Máscaras

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As Sete Aberrações

VII - A Mãe

Estou sentado na cama de um hospital. Minha cabeça está enfaixada e em meu pulso direito, há uma agulha, anexa à mangueira que traz um soro às minhas veias. À minha esquerda, minha mãe está sentada, sem falar uma palavra sequer, apenas me encara. Presa à parede em minha frente, uma televisão exibe a programação tediosa de domingo. Ao mesmo tempo em que encaro a tela, não assisto, meus olhos estão completamente sem foco, sem brilho.

O sufocante branco fechado ao meu redor parece manter-me preso à ilusão que a aberração da noite passada causara.

Em uma mudança de imagens da tv, pude ver meu reflexo na tela. Sorri ao estranhar minha própria aparência e, enquanto as vozes de uma plateia de talk show gargalhavam histericamente, decidi quebrar o silêncio daquele quarto quase vazio, subitamente:

"Mãe" - Eu chamei. Ela me encarou surpresa - "Eu estou parecendo uma aberração, não estou?" Comecei a rir, enquanto algumas lágrimas percorriam o rosto mais magro e pálido do que outrora.

"Como você pode fazer piadas desta situação? Será que você não entende que é culpa sua que tenha chegado a esse ponto? Nós queríamos cuidar de você! Nós queríamos fazer isso tudo passar!"

"Quem não entende é você" - Respondi, calmamente - "Não faz ideia da dor que passei, todas as sete vezes, e nada adiantou"

"E por isso você vai desistir? Como você pode fazer isso conosco?" Ela começou a chorar, pendendo seu rosto para frente e cobrindo-o com as palmas das mãos.

Envolvi em meus braços a figura daquela mãe que, outrora tão firme, inabalável, agora mostrava sua sensibilidade e tristeza.

"Eu também te amo" - Respondo.

A noite chega e com ela, meu pai. Ele entra no quarto e abraça minha mãe, que logo após, aperta minhas duas mãos, beija minha testa e dá as costas. O homem de barbas curtas e acinzentadas senta-se ao meu lado um pouco mais tímido que minha mãe e segura minha mão esquerda.

"Como está essa força, garoto?" Pergunta. Obviamente sabe minhas condições, mas seu perfil, calmo e descontraído sempre fala mais alto.

"Estão igual ao meu cabelo" - Brinquei.

"Mas..." - Ele ergue um pouco as faixas em minha cabeça. Seus olhos castanhos se estreitam para encarar o outro lado das bandagens - "É, acho que não precisamos fingir que está tudo bem" - Termina, demonstrando frustração ao falhar em sua piada.

Dou risada enquanto o encaro e ele me acompanha. Não demorou muito, aqueles risos foram banhados em nossas lágrimas.

"Eu tenho que confessar... Estou com medo" - Pela primeira vez, ouvi aquelas palavras. Pela primeira vez, soube o que meu pai estava sentindo e, pela primeira vez, vi meu grande protetor, amedrontado.

"Eu também estou, pai" - Apertei a mão dele um pouco mais firme, enquanto seu sorriso sumia completamente, dando lugar aos soluços de choro - "Imagino que seja difícil, que doa me ver assim, mas, você precisa ser forte. Quando isso acabar, você será o único com quem a mãe poderá contar. Por favor, prometa que será forte, por ela"

Ele acenou afirmativamente com a cabeça e me abraçou, como nunca havia abraçado antes.

Minha família perdeu muito pela esperança de me curar. Tudo em vão. Agora, estava sendo difícil de aceitar a derrota, apesar de toda a gratidão que sentia por eles e toda a vontade de continuar lutando, o fim era iminente.

Pouco depois, minha vista começou a se turvar. Senti frio. Assisti o vulto embaralhado de meu pai se levantar, perguntando às enfermeiras que entraram o que estava acontecendo, de forma desesperada, quando tudo finalmente tornou-se escuridão.

Tudo o que pude ouvir, ou sequer sentir, foram três toques contínuos de sinos, como os das catedrais. Logo em seguida, vi algo em minha frente, o que deduzi ser a última das aberrações.

Seu corpo era simplesmente uma capa negra e flutuante, ressaltando dois olhos brancos e profundos dentro da touca. Nas extremidades das mangas daquela capa, mãos negras e esqueléticas se faziam visíveis. Em sua mão esquerda, trazia uma grande foice.

"Olá" - Tentei dialogar. Esperei algum tempo, em vão, não recebi qualquer resposta - "Acho que sei o motivo de estar aqui"

"Ela anuncia minha vinda com as fragrâncias de crisântemo, para que um dia possa ver as cores do jardim. Não permitiria que partiste só, então abri caminho até ti, mas, eu... Sinto muito..." - Respondeu finalmente a criatura

"O que? Sério? Você não é a Morte? É seu trabalho!"

"Sabes quem sou?" - Ele pareceu confuso. Apesar de sua aparência nada convidativa, sua voz e sua forma de falar eram suaves, quase doces. - "Não me agrada que as coisas aconteçam dessa forma. Queria ser capaz de evitar-me a vir àqueles como você, que mesmo tão jovens, tornam-se sábios e aclamáveis. Bem-aventurado seria o mundo, se os viventes presenciassem tudo aquilo que já vistes"

"Tu sabes de toda a dor que já senti. Conheces cada momento, dos triviais aos fundamentais, os quais presenciei. Por isso, hoje estás aqui. Morte, tu não vens como uma aberração ou uma inimiga, eu bem a conheço, pois tu és o descanso eterno, que agora sei, dentro de mim, que sou merecedor. Assim como a acolho alegremente, espero que me aceite, sob seus mantos, de bom grado" - Agora, tudo estava feito.

A Morte surpreendeu-se ao ouvir meus dizeres. Já sentia-me muito menos carnal do que sempre fora. Apesar de não poder ver a face daquele que estava à minha frente, senti certa emoção calorosa vinda de seus olhos, então sorri.

Ele estendeu sua mão direita em minha direção. Instintivamente, fiz o mesmo, ou tentei. Algo estava me segurando. Quando olhei para trás, várias pessoas estavam ali. Amigos de longa data e alguns que há muito não via, familiares que não eram tão próximos e alguns que nunca me abandonavam, até mesmos conhecidos, aos quais apenas dizia "Oi" ou "tchau". Todos eles seguravam meus braços.

Encarei aquela que estava mais próxima. Aquela pessoa, segurando com força em meu pulso esquerdo.

"Não vá, não ainda. Por favor! Eu sequer consegui me despedir!"

Vê-la chorar foi o mais doloroso dos sentimentos que tive até hoje. Logo após suas palavras, todos começaram a fazer o mesmo.

"Volte!" - Diziam - "Não desista!"; "Nós estamos aqui" - Os gritos eram incessantes

"Eram eles que ainda precisavam de mim, não é?"

"Esta é tua última e mais difícil provação" - Respondeu-me a Morte.

Olhei para todos aqueles que estavam ali, aquelas gotas de luz em uma imensidão feita de trevas. E, com um sorriso e um último aceno de cabeça, disse: "Obrigado" e "Adeus". Quase todas aquelas luzes acenaram de volta, enquanto reconhecia meu pai no meio da multidão, abraçando minha mãe com força, transformaram-se todos em flores variadas, cheias de cor, vívidas, a não ser por uma pessoa. Sua mão ainda segurava meu pulso, enquanto seu rosto inclinado ainda lamentava nosso adeus.

Coloquei minha mão sob seu queixo e o ergui, encarando profundamente seus olhos.

"Todos temos nossas próprias vidas para seguir, com ou sem outras pessoas, mas, sei que minha vida foi tão bela quanto poderia ser, porque você estava lá. Não quero que lembre de mim com arrependimentos ou mágoas, quero que saiba que, mesmo no último momento de minha vida, você foi a mais forte luz, que teimou em brilhar no meu coração sem pulso. Agradeço por sempre ter estado comigo. Obrigado. Eu te amo"

Aquela luz, ao me abraçar, finalmente cedeu. Em minhas mãos, tudo que sobrou fora uma rosa vermelha. Os badalares dos sinos começaram mais uma vez, mas, não pararam em seu quarto toque. Ao fundo, pude ouvir uma melodia que conhecia de algum lugar. As flores que

haviam caído ao chão começaram a se multiplicar em um extenso jardim. A imensidão negra deu seu lugar a um céu azul repleto de nuvens brancas e estrelas.

Atrás de mim, a Morte removeu de sua cabeça o manto, que, outrora negro, tornara-se azul. A imagem de uma bela mulher se fez presente sob as luzes dos céus e daquele manto. Aos seus pés, todos aqueles que já haviam partido estavam presentes. Aos meus lados, todas as sete criaturas que conheci anteriormente ajoelharam-se perante a ela. Aproximei-me e fiz o mesmo gesto.

"Você conseguiu. Seja bem-vindo" - Disse ela.

"Assim como vós, ponho-me sob o manto da noite, onde hei de descansar, brilhando como estrela, com todas as outras luzes que me aceitam em seu meio. Obrigado por receber-nos." respondi, em uníssono, com A Anunciante, O Espelho, A Máscara, O Mundo, A Esperança e O Tempo, despedindo-me de tais aberrações.

Estendi minha mão direita, entregando a ela, oito rosas vermelhas.

Minha irmã acordou assustada com esse sonho, sentou-se em sua cama e enfim, entendeu: "Suas orações foram entregues a tempo".

Inserida por viniciusmarciotto

Mais faces e facetas, quantas tem?
A todos, verdadeira.
Inda cerrada, entre carrancas velhas, impondo.
Gentil no trato, ato e fato.
A fundo quem ver, doce parecer.
Complexo nexo, querer.
Infinita garra, na face, sustentar.
Razões invertidas, tidas, idas.
Na ânsia de viver, novas faces fitar.
Insegura face, ao novo olhar.
Liberta face, garra ao encarar.
Na face nua, singela, delicada.
No espelho busca... Quem sou?

No momento que algo, que consideramos como um caos, nos força a sair de nossa zona de conforto, nos faz perceber nossa essência, como parte de quem somos.
Quando nos perdemos, nos encontramos.
Só assim nos enxergamos e passamos a nos conhecer verdadeiramente. Sem máscaras que confundem a nossa mente.
Olhamos para o espelho e vemos nossa alma e não mais aquela figura pretenciosa.
Neste momento podemos nos curar e finalmente termos a quem sinceramente amar.
Não é vulgar, tampouco vaidade o auto amor. É o processo saudável e fiel, que lhe tira do lugar de sabotador.
Alimenta sua força pra lutar e vencer. Se nutra com esperanças, pra não desvanecer.
Amor próprio ou próprio amor. Abra seus olhos e sinta o resplendor.

Inserida por JaneFernandaN

As pessoas são muito ambiciosas no que tange à busca por interesses egoístas. Querem as coisas a qualquer preço custeadas por meio de máscaras. O disfarce que utilizam é para elas como um atalho afim alcançarem mais rápido o que almejam, e depois que revelam suas garras, desaparecem como se nada tivesse ocorrido.

Inserida por poeta_liberato

Turbulência

Minha poesia é um voo sem escalas
Por uma zona de instabilidade.

Deve ser lida com fome
Com sede
Em um único fôlego,

Ao final do poema
Máscaras cairão automaticamente.

Inserida por pensador

A mentira é uma máscara que usamos, uma máscara invisível, imperceptível que muitas vezes usamos para nos esconder. Mas se todos nós usamos essa máscara como saber em quem confiar? Se ela é invisível como podemos saber quem não a usa?
Eu posso não saber quem está livre dessa máscara mas sei quem a usa , consigo ver o peso nos olhos das pessoas , ouço os gritos que suas almas dão me pedindo ,me implorando:
ME SALVE , ME LIBERTE , QUEBRE MINHAS CORRENTES , QUEBRE ESSA MÁSCARA
Mas eu não posso quebra-lá, afinal ,não posso ve-lá

Inserida por Cassandra2005

Bom mesmo é viver nossa verdade!
E saber que quem está por perto está pelo que somos ... sem termos a obrigação de agradar, sem pesos, sem máscaras ...
Que fique apenas quem conseguir nos amar ... por todas as nossas virtudes e apesar de todos as nossas limitações...

Inserida por damieth

Sustenta a tua vida nos alicerces do teu edifício e nunca na sua fachada.

Inserida por JPRSANTOS

É tanta gente cheia de controvérsias, meias conversas, de luz baixa. Tanta gente tentando ter em vez de viver. É uma preocupação com o pensamento alheio carregado de infelicidade em sobreviver como outros querem e ñ como se quer. Tanta gente querendo parecer normal repleto de loucura. Enquanto preocupar-se com a opinião do mundo tu serás apenas um sobrevivente, guerreiros estão ocupados batalhando em ser eles mesmo em um estado repleto de máscaras.

Inserida por Priscilamolinari

Um BASTA às emoções vazias, aos sentimentos contidos e abraços forçados, fingidos!!!
Que Caiam as Máscaras e Quebrem a Falsa Porcelana...
Que seja o Todo ou Não Seja Nada!

Que Baste a Vida com Intensidade e Verdadeiras e Grandes Emoções!
Que a Transpiração Arranque Toda a Maquiagem e a Nudez da Alma Seja A Essência Necessária para que Tudo Transborde e Eu Sinta a Vida em Sua Plenitude!

Que as Palavras Sejam Dispensáveis no Ápice e Êxtase das Emoções Incontidas e dos Sentimentos Explicitamente Vividos e Pungentes!

Que Seja o Todo; ou Não Seja Nada!

Rubenita Simey

22/06/2018

Inserida por rubi_dancer_ruby

(...)Arrumo esta máscara a um canto. Hoje renuncio a tudo. Entrego-me a mim, desisto e deixo de fingir que estou bem. Cedo às lágrimas que querem cair e ando a tentar travar. Desisto, suspendo esta máscara por esta noite e arrumo-a a um canto. Olho para ela, e até ela me diz que esta noite prefere ficar arrumada a um canto. Então consinto a mim mesma que a água salgada acumulada há dias me banhe o rosto. Abstraio-me de tudo. Hoje autorizo que a dor fique aqui. Talvez precise dela para crescer mais um pouco, ou me elevar e reconstruir ainda mais. (...)

Inserida por MARISAM

⁠A quantidade
De pedras
Que você tem
Nas mãos
É proporcional
Ao tamanho
Da máscara
Que você usa.

As coisas
Que nos
Dizem
Não têm
Nada a ver
Com os
Momentos.
Tem a ver
Com elas,
Com o que
Está por
Dentro.

Às vezes
Demoro
Entender...

Inserida por CarlaRamires

⁠Escondendo a lua...
Assim se movem as nuvens nesse anoitecer...

Como se o frio fosse o maior aconchego...
As árvores tornam-se luminosas...

A chuva se derramando por praças, vielas e ruas...
E as almas mais calorosas...

Ouvindo com encanto alguém que não conheço...
Mas a mim, hoje, a mim...
Ignoro o tempo...

A felicidade jorra do meu grito...
Não há sossego de pensar nos destinos que não desvendo...

A meia-noite com vagar soa...
Sob os vaivéns da sorte...
Vozes...
Gemidos...
Também ouço lamentos...

O vento geme...
O mocho pia...
A noite...
Ah essa noite...
Tão fria...

As horas vão escorrendo lentas...
Cada coisa a seu tempo tem seu tempo...
E as histórias contadas no passado...
Retornam...

Não é serenidade o que se bebe pelas ruas...
Em cada rosto, em cada olhar,
um não-sei-quê...
Representando alegrias...

Máscaras...
Alegorias...
Sob o frio incenssante...
Enquanto o mocho pia...

Sandro Paschoal Nogueira

Só se vê de verdade quem tem olhos para enxergar além da retina,
O olhar de Alma,
Desnuda,
Despe qualquer sombra de futilidade,
Só consegue-se entender,
Completamente a beleza de um ser,
Quando realmente se compreende,
Que,
O corpo é apenas um instrumento temporário da Alma.

Inserida por LeticiaDelRio1987

Dentre todos os componentes capazes de mudar as configurações físicas, nenhum é capaz de ocultar, moldar ou enfeitar os aspectos do seu âmago, sendo o sorriso por sua vez, a verdadeira maquiagem da alma.

Inserida por AnyoneUser

⁠O tempo não leva ninguém — apenas despe os disfarces com que fingimos suportá-lo.

Inserida por Davi-Roballo

⁠O que aconteceria de pior ou de extraordinário, se eu abraçasse plenamente quem eu sou?

O medo de ser julgada, o peso da expectativa alheia, a solidão de ser verdadeira em um mundo de máscaras?

Explorar quem sou, poderia revelar caminhos desconhecidos ou afastar aqueles que não estão prontos para ver além das aparências.

Mas, talvez, a maior tragédia seria negar a mim mesmo, sufocando a chama única que arde dentro de mim, minha essência.

Inserida por mileneabreu

⁠Belezas artificiais são lindas, mas com passar do tempo
elas desidratam.Ressecam e sem renovação do encantamento elas caem no esquecimento.

Inserida por gustavoboroni

⁠A tristeza ou alegria de alguém nem
sempre estará exposta. Enquanto não
aprendermos a olhar nos olhos, tudo
se resumirá às mentiras ou falsas
verdades de um storys.
Talvez as máscaras que hoje cobrem o
nosso rosto sejam para nos mostrar o
quão importante é um olhar.
Se coloque no lugar do outro.
Pergunte.
Faça uma auto análise.
A vida é linda em todas as
circunstâncias.
Quando aprendemos
observar os detalhes,
olhar com cuidado e empatia,
podemos ser a cura que falta no outro.

Inserida por CarlaRamires

⁠“Feios” são aqueles discriminados, marginalizados, não-enquadrados ante o fato de carregarem consigo defeitos físicos severos e problemas mentais complexos. A sociedade não os aceita, não os tolera, não os suporta sob nenhuma hipótese, porque remontam ao indesejável, ao asqueroso, ao diferente... Só que atualmente, em pleno isolamento social decorrente da pandemia do COVID-19, nós é que usamos máscaras e estamos escondidos e com medo. Nós estamos física e metaforicamente feios; estamos com os cabelos descuidados, com as unhas malfeitas, com pouco dinheiro, com as nossas casas desarrumadas, e as nossas mentes idem – nós estamos com a peste, com a moléstia. Somos os leprosos, os lazarentos, os errantes que nos entreolhamos assustados no mercado, na farmácia, nas varandas, sempre imaginando quem será o malfeitor que há de nos contaminar com o coronavírus.

Inserida por andrercostaoliveira