Like Sosa Ninguém sabia exatamente... Gabriel Parice Lopes
like Sosa
Ninguém sabia exatamente quando ele tinha começado a ficar grande. Esse era o tipo de coisa que ninguém conseguia explicar direito. Um dia ele era só mais um nome circulando entre homens que queriam subir, no outro já tinha gente esperando ele terminar de falar antes de encostar no copo.
Sosa não fazia questão de ser simpático. Também não precisava. Ele chegava, cumprimentava quem precisava ser cumprimentado, olhava o lugar inteiro como quem já conhecia tudo aquilo antes mesmo de entrar e sentava. Não tinha pressa. Nunca parecia ter.
E era isso que deixava os outros desconfortáveis.
Porque todo mundo ali queria alguma coisa.
Ele não parecia querer nada.
Ou pior, parecia já ter conseguido.
Os caras comentavam dele nos corredores, nos carros, depois das reuniões. Diziam que era arrogante, que não confiava em ninguém, que tratava gente como peça. Alguns falavam que ele era louco. Outros falavam que era inteligente demais pra ser enganado. No fundo, ninguém sabia qual das duas coisas era verdade, então era melhor não testar.
Tinha gente que odiava Sosa sem nunca ter conversado com ele.
Tinha gente que admirava sem admitir.
E tinha os que entendiam exatamente o que ele era e preferiam ficar longe.
Porque Sosa tinha uma coisa que incomodava mais do que dinheiro: ele não parecia impressionado com dinheiro.
O dinheiro era ferramenta. O nome era ferramenta. Os homens ao redor eram ferramenta. Tudo tinha uma função e ele parecia saber exatamente qual era.
Quando alguém chegava perto demais, ele percebia.
Quando alguém começava a fazer pergunta demais, ele percebia.
Quando alguém mudava de comportamento, ele percebia.
Era como se estivesse sempre esperando alguma coisa acontecer.
E talvez estivesse.
Ninguém conseguia relaxar completamente perto dele porque nunca sabiam o que ele estava pensando. Sosa podia passar vinte minutos em silêncio enquanto todo mundo falava e, no final, lembrar de uma frase que alguém tinha dito no começo da noite.
Era esse tipo de homem.
O tipo que fazia os outros pensarem duas vezes antes de mentir.
E quanto mais crescia, mais isolado ficava. Não porque faltassem pessoas ao redor. Pelo contrário. Sempre tinha gente entrando e saindo, telefone tocando, carro chegando, homem importante querendo reunião.
Mas ninguém realmente chegava perto.
Todo mundo queria alguma coisa dele.
Poucos queriam conhecê-lo.
E talvez ele preferisse assim.
Porque quando você chega num lugar onde qualquer pessoa pode estar sorrindo por interesse, confiança começa a parecer luxo.
Então ele mantinha todo mundo a uma distância calculada. Não precisava ameaçar. Não precisava fazer cena. Bastava olhar.
E os outros entendiam.
Era por isso que, quando Sosa entrava numa sala, as conversas diminuíam.
Não paravam.
Só diminuíam.
Como se todo mundo soubesse que, dali pra frente, era melhor escolher as palavras com cuidado.
Porque Sosa não precisava ser o homem mais barulhento do lugar.
Ele só precisava ser o homem que ninguém queria ter contra si.
E isso, naquele mundo, valia mais que dinheiro.
Muito mais.
