fez gostar.


E agora eu gosto de morango.


E por gostar de morango, eu lembro de você.


Talvez seja justamente por isso que eu não precise dizer seu nome.


Porque morango já basta.


Você sabe.


Eu sei.


E, no fim, existem coisas que só fazem sentido para duas pessoas. O resto do mundo pode olhar e enxergar uma fruta vermelha, bonita, doce, comum.


Eu olho e vejo tudo aquilo que, de alguma maneira, ficou associado a você.


O gosto.


A cor.


As coisas que você gosta.


E aquela brincadeira que você não entendeu .


Talvez agora entenda.


Talvez tenha entendido e só tenha fingido que não.


Mas tudo bem.


Alguns jogos são melhores quando a outra pessoa demora para descobrir a resposta.


E a minha resposta foi simples:


morango.


Porque eu nunca gostei de morango.


Até você.


E agora, toda vez que eu gosto de morango, eu lembro de você.