Coleção pessoal de demetriosena

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CHEIO DE GRAÇA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Desliguei o motor; me deixo ir;
deixo a mão no volante pros desvios;
desafios normais pra quem já viu
que o destino está quase desenhado...
Relaxando sentidos e desvelos,
dou aos sonhos um doce deixa estar;
não há mais pesadelos que me assustem,
porque sei acordar do que já sei...
Vejo agora que o tempo é só passagem;
quem passou da metade do caminho
tem a média que a vida prescreveu...
Muito eu se gastou nesse orçamento
do que o mundo não tem pra cambiar,
quando vejo que a graça me bastou...

Demétrio Sena, Magé - RJ.

MOMENTO AGRICULTURAL

Demétrio Sena, Magé - RJ.

É preciso capacitar intelectualmente o agricultor. Mas aquele agricultor que lida mesmo, e direto, com a terra. Desta forma, serão acrescidos à sua prática os conhecimentos técnicos e aquela visão aguçada que só o acúmulo de conhecimentos gerais proporciona. O homem do campo sonha, mesmo quando não sabe disso, com a dádiva de alimentar o mundo e ser também, um cidadão do mundo.
Não existe progresso sem comida, e quem a garante, precisa mesmo se agriculturar. Ter acesso livre a livros, escolas e horizontes, para ter consciência de sua plena importância como ser humano. Pessoa capaz e merecedora de entrar e sair, não importa em que ambiente ou lugar deste planeta essencialmente mantido por suas mãos provedoras, mas injustamente não provadoras do seu valor.
Tanto quanto agricultor, o homem do campo tem direito de ser agriculto.

Demétrio Sena, Magé - RJ.

CULTURA NÃO ATRAPALHA EDUCAÇÃO


Demétrio Sena, Magé – RJ.


Realizar um evento cultural sem a tutela dos projetos oficiais, os esquemas e planejamentos especificamente pedagógicos, numa unidade escolar, é uma verdadeira batalha, quando quem o faz não tem não tem lá seus prestígios. Arte e literatura em forma de exposição e espetáculo sempre foram muito temidas na educação, desde tempos imemoriais. Ainda hoje são vistas como reuniões de subversivos; de pessoas que podem "pôr caraminholas" na cabeça do jovem ou "coisa de gente que vive nas nuvens" e, por isso, nada tem a acrescentar de bom para moças e moços em formação. Só desvirtuá-los.
Naquelas escolas onde já se permite – apenas permite – realizar o evento cultural, sem a mínima oferta de suporte, apoio, e sem nenhuma representação por meio de pessoas da direção, do corpo docente, do quadro funcional como um todo, eventos artísticos e literários são coisas de "cantinhos". Os alunos locais devem se manter distantes, porque do contrário, "perdem conteúdo". Sempre perdem conteúdo, não importa que sejam eventos bem pontuais ou esporádicos, eivados de muito conteúdo transversal que alguns professores possam aplicar em suas aulas ou até usar esses momentos como aulas diferentes e desafiadoras para os seus educandos.
Cultura atrapalha a educação. Essa é a ideia pedagógica – e patológica – que se tem do que foge aos itens específicos e obrigatórios do ofício de ensinar, quando só é um ofício. Ensinar sem educar, ao contrário do que é propagado. Arte e literatura na escola, e ainda estendida aos alunos, só se tiverem natureza especificamente disciplinar. Se estiverem ligadas a datas comemorativas formalmente atadas ao PPP. Ou se, em último caso, forem determinadas isoladamente pelas secretarias de educação, as coordenadorias, os políticos locais ou quaisquer outras figuras poderosas. Assim não é subversão; não é empecilho nem vagabundagem, entre outras desqualificações encontradas direta ou indiretamente.
Também respeitados, e bem queridos pela escola, que até paga muito caro por eles, caso precise, são os famosos. Aí sim; os eventos nem têm que ser culturais. Basta serem divertidos, dançantes ou, inversamente, bem solenes. Neste caso, realizados por figurões repletos de títulos e com diplomas internacionais. Figurões enviados por órgãos superiores, e que tratam a todos com refinada arrogância, porque disso todos gostam, respeitam e recebem com tapetes vermelhos.
Não e não. Cultura não atrapalha a educação. Agrega. Especialmente quando se trata de cultura local. Quem faz cultura e a dissemina em sua cidade não deve ser tratado como uma figurinha que estende um chapéu e recebe um favor; um cantinho; uma aquiescência distante seguida da simpatia zombeteira de um, a grosseria disfarçada de outro e a mensagem silenciosa de "lamba os dedos; ai está o espaço e nos deixe em paz, porque temos mais o que fazer; estamos trabalhando".
Faz tempo que não condeno a distância ou a falta de interesse e atenção; a futilidade cultural e até a agressividade de grande parte dos alunos em ensinos fundamental e médio para quem oferece cultura, quando comparo esses comportamentos com os de quem os escolariza e, especialmente, os de quem dirige quem os escolariza. Os alunos realmente não têm culpa. Estão sendo escolarizados assim, exatamente como querem os políticos que mandam na educação, os cordeiros que obedecem porque "têm juízo" e não querem perder seus status, e dos que obedecem aos que obedecem, nem se fala.
A intenção clara ou obscura, consciente ou inconsciente dos educadores – e administradores – contra cultura é apenas uma: formar cidadãos que mais tarde "não perturbem" a paz dos governantes. Dos parlamentares que precisam se corromper e ludibriar o povo sem serem perturbados com ações de quem teve a mente aberta pela arte, a literatura e a cidadania desatreladas da obrigatoriedade fria, específica, impessoal e pedagógica reinante na escola.
Sou arte-educador. Um professor que trabalha com arte; literatura; cidadania. Designado pela Secretaria Estadual de Educação lá no governo Brizola, para disseminar cultura na escola em que sou lotado e tentar fazê-lo em outras unidades da rede pública. Isso não é nada fácil, porque nós, os arte-educadores, já não somos importantes na educação estadual; não utilizamos patente; não somos autorizados – nem queremos – a estender crachás nas demais unidades e dizer que lá estamos em nome dos mandatários da educação formal, que também nem se lembram de quem somos.
Por isto peço, e com muita humildade. Quando consigo, dou-me por satisfeito com as expressões simpaticamente contrariadas e sem graça, os espaços cedidos a contragosto, a ausência de representantes locais e a interrupção abrupta de algum funcionário que surge “brabo”, para dar bronca nos alunos formidavelmente ousados que foram participar ou assistir por conta própria, e por isso estão “perdendo conteúdo”.
A contracultura dos “donos” e diretores da educação, incutida gradativamente nos educadores (nem todos, pois muitos resistem), está vencendo os fazedores culturais não influentes; não poderosos; não famosos; não oficiais; não impostos. Tudo isso me faz reservar para daqui um tempo, a frase final de um célebre desabafo do saudoso educador, antropólogo, escritor e (até) político Darcy Ribeiro: “Eu detestaria estar na pele de quem me venceu”.

Demétrio Sena, Magé - RJ.
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MEU QUINTAL

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Uma rede me aguarda no quintal;
numa sombra que a mão até apalpa;
rede não social, por ser só minha,
só aceita o calor de minha pele...
Os calangos procuram meus sinais,
a mangueira não sabe o que dizer,
nem a cobra cipó entre a folhagem
faz menção de saber aonde ando...
Vim ao bairro buscar o que não planto
no meu canto, na terra de arvoredo;
volto logo a compor essa paisagem...
Minha fauna se une à minha flora
nesta hora de ausência inesperada;
meu quintal me requer, pois mora em mim...

Demétrio Sena, Magé - RJ.

GENTE ILESA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quero gente com tempo pra perder
entre o tempo corrido, assoberbado,
numa leve conversa; só de gente;
sem os ranços do quadro funcional...
Tenho grande ambição de gente livre
pra sair dos projetos, dos ofícios,
dos comícios, das elucubrações,
e lembrar que pessoas são pessoas...
Busco gente ocupada com a lida,
mas que tenha uma vida pra sorver,
para ver que amizades não têm preço...
Já me canso do mundo impessoal;
do real que desmente o ser humano;
quero gente com tempo de ser gente...

Demétrio Sena, Magé - RJ.

AMOR ENGANOSO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Houve quem me fizesse descrer nesse amor
que se jura e confessa com fogo nos olhos,
vem na flor dos sentidos e grita no corpo
feito alma de fora; coração exposto...
Alguém veio e desfez o paraíso em mim,
trouxe o fruto enganoso e me fez devorar,
pra no fim da ilusão me diluir no caos
desta paz fria e triste que secou meu chão...
Tive quem atestasse que tudo é mentira,
mesmo quando é verdade que o lábio supõe
aos ouvidos carentes da certeza incerta...
Foste o sonho que veio pra me despertar
e saber que o amor só foi pena cumprida;
minha vida está livre desse desengano...

Demétrio Sena, Magé - RJ.

ABISMO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Não comemore tão prontamente, a sua separação do cônjuge mau caráter. Você há de perceber, no passar do tempo, a diferença - e o abismo - entre se separar e se livrar.

Demétrio Sena, Magé - RJ.

A MULHER

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Todo mundo procura o que há muito encontrei;
a mulher cujos olhos vão além das vistas;
que não sei definir, apesar de poeta,
pois excede o poder das palavras buscadas...
Encontrei a mulher que me acolhe aos pedaços,
recompõe o mosaico e depois me relê,
reanima os meus passos pra recaminhar
e me faz merecer o que há tempos me deu...
É alguém que me aceita, mas rejeita em mim
o que só me apequena e se põe contra nós,
cria em nós tantos nós e nos ata pra vida...
A mulher que algum dia perdi pra mim mesmo,
mas me achou novamente quando fui ao fundo
e fiquei tão sem mundo, num mundo sem ela...

Demétrio Sena, Magé - RJ.

EXTRA-QUADRO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Há um ser de quem tudo se fez e sustenta;
uma base, a raiz, a provisão do espaço,
mas não faço menção de saber quem ou quê,
nem me deixo supor que alguém saiba por mim...
Já venci a crendice no Deus previsível
que se rende ao discurso do nosso elogio,
tem um cio implacável de gestos contritos
e de servos entregues à sua vontade...
Seja Deus, outro nome, acredito num ser
sem nenhuma legenda nos livros impostos,
nem a postos pra todos que lhe rendem cultos...
É alguém, talvez algo, muito longe ou perto;
gritará no deserto e na treva total,
qualquer um que pretenda rotular um Deus...

Demétrio Sena, Magé - RJ.

PASTO À ALMA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Tenho sono de sonhos que o sono dispensa;
toda minha esperança está mesmo em ter fé
num até, num depois, um presente que venha
pra me dar de presente o futuro esperado...
Quero ter um querer que não caia esvaído,
que se rasgue, se frustre, mas nunca se renda,
não me venda pros medos de não dar em nada,
pois viver e seguir terão sido meu tudo...
Sonho ter com que sonhe sem ter que acertar,
sem nem ter que acordar para ver no que deu,
bastará ter sentido a sensação do sonho...
De sonhar acordado é que durmo sereno;
merecer minhas noites dá feno aos meus dias,
porque sei que outro dia refaz o percurso...

Demétrio Sena, Magé - RJ.

APOCALIXO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Entulhos por todo lado;
só caos; poluição...
Humanos catam seus restos,
o mundo foi devorado
pelo lixo papão.

Demétrio Sena, Magé - RJ.

ARQUIVO MORTO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Um amor que não sei com quem usar,
porque já me cansou essa procura,
feito cura que agora me adoece
de sem dor e sem dar o que acumulo...
Quero alguém que meus olhos possam ver
dentro e fora, por todas as vertentes;
desde os dentes a todos os sentidos,
para ter uma história bem escrita...
Tenho amor nos meus poros, nos meus eixos,
na minh´alma e na caixa do meu peito,
neste jeito que até me desabona...
Mas não tenho a quem ter e ter certeza
de que valem as penas de uma troca;
cada riso e tristeza de uma vida...

Demétrio Sena, Magé - RJ.

POVO BRASILEIRO

Demétrio Sena, Magé – RJ.

A gente pega doença em hospital;
a gente vira bandido na prisão;
a gente fica maluca em sanatório;
a gente come veneno por dieta...
É atleta sem força nem saúde,
é artista sem arte que se veja,
faz velório de morte pré-datada
na capela mortuária da vida...
Uma gente marcada feito boi,
pra pastar nos desertos do direito
que não vale pra gente como a gente...
A gente sempre foi vista como bicho
pelo lixo que a gente põe nos tronos
pra sugar o que a gente já não tem...

Demétrio Sena, Magé - RJ.

EM DEFESA DO MEU EU

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Pelo visto, você acabou descobrindo que eu sou um ser humano. Decepção; né? Não cabia em seu conceito, que um poeta romântico e socialmente sensível tivesse lá seus arroubos de franqueza tosca. De crueza e até de alguma injustiça. Ficou estampado em sua concepção distorcida, que um brinquedo padronizado como eu jamais lhe contrariaria. Que a minha ingenuidade como carrossel afetivo a manteria no lombo enquanto você quisesse... e sempre do jeito que você bem quisesse.
Precisei derrubá-la de seu andor. Não por maldade, mas por defesa. Em nome de minha pessoalidade; a manutenção de meu eu mais fundo. Alimentar seus caprichos, mesmo involuntários, de quem quer e não quer, expulsa e chama e no fim das contas não sabe a que vem ou não vem, fere frontalmente minha natureza livre. Resolvida. Dona do querer que tem. Sempre de bem com os próprios erros, acertos, defeitos e até virtudes que autenticam a própria existência.
No fundo, bem lá no fundo, não foi um problema para mim você não saber o que queria. Isso é bem compreensível. Eu mesmo, tantas vezes me flagro sem a menor ideia do que eu quero. O que me fez cair do poeta e ser abruptamente humano, foi a renitência com que você forjou querer como eu, me levando ao aparato ridículo de cena e cenário que serão sempre ridículos nas esperas frustradas não exatamente de quem não sabe o que quer... mas de quem não sabe o que não quer.

Demétrio Sena, Magé - RJ.
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CIDADÃO

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Entenda ou não,
não sou esquerda;
nem direita;
nem volver...
Sou cidadão
que não aceita
receita e seita
de viver...

Demétrio Sena, Magé - RJ.

CONSCIÊNCIA EM GUERRA

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Minha paz não tem paz com gemidos em volta;
com as guerras e crises; as balas cruzadas;
a revolta estampada nos olhos do mundo
que perdeu a razão e se deixou ruir...
Meu sossego é cruel, sem sentido e verdade,
se me perco na caixa de minha ilusão,
ponho grades em torno do reino abstrato
e da frágil versão do meu sonho ideal...
Só terei consciência se não for tranquila,
pois também me aniquila o que aniquila os outros;
se não for aqui mesmo, será mais à frente...
Criminosa é a mente que repousa e dorme
sobre todos os gritos de agonia e morte,
sob a nuvem de sorte que banha o seu ego...

Demétrio Sena, Magé - RJ.

CONTRADITORIAMENTE

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Políticos nunca me decepcionam. Podem até me encantar. Muito raramente, mas podem. Decepcionar, não. É que se trata de uma classe tão mentirosa, trambiqueira e daninha, que me ocorre o seguinte fenômeno: quando um político entre um milhão cumpre a palavra ou o compromisso, fico encantado com a surpresa. Quando não cumpre, não tem problema; eu já esperava por isso.

Demétrio Sena, Magé - RJ.

DE BOA FÉ

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Prefiro me fazer de bobo, a ter uma consciência maliciosamente permissiva. Dessas que me levariam a fazer o próximo de bobo.
Tenho muitos defeitos. Muitos, mesmo. Tantos, que até sufocam e anulam, não raras vezes, as poucas qualidades que me permito saber que tenho. Que ainda tenho.
Das minhas bem poucas qualidades, creio poder afirmar que sou um homem de boa fé. Ou se você preferir: de boba fé.

Demétrio Sena, Magé - RJ.

QUEM MANDOU?

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quem mandou ter crescido nos becos da Maré e não ter ficado por lá mesmo, quietinha em seu canto, vendo a vida passar? Assistindo aos desmandos, às covardias e todos os demais efeitos das desigualdades sociais? Quem mandou ser ativa, inteligente, querer estudar, conhecer o mundo que a cerca e se acercar dos oprimidos, os negros, pobres, renegados por questões de gênero, opção e condição social?
Quem mandou não se conformar com o mundo como é, e se meter na política, velha “praia” dos homens, que a querem de volta só para eles? Quem mandou... quem mandou ser corajosa, ter fome de justiça, visão apurada, crítica e profunda? Enfrentar a polícia que mata em vez de proteger vidas? Por que diabos encasquetou de gritar contra a corrupção, a violência como um todo, e fazer diferente num campo minado pela ganância e a falta de respeito a quem ainda deposita nesse campo suas esperanças?
Você foi avisada e não obedeceu. Continuou a ser quem era. A sonhar com um mundo melhor a partir de sua comunidade, suas crianças, mulheres e homens de todos os sexos, gêneros, etnias e religiões. Prosseguiu com a teimosia de querer paz, respeito, cidadania, direitos iguais, uma sociedade para todos. Foi em frente na sua obstinação em não aceitar que a desgraça humana é algo normal para quem nasce nos morros, nas baixadas, nos lugares distantes da mídia e das atenções de quem busca voto e lucro.
Diga; mulher; quem mandou? Quem mandou ser negra e ousada? Favelada e doutora? Tomar o próprio destino em suas mãos e querer ajudar os mais carentes, injustiçados e desassistidos a transformar seus destinos para melhor? Isso não está nos scripts da farsa humana, montada pelos que sempre foram os donos de tudo; senhores do engenho social que jamais deixou o contexto da escravidão pseudo-abolida.
Ninguém lhe mandou subverter a ordem geral, que não é senão a desordem. Querer o progresso humano, que não combina com o progresso desenfreado, irresponsável, pelo qual vale tudo. Enfrentar a polícia deteriorada, em nome de suas vítimas, e conhecer os olhos maus de quem quer o mundo só para si. Quem mandou? Em nome de tudo quanto é sagrado, quem mandou ser gente? Ser do bem? Semear esperanças, engrossar sonhos, não abrir mão de sua cidadania e da cidadania do seu povo?
Os que tanto avisaram, “amigos” eram. E deixaram de ser, à medida que você foi se tornando mais incômoda. E a mataram, para que você deixasse de se preocupar com o outro. Com esse próximo, que eles querem cada vez mais distante da realidade que os cobre do luxo que não lhes pertence. Do que seria de todos.
Quem mandou; invejável mulher? Quem mandou não mandar, ao lado deles? Quem lhe mandou pedir licença, para continuar a fazer parte do cotidiano de sua gente? Um cotidiano, que se você não fosse a grande mulher que foi, teria deixado de ser seu, e você estaria viva não por mérito, mas por ser indignamente viva como quem a matou. E agora, mulher? O que faremos desta lacuna? Quem mandou?
Pela vereadora assassinada Marielle Franco e o motorista Anderson Pedro Gomes

Demétrio Sena, Magé - RJ.
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STEPHEN HAWKING: CELEBRIDADE REAL


Demétrio Sena, Magé - RJ.


A morte do físico Stephen Hawking, considerado por quase todos da comunidade científica mundial, o maior cientista de nosso tempo... que do interior de um corpo inerte falava por meio de computador, e assim mesmo ajudou tanto a humanidade com suas teorias, máximas e descobertas, privou o mundo moderno de uma celebridade plena. Real. Totalmente justificada pelo sentido original do vocábulo.
Apesar do contexto fútil, que gerou a ressignificação popular já registrada nos dicionários, originalmente celebridade aponta para o que é celebre: distinto; ilustre; louvável; grandioso. A pergunta que me faço é se não soa injusto chamarmos de celebridades pessoas tão simplesmente famosas. Que além de serem famosas, não têm atributos nem histórias que possam torná-las compreensivelmente célebres; distintas; ilustres; louváveis; grandiosas. Não contribuem de nenhuma forma para tornar o mundo, pelo menos o seu país, quem sabe a sua comunidade um pouco melhor. Não influenciam de formas grandiosas e consistentes os hábitos de um povo. Muito menos ajudam a gerar transformações, mudanças relevantes de conceitos, e principalmente: não duram. Não ficam para a eternidade. Passam sem deixar marcas. Suas trajetórias logo mostrarão que tanto faz elas terem ou não vivido, porque o mundo, a nação, o estado, sequer a comunidade sentirão falta. Suas vidas não disseram a que vieram.
Enquanto tratamos como celebridades pessoas que participam de um reality show; que surgiram agora numa novela; estão no auge da moda repentina e visivelmente passageira por causa de uma musica vazia; uma polemica sem qualquer peso nem importância, os gênios da humanidade ou do nosso entorno vão ficando esquecidos: cientistas, inventores, filósofos, artistas plásticos, pensadores, grandes professores, ícones da solidariedade humana, escritores, ativistas, cantores, compositores... pessoas simples de qualquer meio, que deixaram ou que ora constroem trajetórias previamente memoráveis por seus contextos, profundidades e sentidos amplos. Autores de obras ou atos perfeitamente capazes de causar impactos positivos nos que tiveram ou têm a sorte de conhecê-los, pessoalmente ou não. Pessoas que foram ou não reconhecidas, e se não foram, azar do mundo.
Perdemos em Stephen Hawking, uma das últimas celebridades do planeta. Estão morrendo as celebridades. E o mundo, e os nossos países, e os nossos entornos não estão sendo beneficiados com reposições a contento. A sociedade atual está muito fútil; muito massificada; imediatista; consumista... muito ávida pelos resultados rápidos; o lucro para ontem.

Demétrio Sena, Magé - RJ.
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