Coleção pessoal de MatheusHoracio
O peso de continuar
Ela tinha aprendido a acordar cansada.
Não era aquele cansaço comum de quem dormiu pouco ou passou o dia trabalhando. Era uma fadiga mais antiga, dessas que parecem se instalar nos ossos e fazer morada nos pensamentos. O corpo doía em lugares que ela já nem sabia explicar, e a alma, de tanto apanhar da vida, havia perdido o costume de reclamar.
Morava num apartamento pequeno, onde a umidade desenhava manchas escuras nas paredes e o relógio da cozinha atrasava alguns minutos todos os dias. Havia uma torneira que pingava durante a noite, uma conta de luz sobre a mesa e roupas acumuladas numa cadeira que já não servia para ninguém sentar. A vida dela era feita dessas pequenas coisas que, vistas de fora, pareciam insignificantes. Mas era justamente assim que os grandes sofrimentos se apresentavam: não como uma tragédia de cinema, com música triste e despedidas bonitas, mas como uma sucessão de segundas-feiras.
O dinheiro nunca chegava até o fim do mês. As pessoas que prometiam ficar encontravam alguma razão para partir. Os trabalhos exigiam mais do que ela tinha a oferecer, e o pouco descanso que conseguia parecia insuficiente para reparar os estragos da semana anterior.
Havia manhãs em que permanecia sentada na beira da cama, olhando para os próprios pés, como se precisasse negociar com eles o esforço de levantar.
Não era preguiça. Tampouco falta de vontade.
Era o peso de quem vinha carregando coisas demais havia tempo demais.
O pior, entretanto, não era o que lhe acontecia. Era o que começara a pensar sobre o que lhe aconteceria dali em diante.
Ela já não esperava notícias boas. Quando o telefone tocava, imaginava algum problema. Quando alguém dizia que precisava conversar, preparava-se para uma decepção. Se alguma coisa dava certo, não conseguia comemorar inteiramente, porque logo pensava no que viria depois para estragar tudo.
A esperança, para ela, tornara-se uma espécie de dívida. Toda vez que acreditava que as coisas poderiam melhorar, a realidade aparecia cobrando juros.
Por isso, deixara de fazer planos.
Não falava mais em viajar, mudar de emprego ou começar alguma coisa nova. Quando perguntavam sobre o futuro, respondia com um sorriso breve e dizia que estava levando a vida. Era uma expressão conveniente, porque ninguém precisava perguntar para onde ela estava indo.
Naquela quinta-feira, choveu durante quase toda a tarde.
Ela estava sentada perto da janela quando ouviu três batidas na porta. Era um amigo antigo, desses que não aparecem todos os dias, mas que conhecem a diferença entre um sorriso verdadeiro e um pedido de socorro disfarçado.
Ele entrou trazendo dois cafés em copos de papel e um pacote de biscoitos.
— Você não atende mais ninguém — disse, deixando as coisas sobre a mesa.
— Não tenho muito o que dizer.
Ele tirou o casaco molhado, puxou uma cadeira e se sentou.
— Então não diga nada.
Ela estranhou. Estava acostumada a pessoas que chegavam com perguntas, julgamentos ou conselhos embrulhados em frases prontas. Gente que dizia que tudo ia passar, que era preciso pensar positivo, que havia pessoas em situações piores.
Como se a dor fosse uma competição na qual alguém pudesse perder o direito de sofrer.
Mas ele não perguntou por que ela estava daquele jeito. Não mandou que tivesse fé, não recomendou exercícios, não falou sobre gratidão. Apenas ficou ali, bebendo o próprio café enquanto a chuva batia na janela.
Foi justamente aquele silêncio que a fez falar.
Contou sobre as contas atrasadas, o medo de adoecer, as noites em que o sono não vinha e as manhãs em que acordar parecia uma obrigação pesada demais. Falou das pessoas que partiram, das promessas que não se cumpriram e da vergonha de já não conseguir ser a mulher que costumava ser.
Em determinado momento, começou a chorar.
Não chorou bonito. Chorou como choram as pessoas que passaram muito tempo tentando não incomodar ninguém com a própria tristeza. Interrompia as frases, limpava o rosto com as mãos e pedia desculpas entre uma palavra e outra.
Ele esperou.
Quando ela finalmente se calou, olhou para a janela e disse:
— Eu acho que as coisas nunca vão melhorar. Acho que a minha vida vai ser sempre isso. Um problema atrás do outro. Estou cansada de tentar acreditar em alguma coisa que nunca chega.
O amigo abaixou os olhos por alguns segundos.
Não porque não soubesse o que dizer, mas porque compreendeu que algumas dores merecem mais do que uma resposta rápida.
Depois, aproximou a cadeira.
— Posso te falar uma coisa? E você não precisa acreditar nela hoje.
Ela assentiu.
Ele respirou fundo e disse:
— Você está tentando julgar o resto da sua vida usando como prova o pior período dela. Está olhando para tudo o que sofreu até aqui e tratando esse sofrimento como se fosse uma previsão do que ainda vai acontecer.
Ela permaneceu imóvel.
— Eu não vou te prometer que amanhã será melhor. Não seria honesto. Talvez amanhã você ainda tenha as mesmas contas, os mesmos problemas e as mesmas preocupações. Talvez algumas coisas demorem muito mais do que você gostaria. Mas existe uma diferença enorme entre admitir que a vida está difícil e concluir que ela nunca poderá ser diferente.
Ele fez uma pausa.
— Você sofreu tanto que começou a confundir o cansaço com a verdade. Como está cansada de lutar, acredita que não existe mais nada pelo que lutar. Como se decepcionou tantas vezes, acredita que toda expectativa terminará em decepção. Eu entendo por que você pensa assim. Só não acho justo que você transforme aquilo que a vida fez com você numa sentença contra tudo o que ainda pode viver.
Ela apertou o copo de café entre as mãos.
Ele continuou:
— Escuta, você não precisa ser otimista sobre o amanhã. Não precisa acordar acreditando que tudo vai dar certo, nem encontrar uma lição bonita em cada desgraça que acontece. Tem sofrimento que não ensina nada. Só machuca. E você não precisa agradecer por ter passado por ele.
Pela primeira vez naquela tarde, ela olhou diretamente para ele.
— Então o que eu faço?
Ele respondeu sem levantar a voz:
— Por enquanto, pare de exigir de si mesma a força necessária para consertar a vida inteira.
A chuva parecia ter diminuído.
— Você está tentando resolver hoje todos os problemas que trouxe de ontem e todos os problemas que tem medo de encontrar amanhã. Está exigindo que uma pessoa exausta carregue, ao mesmo tempo, o peso do passado, as dificuldades do presente e todas as tragédias que ainda nem aconteceram. Ninguém consegue viver assim por muito tempo sem se quebrar por dentro.
Ele estendeu a mão sobre a mesa, não para interrompê-la, mas para que ela soubesse que não estava sozinha naquela conversa.
— Talvez, neste momento, você não consiga acreditar que a vida vai melhorar. Tudo bem. Então não tente acreditar no resto da sua vida. Tente apenas não desistir de você hoje. Coma alguma coisa. Tome um banho demorado. Resolva uma conta, se puder. Se não puder, deixe para amanhã. Procure ajuda para aquilo que ficou grande demais para carregar sozinha. E, quando não conseguir caminhar, aceite companhia.
Ela baixou a cabeça, ouvindo cada palavra.
— Mas tem uma coisa que eu quero que você entenda — ele prosseguiu. — Você não precisa ter esperança de que tudo vai dar certo para merecer cuidado enquanto as coisas dão errado. Não precisa provar que é forte para ter o direito de descansar. Não precisa enxergar uma saída para merecer que alguém se sente ao seu lado enquanto vocês procuram uma.
Ele olhou para as paredes manchadas, para a cadeira cheia de roupas, para os papéis espalhados sobre a mesa.
— E não faça da sua pior fase a sua identidade. Você não é a mulher das contas atrasadas. Não é a mulher que foi abandonada. Não é a mulher que está cansada. Essas coisas fazem parte do que você está vivendo, mas não explicam tudo o que você é.
Ela voltou a chorar, só que, daquela vez, não pediu desculpas.
— E se nada mudar? — perguntou.
Ele demorou um pouco para responder.
— Então a gente vai ter que descobrir o que pode mudar. Talvez não seja tudo de uma vez. Talvez algumas coisas dependam de outras pessoas, de dinheiro, de oportunidades que você ainda não teve. Eu não vou fingir que basta querer para resolver. Mas também não vou concordar que você já conhece o final de uma história que ainda está acontecendo.
Ele sorriu discretamente.
— Você não precisa enxergar o caminho inteiro. Às vezes, precisa apenas de alguém que caminhe alguns metros com você até que consiga enxergar o próximo pedaço.
Ficaram em silêncio.
O café havia esfriado. A chuva deixara pequenas gotas no vidro, e o relógio da cozinha continuava atrasado. Nada naquele apartamento havia mudado. As contas permaneciam sobre a mesa, a torneira ainda pingava e a vida, do lado de fora, continuava indiferente às dores de quem tentava atravessá-la.
Mas alguma coisa havia mudado naquela tarde.
Não a realidade. Não ainda.
Mudara a maneira como ela estava sentada diante dela.
Pela primeira vez em muito tempo, não precisava fingir que estava bem, nem defender a própria tristeza, nem apresentar argumentos para justificar o cansaço. Podia simplesmente existir daquele jeito, incompleta, assustada, sem respostas.
E talvez fosse um começo.
Quando o amigo se levantou para ir embora, ela perguntou se ele voltaria no domingo.
— Volto — respondeu. — A gente toma café e vê o que precisa ser feito.
Ele não disse que tudo ficaria bem. Não lhe ofereceu uma promessa que não podia cumprir. Deixou apenas o número de um serviço de apoio que poderiam procurar juntos, caso ela precisasse conversar com alguém além dele, e combinou de telefonar na manhã seguinte.
Depois, fechou a porta devagar.
Ela permaneceu alguns minutos na sala. Em seguida, levantou-se, recolheu os copos e colocou água para ferver. Não porque tivesse recuperado a vontade de viver grandes aventuras, nem porque acreditasse que os próximos dias seriam fáceis.
Fez aquilo porque estava com fome.
E, naquela noite, isso bastou para que começasse a cuidar de si.
Antes de dormir, olhou pela janela. A rua continuava molhada, os carros passavam levantando água junto ao meio-fio e alguém discutia ao telefone no prédio da frente. O mundo não havia se tornado mais gentil. Mas também não havia terminado.
Ela ainda tinha medo do amanhã.
Só que agora compreendia que o medo não era uma profecia.
Deitou-se sem fazer promessas a si mesma. Não jurou que seria forte, que mudaria de vida ou que nunca mais choraria por causa dos mesmos problemas. Estava cansada demais para juramentos.
Apenas decidiu que, no dia seguinte, tentaria novamente fazer o que estivesse ao seu alcance.
E talvez seja isso que quase ninguém nos ensina sobre a esperança: ela nem sempre aparece como uma luz acesa no fim de um túnel. Às vezes, é apenas a decisão silenciosa de não transformar a escuridão de hoje numa condenação para todos os dias que virão.
Porque há momentos em que a vida não nos pede coragem para vencer. Pede apenas que paremos de nos tratar como derrotados enquanto ainda estamos tentando sobreviver à batalha.
E, quando nem isso conseguimos fazer sozinhos, talvez a esperança tenha o rosto de um amigo que chega numa tarde de chuva, coloca dois cafés sobre a mesa e nos lembra de uma verdade que a dor, por algum tempo, havia conseguido esconder:
Ainda que você não consiga imaginar uma vida diferente, isso não significa que ela deixou de ser possível.
Significa apenas que, agora, você está cansada demais para enxergá-la.
Noites Brancas de Copacabana
No Rio, algumas noites parecem não terminar.
Não porque sejam bonitas — embora às vezes sejam —, mas porque a cidade continua acordada quando todo o resto do mundo já deveria estar dormindo.
Era quase meia-noite quando eu saí de casa sem saber exatamente para onde ia. Peguei a rua e deixei que o Rio decidisse por mim. Caminhei pela orla de Copacabana, com o barulho distante dos carros, vendedores recolhendo suas coisas e o mar fazendo aquele movimento paciente de quem não tem pressa nenhuma.
Eu gostava dessas horas.
Durante o dia, a cidade pertencia a todo mundo. À noite, pertencia aos solitários.
Foi perto de um banco, olhando para o mar, que encontrei uma moça.
Ela estava sozinha.
Não parecia triste. Apenas parecia estar esperando alguma coisa que talvez nem soubesse nomear.
Parei alguns metros adiante.
— Você está esperando alguém?
Ela olhou para mim.
— Estou.
— Ele vem?
Ela sorriu.
— Não sei.
E foi assim que começou.
Sentamos no mesmo banco, mantendo aquela distância educada que existe entre dois desconhecidos. Conversamos sobre coisas pequenas: o calor, o mar, a cidade, as pessoas que desaparecem sem explicar por quê.
Depois falamos de coisas maiores.
Ela me contou que gostava de andar pela cidade quando não conseguia dormir. Que tinha medo de ficar parada tempo demais porque, quando ficava, começava a pensar.
Eu disse que também fazia isso.
Ela perguntou:
— Você está fugindo de alguma coisa?
Pensei um pouco.
— Talvez de mim mesmo.
Ela riu.
— Então estamos no lugar certo.
Ficamos ali por horas.
O Rio parecia diferente naquela madrugada. As luzes dos prédios refletiam no mar, os ônibus passavam quase vazios e, de vez em quando, alguém surgia caminhando pela calçada como se também tivesse sido esquecido pelo sono.
Às quatro da manhã, ela finalmente me contou quem estava esperando.
Era alguém que amava.
Alguém que havia prometido encontrá-la naquela noite.
Mas ele não apareceu.
Ela dizia isso com calma, embora seus olhos contassem outra história.
Eu quis dizer que ela deveria esquecê-lo.
Quis dizer que ninguém deveria esperar tanto por alguém.
Mas descobri que existem conselhos que só servem para quem não está sofrendo.
Então fiquei em silêncio.
Quando o céu começou a clarear atrás dos prédios, ela se levantou.
— Acho que agora preciso ir.
— Para onde?
— Para casa.
— E ele?
Ela olhou para a avenida vazia.
— Acho que não vem mais.
Foi a primeira vez que ela pareceu realmente triste.
Caminhamos juntos até uma esquina.
Antes de ir embora, ela disse:
— Obrigada por ficar.
Eu respondi:
— Eu também precisava de alguém para ficar.
Ela sorriu.
Depois foi embora.
Eu continuei andando.
O sol começava a nascer sobre o Rio, devagar, revelando a cidade que durante algumas horas havia parecido pertencer somente a nós dois.
E foi então que entendi uma coisa:
há encontros que não foram feitos para durar.
Algumas pessoas atravessam nossa vida como essas noites cariocas — chegam silenciosamente, iluminam tudo por algumas horas e desaparecem quando o dia começa.
Mas isso não significa que tenham sido menos reais.
Talvez certas pessoas existam apenas para nos lembrar que ainda somos capazes de esperar por alguma coisa.
E, naquela manhã, enquanto o primeiro sol tocava o mar de Copacabana, eu percebi que pela primeira vez em muito tempo não estava com medo de voltar para casa sozinho.
Porque algumas noites terminam.
E mesmo assim,
deixam luz suficiente para a gente encontrar o caminho.
A mulher das tatuagens
ela entrou no bar
como quem já conhecia
todos os tipos de despedida.
pele clara,
tatuagens espalhadas pelo corpo
como pequenas revoltas
que ela decidiu não explicar.
bebia devagar
e olhava para o nada
com a tranquilidade de quem
já tinha aprendido
que algumas pessoas
só ficam enquanto é conveniente.
havia flores no braço,
um pássaro perto do ombro,
algumas palavras que eu não consegui ler.
talvez fossem nomes.
talvez fossem erros.
ela sorriu uma vez
e foi o suficiente
para fazer o bar parecer menos miserável.
eu pensei em dizer alguma coisa bonita,
mas coisas bonitas
quase sempre soam ridículas
quando você está diante
de alguém que já sofreu o bastante.
então fiquei quieto.
ela acendeu um cigarro,
olhou pela janela
e disse:
— algumas marcas a gente escolhe.
não perguntei pelas outras.
naquela noite
ela foi embora sozinha,
levando consigo
aquela coleção de desenhos,
silêncios e pequenas cicatrizes
que faziam dela
mais humana que qualquer santo.
e eu fiquei ali,
bebendo o resto do meu copo,
pensando que talvez
a beleza nunca tenha sido
sobre aquilo que uma mulher
carrega na pele,
mas sobre tudo aquilo
que ela conseguiu sobreviver
sem precisar contar.
Clara conheceu Roberto numa terça-feira qualquer, dessas que o Rio inventa para lembrar que a cidade pode ser bonita mesmo quando a vida não está.
Foi num bar pequeno em Botafogo. A televisão estava ligada num jogo qualquer, o ventilador fazia mais barulho que o necessário e alguém discutia sobre política na mesa ao lado. Do lado de fora, os carros passavam pela rua molhada, carregando gente que provavelmente também estava tentando chegar a algum lugar.
Roberto bebia cerveja sozinho.
Clara entrou porque começou a chover.
Ela tinha os cabelos molhados e aquele jeito de quem parecia estar sempre pensando em alguma coisa que não contaria a ninguém.
— Posso sentar aqui?
Roberto olhou para a cadeira.
— Se você não se importar com a minha cara de poucos amigos.
Ela sorriu.
— Eu também não estou com uma cara muito boa.
E foi assim.
Sem música bonita. Sem coincidência extraordinária. Sem o universo conspirando.
Só duas pessoas cansadas dividindo uma mesa porque começou a chover.
Depois vieram outras noites.
Copacabana depois das dez. Lapa numa sexta-feira. Caminhadas sem destino pela orla. Café barato. Cigarros que Roberto prometia parar de fumar. Conversas sobre dinheiro, medo, infância, fracassos e todas aquelas coisas que as pessoas escondem quando ainda estão tentando parecer interessantes.
Clara gostava do mar.
Roberto dizia que não gostava de praia.
Mas sempre acabava sentado ao lado dela olhando para o mesmo mar.
Talvez fosse amor.
Talvez fosse apenas solidão encontrando outra solidão e decidindo ficar por algum tempo.
O problema é que o amor, quando chega, não avisa quanto tempo pretende permanecer.
Um dia Clara disse:
— Você nunca fala sobre o futuro.
Roberto acendeu um cigarro.
— Porque o futuro nunca falou comigo.
Ela ficou em silêncio.
Depois olhou para o calçadão, para as pessoas correndo, para os prédios iluminados e para o Pão de Açúcar aparecendo ao longe entre as luzes da cidade.
— Eu queria uma vida mais simples.
Roberto riu.
— Todo mundo quer uma vida mais simples. Até descobrir que precisa trabalhar para pagar por ela.
Clara não achou graça.
Naquela noite, eles discutiram.
Não foi uma grande discussão. Ninguém quebrou nada. Ninguém saiu gritando.
Foi pior.
Foram aquelas discussões silenciosas em que duas pessoas percebem que estão querendo coisas diferentes e nenhuma delas sabe como dizer isso sem machucar a outra.
Clara queria construir alguma coisa.
Roberto ainda estava tentando descobrir como reconstruir a si mesmo.
E talvez isso fosse incompatível.
Ela foi embora numa manhã de domingo.
Roberto ficou sozinho no apartamento, ouvindo os ônibus passarem lá embaixo.
Encontrou uma presilha de cabelo dela no banheiro.
Ficou olhando para aquilo durante alguns minutos.
Depois colocou sobre a mesa.
Não jogou fora.
Também não guardou.
Algumas coisas ficam exatamente onde foram deixadas, porque a gente não sabe se está pronto para perder ou se ainda espera que voltem.
Meses depois, Roberto viu Clara na rua.
Foi na Glória.
Ela estava acompanhada.
Parecia feliz.
Ou pelo menos parecia ter aprendido a parecer feliz.
Eles se olharam por alguns segundos.
Ela sorriu.
Ele também.
Não conversaram.
Talvez porque certas histórias terminem antes que as pessoas tenham coragem de admitir que terminaram.
Roberto continuou andando.
O Rio estava quente.
Um vendedor gritava alguma coisa na calçada. Um ônibus passava cheio. O céu tinha aquela cor suja de fim de tarde.
Ele pensou em Clara.
Pensou no bar em Botafogo.
Pensou nas noites em Copacabana.
Pensou que talvez tivesse amado aquela mulher da única maneira que sabia: mal, tarde demais e com medo.
Depois acendeu um cigarro.
E continuou andando.
Porque a cidade não para para ninguém.
Nem para os apaixonados.
Nem para os arrependidos.
Nem para aqueles que ainda esperam alguém voltar.
No Rio, até a saudade precisa atravessar a rua com o sinal aberto.
No vaivém apressado do Rio de Janeiro, onde o barulho dos ônibus se mistura ao canto distante do mar, ela caminhava como quem conhecia o peso e a beleza da própria história. Não precisava anunciar sua presença. Havia algo nela que fazia a cidade diminuir o ritmo por um instante — talvez o olhar firme, talvez a serenidade rara de quem aprendeu a atravessar tempestades sem perder a delicadeza.
Era morena, de pele aquecida pelo sol carioca, daqueles tons que parecem guardar o brilho dourado do fim de tarde. Os cabelos caíam livres, volumosos, dançando com o vento que vinha da orla, como se também tivessem personalidade própria. Mas eram os olhos que mais impressionavam. Olhos fortes, atentos, capazes de intimidar a arrogância e acolher a tristeza no mesmo segundo.
Quem a conhecia sabia: ela carregava uma força silenciosa. Dessas que não fazem espetáculo. A força de acordar cedo, enfrentar dias difíceis e ainda encontrar gentileza para oferecer ao porteiro, à vizinha cansada, à criança perdida no ônibus. Tinha opinião firme, voz segura e uma coragem que não cabia em discursos. Nunca precisou endurecer o coração para sobreviver à cidade.
Nas tardes de calor intenso, gostava de observar o movimento das pessoas enquanto tomava café perto da praia. Via o Rio em suas contradições — belo e caótico, duro e apaixonante — e talvez por isso combinasse tanto com ele. Porque também era assim: intensa, luminosa, impossível de ignorar.
E enquanto a cidade seguia correndo sem olhar para trás, ela continuava ali, atravessando ruas, dias e memórias com a mesma elegância de quem entende que ser forte não é deixar de sentir. É continuar sendo gentil, mesmo quando o mundo desaprende como.
Não há redenção sem culpa, nem luz sem as trevas do que deixamos para trás. E o homem que nega a saudade é um cadáver ambulante; o que se rende a ela, um fantasma. Resta-nos, pois, o caminho estreito: amar o passado como se ama um morto — com devoção, mas sepultando-o. Pois só na aceitação do efêmero descobrimos que a eternidade não está no que perdemos, mas no que ainda podemos perder... e, mesmo assim, seguir.
"A Chuva que Trouxe Você"
O Rio de Janeiro acordou coberto por um véu de nuvens cinzentas. A chuva fina, persistente, descia sem pressa, transformando as calçadas em espelhos que refletiam os contornos da cidade. Era um dia que parecia pedir café quente, janelas embaçadas e histórias para contar. Foi assim, entre pingos e esquivas, que Clara e Mateus se encontraram — ou reencontraram — na esquina da Rua do Ouvidor, no Centro.
Clara, de guarda-chuva vermelho desbotado e tênis encharcados, corria para escapar do aguaceiro quando tropeçou em uma poça. A bolsa escorregou de seu ombro, derramando livros e um caderno de esboços no asfalto. Antes que pudesse se lamentar, uma mão firme apareceu em seu campo de visão.
— Deixa eu ajudar — disse o dono da mão, um rapaz de cabelos cacheados e óculos respingados de chuva. Ele usava um casaco azul-claro, já manchado pela umidade, e um sorriso que parecia desafiar o tempo ruim.
Ela o reconheceu na hora. Mateus. Aquele colega de faculdade que sempre sentava no fundo da sala, desenhando nos cantos das folhas durante as aulas. Nunca haviam trocado mais que um "bom dia" tímido.
— Você... faz Arquitetura, né? — perguntou Clara, recolhendo um livro sobre Gaudí que ele entregou.
— E você desenha melhor do que qualquer um do curso — respondeu ele, apontando para o caderno aberto no chão, onde um esboço do Bondinho de Santa Teresa dominava a página.
A chuva insistia, mas eles pararam no meio da calçada, rindo da situação. Mateus sugeriu um café ali perto, no Largo das Artes, e ela aceitou antes mesmo que ele oferecesse dividir o guarda-chuva.
O lugar era pequeno, cheio de mesas de madeira riscada e o cheiro do expresso fresco. Enquanto secavam as mangas, a conversa fluiu como a água escorrendo pelas vidraças. Descobriram que ambos tinham o hábito de caminhar pela cidade nos dias chuvosos, colecionando detalhes invisíveis sob o sol: grafites escondidos em becos, o brilho das pedras portuguesas molhadas, o silêncio incomum da Praça XV.
— Acho que te vi uma vez desenhando no VLT — confessou Clara.
— Era eu! — ele riu, surpreso. — Você passou correndo com um casaco amarelo. Até tentei te chamar, mas o bonde fechou a porta.
O tempo lá fora parecia ter parado, assim como o relógio dentro do café. Quando perceberam, já era tarde, e a chuva diminuíra para um mormaço. Mateus acompanhou Clara até o ponto de ônibus, sob o guarda-chuva agora compartilhado sem cerimônia.
— A gente podia... fazer isso de novo — ele sugeriu, as pontas dos dedos roçando os dela ao devolver o caderno.
— Ficar encharcado e perder o ônibus? — ela brincou, mas seus olhos não disfarçavam a esperança.
— Não. Descobrir o Rio devagar, como se fosse a primeira vez.
Quando o ônibus chegou, Clara subiu os degraus sem saber se o calor no rosto vinha do café ou do aperto de mão prolongado que deixaram para trás. Na janela, viu Mateus acenando, até que a neblina e o trânsito o levaram para fora de sua vista.
Naquela noite, enquanto a cidade secava sob um céu estrelado, Clara abriu o caderno. Na última página, um desenho novo: ela, de guarda-chuva vermelho, sorrindo sob a chuva do Rio. E no canto, um número de telefone e uma frase: "Amanhã promete sol. Mas podemos torcer por outra tempestade."
O Trem das Cinco e Quinze
Na Suíça, os trens são pontuais como o bater de um relógio de cuco. Foi às cinco e quinze da tarde, precisamente, que ela entrou no vagão carregando uma mala de rodinhas desengonçada e um livro sob o braço. Ele já estava lá, sentado próximo à janela, com os olhos perdidos nos Alpes que desfilavam como pinceladas brancas e cinzas. O sol de inverno, baixo e pálido, fazia o lago de Zurique cintilar à distância, como um espelho quebrado.
Ele a viu primeiro tropeçar no degrau do trem, recuperar o equilíbrio com uma risada abafada pelo cachecol vermelho. Ela se sentou diagonalmente a ele, dois assentos de distância. Entre eles, apenas o silêncio alpino e o leve rangido do trem nos trilhos. Até que, em algum momento após St. Gallen, ele perguntou, em um alemão hesitante, se ela sabia a que horas chegariam a Lucerna. Ela respondeu em inglês, com sotaque francês: "Você fala como quem decorou as frases de um manual ontem à noite". Ele riu, confessando que era brasileiro, um arquiteto em fuga de um projeto mal resolvido no Rio. Ela, por sua vez, era belga, pianista, voltando de um concerto em Viena onde havia tocado Chopin para uma plateia de casacos de pele e suspiros contidos.
No vagão-restaurante, dividiram uma garrafa de vinho branco suíço tão seco quanto o humor dela. Ele falou de linhas retas e concreto; ela, de escalas menores e metrônomo. Quando o trem atravessou um túnel, a escuridão os uniu mais do que a luz: naquele breu repentino, suas mãos se encontraram sobre a mesa de mármore, e nenhum dos dois soube dizer quem havia se movido primeiro.
Em Lucerna, desceram juntos, embora ela devesse seguir para Bruxelas e ele para Milão. Na plataforma número 3, sob o relógio que marcava sete e quarenta e três, ele lhe deu um cartão de visita rabiscado com o número de um hotel em Veneza. Ela lhe entregou uma partitura improvisada no verso de um mapa de trem, com notas que subiam e desciam como os trilhos que os haviam levado até ali. Prometeram escrever, ligar, encontrar-se na primavera. O beijo foi breve — um sopro de vapor no ar gelado —, mas suficiente para que, anos depois, ambos ainda se perguntassem se o gosto daquele momento havia sido de vinho, neve derretida ou simplesmente de *quase*.
Ele seguiu para o sul, onde o concreto de seus projetos ganharia raízes. Ela voltou ao norte, onde as teclas do piano a esperavam, frias e pacientes. Escreveram-se por um tempo, cartas que levavam semanas para cruzar a Europa, até que uma delas se perdeu no correio de Berna, e a outra, por orgulho ou cansaço, nunca foi reenviada.
Anos mais tarde, numa estação em Genebra, ele reconheceria uma melodia ao piano distante — *Nocturne op. 9 nº 2* — tocada por mãos que já não usavam anel. Sentado num banco, deixaria o trem das cinco e quinze partir sem ele, paralisado pela doce crueldade de um destino que os reunia apenas em segundas estrelas, estações erradas, e em todas as versões não vividas daquela tarde nos Alpes, onde o amor foi tão preciso quanto um horário de trem, e tão fugaz quanto o vapor de seu hálito misturando-se ao frio.
"Samba de um Coração Silencioso"
Naquela manhã de fevereiro, o Rio acordou coberto de purpurina. O vento carregava restos de serpentinas e risos embriagados, enquanto Clara caminhava pela orla de Ipanema, os pés ainda marcados pelo salto que abandonara na noite anterior. Tinha vindo à cidade para escrever sobre o Carnaval, mas o Carnaval escrevera nela uma história que não saberia terminar.
Foi no Arpoador, enquanto o sol nascia tingindo o mar de mel, que ela o viu pela primeira vez. Rafael estava sentado na pedra, dedilhando um cavaquinho como quem conversa com o vento. A música era doce e triste, um chorinho que se misturava ao barulho das ondas. Ele usava uma camisa aberta, a pele dourada como se fosse feita da própria luz do Rio. Quando sorriu, Clara sentiu algo desabar dentro de si, como aqueles prédios antigos de Santa Teresa que se deixam engolir pelo mato.
— Você é estrangeira? — perguntou ele, em um português arrastado que a fez rir.
— Metade. Minha mãe é carioca — respondeu, mentindo sobre o frio que sentira no peito ao ouvir sua voz.
Nos dias seguintes, o Carnaval os engoliu. Dançaram na Lapa debaixo de arcos iluminados, onde o suor e o cheiro de cerveja se misturavam ao aroma de pastéis fritos. Rafael ensinou-a a sambar, as mãos dele firmes em sua cintura, os olhos brilhando mais que as lantejoulas de seu cocar. Clara vestiu-se de baiana, rodopiou até perder o fôlego, e em cada esquina ele aparecia com um sorriso e um copo de caipirinha gelada.
— Você é minha estrela — dizia ele, enquanto subiam os degraus de Santa Teresa, vermelhos como um coração aberto.
Ela não perguntou quantas outras "estrelas" haviam brilhado para ele naquela semana.
As noites eram quentes, mas havia algo frio nas pausas entre um samba e outro. Rafael falava de Salvador, de um amor que deixara lá, com a mesma voz suave com que falava do mar. Clara ouvia, fingindo que as palavras não doíam. Escrevia em seu caderno: *"O Rio é uma cidade que ri até de dor. Talvez por isso eu me sinta em casa."*
Na terça-feira gorda, enquanto o Cristo Redentor se cobria de névoa, ele a levou a uma rua deserta de Santa Teresa. As máscaras de Carnaval penduradas nas janelas pareciam rir deles.
— Clara... — começou ele, segurando suas mãos como se fossem de porcelana.
Ela interrompeu-o com um beijo, doce e apressado, como quem tampa um vulcão com um dedo.
— Não — ele sussurrou, afastando-se. — Minha alma ainda dança com outra música.
O bloco "Cordão da Mentira" passou naquele momento, com seus tambores abafando o silêncio. Clara riu, porque no Rio até a tristeza tem que ser disfarçada de folia.
Na manhã seguinte, ele partiu sem avisar. Deixou apenas um bilhete no café da pousada: *"Até mais, estrelinha."* Ela rasgou-o, misturando os pedaços às pétalas murchas que cobriam a rua.
Na despedida, enquanto seu avião sobrevoava o Pão de Açúcar, Clara abriu o caderno. Escreveu: *"O Carnaval é um amor não correspondido. A cidade te abraça, te beija, te faz sentir única... e no dia seguinte, te esquece. Mas talvez seja assim mesmo: o Rio não é de ninguém. E alguns amores são como o samba-enredo — brilham por uma noite, e depois viram cinza."*
O avião virou, e ela jurou ver, lá embaixo, um vulto de camisa aberta tocando cavaquinho na praia. Mas era só a imaginação, ou o jeito que o Rio tem de nunca deixar ninguém partir inteiro.
Estou plenamente convencido de que a vida é um jogo de azar. Você pode ganhar 100 mil apostando tudo, ou perder até sua casa. Tudo numa mesma noite.
O medo da solidão faz com que as pessoas bebam todos os tipos de venenos na busca do antídoto para a condição de se "estar só".
O homem, no geral, tem uma relação de ódio tão grande por si, que ele se coloca em situações terríveis de forma muito consciente.
Todas as manhãs eu me levanto com uma dose extra de esperança.
Eu entendo os que não conseguem, porque lá fora é tudo muito turvo, sombrio, e em maior intensidade, essa sombra tem aumentado com o tempo.
Acredito que como unidade de pessoa sou insignificante como uma formiga que nesse exato momento caminha por cima do muro, no outro lado do quintal e sem ser notada. Acho que o otimismo, a alegria, vem dos momentos em que contemplo as regras do universo, os pequenos mecanismos de uma roda, as pífias engrenagens de um todo que no final, tornam-se essenciais.
E sendo eu pequeno também, sinto que todos os dias recebo a oportunidade de ser algo mais, uma peça que vá acrescentar algo ao tabuleiro.
As vezes, gostaria de ter uma mente mais supersticiosa, que me deixasse voltado a pensamentos improváveis como se fossem possíveis. Infelizmente uma mentalidade muito lógica inevitavelmente é quase mecânica. A razão é naturalmente mais fria.
Confesso que não defini com clareza o papel da memória.
Muitas vezes uma aliada fiel, e em outras uma ingrata companhia.
Lembrei-me do fogão aceso um pouco antes de sair, imagine o tamanho do estrago se não lembrasse. Dentro de um ônibus lotado, reconheci um rosto familiar, uma amizade da infância que me fez recordar ótimos momentos, e acredito que seria muito fácil não reconhece-lo na correria da vida. Chegando no meu destino, lembrei que precisava passar no mercado, e que antes da meia noite, tinha que felicitar meu tio pelo aniversário.
Uma grande aliada minha, a tal da memória.
Até colocar a cabeça no travesseiro, e ela me recordar alguém do passado, como vinha fazendo todas as noites antes de dormir.
Então me perguntava se a saudosa memória era mesmo uma amiga.
Essa manhã eu faltei no café.
Como quem falta a escola, trabalho ou um compromisso do dia.
Falta é o que mais tenho feito, aos outros um pouco menos que a mim mesmo.
As vezes me sinto fino, apagado, desaparecendo aos poucos como a fumaça de um cigarro.
Queria dizer como estou bem, como o sol na janela constantemente me alegra, como as coisas dolorosas não me afetam.
Mas sigo infelizmente muito fiel a verdade, que não me permite compactuar com tantos absurdos.
Escrevo porque quero muito, na quantidade. Escrevo porque quero tanto, na necessidade.
Para que minha existência nunca falte.
É estranho, e totalmente possível,
Mas alguém pode te amar tanto que precisa partir.
Eu sei, parece confuso.
Na nossa mente condicionada a pensamentos filosóficos.
Amor não separa, não expulsa, não condena ao banimento.
Desde pequeno você houve sobre o amor de uma mãe, e projeta em todos os amores o mesmo ideal.
Mas é um equívoco. Você vai amar tanto uma pessoa, que talvez, só a morte os separe, e talvez nem ela seja capaz.
Mas em outros casos alguém pode te amar tanto que chega a se perder dentro de si, que perca o amor primordial, que é o próprio.
Nesse momento quem te ama partirá, não por deixar de sentir, mas por sentir tanto por outro que fez falta para si.
Se amas verdadeiramente um pássaro, por mais que seu canto traga paz, sabes que é no céu, distante de ti, que sua verdadeira canção será cantada.
Ame à ponto de dizer adeus.
Tenho sido constantemente tragado.
Me sinto um trago,
Um cigarro, desses fortes
Que contaminam o ar na fumaça
Que poluem por milênios com bitucas.
Um trago de bebida amarga
De raízes, de carvalho defumado
Um rum envelhecido e forte
Um whisky puro em dia muito quente.
Um trago de vida, e no vento
Observo atentamente as areias que escorrem.
Os grãos caem talvez mais rápidos
Sim, mais do que de costume.
Entre meus dedos,
Intragável, indiferente, irreversível.
Me sinto o fumo tragado
Um trago de bebida.
Quem me traga não é gente
Não o vejo, porém posso senti-lo
Nos ossos, na pele, no reflexo, no desespero.
Tragado pelo tempo.
