Gabriel Parice Lopes
equiparo as cicatrizes como marcas
marcas que fisicamente se eu olhar, consigo sentir exatamente a dor do que lhe causou
olho para o meu joelho e ela está lá aparente
as vezes, e na maioria das vezes, esqueço que ela está lá, mas quando a olho consigo sentir naquele instante tanto o motivo, quanto a dor.
existem cicatrizes que não conseguimos olhar, como essa do meu joelho, mas analisando a situação, consigo sentir intrinsecamente exatamente onde dói, geralmente a lembrança da dor tem olhos lindos, aqueles que um dia já jurei admirar para o resto da minha insignificante vida.
acho que cicatriz é sobre isso, é sobre saber que existe e que deixou marcado, foi vivido, foi real e a marca muito das vezes deixa uma feridinha, que se você cutucar porque as vezes por instinto temos essa intenção, ela pode sangrar novamente, ou, se você esquecer por bastante tempo ela pode sarar de vez e só virar uma marca.
refletindo sobre cicatriz, percebo que meus domingos que eram melancólicos agora estão se tornando apenas “domingos de descanso”, um corpo para se entrelaçar, sentir o cheiro, dar um beijo na testa de eu to aqui cuidando de você, e acordar de madrugada somente para admirar o rosto da pessoa em calmaria dormindo, virou o “pô, tenho bastante espaço pra dormir e liberdade aqui”.
o que era sufocante causado por uma falha na história, e que causava carência pela falta, está virando a parte normal da vida. e sabe o que é mais louco? não deixo de sofrer nenhum momento, tanto quanto sofria pela falta, como agora acostumando com ela.
talvez as cicatrizes não deixam eu esquecer que tenho alma, mesmo a deixando em segundo plano, talvez tudo o que a gente tenha se transformado ecoe na minha cabeça as vezes, mas tudo bem porque você está bem, não é?
eu não preciso estar bem, somente devo pagar com juros o que eu lhe devo, e estou pagando com correção monetária e impostos.
te deixar ir daqui de dentro também é desesperador e olha só que irônico, o que eu mais pedia pra acontecer está acontecendo e eu não gosto dessa ideia, achei que nosso adeus não seria tão prévio.
Na quietude de uma noite sem fim, onde as estrelas eram os únicos vigias e o céu parecia guardar os segredos de impérios antigos, eu a vi. Não como alguém comum atravessando a fumaça dourada da cidade, mas como uma visão arrancada das páginas esquecidas da história. Ela surgia diante de mim como Cleópatra renascida, não a rainha contada pelos homens, mas a mulher que existia entre o mito e o caos, grande demais para caber nas mãos erradas.
E eu, como Júlio César diante do inevitável, senti o mundo mudar no exato instante em que nossos olhos se encontraram.
Havia algo nela que fazia o tempo se curvar. Como se Roma ainda queimasse em algum lugar distante, enquanto neon e concreto refletiam em sua pele como ouro derramado. Ela caminhava entre as sombras daquele futuro desconhecido carregando o peso de quem sempre foi intensa demais para amores rasos. Grande como sempre foi, mas nunca amada da forma certa. Nunca compreendida por inteiro. Nunca tocada como um império merece ser conquistado.
Mas eu a via.
Via a fome escondida entre os exageros, a tempestade disfarçada nos sorrisos, o desejo absurdo de se entregar sem limites, mesmo fingindo que não precisava de ninguém. E talvez tenha sido exatamente ali que tudo começou. No instante em que minha licença poética decidiu transformá-la na rainha que o mundo sempre teve medo de amar.
Juntos, éramos mais do que duas pessoas atravessando madrugadas vazias. Éramos César e Cleópatra reinventados num século que já não acreditava em eternidade. O passado e o presente se misturavam numa dança silenciosa enquanto caminhávamos pelas ruas iluminadas, como se cada esquina escondesse um pedaço do nosso destino.
Na canção que ecoava baixa entre nós, éramos eu e você contra o mundo.
E o mundo odiava isso.
Havia olhos por toda parte. Olhares carregados de inveja, admiração e medo. Sussurros atravessando corredores, bocas dizendo que nosso amor era impossível, intenso demais, destrutivo demais. Diziam que pessoas como nós nunca terminavam inteiras. Que amores assim sempre acabam em ruínas.
Mas eles não entendiam.
Não entendiam que toda vez que tentavam nos separar, nós brilhávamos ainda mais. Como duas constelações condenadas a colidir. Como dois impérios destinados à guerra, mas que escolheram o amor antes da destruição.
Criamos nosso próprio refúgio entre noites longas, confidências e excessos. Entre doses de tequila e o álcool com que lavávamos a alma, nós nos despíamos das versões cansadas que o mundo exigia. E ali, longe das expectativas alheias, você finalmente podia se esbaldar dos exageros que sempre quis viver. Sem culpa. Sem limites. Sem precisar diminuir sua intensidade para caber no peito de alguém.
Porque eu nunca quis que você fosse menos.
Eu queria tudo.
Queria teu caos, tua fúria, teus exageros, tua maneira quase trágica de amar. Queria teus silêncios pesados, teus medos escondidos, tua vontade absurda de sentir o mundo inteiro de uma vez só. E enquanto você me olhava como se tentasse entender por que eu permanecia, eu só conseguia pensar que nenhum homem antes de mim soube amar uma rainha sem tentar prendê-la.
Seu antigo exército caiu justamente por isso. Pareciam gigantes vistos de longe, mas de perto eram apenas um mar raso tentando conter um oceano.
Você nasceu para profundidades que assustam.
E eu também.
Talvez por isso nossos nomes tenham se reconhecido antes mesmo de nossos corpos se tocarem. Como se em alguma outra vida César já tivesse encontrado Cleópatra sob outro céu, em outro império, prometendo outra vez que o mundo jamais seria suficiente para separá-los.
Nos momentos de silêncio, quando a madrugada cansava de existir e o universo parecia respirar devagar ao nosso redor, olhávamos para o futuro como quem encara algo inevitável. Sabíamos que éramos mais do que dois nomes passageiros tentando sobreviver ao tempo.
Nós éramos um pacto.
Uma promessa silenciosa feita entre ruínas e estrelas.
Talvez César não queira mais atravessar o mundo para conquistar outros impérios, porque ele enxergou em Cleópatra a sua castra.
E mesmo que o mundo inteiro desabasse ao nosso redor, ainda haveria nós dois, lado a lado, reinventando o amor como quem desafia a própria história.
Porque algumas pessoas nascem para viver romances simples.
Mas nós?
Nós nascemos para virar lenda.
Não tão próximo quanto a lua desejaria, nem tão distante para deixá-la ir. o sol atravessava seus dias com uma luz que alcançava tudo, menos o vazio que existia entre os dois. a lua, em silêncio, fingia que algumas sombras eram suficientes para sobreviver. dizia a si mesma que amar também era aceitar o inverno, que nem todo calor precisa ser sentido para existir. mentia bem. porque toda noite ainda esperava que o sol esquecesse, por um instante, de iluminar o mundo inteiro e escolhesse aquecer apenas ela. nunca aconteceu. e, ainda assim, a lua permaneceu no mesmo céu. deverá acostumar-se ao frio de quem nasceu para ser calor, mas nunca soube aproximar-se o bastante para queimá-la.
Dizem que o sol jamais compreenderá o frio da lua. ele nasce disposto a aquecer, ela, acostumada ao silêncio, acredita que toda aproximação dura pouco. então afasta-se antes que precise sentir. o sol insiste por um tempo, confunde a distância com prudência, o silêncio com paz. até descobrir que há quem ame sem tocar, quem permaneça sem permanecer. talvez esse seja o preço do equilíbrio: aceitar que algumas luas nunca deixarão de ser inverno. e o sol… deverá acostumar-se a aquecer de longe.
O sol nunca percebeu que a lua esperava ser aquecida. acreditava que sua simples presença bastava. enquanto isso, a lua colecionava silêncios, caminhava ao lado do próprio brilho sem jamais sentir o calor que imaginava existir. não havia abandono, apenas uma ausência difícil de explicar. perto o suficiente para alimentar a esperança, distante o bastante para fazê-la duvidar de si. e talvez seja essa a mais cruel das órbitas: aquela em que ninguém parte, mas ninguém realmente chega. a lua continuará olhando para o céu. o sol continuará nascendo. e ambos chamarão isso de equilíbrio.
Querida,
eu gostaria que o mundo estivesse acabando amanhã.
Então eu poderia pegar o próximo trem, atravessar Portugal inteiro, cruzar o mar até a Inglaterra e bater à sua porta sem precisar explicar nada. Quando você abrisse, eu não perguntaria se ainda há espaço para mim. Apenas estenderia a mão e diria:
Venha comigo.
Nós vamos nos amar sem medo, sem orgulho, sem o peso das palavras mal colocadas, sem o receio de quem vai embora primeiro.
Porque o mundo está acabando amanhã.
E, quando o mundo acaba, ninguém precisa fingir que é forte.
Ninguém precisa esperar o momento certo.
Ninguém perde tempo tentando vencer uma discussão que, no fim, nunca importou.
Se o mundo acabasse amanhã, eu não teria vergonha de dizer que senti sua falta todos os dias em que permaneci calado. Não esconderia que, por muitas noites, imaginei como seria ouvir sua voz outra vez, nem confessaria isso com a esperança de mudar alguma coisa. Apenas porque algumas verdades merecem existir antes do fim.
Nós caminharíamos sem destino.
Entraríamos no primeiro café aberto, pediríamos qualquer coisa e riríamos do absurdo de ainda existir café quando o céu estivesse desmoronando.
Você seguraria minha mão.
E, pela primeira vez em muito tempo, nenhum de nós precisaria perguntar o que o outro está sentindo. O fim do mundo teria nos devolvido uma simplicidade que a vida insistiu em roubar.
Eu olharia para você como olhei tantas vezes antes, mas dessa vez sem pensar no passado, sem medo do futuro, porque ambos deixariam de existir em poucas horas.
Só haveria o agora.
E o agora seria suficiente.
Se o mundo acabasse amanhã, eu pediria perdão por tudo aquilo que descobri tarde demais. Pelas vezes em que o meu silêncio falou mais alto do que o meu amor. Pelos instantes em que o orgulho venceu o desejo de permanecer.
Você talvez me dissesse que também errou.
E eu responderia que já não importa.
O mundo está acabando amanhã.
Não existem culpados quando o relógio decide parar.
Existem apenas duas pessoas que se encontraram tarde demais para um tempo curto demais.
Talvez, quando o último trem deixasse a estação, nós estivéssemos sentados lado a lado olhando a paisagem desaparecer pela janela. Não conversaríamos muito. Algumas pessoas foram feitas para dividir o silêncio, e o nosso sempre disse mais do que qualquer palavra.
Quando a noite chegasse, eu encostaria minha cabeça no seu ombro e pensaria que a eternidade nunca significou viver para sempre.
A eternidade, às vezes, cabe em alguns minutos vividos da maneira certa.
E, quando as luzes do mundo finalmente se apagassem, eu não pediria mais um dia.
Não pediria mais um ano.
Não pediria outra chance.
Porque você estaria ali.
E descobriria, no último instante da existência, que o único fim que realmente me assustava não era o do mundo.
Era o nosso.
Com amor,
Gabriel.
Conheço meu potencial e tudo o que posso entregar, mas eu me pergunto: você é digna?
Tem que ter disposição. Prometa-me a sua alma e eu a faço arder como chamas meteóricas. O meu afeto não cabe em medidas humanas. Quis compará-lo a um astro, pensei em Netuno. Netuno, não. Netuno ainda é um lugar, ainda conhece fronteiras. O que eu ofereço não orbita, invade. Alimentaria você para além do espaço e do tempo, até que confundisse a minha presença com a gravidade que mantém os corpos de pé.
E então, no dia em que eu diminuísse a intensidade por um único instante, você chamaria isso de ausência. Não porque eu tivesse ido embora, mas porque acostumar-se ao excesso transforma qualquer sobra em abandono. É assim que nascem os dependentes: primeiro recebem o infinito, depois aprendem que o infinito também cansa.
Eu sei o que causo. Em mim, antes de qualquer outro. Toda luz exagerada cobra seu preço de quem a acende. Não existe estrela que queime sem consumir a própria matéria.
Mereço passar por isso? Claro que sim. O karma que carrego eu mesmo financiei. Assinei cada parcela sorrindo, como quem acredita que algumas dívidas nunca vencem. Hoje pago tudo com juros compostos de memória.
E eu já sabia. Sabia quando prometi mais do que um coração consegue sustentar. Sabia quando fiz do afeto um espetáculo, como se amar fosse incendiar tudo ao redor para provar que havia calor. No fundo, sempre soube que quem transforma o próprio peito em sol acaba condenado a viver cercado de planetas frios.
Talvez o meu maior castigo nunca tenha sido perder alguém. Foi ensinar as pessoas a sentirem falta de uma versão minha que nem eu consigo habitar para sempre.
Existe uma beleza cruel na decepção.
Ela chega sem ser convidada, quebra os móveis da esperança, rasga os retratos que insistíamos em chamar de futuro e, por alguns dias, nos convence de que nada além da dor permanecerá de pé. Mas a decepção nunca veio para destruir; ela veio para devolver.
Antes dela, chamávamos de amor aquilo que muitas vezes era apego. Não à pessoa, mas à promessa. Não ao que existia, mas ao que imaginávamos existir depois de tempo suficiente.
É curioso como insistimos em regar jardins onde as flores já decidiram morrer. Dizemos que é persistência, maturidade, lealdade. Às vezes é apenas medo. Medo de admitir que o castelo em que depositamos tantas horas nunca passou de um andaime.
Então a decepção faz aquilo que o afeto não teve coragem de fazer: arranca nossas mãos do que já não nos pertence.
Ela nos obriga a olhar para o outro sem o filtro da saudade antecipada, sem a maquiagem das expectativas. Pela primeira vez, enxergamos pessoas como elas são, e não como precisaríamos que fossem para justificar nossa permanência.
Há uma violência quase divina nisso.
Porque dói descobrir que não perdemos alguém; perdemos a fantasia que construímos ao redor dessa pessoa.
E fantasias morrem gritando.
A decepção tem a elegância dos carrascos antigos. Não ergue a voz, não pede licença, não explica seus métodos. Apenas corta, com precisão suficiente para separar quem somos daquilo em que insistíamos em nos prender.
Depois, resta um silêncio.
No início, ele parece abandono.
Mais tarde, entendemos que era liberdade.
A verdade é que nossos maiores cárceres raramente têm grades. São feitos de expectativas, de lembranças editadas, de versões idealizadas de pessoas comuns. Passamos anos chamando isso de destino, quando era apenas apego usando roupas bonitas.
Por isso, hoje desconfio dos finais que chegam sem decepção.
São os desapontamentos que arrancam de nós as últimas ilusões. Eles devolvem a lucidez que o encantamento havia roubado.
Que privilégio descobrir, ainda em vida, que aquilo que julgávamos indispensável era apenas um hábito emocional.
Há perdas que diminuem um homem.
Mas há decepções que o devolvem a si mesmo.
E talvez seja essa a mais silenciosa das libertações: perceber que a dor nunca veio para nos ensinar a viver sem alguém. Ela veio para nos ensinar a viver sem a necessidade de transformar qualquer pessoa no centro da nossa existência.
Como é bela a decepção.
Porque toda corrente, antes de ser rompida, faz barulho.
Depois, resta apenas o som discreto da liberdade.
carta aberta para mim
você entra em uma sala como quem procura saídas de emergência.
não porque queira fugir de mim, mas porque alguém fez do amor um incêndio e, desde então, qualquer faísca parece suficiente para reduzir tudo às cinzas.
eu percebo isso na maneira como você demora para acreditar em um elogio, como transforma carinho em coincidência, como espera que eu vá embora mesmo quando acabei de chegar.
quem foi que te ensinou que afeto sempre cobra um preço?
quem foi que fez você acreditar que toda gentileza esconde uma intenção e que toda promessa nasce com prazo de validade?
às vezes eu tenho vontade de pedir que você descanse.
não nos meus braços.
na ideia de que, desta vez, talvez ninguém esteja tentando vencer uma disputa invisível. talvez ninguém queira moldar você até caber nas próprias expectativas. talvez existir ao lado de alguém não precise ser um jogo onde sempre há um perdedor.
você não precisa me amar hoje.
nem amanhã.
eu só queria que, por um instante, você parasse de conversar com o passado como se ele ainda tivesse direito de responder pelo presente.
porque eu não sou as portas que bateram.
não sou as palavras que diminuíram você.
não sou os silêncios usados como castigo.
e seria uma injustiça comigo carregar a culpa por mãos que nunca foram minhas.
é estranho…
às vezes quem mais precisa de amor é justamente quem menos consegue reconhecê-lo quando ele chega. não por falta de coração, mas porque passou tempo demais aprendendo a sobreviver. e quem vive sobrevivendo esquece que carinho não precisa ser uma negociação.
eu não quero convencer você de nada.
o amor que precisa de provas o tempo inteiro acaba se tornando um tribunal.
eu só queria que um dia você olhasse para mim sem esperar a parte em que eu decepciono.
como quem finalmente entende que nem toda história precisa repetir o mesmo final.
e, quando esse dia chegar, talvez a pergunta deixe de ser “quem foi que te machucou?”
e passe a ser:
quem foi o primeiro que fez você acreditar que ainda era possível não se machucar?
Não do jeito infantil que promete o impossível, mas do jeito desesperadamente humano de quem encontra alguém e pensa: é aqui que eu posso repousar a minha alma.
eu queria ser o lugar onde você encosta a cabeça quando o mundo pesa mais do que seus ombros conseguem suportar. queria ser a primeira voz que te acalma depois de um dia cruel e o último pensamento antes do sono vencer seus olhos.
eu queria viver um amor onde a rotina fosse uma forma sofisticada de romance. onde comprar pão numa terça-feira tivesse o mesmo encanto de atravessar oceanos. porque, quando o amor encontra a pessoa certa, até o ordinário aprende a florescer.
eu queria ser indispensável sem que isso parecesse uma prisão. ser a chave esquecida no teu bolso, a música que você canta sem perceber, o perfume que insiste em permanecer nas roupas muito depois do abraço terminar. não por necessidade, mas porque algumas presenças deixam de ser companhia e passam a ser parte da arquitetura da vida.
eu queria que o nosso amor fosse tão íntimo que as palavras se tornassem um excesso. bastaria um olhar atravessando a mesa, uma mão procurando a outra no escuro, um sorriso quase imperceptível para dizer tudo aquilo que o idioma nunca conseguiu inventar.
e, se um dia o tempo tentasse desgastar o que construímos, eu não pediria promessas. pediria apenas que continuássemos nos escolhendo. porque amar, para mim, nunca foi sentir intensamente por alguns meses; sempre foi acordar milhares de manhãs e ainda encontrar beleza no mesmo rosto.
eu não sonho com paixões que queimam cidades. sonho com incêndios silenciosos, daqueles que aquecem uma casa inteira durante uma vida.
eu queria ser teu da forma mais simples e, justamente por isso, da forma mais absoluta.
não para te possuir.
mas para que, quando alguém perguntasse onde mora a paz, você pudesse responder sem pensar:
“nos braços dele.”
há dias em que eu me convenço de que existe uma conta aberta em meu nome. uma dívida antiga que eu nunca lembro de ter feito, mas que a vida faz questão de cobrar todos os dias.
talvez eu mereça. talvez cada ruína tenha sido construída pelas minhas próprias mãos. eu sempre encontro um jeito de tocar no que amo com tanta força que, sem perceber, também encontro um jeito de quebrar. construo casas para depois assistir ao teto desabar sobre mim. e o pior é que, mesmo conhecendo o roteiro, eu continuo acreditando que dessa vez será diferente.
já tentei me absolver. sentei diante dos meus erros como quem visita um velho amigo, esperando ouvir que tudo ficou para trás. mas eles nunca respondem. apenas me olham em silêncio, como espelhos que insistem em refletir a pior versão de mim.
o que mais me machuca não é perder. é nunca entender a lição. se toda dor existe para ensinar alguma coisa, então por que eu continuo repetindo o mesmo capítulo? quantas tempestades ainda faltam para que o mar finalmente aceite que eu já aprendi a afundar?
carrego um oceano de raiva que nunca encontra a praia. e uma tristeza tão antiga que às vezes parece ter nascido antes de mim. ambas dividem o mesmo peito, disputando espaço com um coração que ainda insiste em acreditar nas pessoas, mesmo depois de colecionar ausências.
eu não queria milagres. nunca quis promessas impossíveis. só queria experimentar, por um instante, a estranha sensação de receber na mesma intensidade em que entrego. descobrir como é estender a mão e encontrar outra vindo na direção contrária, em vez de mais um adeus.
mas existe uma crueldade silenciosa em continuar remando quando a maré parece ter escolhido o lado oposto. você se esforça, sangra as mãos nos remos, perde o fôlego, e ainda assim termina exatamente onde começou. às vezes até mais distante da margem.
e talvez seja isso que mais destrói o gabrieu: não o peso das derrotas, mas a dúvida de não saber se está lutando contra o mundo… ou contra si mesmo.
Eu quero aquilo que interrompe o funcionamento normal das coisas.
o tipo de acontecimento que faz os velhos instintos parecerem obsoletos. que invade sem violência, mas quando vai embora leva junto a pessoa que existia cinco minutos antes.
não procuro conforto.
conforto conserva.
eu quero uma força que torne meus antigos refúgios inutilizáveis, que faça meus excessos perderem o gosto sem que eu precise travar guerra contra eles. quando a mudança é verdadeira, o esforço vira detalhe.
quero desaprender naturalmente.
como quem esquece um idioma porque encontrou outro mais bonito para pensar.
quero ser confrontado por algo que me obrigue a crescer na mesma velocidade em que destrói minhas desculpas. que embaralhe minhas certezas até eu não reconhecer mais o mapa que passei anos desenhando.
e, quando tudo terminar, que não reste a satisfação de ter vencido.
quero restar diferente.
há transformações que parecem acidentes.
as melhores sempre foram destino disfarçado.
porque existe um ponto em que insistir na antiga versão de si mesmo deixa de ser fidelidade.
e passa a ser desperdício.
ou talvez não.
talvez eu queira exatamente o contrário.
que nada me alcance fundo o bastante para exigir uma reconstrução. que tudo passe como passam os estranhos na calçada: vistos por um instante, esquecidos na esquina seguinte.
quero permanecer intacto.
que meus hábitos sobrevivam a qualquer novidade. que minhas convicções envelheçam comigo. que nenhuma experiência seja convincente o suficiente para mudar a direção dos meus passos.
não quero perder o gosto pelas velhas fugas.
nem descobrir um idioma novo se isso significar esquecer o primeiro.
prefiro os mesmos erros pela intimidade que construí com eles.
prefiro reconhecer o teto das minhas limitações do que correr o risco de descobrir que ele nunca existiu.
há uma tranquilidade quase elegante em jamais ser surpreendido.
em nunca precisar rever.
em nunca precisar ceder.
no fim, talvez a maior ambição seja essa:
atravessar a vida sem deixar que ela atravesse de volta.
Há quem diga que esquecer é questão de tempo. Eu desconfio. O tempo só aperfeiçoa a memória; ensina ela a usar máscaras melhores.
Sem perceber, eu continuo te procurando.
Não em fotos. Essas eu já conheço de cor. Te procuro nas coisas que nunca te pertenceram, mas que aprenderam teu idioma.
Quando o primeiro acorde de Arctic Monkeys atravessa o silêncio, meu peito ainda olha para a porta, como se alguma parte de mim acreditasse que certas músicas continuam sabendo o caminho de volta. Oasis faz pior: transforma saudade em paisagem. É como caminhar por uma rua antiga onde ninguém mora mais, mas todas as janelas permanecem acesas.
Eu te encontro nos livros que compro sem motivo. Há sempre uma frase que teria arrancado um sorriso teu, e, por um instante, leio em voz baixa para alguém que já não está. Fecho a página como quem fecha uma conversa interrompida.
Também te procuro nas pessoas.
Não porque elas se pareçam contigo. Seria injusto com elas e impossível contigo. Mas existe um gesto, um silêncio, uma maneira de inclinar a cabeça enquanto escutam, um riso que dura meio segundo a mais... e, por um instante vergonhoso, meu coração pergunta se finalmente te encontrou de novo. Nunca encontrou. Eram apenas desconhecidos carregando pedaços que a minha memória decidiu roubar.
Há cidades que conspiram.
Volto a lugares onde estivemos e eles insistem em manter tua ausência exatamente onde você a deixou. A mesa continua pequena demais para duas pessoas. A calçada ainda sabe a direção dos nossos passos. O vento atravessa a mesma esquina com a mesma delicadeza, como se ignorasse que agora sopra apenas contra um corpo.
É estranho viver assim.
Como alguém perseguido por um fantasma que não assombra a casa, mas os detalhes. Um perfume na rua. Um casaco da mesma cor. Uma música tocando ao fundo de um café. A dedicatória esquecida na primeira página de um romance. Nada é suficiente para trazer você de volta, mas tudo parece suficiente para lembrar que um dia esteve aqui.
Talvez seja esse o verdadeiro peso de amar alguém.
Não é sofrer pela ausência da pessoa. É perceber que ela contaminou o mundo inteiro. As músicas deixam de ser só músicas. Os livros deixam de ser só livros. As ruas deixam de ser ruas. Tudo passa a existir em dois tempos: antes de você e depois de você.
E eu sigo vivendo.
Converso, sorrio, conheço rostos novos, aperto outras mãos. Mas existe uma parte de mim que continua fazendo comparações em silêncio, como quem procura uma constelação específica num céu cheio de estrelas. Não porque as outras sejam menores, mas porque meus olhos aprenderam, há muito tempo, exatamente onde repousava aquela luz.
Talvez um dia eu pare de te procurar.
Ou talvez não.
Talvez algumas pessoas não terminem quando vão embora. Elas apenas se espalham. Ficam escondidas entre acordes, páginas, esquinas e olhares alheios, transformando o mundo inteiro numa coleção discreta de lembranças.
E o mais cruel é que ninguém percebe.
Só quem continua procurando.
Eu tenho medo da química que precisa ser fabricada.
Daquelas conexões que chegam com manual de instrução, onde cada palavra é escolhida, cada gesto é calculado, cada demonstração parece uma tentativa desesperada de convencer o coração de que existe algo ali.
Eu odeio esse amor que precisa ser empurrado ladeira acima, como se duas pessoas tivessem que carregar uma montanha nas costas para provar que vale a pena.
Porque o que é verdadeiro não pede tanto esforço para existir.
Não deveria parecer uma apresentação, uma entrevista, uma prova de merecimento. Não deveria ser preciso implorar para que alguém enxergue a beleza daquilo que você entrega.
Existe algo triste em tentar transformar faísca em incêndio usando apenas as próprias mãos. Em soprar uma chama que nunca quis nascer, acreditando que talvez, se você cuidar o bastante, ela finalmente escolha aquecer você.
Mas algumas coisas não são destinadas a queimar.
E talvez a maior crueldade seja perceber que você não estava errado por sentir. Você só estava tentando encontrar profundidade em um lugar onde talvez existisse apenas superfície.
Eu não quero mais a química construída no desespero, a proximidade criada pela insistência, o carinho que aparece porque alguém tem medo de perder e não porque realmente quer ficar.
Eu quero o tipo de encontro que parece uma lembrança antes mesmo de acontecer.
Aquela paz estranha de não precisar convencer ninguém.
De não precisar mostrar mil versões suas para provar que existe algo bonito aí dentro.
Porque o amor que precisa ser forçado pode até parecer intenso, mas no fundo carrega uma pergunta silenciosa:
“Se eu parar de tentar, ainda existe alguma coisa aqui?”
E eu cansei de procurar respostas em lugares onde eu sempre precisei gritar para ser ouvido.
A nuvem negra não chegou de uma vez.
Ela não apareceu como uma tempestade anunciando que tudo iria mudar. Ela veio devagar, quase educada, como uma sombra que aprendia os caminhos da casa antes de tomar conta dela.
No começo eu ainda conseguia enxergar o céu.
Ainda existiam dias bons, momentos que pareciam provar que aquilo era só uma fase. Eu dizia para mim mesmo que amanhã seria diferente, que alguma coisa dentro de mim iria voltar ao lugar.
Mas o tempo passou.
E a nuvem ficou.
Ela não precisava mais esconder o sol, porque eu já não lembrava exatamente como era sentir o calor dele.
As coisas continuaram acontecendo ao meu redor, pessoas rindo, histórias sendo criadas, músicas tocando em algum lugar. O mundo nunca parou por minha causa. E talvez essa tenha sido uma das partes mais estranhas: perceber que tudo continuava em movimento enquanto dentro de mim alguma coisa permanecia parada.
Eu comecei a existir mais do que viver.
Os dias viraram uma sequência de obrigações, os momentos viraram apenas momentos. Eu estava presente em lugares onde minha mente nunca estava. Eu respondia, conversava, sorria quando precisava, mas parecia que uma parte minha tinha ficado para trás em algum lugar que eu não conseguia encontrar.
E por muito tempo eu procurei um culpado.
Procurei em cada escolha errada, em cada palavra que eu poderia ter dito diferente, em cada versão minha que eu queria apagar. Eu carregava meus próprios erros como uma mochila cheia de pedras, e mesmo quando ninguém mais falava sobre eles, eu continuava voltando para buscá-los.
Até que um dia eu percebi que talvez eu nunca tenha sido o monstro que eu criei na minha cabeça.
Talvez eu só fosse alguém cansado.
Alguém que tentou, errou, perdeu coisas, machucou e foi machucado. Alguém que passou tanto tempo tentando entender onde tinha falhado que esqueceu que também estava sofrendo.
Talvez eu tenha finalmente conseguido me perdoar.
Mas o estranho é que o perdão não trouxe aquela paz que eu imaginava.
Não abriu o céu.
Não fez a nuvem desaparecer.
Ela continuou lá.
Só que agora eu não estava mais brigando comigo mesmo dentro dela.
E talvez esse seja o lugar mais estranho para se estar: quando você para de se odiar, mas ainda não sabe como voltar a se encontrar.
Quando você finalmente solta as correntes que você mesmo colocou, mas percebe que ainda está perdido no mesmo lugar.
A nuvem negra continua acima de mim.
Às vezes mais distante, às vezes tão baixa que parece tocar meu rosto.
E eu continuo andando sem saber exatamente para onde.
Não porque acredito que vou encontrar alguma coisa.
Mas porque ficar parado também já não parece uma opção.
Talvez esse seja o máximo que eu consigo fazer agora:
carregar a mim mesmo por caminhos que eu ainda não reconheço, tentando descobrir se em algum lugar existe uma versão minha que eu perdi no caminho.
Ou se eu estou apenas procurando por alguém que nunca mais vai voltar.
“I think I, I think I finally found a way to forgive myself”.
assassinato do auto ego
Existe um momento estranho em que o ego começa a perder a voz.
Não é uma morte completa, mas uma espécie de silêncio. Como se todas as certezas que eu carregava fossem uma casa construída com paredes de vidro, e bastasse uma queda forte o suficiente para perceber que, na verdade, eu nunca estive tão protegido quanto imaginava.
Talvez seja necessário chegar em algum tipo de fundo para enxergar.
Porque enquanto estamos no alto, tudo parece absoluto. Nossas dores parecem eternas, nossos desejos parecem indispensáveis, nossas versões parecem definitivas. A gente acredita que aquilo que sente naquele instante é a verdade final sobre quem somos.
Mas quando tudo desmorona, quando o personagem perde a fantasia, começa uma visão diferente.
Você começa a enxergar as próprias versões que já morreram dentro de você.
A pessoa que você era antes de certas dores. A pessoa que você tentou ser para ser aceito. A pessoa que você fingiu ser para não demonstrar fraqueza. A pessoa que você criou na sua cabeça e passou anos tentando alcançar.
E então vem a parte mais estranha:
perceber que nenhuma delas era realmente você.
E talvez nenhuma delas fosse falsa também.
Eram apenas momentos.
Porque no fim, tudo parece ter essa natureza passageira que a gente tenta ignorar. O sentimento que ontem parecia impossível de superar, um dia vira uma lembrança distante. A certeza que parecia inabalável, um dia parece uma ideia de outra pessoa. As coisas que jurávamos que definiriam nossa vida acabam sendo apenas capítulos pequenos em uma história que continua mudando.
A gente passa tanto tempo tentando encontrar significado em tudo, como se existisse uma explicação escondida esperando ser descoberta.
Mas talvez o universo nunca tenha prometido sentido.
Talvez nós sejamos seres tentando organizar o caos, criando narrativas para suportar a passagem do tempo.
Chamamos de destino aquilo que aconteceu.
Chamamos de aprendizado aquilo que conseguimos aceitar.
Chamamos de personalidade aquilo que são apenas padrões repetidos até parecerem permanentes.
E quando o ego fica despido, quando não existe mais a necessidade de parecer certo, forte ou invencível, sobra uma percepção quase assustadora:
nós somos muito menos fixos do que imaginamos.
Somos feitos de fases, encontros, perdas, memórias e versões que vão surgindo e desaparecendo conforme atravessamos a vida.
Talvez o fundo do poço não seja apenas um lugar de destruição.
Talvez seja o único lugar onde a gente consegue olhar para cima sem mentir sobre a altura que caiu.
Porque lá embaixo não existe mais personagem.
Não existe imagem para sustentar.
Não existe plateia.
Existe apenas você, diante de tudo aquilo que tentou esconder, percebendo que talvez a maior ilusão nunca tenha sido o mundo lá fora.
Talvez tenha sido a ideia de que algum dia nós realmente fomos uma coisa só.
recomeçario
Ele percebeu que tinha mudado no dia em que entrou no próprio quarto e sentiu que estava visitando alguém.
Os mesmos móveis, os mesmos objetos, os mesmos cantos onde tantas histórias tinham acontecido. Mas havia alguma coisa estranha naquele lugar. Como se tudo pertencesse a uma pessoa que ele conhecia, mas já não conseguia alcançar.
Ele ficou parado na porta por alguns segundos, tentando lembrar em qual momento havia deixado de ser aquele cara.
Talvez tivesse sido aos poucos.
Talvez ninguém perceba quando uma pessoa começa a desaparecer de si mesma.
Ele ainda fazia as mesmas coisas. Acordava, respondia mensagens, saía, conversava, ria quando era esperado. Aprendeu perfeitamente a imitar a própria presença. Era bom em parecer alguém que estava bem.
O problema era quando ficava sozinho.
Porque no silêncio sempre apareciam as versões antigas.
O garoto que acreditava que tudo teria uma explicação.
O homem que achou que finalmente tinha entendido a vida.
A pessoa que prometeu nunca repetir certos erros.
Todos eles apareciam sentados ao redor da mesma mesa, olhando para ele como se esperassem uma resposta.
“Quem você virou?”
Era uma pergunta simples.
Mas ele nunca sabia responder.
Ele passou anos tentando fugir de si mesmo, como se mudar de lugar fosse suficiente para deixar para trás aquilo que carregava. Trocou hábitos, ambientes, pensamentos, criou novas versões de si mesmo e chamou aquilo de evolução.
Mas toda noite, quando a casa ficava escura, ele encontrava os mesmos fantasmas usando roupas diferentes.
Ele percebeu uma coisa que nunca quis aceitar:
às vezes a gente não muda.
Às vezes a gente apenas aprende novas maneiras de repetir os mesmos padrões.
Ele lembrava de todas as vezes que jurou que seria diferente. Todas as promessas feitas em momentos de lucidez, quando a dor parecia grande o suficiente para ensinar alguma coisa.
Mas a dor passa.
E quando ela passa, a memória dela fica mais fraca.
Então ele voltava.
Voltava para os mesmos lugares, procurava as mesmas sensações, fazia escolhas que já conhecia o final.
Era como assistir ao mesmo filme várias vezes e continuar esperando que, em alguma exibição, o personagem principal tomasse uma decisão diferente.
Uma noite, ele abriu uma caixa antiga guardada no fundo do armário.
Dentro dela estavam fotos, bilhetes e pequenos pedaços de uma vida que parecia pertencer a outra pessoa.
Ele olhou para aquele rosto mais jovem e não sentiu vergonha.
Pela primeira vez, sentiu apenas cansaço.
Aquele cara também estava tentando.
Talvez esse fosse o problema de passar tanto tempo odiando quem você foi: você esquece que aquela pessoa também estava fazendo o melhor que conseguia com a consciência que tinha.
Ele fechou a caixa.
Não porque tinha encontrado uma resposta.
Mas porque percebeu que talvez nunca existisse uma versão final esperando por ele.
Talvez a vida fosse apenas essa sequência de encontros com pessoas que você já foi.
Algumas você abraça.
Algumas você perdoa.
Algumas você tenta esquecer.
Mas todas continuam vivendo em algum lugar dentro de você.
Naquela noite, ele deitou sem saber se tinha finalmente se encontrado ou se apenas tinha parado de fugir.
E, pela primeira vez em muito tempo, essa dúvida não parecia assustadora.
Porque talvez o maior erro dele tivesse sido acreditar que precisava se tornar alguém completamente novo.
Talvez ele só precisasse aprender a conviver com todos aqueles que já existiam dentro dele.
ímpeto afundo
Há um oceano que ninguém vê.
Por fora, continuo respirando no ritmo esperado, respondendo quando me chamam, ocupando espaço entre pessoas. Por dentro, existe uma água antiga subindo devagar. Não invade de uma vez. Ela aprende o formato dos meus pensamentos antes de encher os pulmões.
Caminhar deixou de significar ir para frente. Todos os caminhos dobram sobre si mesmos, como se o mundo tivesse sido reduzido ao tamanho da minha própria mente. Cada porta leva ao mesmo corredor. Cada corredor termina na mesma pergunta. E cada pergunta já nasce sem tradução.
Os pensamentos perderam a linguagem. São aeróglifos riscados nas paredes de uma caverna infinita, símbolos que reconheço sem jamais compreender. Passo horas tentando decifrá-los, como se existisse uma frase escondida capaz de explicar por que tudo pesa tanto. Mas quanto mais leio, mais as inscrições mudam. A pedra respira. O labirinto aprende meu nome.
Existe um lado do universo onde a luz nunca chegou. Às vezes penso que a mente também possui esse hemisfério esquecido, uma geografia onde nenhuma estrela ousou nascer. É para lá que vou sem perceber. Não porque queira. Porque toda ideia parece inclinada naquela direção, como um rio que desconhece outra gravidade.
É estranho assistir ao próprio pensamento fabricar tempestades e, ainda assim, saber que elas não molham ninguém além de você.
Há dias em que a realidade parece um vidro grosso. Consigo enxergar as pessoas rindo, vivendo, amando, fazendo planos. Mas tudo acontece do outro lado. Eu apenas encosto a testa na superfície fria, tentando lembrar como era existir sem precisar traduzir cada segundo da própria consciência.
O pior não é o silêncio.
É o eco.
Porque até o vazio aprende a repetir o seu nome quando você permanece tempo suficiente dentro dele.
Mesmo assim, em algum lugar entre as ruínas dessa arquitetura impossível, existe uma pequena contradição: se ainda sou capaz de perceber a escuridão, talvez ainda exista uma parte de mim que continua procurando a luz. Não porque a veja. Mas porque a ausência dela ainda me incomoda.
E talvez seja isso que me mantém respirando.
Não a certeza de que vou encontrá-la.
Mas o fato de que, no fundo do oceano, eu ainda consigo distinguir a diferença entre afundar… e continuar procurando a superfície.
Quimera Cinza
Dizem que o mundo nasceu em sete cores.
O meu esqueceu uma.
Não a mais bonita. Não a mais rara. Apenas aquela que fazia todas as outras parecerem vivas.
Desde então, tudo aqui existe em tons de cinza. O céu não ameaça chuva, ameaça permanência. As árvores não morrem; apenas desaprendem a crescer. As pessoas sorriem como quem assina um recibo.
Passei anos acreditando que algum caminhão estava atrasado.
Um simples lápis de cor.
Deveria chegar em qualquer manhã, descarregado por alguém distraído, e bastaria um risco torto sobre o papel da realidade para que tudo finalmente lembrasse que era primavera em algum lugar.
Mas os dias passavam.
E toda entrega vinha sem o pacote que importava.
Comecei a desconfiar que o atraso não era da estrada.
Era do próprio universo.
Então continuei andando.
Porque também me disseram outra coisa: existia um caracol. Um único. Em algum lugar impossível de encontrar. E quem tocasse sua concha deixaria de carregar o próprio peso. Não morreria do corpo primeiro. Morreria da espera. Como uma vela que finalmente entende que foi feita para apagar.
Passei a procurar o caracol.
Em cidades cheias demais para perceber o silêncio.
Em pessoas que juravam possuir mapas.
Em espelhos.
Principalmente nos espelhos.
Às vezes eu achava que estava perto. Via um brilho úmido no concreto, diminuía o passo, prendia a respiração…
Era apenas chuva.
Outras vezes confundia rastros com destino.
O curioso sobre perseguir uma quimera é que ela nunca precisa correr.
Você faz todo o trabalho por ela.
Enquanto isso, a tinta cinza continuava secando sobre tudo.
Descobri que o cérebro inventa cores quando passa tempo suficiente olhando para a ausência delas. Chama isso de esperança. Um defeito elegante da percepção. A mesma ilusão que faz marinheiros enxergarem terra antes da costa existir.
Talvez seja por isso que eu ainda acordava.
Não porque acreditasse.
Mas porque a imaginação sempre chega alguns segundos antes do desespero.
No fim, encontrei um velho caderno.
Folheei página por página procurando aquele lápis perdido.
Não havia espaço vazio onde ele deveria estar.
Nem marcas de que alguém o tivesse roubado.
Apenas uma observação escrita numa caligrafia que parecia ser minha, embora eu não lembrasse de tê-la feito:
“Você não está esperando uma entrega atrasada.
Está esperando uma lembrança de algo que nunca foi fabricado.”
Foi quando entendi.
O lápis não estava preso em alguma estrada.
Não havia caminhão.
Não havia fábrica.
Não havia catálogo.
Assim como o caracol.
Passei a vida procurando uma saída desenhada por alguém que jamais existiu.
E talvez seja essa a crueldade mais sofisticada do mundo:
não é que algumas pessoas morram sem encontrar o caracol.
É que certas almas sobrevivem para sempre porque perseguem uma criatura que o universo nunca teve a intenção de criar.
A cidade continuou cinza.
Eu também.
Mas agora já não olho para o horizonte esperando uma entrega.
Apenas caminho.
Como quem finalmente percebeu que algumas ausências não são atrasos.
São a arquitetura inteira do lugar.
oceano muito pacifico
Na cidade existia um mergulhador conhecido por um hábito incomum. Enquanto todos desciam ao oceano em busca de destroços, joias perdidas ou animais raros, ele voltava dizendo sempre a mesma coisa.
“Lá embaixo é silencioso demais para existir mentira.”
Ninguém entendia.
Os pescadores riam, os turistas fotografavam suas roupas encharcadas e os cientistas atribuíam aquilo aos muitos anos respirando ar comprimido. Diziam que a pressão confundia o cérebro. Que profundidade demais acabava alterando a percepção. Era uma explicação confortável, porque explicações confortáveis impedem que alguém precise mudar a maneira como enxerga o mundo.
Certa manhã, ele aceitou levar um rapaz que insistia em descobrir o motivo daquela frase.
Os dois mergulharam.
Quanto mais o sol desaparecia acima deles, mais o oceano parecia apagar qualquer vestígio da superfície. As cores deixavam de existir, os sons desapareciam, os objetos perdiam seus contornos e, pela primeira vez, o rapaz percebeu uma sensação estranha: ninguém ali embaixo precisava fingir ser coisa alguma.
Os peixes não pareciam felizes.
Também não pareciam tristes.
Eles simplesmente atravessavam a água.
As correntes não escolhiam direção por convicção. As baleias não cantavam porque alguém as escutaria. Nem os corais cresciam tentando provar que eram bonitos.
Tudo apenas acontecia.
Quando voltaram à superfície, o rapaz permaneceu em silêncio durante horas.
Foi então que o mergulhador sorriu pela primeira vez.
“Agora olha para eles.”
Na praia, centenas de pessoas caminhavam de um lado para o outro. Algumas escondiam lágrimas atrás de óculos escuros. Outras sorriam para fotografias que seriam esquecidas na semana seguinte. Casais prometiam eternidade enquanto pensavam em outras vidas. Crianças fingiam ser adultas. Adultos fingiam saber o que estavam fazendo. Todos carregavam uma versão cuidadosamente construída de si mesmos, como atores que esqueceram onde termina o personagem e começa o rosto.
O rapaz perguntou por que aquilo parecia tão diferente do fundo do mar.
O mergulhador respondeu que a superfície era o único lugar onde a realidade precisava competir com a imaginação.
“Lá embaixo, ninguém inventa significado. Aqui em cima, inventam tantos que acabam esquecendo de viver.”
Naquela noite, o rapaz não conseguiu dormir.
Olhava para o teto do quarto enquanto escutava a própria mente produzir pensamentos sem parar. Ela comentava o passado, ensaiava diálogos que jamais aconteceriam, antecipava tragédias improváveis, reinterpretava lembranças até transformá-las em outra coisa. Era como assistir a um homem desesperado tentando narrar um filme que nunca parava de mudar de roteiro.
Pela primeira vez surgiu uma suspeita quase ofensiva.
E se aquela voz não fosse ele?
E se tivesse passado a vida inteira acreditando em um narrador que nunca presenciou os fatos, apenas os interpretou?
Dias depois voltou sozinho ao mar.
Mergulhou até onde a luz deixava de alcançar.
Lá embaixo não havia opiniões.
Não havia culpa.
Não havia arrependimento.
O oceano não fazia perguntas porque não precisava de respostas.
E, cercado por um silêncio tão antigo que parecia existir antes da própria linguagem, ele compreendeu algo que o acompanharia pelo resto da vida.
A mente nunca foi uma janela para a realidade.
Ela é uma máquina de fabricar versões.
Algumas belas.
Outras insuportáveis.
Quase todas falsas.
Talvez seja por isso que tanta gente viva com a sensação de estar perdida. Não porque o caminho desapareceu, mas porque aprendeu a procurar a saída dentro do único lugar incapaz de oferecê-la.
Enquanto isso, o mar continua exatamente onde sempre esteve.
Profundo.
Indiferente.
Sem nenhuma necessidade de explicar a própria existência.
Como se soubesse, desde o princípio, que as únicas criaturas realmente perdidas nunca foram as que afundaram.
Foram as que passaram a vida inteira tentando encontrar a própria mente, sem perceber que ela era justamente o lugar de onde precisavam sair.
Aquele dia ele morreu afogado, mas na verdade nem precisou sair do próprio quarto.
silver lining
Dizem que existe uma estrada no interior da Inglaterra onde os postes de iluminação foram instalados próximos demais uns dos outros. À noite, quando um carro atravessa aquele trecho em alta velocidade, as sombras passam pelo para-brisa como os quadros de um filme antigo. Luz. Escuro. Luz. Escuro. Rápido o suficiente para enganar os olhos, lento o bastante para deixar a imaginação terminar o que não viu.
Foi ali que um velho frentista começou a notar um carro preto passando todas as madrugadas exatamente no mesmo horário.
Nunca abastecia.
Nunca diminuía a velocidade.
Nunca parava.
Apenas cruzava a estrada, desaparecia na curva e voltava quarenta minutos depois, percorrendo o caminho inverso como se procurasse alguma coisa que insistia em escapar.
Na décima segunda noite, a curiosidade venceu.
Quando o carro finalmente encostou, o motorista desceu sem desligar o motor. Não parecia cansado. Parecia perseguido. Os olhos não olhavam para o posto, nem para o velho, nem para a estrada. Permaneciam presos ao retrovisor, como quem espera que alguém apareça a qualquer instante.
O frentista perguntou se havia algum problema.
O homem demorou para responder.
Depois sorriu de um jeito estranho.
“Você já passou tanto tempo procurando uma pessoa que começou a esquecer o rosto dela?”
O velho riu, acreditando que fosse uma piada.
Mas o motorista continuou.
“No começo você procura porque sente falta. Depois procura porque precisa de respostas. Depois porque acredita que ainda existe alguma coisa esperando para ser resolvida. E, quando percebe, já não está procurando a pessoa. Está tentando encontrar a versão de si mesmo que existia quando ela ainda ocupava aquele lugar.”
O posto ficou silencioso.
Só o som do motor preenchia o espaço entre os dois.
O frentista olhou para a estrada vazia e perguntou por que ele simplesmente não desistia.
O homem encarou o asfalto iluminado pelos faróis.
“Porque a dúvida é muito mais resistente do que a ausência.”
Naquela noite, depois que o carro desapareceu outra vez, o velho não conseguiu esquecer aquelas palavras.
Dias depois, passou a reparar melhor nas pessoas que apareciam para abastecer.
Havia casais que conversavam sem escutar um ao outro.
Gente que desbloqueava o celular a cada poucos segundos, esperando uma mensagem específica entre centenas de notificações inúteis.
Pessoas que juravam ter seguido em frente, mas ainda sabiam de cor o caminho até a casa de alguém que não viam havia anos.
Foi então que compreendeu uma coisa curiosa.
O amor raramente termina quando a presença acaba.
Ele termina quando a possibilidade morre.
Enquanto existir uma única fresta por onde a imaginação consiga escapar, a mente fará dela uma porta.
Porque ela odeia finais.
Prefere inventar universos inteiros sustentados por uma única pergunta sem resposta.
“Será que…”
É impressionante a força dessas duas palavras.
Elas transformam desconhecidos em fantasmas.
Silêncios em promessas.
Coincidências em destino.
Fazem alguém dirigir centenas de quilômetros por uma estrada onde sabe que não encontrará ninguém, apenas porque uma parte da consciência se recusa a aceitar que algumas histórias não acabam com uma explicação, mas com um eco.
Anos depois, fecharam o posto.
Construíram uma rodovia mais moderna alguns quilômetros adiante, e a velha estrada foi lentamente esquecida. A vegetação tomou conta do acostamento, os postes enferrujaram e o asfalto começou a rachar como uma fotografia antiga.
Ainda assim, em certas madrugadas, moradores da região juram ouvir um motor atravessando a escuridão.
Não dizem que veem o carro.
Dizem apenas que escutam.
Como se algumas buscas sobrevivessem ao próprio viajante.
Talvez porque existam perguntas que nunca quiseram uma resposta.
Elas apenas precisavam de alguém disposto a continuar dirigindo.
E talvez seja esse o truque mais cruel da mente humana: convencer alguém de que está perseguindo outra pessoa, quando, na verdade, passou a vida inteira correndo atrás da única coisa que jamais conseguiu possuir completamente.
A certeza.
íbis 458
Se existisse uma rachadura no tempo, ela não teria o formato de um portal. Teria o formato de uma chave de hotel.
Não importava quantas cidades existissem, quantos anos tivessem passado, quantas pessoas tentassem convencê-lo de que seguir em frente era a única direção possível. Havia uma porta que continuava respirando dentro da memória.
Era um número comum para qualquer recepcionista. Um quarto qualquer, num corredor qualquer, de um hotel que provavelmente já havia trocado os carpetes, repintado as paredes e substituído os colchões. Mas para ele, aquele número havia deixado de ser arquitetura. Tinha se tornado religião.
Às vezes acordava no meio da madrugada convencido de que tudo aquilo era um erro de cálculo.
Talvez tivesse digitado a sequência errada na vida.
Talvez o destino não fosse uma linha, mas um elevador. E ele apenas apertara o andar errado.
Então imaginava.
E se, em vez de voltar ao 505…
…eu voltasse ao 458?
Talvez fosse ali.
Talvez fosse aquele o quarto que o universo escondera para quem insistia demais.
Na fantasia, ele atravessava o lobby sem dizer uma palavra. O cheiro do carpete era o mesmo. A máquina de gelo fazia o mesmo ruído distante. O elevador subia lentamente, como se cada andar pesasse uma década inteira.
Quarto andar.
Corredor silencioso.
A mão tremia sobre a maçaneta.
Nunca era a coragem que faltava.
Era o medo de descobrir que a esperança também envelhece.
A porta cedia devagar.
O quarto permanecia mergulhado numa penumbra azul, iluminado apenas pela luz da cidade atravessando as cortinas.
Duas possibilidades existiam.
Na primeira, o frio.
Uma cama perfeitamente arrumada.
O travesseiro intacto.
Nenhuma mala.
Nenhum perfume perdido nas fibras do lençol.
Só o ar parado de um lugar onde ninguém esperou por ninguém.
Era ali que ele compreendia que alguns lugares continuam existindo apenas porque alguém insiste em carregá-los por dentro.
Na segunda…
Ela estava sentada na beira da cama.
Como da última vez.
Os pés descalços tocando o carpete.
As mãos apoiadas sobre o colo.
Nem surpresa.
Nem felicidade.
Como se nunca tivesse ido embora.
Como se o tempo tivesse esperado apenas por ele.
Ela levantava os olhos.
Sorria daquele jeito pequeno que sempre parecia pedir desculpas ao mundo por existir.
E perguntava, quase rindo:
Demorou tanto assim?
Era sempre nessa hora que o delírio começava a ruir.
Porque ele nunca conseguia responder.
Não por falta de palavras.
Mas porque compreendia, por um instante cruel, que não era ela quem estava presa naquele quarto.
Era ele.
Ela permanecia exatamente igual porque a memória não envelhece.
Quem voltava diferente era sempre o homem diante da porta.
Mais cansado.
Mais vazio.
Mais cheio de discursos que jamais teria coragem de dizer.
Ele caminhava até ela.
Queria tocá-la.
Queria confirmar que alguns milagres ainda obedeciam à física.
Mas quanto menor ficava a distância, mais ela parecia feita da mesma matéria dos sonhos que esquecemos ao abrir os olhos.
Ela desfazia primeiro nas mãos.
Depois no rosto.
Depois na voz.
Até sobrar apenas o quarto.
Silencioso.
Frio.
Absolutamente vazio.
Foi então que compreendeu a crueldade da mente.
Ela não quer voltar ao passado.
Ela fabrica um passado que nunca existiu exatamente daquela forma, só para continuar tendo para onde fugir.
O quarto nunca foi o problema.
Nem a cidade.
Nem o hotel.
Era a esperança infantil de acreditar que existe um número certo capaz de devolver uma versão perdida de alguém.
Ele fechou a porta pela última vez.
Não porque tivesse deixado de amá-la.
Mas porque finalmente percebeu que nenhum corredor leva de volta para pessoas que só continuam vivas dentro da memória.
E enquanto caminhava em direção ao elevador, sorriu de um jeito estranho.
Como quem aceita que alguns endereços não pertencem aos mapas.
Pertencem apenas aos delírios de homens que, durante tempo demais, confundiram saudade com destino.
benta
Existe um tipo de pessoa que não entra na vida dos outros.
Ela inaugura uma estação.
Antes dela, os dias acontecem como um inverno comprido. As árvores continuam de pé, os carros continuam passando, o relógio continua cumprindo sua obrigação de girar. Mas existe uma diferença silenciosa entre viver e apenas sobreviver. Quase ninguém percebe até encontrar alguém capaz de acender as luzes de uma casa que sempre esteve habitada por sombras.
Foi assim que conheci Benta.
Os olhos mais sinceros que já presenciei em 26 anos de vida.
Bonitas eram as coisas que aconteciam perto dela.
O café parecia mais quente.
As ruas pareciam menores.
Os silêncios deixavam de ser um lugar de abandono para se tornarem um idioma que duas pessoas podiam dividir sem medo.
Ela carregava uma estranha habilidade de fazer o mundo perder o excesso. Como se passasse as mãos sobre a realidade e retirasse todo o ruído que sobrava entre um coração e outro.
Algumas pessoas chegam oferecendo promessas.
Benta oferecia paz.
E isso era infinitamente mais perigoso.
Porque promessas quebram.
Paz vicia.
Passei tempo demais acreditando que anjos tinham asas.
Depois percebi que talvez eles apenas saibam permanecer quando ninguém mais consegue.
Ela nunca precisou salvar ninguém de incêndios, tempestades ou guerras.
Bastou existir.
Há pessoas que nos dão conselhos.
Outras nos dão coragem.
Ela me devolveu uma versão de mim que eu desconhecia.
Na presença dela, eu não precisava fingir ser forte. Não precisava vencer discussões imaginárias, provar inteligência, esconder as rachaduras ou construir personagens. Pela primeira vez, existir parecia suficiente.
E isso me assustava.
Porque quando alguém nos enxerga sem as armaduras, sobra apenas a responsabilidade de não ferir aquilo que finalmente encontrou descanso.
Nem sempre consegui.
É estranho perceber que o amor também pode carregar culpa.
Não aquela culpa dramática dos romances.
Uma culpa silenciosa.
A de olhar para trás e pensar que algumas mãos aparecem apenas uma vez na vida para nos tirar da água.
E nós, ainda aprendendo a respirar, acabamos soltando exatamente a mão que nos mantinha na superfície.
Às vezes imagino que Deus distribui milagres de maneira discreta.
Não em igrejas.
Não em profecias.
Mas em pessoas.
Pessoas que aparecem sem anunciar a própria importância.
Que entram pela porta como qualquer outra.
Que riem de coisas pequenas.
Que bagunçam os cabelos com o vento.
E só depois de irem embora revelam que sustentavam um universo inteiro sem nunca terem dito uma palavra sobre isso.
Benta era assim.
Nunca precisou dizer que era luz.
A escuridão fazia esse trabalho por comparação.
Existe uma rua dentro da memória onde ela continua caminhando.
Não envelhece.
Não se despede.
Não pede que eu a siga.
Apenas continua andando, enquanto tudo ao redor floresce com a delicadeza de quem nunca soube que estava realizando um milagre.
Talvez seja por isso que algumas lembranças doam tanto.
Não sentimos falta apenas de uma pessoa.
Sentimos falta daquilo que éramos quando alguém nos fazia acreditar que o mundo ainda tinha um lugar reservado para a esperança.
Benta nunca foi uma casa.
Casas podem ser reconstruídas.
Ela foi horizonte.
Você pode atravessar continentes inteiros, aprender novos idiomas, dormir em outras camas, conhecer outros rostos.
Ainda assim, em algum momento do dia, seus olhos procuram exatamente aquela linha distante onde o céu parecia tocar a terra.
E então você entende.
Existem pessoas que passam pela nossa vida para serem amadas.
Outras, para serem esquecidas.
Mas há uma categoria infinitamente mais rara.
Aquelas que nos libertam de nós mesmos.
Que chegam quando tudo dentro parece um labirinto sem saída e, sem perceber, derrubam uma única parede.
Não mostram o caminho.
Elas se tornam o caminho.
E mesmo quando já não estão mais ali, seguimos andando por causa da direção que deixaram.
É por isso que nunca consegui pensar em Benta como uma ausência.
Ausências pertencem ao tempo.
Ela pertence ao que existe antes das palavras.
Àquela sensação inexplicável de encontrar abrigo sem precisar entrar em lugar algum.
Se algum dia me perguntarem qual foi o melhor sentimento que experimentei, não responderei com felicidade.
Felicidade é breve.
Direi que, por um instante impossível da vida, conheci alguém cuja simples existência fazia o mundo parecer menos pesado.
E desde então passei a desconfiar que certos anjos aceitam viver entre os homens apenas para lembrá-los de que a salvação, às vezes, não desce dos céus.
Às vezes ela sorri.
E atende por um nome que ninguém mais compreenderá.
Benta.
olhos de jabuticaba
A gente nunca marcou de se encontrar.
Essa talvez seja a parte mais estranha da nossa história.
Porque toda vez que eu decido seguir em frente, a vida resolve colocar você no caminho de novo. Num bar qualquer. Na rua. Na festa que eu nem queria ir. Na fila de algum lugar. Sempre parece coincidência demais para ser coincidência e acaso demais para ser destino.
A gente se olha como quem já sabe exatamente o que vai acontecer.
Primeiro vem aquele sorriso tímido, quase educado. Depois uma conversa boba sobre a vida, sobre o trabalho, sobre o tempo que passou. Fingimos que somos duas pessoas que só têm assuntos em comum.
Mas nunca é só isso.
Existe um momento em que o resto do lugar começa a desaparecer. Eu paro de ouvir quem está falando do meu lado. Você também fica um pouco mais perto do que precisava. Ninguém comenta. Ninguém pergunta. Acontece.
E então vem o beijo.
Sempre o beijo.
Como se todos os meses que passamos longe um do outro fossem apagados em poucos segundos.
É engraçado como a gente sempre acredita que dessa vez vai ser diferente.
Você ri e diz que não faz sentido continuar nisso.
Eu concordo.
Você fala que essa foi a última vez.
Eu respondo que também acho.
A gente se despede convencido de que finalmente conseguiu.
E, por algum tempo, consegue mesmo.
Até a vida resolver brincar de novo.
Eu nunca entendi o que somos.
Não somos um casal.
Também nunca fomos apenas duas pessoas que ficaram algumas vezes.
A gente conhece versões um do outro que ninguém mais conheceu. Você sabe como eu fico quando estou ansioso. Eu sei quando seu sorriso é verdadeiro e quando ele só está tentando evitar uma conversa difícil.
Mesmo assim, nunca conseguimos morar na vida um do outro.
Só conseguimos fazer visitas.
Às vezes penso que nosso erro sempre foi acreditar que precisava existir um fim definitivo.
Como se um beijo pudesse encerrar tudo o que veio antes.
Como se fosse possível convencer o coração usando lógica.
“Essa foi a última vez.”
Quantas vezes a gente já disse isso?
Cinco?
Dez?
Vinte?
Eu perdi a conta.
O problema é que nunca foi sobre o beijo.
Era sobre aqueles cinco minutos antes dele.
Quando você me olhava do outro lado e eu já sabia que tinha perdido de novo.
Quando nós dois fingíamos conversar com outras pessoas enquanto esperávamos um dos dois criar coragem para atravessar a distância.
O beijo só confirmava uma decisão que já tinha sido tomada pelos nossos olhos muito antes.
Talvez um dia exista realmente uma última vez.
Talvez a gente se encontre de novo e finalmente consiga passar um pelo outro como dois desconhecidos.
Talvez um de nós esteja apaixonado por outra pessoa.
Talvez a vida, cansada de insistir, resolva nos deixar em paz.
Mas, se esse dia chegar, eu desconfio que nenhum de nós vai perceber.
Porque todas as outras últimas vezes também pareciam verdadeiras.
E, no fim, bastava um reencontro.
Um “quanto tempo”.
Um abraço que demorava um segundo além do normal.
E lá estávamos nós outra vez, prometendo que agora era sério.
Enquanto, no fundo, os dois já sabiam que a única promessa que nunca conseguimos cumprir foi justamente essa.
azul
Nunca entendi por que algumas pessoas têm cor.
Não a cor dos olhos ou da roupa. Aquelas a gente esquece.
Falo da cor que fica quando elas vão embora.
Você sempre foi azul.
Não um azul triste.
Era o azul do céu cinco minutos antes de escurecer, quando o dia ainda respira fundo antes de entregar a noite. O azul do mar quando o vento resolve descansar por alguns instantes. Um azul que nunca precisou chamar atenção para ser bonito.
Talvez seja por isso que eu sempre encontrava paz perto de você.
O curioso é que essa paz nunca foi silêncio.
Porque você também era um furacão.
Só que ninguém nunca fala sobre o centro dele.
Todo mundo lembra da força que arranca telhados, das árvores caídas, do caos. Mas existe um lugar no meio de toda aquela violência onde não venta. Onde tudo para por alguns minutos.
Era exatamente ali que eu me sentia.
Enquanto o resto do mundo parecia correr contra o relógio, você fazia o tempo perder a pressa.
As conversas aconteciam sem roteiro.
O café esfriava porque nenhum dos dois lembrava de beber.
As horas passavam como se alguém tivesse esquecido de fazê-las andar.
Era um furacão porque tudo mudava quando você chegava.
E era azul porque, estranhamente, nada parecia ameaçador.
Você bagunçava a ordem das coisas sem transformar aquilo em desastre.
Depois que você apareceu, comecei a reparar numa coisa estranha.
O mundo inteiro ficou um pouco azul.
O céu parecia maior.
As madrugadas deixaram de ser tão frias.
Até as músicas ganharam um espaço que antes não existia.
Era como se você tivesse mudado a temperatura das coisas sem tocar em nenhuma delas.
Eu nunca tive coragem de te contar isso.
Porque parecia exagero.
Como explicar para alguém que ela alterou a cor da sua memória?
Que existe um tom específico do fim da tarde que continua tendo o seu nome.
Que toda vez que vejo o oceano, penso naquele jeito tranquilo com que você olhava para o horizonte, como se soubesse de alguma coisa que eu ainda levaria anos para entender.
Talvez amar alguém seja exatamente isso.
Descobrir que as cores nunca pertenceram ao mundo.
Sempre pertenceram às pessoas.
Antes de você, azul era só uma palavra.
Depois de você, virou um lugar.
Um lugar para onde minha cabeça sempre volta quando precisa descansar.
E talvez essa seja a maior contradição que alguém possa carregar.
Você foi o único furacão em que eu desejei permanecer.
Porque, pela primeira vez, ser levado por alguma coisa não significava me perder.
Significava, finalmente, encontrar um lugar onde eu não precisava resistir.
Agora passo a vida inteira entrando em lugares bonitos que continuam não sendo você.
O céu ainda é azul.
O mar continua azul.
Mas nenhum deles consegue repetir a sensação de quando era você quem dava cor às coisas.
Descobri tarde demais que algumas pessoas não passam pela nossa vida.
Elas mudam a forma como enxergamos o mundo.
E, depois disso, nenhuma cor volta a ser apenas uma cor.
marcha nupcial
Dizem que o desejo nasce nos olhos.
Mentira.
Os olhos apenas denunciam aquilo que já ocupou todos os outros cômodos.
O desejo nasce naquele lugar onde nenhuma palavra consegue chegar. Um espaço pequeno, escuro, antigo. Como uma peça esquecida de uma máquina que continua funcionando, mas produz um barulho insuportável porque sabe exatamente o que está faltando.
Passei a vida acreditando que esse vazio era só mais uma característica minha. Como a cor dos olhos, a forma das mãos ou o hábito de olhar para o chão enquanto penso.
Até você.
E foi cruel perceber que o vazio nunca foi vazio.
Era espaço.
Espaço esperando exatamente o formato que você tinha.
Desde então, tudo o que existe em mim quer deixar de ser apenas meu.
Quero ser a caneca que esfria o café antes que ele queime sua boca. Quero ser a lâmpada acesa quando você chegar tarde e jurar que não precisava de ninguém te esperando. Quero ser a chave esquecida no bolso da sua calça, porque isso significaria que existe um lugar para onde você sempre volta. (ac referência)
Quero ser o casaco pendurado atrás da porta nas noites em que o inverno resolve exagerar. Quero ser o banco do passageiro nas viagens longas, onde o silêncio nunca pesa porque sua presença faz todo o trabalho que as palavras não conseguem fazer.
Quero ser as pequenas coisas.
Porque as grandes sempre acabam.
As pequenas sobrevivem.
Quero ser o livro que você nunca termina porque gosta demais da sensação de ainda haver páginas pela frente. Quero ser o vinil riscado que insiste em tocar a mesma parte, e justamente por isso se torna insubstituível. Quero ser o relógio da parede que você já nem escuta, mas cuja ausência faria a casa inteira parecer errada.
Se for preciso, faço do meu peito uma gaveta para guardar seus medos.
Faço das minhas costas um telhado para os dias em que o mundo resolver desabar.
Faço da minha voz um lugar onde você possa descansar quando a sua cansar de existir.
Posso ser qualquer coisa.
Qualquer coisa que diminua o peso que você carrega sem contar para ninguém.
Só não me peça para ser alguém que aprende a viver sem desejar.
Porque eu tentei.
Passei anos colecionando versões de mim que fingiam não precisar de ninguém. Construí uma casa inteira usando independência como tijolo e orgulho como cimento.
Era bonita.
Mas ecoava.
Toda casa vazia parece maior do que realmente é.
Então você apareceu e fez a pior das gentilezas.
Mostrou que o que eu chamava de liberdade talvez fosse apenas uma solidão bem decorada.
Agora tudo parece incompleto.
As manhãs têm uma cadeira sobrando.
As músicas terminam cedo demais.
As ruas parecem longas demais.
Até o céu, de vez em quando, dá a impressão de estar faltando uma cor.
Não porque você levou alguma coisa embora.
Mas porque revelou a peça que eu nunca soube nomear.
E agora não consigo mais fingir que ela nunca existiu.
É ridículo.
Porque o mundo continua funcionando.
Os semáforos abrem.
Os mercados lotam.
As pessoas riem de piadas que esquecem cinco minutos depois.
Tudo segue.
Só eu continuo parado diante dessa ausência que tem exatamente o seu formato.
E, se algum dia me perguntarem qual foi a maior prova de amor que já ofereci, não direi que escreveria poemas, cruzaria oceanos ou enfrentaria o fim do mundo.
Direi algo muito mais simples.
Gostaria de ser tudo aquilo que toca seus dias sem que você precise perceber.
O hábito.
O conforto.
O objeto que você procura automaticamente no escuro.
A música que começa antes mesmo de você decidir ouvi-la.
Porque amar alguém talvez seja isso.
É desejar desaparecer como indivíduo para existir como presença.
Ser tão parte da vida de alguém que a própria ausência pareça um erro da realidade.
E, se um dia eu tiver a sorte de ouvir você dizer “sim” diante de um altar, espero que, enquanto todos esperam uma marcha solene, toque aquela velha canção sobre querer ser tudo para alguém.
Não porque ela fale de amor melhor do que qualquer outra.
Mas porque ela diz, com uma sinceridade quase desesperada, aquilo que passei a vida inteira tentando explicar sem conseguir:
eu nunca quis possuir você.
Eu só queria existir de um jeito que o seu mundo nunca mais precisasse aprender a viver sem.
Somente eu entendo, como um código criado por mim mesmo, impossibilitado de proferir a senha, condenado ao próprio acaso.
a morte do nostálgico (despedida)
Não houve despedida.
Ninguém chorou. Ninguém fez um discurso bonito. Ninguém colocou flores.
Só existiu um quarto silencioso, uma arma apontada para alguém que já estava morto fazia tempo.
O disparo não foi contra um homem.
Foi contra um hábito.
Contra a necessidade de transformar toda dor em identidade. Contra o vício de revisitar feridas até esquecer como era viver sem elas. Contra o conforto perverso de acreditar que sofrer significava sentir mais do que os outros.
O corpo caiu.
Levava no bolso cartas que nunca chegaram, fotografias de pessoas que já não moravam em lugar nenhum, promessas feitas para fantasmas, apostas perdidas tentando preencher um vazio que não aceitava existir sozinho.
Morreu ali o eterno saudoso.
O homem que sempre olhava para trás como se a felicidade tivesse esquecido um casaco no passado.
Junto dele, desceu à cova o rapaz que precisava parecer quebrado para justificar o próprio silêncio. O que fazia da própria tristeza uma casa, da ansiedade uma bússola e da culpa uma religião.
Também enterraram o covarde.
Aquele que esperava o mundo mudar primeiro para só depois ter coragem de viver.
Cobriram tudo com terra.
As pessoas que um dia fizeram falta ficaram lá dentro também. Não porque deixaram de importar, mas porque já não pertencem ao mesmo mundo de quem saiu andando daquele cemitério.
Existem lembranças que merecem descanso.
E insistir em ressuscitá-las é uma forma de morrer aos poucos.
Quando voltaram para casa, algumas portas permaneceram fechadas.
Uma conta deixou de existir.
Um perfil ficou abandonado.
Algumas palavras nunca mais seriam escritas.
Não por raiva.
Por sobrevivência.
Há lugares que continuam de pé apenas porque insistimos em visitá-los.
Hoje, eles perderam o último visitante.
A melancolia sempre soube escrever. Sabia escolher músicas, filmes, metáforas e transformar qualquer cicatriz em poesia.
Mas nunca soube construir futuro.
E chega um momento em que a beleza da própria ruína vira apenas outra prisão bem decorada.
Então acabou.
Não existe mais protagonista para aquela história.
O homem que precisava sofrer para existir recebeu o único destino possível.
Uma bala.
Uma pá de terra.
Silêncio.
Quem saiu daquele quarto não era feliz.
Nem invencível.
Nem curado.
Só estava cansado de oferecer a própria vida para coisas que nunca ofereceram a delas em troca.
Pela primeira vez, decidiu gastar energia com aquilo que pode alcançar.
O resto…
Que permaneça onde sempre pertenceu.
No passado.
Hoje não nasce alguém novo.
Hoje apenas morreu alguém que já estava ocupando espaço demais.
E dessa vez, ninguém vai cavar para trazê-lo de volta.
