Marcha nupcial Dizem que o desejo nasce... Gabriel Parice Lopes

marcha nupcial

Dizem que o desejo nasce nos olhos.

Mentira.

Os olhos apenas denunciam aquilo que já ocupou todos os outros cômodos.

O desejo nasce naquele lugar onde nenhuma palavra consegue chegar. Um espaço pequeno, escuro, antigo. Como uma peça esquecida de uma máquina que continua funcionando, mas produz um barulho insuportável porque sabe exatamente o que está faltando.

Passei a vida acreditando que esse vazio era só mais uma característica minha. Como a cor dos olhos, a forma das mãos ou o hábito de olhar para o chão enquanto penso.

Até você.

E foi cruel perceber que o vazio nunca foi vazio.

Era espaço.

Espaço esperando exatamente o formato que você tinha.

Desde então, tudo o que existe em mim quer deixar de ser apenas meu.

Quero ser a caneca que esfria o café antes que ele queime sua boca. Quero ser a lâmpada acesa quando você chegar tarde e jurar que não precisava de ninguém te esperando. Quero ser a chave esquecida no bolso da sua calça, porque isso significaria que existe um lugar para onde você sempre volta. (ac referência)

Quero ser o casaco pendurado atrás da porta nas noites em que o inverno resolve exagerar. Quero ser o banco do passageiro nas viagens longas, onde o silêncio nunca pesa porque sua presença faz todo o trabalho que as palavras não conseguem fazer.

Quero ser as pequenas coisas.

Porque as grandes sempre acabam.

As pequenas sobrevivem.

Quero ser o livro que você nunca termina porque gosta demais da sensação de ainda haver páginas pela frente. Quero ser o vinil riscado que insiste em tocar a mesma parte, e justamente por isso se torna insubstituível. Quero ser o relógio da parede que você já nem escuta, mas cuja ausência faria a casa inteira parecer errada.

Se for preciso, faço do meu peito uma gaveta para guardar seus medos.

Faço das minhas costas um telhado para os dias em que o mundo resolver desabar.

Faço da minha voz um lugar onde você possa descansar quando a sua cansar de existir.

Posso ser qualquer coisa.

Qualquer coisa que diminua o peso que você carrega sem contar para ninguém.

Só não me peça para ser alguém que aprende a viver sem desejar.

Porque eu tentei.

Passei anos colecionando versões de mim que fingiam não precisar de ninguém. Construí uma casa inteira usando independência como tijolo e orgulho como cimento.

Era bonita.

Mas ecoava.

Toda casa vazia parece maior do que realmente é.

Então você apareceu e fez a pior das gentilezas.

Mostrou que o que eu chamava de liberdade talvez fosse apenas uma solidão bem decorada.

Agora tudo parece incompleto.

As manhãs têm uma cadeira sobrando.

As músicas terminam cedo demais.

As ruas parecem longas demais.

Até o céu, de vez em quando, dá a impressão de estar faltando uma cor.

Não porque você levou alguma coisa embora.

Mas porque revelou a peça que eu nunca soube nomear.

E agora não consigo mais fingir que ela nunca existiu.

É ridículo.

Porque o mundo continua funcionando.

Os semáforos abrem.

Os mercados lotam.

As pessoas riem de piadas que esquecem cinco minutos depois.

Tudo segue.

Só eu continuo parado diante dessa ausência que tem exatamente o seu formato.

E, se algum dia me perguntarem qual foi a maior prova de amor que já ofereci, não direi que escreveria poemas, cruzaria oceanos ou enfrentaria o fim do mundo.

Direi algo muito mais simples.

Gostaria de ser tudo aquilo que toca seus dias sem que você precise perceber.

O hábito.

O conforto.

O objeto que você procura automaticamente no escuro.

A música que começa antes mesmo de você decidir ouvi-la.

Porque amar alguém talvez seja isso.

É desejar desaparecer como indivíduo para existir como presença.

Ser tão parte da vida de alguém que a própria ausência pareça um erro da realidade.

E, se um dia eu tiver a sorte de ouvir você dizer “sim” diante de um altar, espero que, enquanto todos esperam uma marcha solene, toque aquela velha canção sobre querer ser tudo para alguém.

Não porque ela fale de amor melhor do que qualquer outra.

Mas porque ela diz, com uma sinceridade quase desesperada, aquilo que passei a vida inteira tentando explicar sem conseguir:

eu nunca quis possuir você.

Eu só queria existir de um jeito que o seu mundo nunca mais precisasse aprender a viver sem.

Somente eu entendo, como um código criado por mim mesmo, impossibilitado de proferir a senha, condenado ao próprio acaso.