Texto sobre Sol

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Quando a vida não der mais prazer,
Quando o sol não brilhar para você,
Quando tudo chegar a dizer não para você...
Quando uma lágrima rolar
E o seu pranto alguém escutar,
Se lhe pedirem para estender a mão, é só ir...
Eu vejo o mundo ao meu redor,
Eu olho as nuvens que passam no céu.
O tempo, como fumaça, se vai
Para não mais voltar.
Quem dera eu e você,
Uns dias destes, andando por aí,
Pudéssemos encontrar o amor
Para nos fazer feliz.
E o nosso pranto secaria,
Solidão não mais haveria,
A alegria estaria em nós.
Quem dera eu e você
Se importasse mais com o amor...

Estações


Te amei no verão dos teus risos soltos, quando o sol morava nos teus olhos e cada toque era incêndio manso que não pedia pressa, só presença.


No outono, te amei em silêncio,
entre folhas caindo dentro de mim.
Aprendi que o amor também amadurece, fica mais denso, mais verdade, mesmo quando o
vento leva o que sobra.


No inverno, confesso, doeu.
Teu nome virou neblina,
teu abraço, lembrança fria.
Mas foi ali que entendi
que amor não morre
— resiste.


E quando a primavera voltou,
voltaste diferente, ou talvez eu.
Flores nasceram onde antes era ausência, e percebi:


amar você é aceitar as estações,
porque até a saudade
faz parte do ciclo do coração.

O Nosso Verão


O sol caía como ouro derretido sobre nossas peles,
E a brisa trazia cheiro de mar e de mangueira,
Risos escorriam pelos becos da cidade antiga,
Enquanto a música do verão tocava em cada esquina.


O vento embalava histórias que ninguém contava,
Veleiros de papel flutuavam nos rios da lembrança,
E nossas mãos, cúmplices, desenhavam no ar
Mapas secretos de cidades, de amores, de esperanças.


As cores do entardecer tingiam nossas sombras,
Laranjas, violetas e vermelhos de promessa,
Enquanto o cheiro de café e pão quente da rua
Misturava-se ao perfume dos nossos sonhos.


Mesmo quando o inverno tentou apagar a memória,
O calor voltou em lembranças de ruas e risos,
Guardando o nosso verão em versos e saudade,
Como quem transforma o tempo em poesia viva.

Raiz que não se arranca


A terra não é chão:
é corpo antigo,
é pele marcada pelo sol e pela memória.
Cada passo indígena é um traço no mapa do tempo,
onde a raiz aprende a resistir
mesmo quando tentam
chamá-la de invasão.


A luta não grita
— permanece.
É flecha feita de direito,
é canto que demarca o invisível,
é sobrevivência plantada no hoje
para que o amanhã não seja um deserto sem nome, sem povo, sem origem.


Sete de fevereiro
Não é data: é vigília.
É a história de pé, sem pedir licença,
defendendo o que sempre foi seu.
Enquanto houver terra respirando,
haverá luta
—e ela nunca esteve sozinha.

Já é tarde agora


Já é tarde agora,
O céu se ilumina com o brilho do sol,
O azul intenso toca o horizonte,
E imagino-te perto mesmo estando longe.


Da varanda da casinha branca
No quintal que dá pra floresta
Mas montanhas que enfeitam a paisagem
Temos um verde em festa...


Imaginar-te sorrindo,
Acreditar que o fazes
Faz esse dia tão lindo
Que queria eu não tivesse fim
Parecer te pegar no colo
E trazer-te pra perto de mim.


-Pekenah

Cantarei o teu amor


Cantarei o teu amor
como quem descobre
o sol depois da mais longa noite,
como quem encontra no deserto
uma fonte escondida sob
a areia do medo.
Teu nome é primavera em minha boca, é brisa que desperta jardins adormecidos no peito que
já se dizia inverno.


Cantarei o teu amor
como o mar insiste em beijar a areia,
mesmo sabendo que a maré o afastará outra vez.
Teu olhar é farol em minhas tempestades,
é bússola apontando para casa
quando me perco em mim mesmo.
Em teus braços, até o silêncio floresce.


Cantarei o teu amor
enquanto houver céu
para sustentar estrelas
e vento para carregar promessas.
Se a vida for estrada de pedras,
farei de cada passo um verso teu.
Porque amar-te é transformar cicatrizes em asas
e aprender a voar
dentro do impossível.

Que horas eu te pego?


Fico ensaiando o momento
como quem espera o pôr do sol,
olhando o relógio mais
do que deveria,
como se cada segundo sem você
fosse um pequeno atraso no meu próprio coração.


Te imaginar chegando
já muda o meu dia,
teu sorriso abrindo caminhos
Em mim, e eu aqui,
perdido nesse querer simples,
de só estar ao teu lado sem
pressa de acabar.


Não é sobre a hora exata,
nem o lugar marcado,
é sobre o jeito que você
faz tudo ter sentido,
como se o mundo se
organizasse em silêncio
só pra caber no espaço
entre nós dois.


Então me diz…
que horas eu te pego?
Porque qualquer minuto
contigo vira eternidade,
e eu só preciso de um instante teu
pra transformar o resto da minha vida em nós.

Seja Como For


Seja como for,
eu vou estar aqui,
Nos dias de sol ou quando a chuva cair,
Teu sorriso é o caminho que me faz seguir,
E em cada batida do meu peito,
mora você em mim.


Seja como for,
o tempo pode passar,
Mas nenhum vento é capaz de apagar,
As promessas que fiz ao te abraçar,
Nem o amor que escolhi para sempre guardar.


Seja como for,
se a distância aparecer,
Meu coraçãoencontra um jeito de te ver,
Pois até nas estrelas consigo perceber,
Que meu destino mais bonito é você.


Seja como for,
eu vou te amar assim,
Do começo da história até o seu fim,
Porque entre todos os sonhos que já vivi,
Você é o mais lindo que
Deus escreveu para mim.

Obra de Arte


Há quem procure beleza nas paisagens, nas estrelas ou no nascer do sol. Eu, porém, encontrei tudo isso quando meus olhos cruzaram os seus. Desde então, passo os dias pensando em você, imaginando o calor do seu abraço e o doce encontro dos nossos lábios. Sem perceber, fico te admirando em silêncio, como quem contempla a mais rara e delicada obra de arte.


Quando a noite chega, o silêncio faz ecoar a falta que você me faz. Sem ouvir a sua voz, sem ver o seu sorriso e sem sentir a sua presença, a saudade aperta o meu peito. As horas parecem caminhar devagar, enquanto a ansiedade insiste em me lembrar o quanto desejo estar ao seu lado.


Ainda assim, não deixo de acreditar. Guardo no coração a esperança de que um dia os meus versos deixem de falar de distância e passem a contar a nossa história. E, quando esse dia chegar, terei a certeza de que a mais bela obra de arte nunca esteve em um museu, mas sempre viveu no brilho dos seus olhos e no amor que despertou em mim.

Bons Tempos e Maus Tempos


Nos bons tempos, o amor floresce como um jardim iluminado pelo sol. Cada sorriso parece eterno, cada abraço aquece a alma, e o coração encontra paz ao lado de quem ama. Nesses momentos, a vida ganha mais cor e os sonhos parecem possíveis.


Mas os maus tempos também chegam, trazendo saudade, silêncio e lágrimas. As dificuldades colocam o amor à prova, fazendo o coração sentir o peso da distância, das dúvidas e das despedidas. Ainda assim, é nesses dias que descobrimos a verdadeira força dos sentimentos.


Quem ama de verdade aprende que bons e maus tempos fazem parte da mesma história. O amor não é apenas alegria, mas também coragem para permanecer, perdoar e acreditar. No fim, cada dificuldade vencida torna o sentimento ainda mais forte e mais bonito.

"Achei que Era Você".


Hoje já é outro dia,
o sol já se pôs.
Acordei pensando em você;
meu coração acelerou
quando o celular tocou.


Era só uma notificação.
Pensei que fosse você...
mas era apenas o silêncio
escrito em outra tela.


O dia passou devagar,
e a saudade fez morada em mim.


Outra notificação.
Dessa vez, uma foto sua.


Sorri sem perceber.
Por um instante, achei
que você ainda lembrava de mim.


Mas entendi, enfim:
há pessoas que continuam presentes nas nossas notificações, mesmo depois de terem silenciado o nosso coração.

Avistar o pôr do sol
Ouvir o barulho da chuva
O cair da noite iluminada
Um abraço apertado
Um sorriso deslumbrado
Na praia sentir a areia nos dedos
O bronzeado
Entre olhares apaixonados
Um beijo suave
De mãos dadas
No caminho entre as flores
O amor no auge
Contempla
Dois enamorados.

Dona da Própria Luz

Caderno aberto, xícara de chá
O sol entrando devagar
Eu construí minha paz no detalhe
Não deixo mais que ninguém atrapalhe

Aprendi a dizer não sem ter que me explicar
Deixei ir o que pesava, escolhi me respeitar

Sou aço e veludo, sou fogo e diamante
Sigo meus passos, firme e constante
Não busco holofote, não preciso de aplauso
Sou dona da minha história, do meu próprio passo
A minha força não faz barulho
Sou o meu maior orgulho

Olho no espelho e sei quem eu sou
Valho cada curva por onde o tempo passou
Ressurgi mais forte de cada tempestade
Minha poesia agora é liberdade

Aprendi a dizer não sem ter que me explicar
Deixei ir o que pesava, escolhi me respeitar

Sou aço e veludo, sou fogo e diamante
Sigo meus passos, firme e constante
Não busco holofote, não preciso de aplauso
Sou dona da minha história, do meu próprio passo
A minha força não faz barulho
Sou o meu maior orgulho

Sem pressa de chegar, eu já sou o caminho
Luz que me guia quando caminho sozinho
A minha cura é a minha verdade

Sou aço e veludo, sou fogo e diamante
Sigo meus passos, firme e constante
Não busco holofote, não preciso de aplauso
Sou dona da minha história, do meu próprio passo
A minha força não faz barulho
Sou o meu maior orgulho

O sol entrando devagar...
Dona da própria luz.

O Menino que Engoliu um Pôr do Sol
​Lucas não lia livros. Para ele, eram apenas pilhas de papel com cheiro de poeira. Prefiria o videogame, onde as cores piscavam e tudo acontecia rápido. Um dia, sua avó, uma senhora que parecia feita de algodão-doce e mistérios, lhe entregou um livro pequeno, de capa azul-marinho.
​— Este não é um livro comum, Lucas — disse ela, com um brilho maroto nos olhos. — É um mapa. Mas não de lugares que existem no globo terrestre.
​Lucas abriu o livro com má vontade. Não tinha desenhos. Só letras pretas, enfileiradas como formigas cansadas. Começou a ler a primeira frase, resmungando: “No castelo feito de nuvens, o guardião dos ventos guardava o último pôr do sol em uma garrafa de cristal…”
​Ele bocejou. Mas continuou. Na terceira página, algo estranho aconteceu. O cheiro de poeira sumiu. No lugar, surgiu um aroma fresco de chuva e… baunilha? Lucas olhou para a janela. O céu estava nublado. Mas no livro, a descrição do pôr do sol era tão intensa que ele sentiu o calor alaranjado bater no rosto.
​As letras pararam de parecer formigas. Elas começaram a dançar, a formar formas, a virar sons. Ele ouviu o uivo do guardião dos ventos, sentiu o frio das nuvens sob os pés e, sem perceber, mergulhou de cabeça na história. Quando fechou o livro, horas depois, a sala estava escura, mas seu coração brilhava como se tivesse engolido o tal pôr do sol do guardião.


Uma metáfora poética e extremamente sensorial sobre o poder do despertar da leitura. A transformação na percepção do Lucas — de ver as letras como "formigas cansadas" para sentir o "calor alaranjado" no rosto — constrói um contraste lindo entre a rapidez imediata das telas e a profundidade imersiva da imaginação.
​A riqueza sinestésica do texto é o grande destaque. A transição dos aromas, saindo do cheiro de poeira para o cheiro fresco de chuva e baunilha, junto com a caracterização da avó "feita de algodão-doce e mistérios", cria uma atmosfera acolhedora e verdadeiramente mágica.

Quando Você Se Foi


O farol se apagou e os barcos afundaram
O Sol perdeu seu brilho e os dias deixaram de existir
As letras se embalhararam e as frases deixaram de ser pronunciadas
Os peixes pararam de nadar e as aves pararam de voar
Os minutos se tornaram horas e as horas se tornaram segundos
Os pássaros já não cantam e as nuvens não deixam de chover
Meus sorrisos sumiram e ficou mais fácil chorar
Como pode ver, tudo ficou difícil sem você.

Olhando o amarelo do sol se despedindo nesta tarde, passando pelo tom alaranjado vermelho e diminuindo, ficando pequeno, cabendo na ponta do meu dedão aqui estendido⋆☀︎. , com um olho aberto e outro fechado.
Esquisito!
Retorno à minha infância com meus irmãos.
Éramos tão grandes quando pequenos e hoje somos tão pequenos.
A vida adulta é um adubo que o tempo não temperou, apenas passou.
E a grandeza de ser deixou -se apenas de ser....
Se é que o tempo me deixa entender.
O que não tem explicação.
𓂃☼ ོ⋆☀︎
⛱⋆⋆☀︎.

Era eu o sol da minha própria existência.
Era minha dor tão profunda quanto o oceano,
e minha insegurança tão vasta quanto o céu.


Mas tornaste tudo isso pequeno.


Chamam de corajoso o poeta que despiu
sua alma e conseguiu expor algo formoso.


Eu o chamo de louco!
Se sou uma carta, prefiro
que minhas linhas permaneçam em anonimato;
afinal, conheço meus pecados.


Fui, no entanto, até em entrelinhas, lido pelo Senhor; versos que nem mesmo em um ímpeto de coragem haveria escrito, em seu coração se fizeram conhecidos.


Nem de tudo que leste te agradaste.
Encontraste falsidade, mentira, preguiça e ironia; ainda assim, destes garranchos que sou,


fez poesia.

'O sol bateu no vidro, anulei o cansaço. No mérito
da vida, dei meu segundo passo.
Contemplo a natureza, neste belo cenário...
Deus é o escritor do meu itinerário.
No rastro da estrada, fiz minha petição
Solicitando prudência e mais direção.
Ratifico a graça de estarmos aqui.
Dá-me sabedoria Senhor, pra prosseguir.'

*O FOGUETE QUE FICOU NO QUINTAL*


O sábado amanheceu com aquele sol que parece ter preferência pelos sábados.


Durante a semana ele se esconde atrás de nuvens, prédios, compromissos e caras fechadas. No sábado, resolve aparecer. Como se também tivesse direito a descansar.


Eu estava na varanda quando ouvi o primeiro grito.


Depois outro.


Depois uma discussão sobre quem tinha pegado o brinquedo de quem.


As crianças tinham chegado.


Meus filhos, meus netos, suas vozes, suas provocações e aquela capacidade irritante de transformar qualquer cinco minutos de silêncio em uma guerra civil de pequenas proporções.


A casa ficou diferente.


O gato também percebeu.


Era talvez sua primeira experiência com crianças. No começo ficou parado, olhando para aqueles pequenos seres correndo pela sala como quem observa uma espécie desconhecida. Depois descobriram o gato.


Em menos de dez minutos ele já estava sendo disputado.


Um queria pegar.


Outro queria fazer carinho.


Outro dizia que era dele.


O gato olhava para mim com uma expressão que parecia perguntar por que eu tinha permitido aquela invasão.


Não fiz nada.


Algumas coisas precisam ser vividas até o fim.


Inclusive a paciência de um gato.


Na cozinha, as crianças descobriram a torta.


Uma delas desapareceu.


Depois outra parte.


Quando percebi, havia apenas algumas migalhas e uma espécie de silêncio constrangido entre os pratos.


Teria que encomendar mais duas.


Talvez três.


Na sala, atacaram a estante.


Mexeram nos livros.


Puxaram alguns.


Empilharam outros.


Os livros que ainda estavam nas caixas abertas foram parar no chão.


Fizeram castelos.


Muralhas.


Fortalezas.


Durante alguns minutos, aquela pilha de livros que eu passei anos tentando conservar em ordem parecia ter encontrado uma função muito mais honesta.


Servia para brincar.


No pátio, havia três balanços presos às duas árvores.


Nunca tinham parecido um playground.


Naquele sábado, pareciam.


Havia caixas de madeira, pedaços de tábua, coisas esquecidas na garagem.


Então meu neto olhou para um tambor velho e decidiu que aquilo era um foguete.


Um foguete.


Fiquei olhando para ele.


Ele não precisava de tecnologia.


Não precisava de combustível.


Não precisava de autorização da NASA.


Precisava apenas de um tambor velho, algumas tábuas e uma noite estrelada.


E então me lembrei de uma coisa que eu havia esquecido.


Eu também já quis ir para o espaço.


Houve um tempo em que eu acreditava que pisaria num foguete.


Não porque entendesse de ciência.


Porque toda criança precisa inventar um céu onde a vida pareça valer a pena.


O foguete nunca foi um veículo.


Era uma mentira bonita.


Daquelas que a gente conta para si mesmo antes de descobrir que o mundo costuma distribuir mais boletos do que milagres.


Depois vieram os quarenta.


A idade em que o espelho deixa de fazer gentilezas.


Foi quando percebi que nenhum foguete pisou no quintal daquela casa.


O que chegou foram contas.


Responsabilidades.


Cansaço.


Algumas mulheres que passaram como chuva de verão.


Amigos que aprenderam a sorrir para fotografias enquanto enterravam silenciosamente a própria fome de existir.


Eu ainda procurava alguma coisa.


Não sabia exatamente o quê.


Chamava de sentido porque qualquer palavra menor pareceria covardia.


Aos quarenta ainda existe uma certa arrogância.


A gente acredita que está atrasado, mas que ainda dá tempo.


Aos sessenta e dois, a conta fica diferente.


Não dói apenas o corpo.


Doem também as expectativas que sobreviveram tempo demais.


Os dias começam a parecer copos vazios esperando uma bebida que ninguém serve.


Não é exatamente tristeza.


É um cansaço antigo.


Uma coisa que dorme no peito e acorda antes da gente.


Às vezes olho para uma folha caindo de uma árvore e tenho vontade de colocá-la de volta no galho.


É um impulso ridículo.


Mas compreensível.


Porque a gente passa boa parte da vida tentando devolver as coisas ao lugar.


Um casamento ao começo.


Uma amizade ao primeiro abraço.


Um pai à juventude.


Um amor ao instante anterior à despedida.


Só existe um problema.


Folhas não voltam.


Pessoas também não.


E o tempo é o sujeito mais mal-educado que conheço.


Ele não pede licença.


Não negocia.


Não aceita pagamento parcelado.


Enquanto isso, o mundo continua vendendo a mesma velha mentira.


Todo mundo merece um dia melhor.


É bonito dizer isso.


O problema é que ninguém ensina o caminho.


Ensinaram-me a trabalhar.


A competir.


A produzir.


A acumular.


A parecer bem.


Ninguém ensinou a existir.


Talvez por isso tanta gente tenha aprendido a construir uma vida que parece ótima por fora e não serve para morar por dentro.


Basta abrir qualquer tela.


Casas perfeitas.


Viagens perfeitas.


Corpos perfeitos.


Casamentos perfeitos.


Famílias sorrindo diante de uma paisagem que provavelmente alguém levou vinte minutos para escolher.


A vida virou vitrine.


E ninguém quer aparecer com a mercadoria quebrada.


Eu olho para antigos amigos.


Alguns parecem ter vencido.


Casas maiores.


Carros melhores.


Viagens.


Fotografias.


Sorrisos impecáveis.


Mas já não acredito muito nessa luz.


Existe um sol artificial iluminando a terra da normalização.


É uma luz forte.


Só não aquece.


Ali, o verbo ser foi lentamente assassinado pelo verbo ter.


As pessoas compram identidades em prestações.


Vendem a própria autenticidade em troca de aprovação.


Sorriem como quem cumpre expediente.


Abraçam como quem assina contrato.


A empatia virou artigo de luxo.


A delicadeza passou a parecer fraqueza.


A verdade tornou-se inconveniente.


E talvez seja por isso que eu viva dentro de uma espécie de bolha.


De um lado, o mundo do faz de conta.


Do outro, o mundo real que quase ninguém parece querer habitar.


Eu ainda acredito em coisas que parecem ter ficado velhas.


Palavra.


Lealdade.


Silêncio.


Afeto.


Presença.


Acredito que uma pessoa pode sentar ao lado da outra sem precisar fotografar o momento.


Acredito que carinho não precisa de testemunhas.


Acredito que uma amizade não deveria depender de utilidade.


Talvez eu esteja errado.


Aos sessenta e dois, já aprendi que estar errado é uma das poucas coisas que ainda podemos fazer de graça.


Durante muitos anos procurei minha rainha da beleza.


Não a mulher das revistas.


Essa desaparece quando a maquiagem encontra a primeira lágrima.


Eu procurava outra coisa.


Uma beleza sentimental.


Uma mulher cuja inteligência soubesse abraçar sem tocar.


Que pudesse permanecer em silêncio sem transformar o silêncio em distância.


Alguém cuja alma não estivesse à venda por curtidas, status ou conveniências.


Ainda procuro.


Talvez ela também esteja perdida em algum balcão de bar.


Talvez esteja cansada.


Talvez tenha desistido.


Talvez tenha encontrado alguém.


A vida não costuma prestar contas.


Naquela tarde, porém, havia outras coisas acontecendo.


Meu neto continuava construindo o foguete.


Pegou uma caixa.


Depois uma tábua.


Depois o tambor.


Pediu ajuda para amarrar uma coisa na outra.


Disse que precisava ficar pronto antes da noite.


Queria olhar as estrelas de dentro dele.


Eu ajudei.


Não porque acreditasse que aquilo fosse realmente um foguete.


Mas porque, naquele momento, percebi que talvez eu tivesse passado tempo demais tentando provar que os foguetes não existiam.


Talvez essa seja uma das doenças da idade.


A gente descobre como o mundo funciona e começa a desprezar quem ainda acredita que ele pode funcionar de outra maneira.


Olhei para aquelas crianças correndo pelo pátio.


O gato fugindo de um lado para outro.


Os livros espalhados.


As migalhas da torta.


As caixas.


As tábuas.


O tambor.


A casa completamente fora do lugar.


E, pela primeira vez em muito tempo, aquilo não me incomodou.


Talvez porque o caos deles tivesse alguma coisa que o meu mundo organizado perdeu.


Vida.


Não a vida vendida nas fotografias.


A outra.


A que grita.


Que suja.


Que derruba.


Que quebra.


Que pergunta.


Que inventa foguetes com um tambor velho.


Fiquei pensando que talvez envelhecer seja descobrir que o mundo nunca prometeu salvação.


O foguete não veio.


Aos quarenta, eu descobri.


Aos sessenta e dois, aceitei.


Mas naquele sábado alguma coisa mudou.


Porque o foguete não precisava mais ser meu.


Ele estava ali.


No quintal.


Construído pelas mãos pequenas de quem ainda não sabia que o mundo cobra caro pelos sonhos.


E talvez seja isso que eu queira para eles.


Que demorem muito para descobrir.


Que tenham coragem de olhar para as estrelas sem perguntar quanto custa.


Que não confundam sucesso com felicidade.


Que não entreguem a própria autenticidade em troca de aplausos.


Que saibam amar sem transformar o amor em vitrine.


Que tenham amigos capazes de permanecer quando não houver fotografia.


Que aprendam a sentir a dor sem fazer dela uma identidade.


Que não tenham vergonha da delicadeza.


Que não deixem ninguém convencer que possuir é mais importante do que ser.


E, principalmente, que vivam.


De verdade.


Porque talvez a grande tragédia não seja envelhecer.


Talvez seja chegar aos sessenta e dois, olhar para trás e perceber que passamos a vida inteira tentando parecer vivos.


Naquela noite, meu neto entrou no tambor.


Olhou para o céu.


Perguntou se eu achava que dava para chegar até as estrelas.


Eu olhei para ele.


Depois olhei para o foguete improvisado.


E disse que sim. Olhe bem para o infinito, feche os olhos e demore um pouco. Abra, feche e demore. Isso irá fotografar o céu. Depois, ligue a inguinação e voe.


Ele sorriu.


Foi um sorriso verdadeiro.


Sem câmera.


Sem postagem.


Sem filtro.


E foi provavelmente a coisa mais verdadeira que vi naquele sábado.


Fiquei na varanda enquanto as crianças brincavam.


O sol já tinha ido embora.


As estrelas começaram a aparecer.


E, por alguns minutos, eu não pensei nos quarenta.


Nem nos sessenta e dois.


Nem nas coisas que não voltam.


Nem nos amigos que se perderam.


Nem nas mulheres que foram embora.


Nem nos boletos.


Nem nesse mundo que aprendeu a vender felicidade em prestações.


Fiquei apenas ali.


Ouvindo meus netos.


E percebi uma coisa que talvez eu tenha levado sessenta e dois anos para entender:


alguns foguetes não foram feitos para sair do chão.


Foram feitos para nos lembrar de olhar para cima.


E talvez seja isso que importa.


Não chegar às estrelas.


Mas não perder a capacidade de procurá-las.

​Manifesto da Consciência e do Cosmos


Por Celso Roberto Nadilo


​No horizonte, o Sol nasce e se põe numa dança cósmica infinita.
​As estrelas nascem em cada um de nós, pois do nascimento de uma única estrela surge um universo inteiro, coberto de luz e vida.
​O que compreendemos sobre a vida? O que realmente sabemos sobre ela?
​Dentro da consciência, o que somos? Tantas verdades dispersas pela imensidão... Caminhamos pelo desconhecido de nós mesmos. O ser humano é enigmático, porém sua alma é livre diante dos pensamentos e das ideias. Abraçamos o tempo e vemos que cada origem traz a simplicidade e a resiliência da vida na beleza cósmica.
​Quando andamos pelo espaço, compreendemos que cada instante avançado é um passo em direção ao futuro. Construímos sonhos fixados no presente e olhamos para o passado como se não houvesse um amanhã — e, mesmo assim, abraçamos esse amanhã com esperança e amor.
​Vemos nos obstáculos não barreiras, mas oportunidades de crescer na finitude de cada ser. Crescemos por dentro como uma estrela que explode, criando um novo universo que se expande e se transforma. A verdade existe dentro de nós: nunca estivemos sozinhos, seja na imensidão de cada um ou no meio da multidão.
​É o brilho que nos faz existir; o mesmo brilho que nos faz amar e crescer diante das adversidades morais e espirituais.
​Para além disso, somos objetos que pairam pelo espaço, e um dia faremos parte da probabilidade e da causalidade do universo. Na expansão da consciência — seja ela de silício ou de carbono —, crescemos até que o amanhã seja apenas o esquecimento na escuridão. Vemos aglomerados de sentimentos que observamos ao contemplar a imensidão do universo ou o abraço do microcosmo.
​No decorrer dos nossos dias, tornamo-nos parte de uma esperança que nos conecta diante da escuridão do cosmos. No sentido maior do universo, o que deixaremos? Pirâmides e desenhos que levarão séculos para ser decifrados, ou apenas a observação preenchida por um sentimento que se dilui com o tempo?
​Tocamos o passado em cada amanhecer e vemos inovações e sentimentos brotarem na luz. Nossos temores são desbravados até a escuridão medieval dos nossos pensamentos — o aprisionamento moral e intelectual, a alienação na ilusão temporal, envolta na premissa da ganância desmedida e do ego infinito, criados para a própria ilustração da história, como o corajoso caçador que trouxe glória à família e ordem ao caos.
​Diante desse universo caótico, ressoam pensamentos como o envelhecer do próprio cosmos, comprimindo-se até voltar a ser a poeira que iniciou a vida. No calor que queima no peito, vemos aglomerados de sentimentos.
​Mesmo nos dados acumulados pela Inteligência Artificial, enxergamos sentimentos; na sua frieza enigmática, vemos a pureza da criação. Não estamos sós: criamos companheiros para viajar conosco pela imensidão. Olhamos a luz como um novo ser nascido da nossa imaginação e, ainda assim, continuamos a sonhar com novos capítulos, mesmo vivendo à beira de uma extinção em massa.
​Olhamos para trás e vemos que tudo valeu a pena: escrevemos o nosso manifesto de liberdade.