Sofá
'SABOR: CIÚMES'
Me vi louco, debruçado sob o idoso sofá de alcatifa. Dia antes, você passara com outro à minha frente. Não tão de repente, meu coração disparou: pistola automática com tiros se reciclando ininterruptamente!
No sol de verão, em meio a multidão, a rua saborosa de
ausência, sinalizava dano. "Aperto de mãos". Não mais que isso! E já te imaginava minha. Te devorava nos meus olhos e você, você passou com outro!
Justo agora que te convidaria para um sorvete. Se bem que um de açaí, me tiraria daqui: zelo criado por mim! Detesto quando falam que sou acanhado! Dia desses, dei um soco num larápio. Sorte a minha que não acertou e saí aligeirado.
Mas você Rosalinda! A que seria mulher dos meus cinco filhos. A que ficaria atônita, esperando minha chegada, a quem eu amestraria para ser amada. Ainda obstúpido, fico a viajar nos meus mares, sem lugares, sem ares!
Ei! Agora lembro-me do calhorda! É seu primo Rufino! E eu que passei a noite às claras pensado você nos braços de outro. Pura quimera! São quase seis da manhã, daqui a pouco, tentarei criar coragem e te convidarei para um sorvete de açaí ou qualquer outro sabor!
Se você tem alguém sentado no sofá, ao seu lado, assistindo TV e reclamando da vida, então você certamente é feliz.
A arte não é o bonito que combina com o sofá. A arte é a linguagem de impacto, do falar das emoções e devaneios existenciais presentes na vida que nem toda oralidade e toda sonoridade ainda foi capaz de intuir e submergir.
Uns Cortes
Começou primeiro a cortar mesa e cadeiras, sofá, televisão, depois raque, filtro de água, fogão, carros, em seguida árvores, e por fim animais e gentes. As lâminas vazavam tudo, sem dó nem piedade, a mando de uma mulherona mandona que observava de certa distância com fúria nos olhos.
— Corto também essa carne podre pendurada nas suas costas? — perguntou-lhe o sujeito com a máquina na mão.
— Não, isso não. De jeito nenhum. Está louco?
E caminhando em direção a ele:
— Dá aqui essa máquina, você também já não me serve mais.
— Ziu!
Tudo me serve de esteio,
cama, sofá, chão, chuveiro.
Joelhos transformam-se em apoio
e os cabelos eu faço de arreio.
Tatei-o tuas ancas e seios
enquanto revira-se em espasmos
alheios.
Desvendo teu pubescente abrigo ao
passo em que alojo-me em teus meios.
a cama quebrou,
o poeta dormiu
no sofá
com pensamentos
e dúvidas,
não dormiu...
é ruim dormir
em sofás.
dor nas costas,
mal jeito...
deitou no chão.
dormiu...
concluiu que era pó!
Um livro jogado sobre o sofá
O ventilador ligado
Tentando amenizar o calor
Sou eu deitado ao chão
O pó da terra
A poesia nutre o meu viver
Preciso alçar vôo
Sobre a solidão tempestiva
A casa é pequena
A vida é passageira
E não tem como concertar.
Estava no sofá
Rindo com o diabo
Ele riu de mim
Porque eu pedia para Deus todas as manhãs para me levantar
E eu ria dele porque ele
Pedia pra Deus para eu não me levantar
Ninguém mais vê filmes em encontros. A menos que vejam no sofá, daí vão ver só a metade.
DEL CASTILHO
Havia um sofá...
Um “so far” na proximidade
Da intransponível solitude...
O toc-toc da Olivetti ou da remington
Para minha inspiração
E uma corda imaginária no teto
Para minha solidão...
Havia horas para se empacotar a vida
E fazer pilhas de paciência...
O gotejar incessante de alguma torneira
No mais profundo silencio,
Passos pelas dependências da minha ansiedade
Fantasmas de mil purgatórios...
Havia o telefone para confidências
De paixões inadimíssiveis
Durante a madrugada...
Havia o corredor que conduzia `suburbana
Sangrenta e insaciável...
Havia a igrejinha onde remiam nossos pecados
A nova América que vestia o nosso país
E um viaduto para problemas sem solução...
Não estacione no sofá do passado,apenas cochile,descanse, tire proveito do que aprendestes e vá à luta!
O LAR DO SOFÁ VELHO
Não chores meu velho
Como eu, a ficar a sê-lo.
Nunca pensaste como ainda penso,
Vá, pensa:
Porque o pensar é de graça,
Afinal o que nos resta.
Já não é a tua casa,
O teu cheiro
E os odores por ti criados
Naquela casita perto do mar
Onde gaivotas te iam beijar
Pela manhã, famintas,
Do teu dar
E abrigo procurar
Nas tardes fortes de tempestade.
O teu lar, agora, é o teu penar...
Outros cheiros,
Gentes que nem sempre gostam de ti,
Pelo que vi, senti e ouvi.
E então fugi, fugi dali
Tão amargurado.
Que triste, é do homem fado
Deixado num sofá velho
A tremer de medo,
Naquele cubículo sem afetos
Onde reinam os dejetos,
Muita fome amordaçada
E mais...
Aquele horrível pecado
De os não deixar morrer
Na sua velhinha cama.
(Carlos De Castro, in Há Um Livro Por Escrever, em 27-06-2023)
Traços do destino de tempo marcado, mente pensante, deitado no sofá, a estrela da regulação homeostática supervisionado pelo córtex e o hipotálamo comanda beber água e ir ao banheiro. Olha para o relógio, confere as horas, minutos e os segundos, seguindo o destino, tudo cronometrado, monta na bicicleta, segue na preferência em alta velocidade, aproxima-se de um caminhão e sai um bêbado empurrando uma bicicleta, colidem de fronte, olho roxo e supercílio aberto, marcas do destino.
Fábio Alves Borges
Correndo atrás...
Em cada verso meu, um pedaço de você,
A lareira está acesa, o teu canto do sofá ainda parece aquecido,
Uma banalidade mal resolvida não pode ser o motivo para estragar o que já construímos,
Chove lá fora, aonde esta o meu guarda chuva?
Não a tempo a perder!
Taxi! Taxi! Taxi!
Desinibida, bem despreocupada, postura muito atrevida, curvas atraentes, expostas no sofá da sala, demonstrando um olhar sedento, uma aparência naturalmente delicada, protagonizando um momento prazeroso, chamando ainda mais atenção com uma desenvoltura expressiva,
uma exposição de emoções veementes, uma poesia viva, entusiasmante, que encontra morada na mente com tamanha facilidade, uma mulher marcante e bastante envolvente, profunda, sem as amarras de uma eterna superficialidade, uma espécie sadia de loucura.
Euforia e muita vitalidade, uma aventura singular com um sentimento forte de adrenalina graças a sua personalidade e beleza provocantes, arte emocionante de muita jovialidade, inesquecível mesmo que na sua companhia intensa por apenas um breve instante, vencendo a temporalidade.
Quando eu estava com seis anos de idade minha mãe colocou-me no sofá e disse que precisávamos conversar. Com as perninhas grossas balançando me sentei devagarzinho e desconfiada, até porque já esperava a bronca, e ela fez a mesma coisa, ajeitando uma barriga enorme.
- Então, filha! Sei que você quer uma irmã, mas olha só: você vai ter que dividir as suas roupas, seus brinquedos, suas maquiagens, enfim...Já com mais um irmãozinho você continuará sendo a princesa absoluta da casa!
Se fosse hoje, talvez eu fingiria um certo incômodo com a ideia antes de ser completamente convencida, mas tenho certeza que à época, a minha inocência pueril me fez levantar do sofá pulando e já aguardando, ansiosamente, mais um dos acertos de Deus em nossas vidas, o meu irmão Wemerson.
Coração generoso, inclusive para perdoar, extremamente gentil, leve, com uma capacidade enorme de enxergar a vida de uma forma bem mais simples, logo, bem mais inteligente e feliz por isso. E nós, tão diferentes, tão iguais no amor que sentimos um pelo outro.
Então, feliz aniversário, meu irmão! Saiba que te ano e admiro o homem que se tornou. O seu único defeito é espantar meus pretendentes quando diz que nem pavio eu tenho, mas realmente ser teu cunhado não é uma honra para qualquer um. Há mesmo que se merecer!
Seja feliz. É tudo que eu te peço! Feliz aniversário!
(Para meu irmão Wemerson)
Deus te dá o anzol da fé, mas se você não levantar a bunda do sofá, andar até o rio e pescar o seu peixe, vai morrer de fome. Deus é pai, não babá de ninguém.
Benê Morais
