ASFALTO NA SOLA Eu vim de lugar onde... Gabriel Parice Lopes

ASFALTO NA SOLA

Eu vim de lugar onde ninguém pergunta o que aconteceu.

Só olha pra tua cara, vê se você aguenta e manda seguir.

Aprendi cedo que a rua não tem paciência pra quem precisa entender tudo antes de continuar. Você tropeça, levanta, limpa a poeira na própria roupa e vai. Sem discurso. Sem trilha sonora. Sem ninguém batendo palma.

Tem gente que conhece a minha versão arrumada.

Poucos conheceram a que voltava pra casa com a cabeça cheia, o bolso quase vazio e aquele silêncio estranho de quem passou o dia inteiro fingindo que tava tudo certo.

Essa versão não posta nada.

Não explica nada.

Só chega.

Joga a chave em qualquer canto, acende a luz e encara o próprio reflexo como se estivesse cobrando alguma coisa de alguém que já não sabe mais quem é.

Eu já quis muito parecer diferente do que sou.

Hoje eu prefiro parecer exatamente o que a vida fez comigo.

Tem marca que não precisa esconder.

Tem história que perde a graça quando você tenta contar bonito.

Então deixa torto.

Deixa áspero.

Deixa com gosto de madrugada e conversa na calçada.

Porque foi assim que muita coisa aconteceu.

Sem planejamento.

Sem final elegante.

Só decisão errada, amizade improvável, amor mal resolvido, orgulho demais e aquela mania idiota de continuar andando mesmo quando ninguém sabe exatamente pra onde.

Talvez seja isso que chamam de vivência.

Não é ter resposta.

É ter passado por coisa suficiente pra parar de acreditar que toda pergunta precisa de uma.

Hoje eu não quero parecer invencível.

Invencível é personagem.

Eu quero ser real o bastante pra admitir que algumas coisas ainda pesam, mas leve o suficiente pra não carregar todas elas comigo.

O mundo continua sujo.

A rua continua acordada.

E eu ainda tenho asfalto na sola.

Só que agora eu sei voltar pra casa.

under sujão p.