Existe uma beleza cruel na decepção.... Gabriel Parice Lopes
Existe uma beleza cruel na decepção.
Ela chega sem ser convidada, quebra os móveis da esperança, rasga os retratos que insistíamos em chamar de futuro e, por alguns dias, nos convence de que nada além da dor permanecerá de pé. Mas a decepção nunca veio para destruir; ela veio para devolver.
Antes dela, chamávamos de amor aquilo que muitas vezes era apego. Não à pessoa, mas à promessa. Não ao que existia, mas ao que imaginávamos existir depois de tempo suficiente.
É curioso como insistimos em regar jardins onde as flores já decidiram morrer. Dizemos que é persistência, maturidade, lealdade. Às vezes é apenas medo. Medo de admitir que o castelo em que depositamos tantas horas nunca passou de um andaime.
Então a decepção faz aquilo que o afeto não teve coragem de fazer: arranca nossas mãos do que já não nos pertence.
Ela nos obriga a olhar para o outro sem o filtro da saudade antecipada, sem a maquiagem das expectativas. Pela primeira vez, enxergamos pessoas como elas são, e não como precisaríamos que fossem para justificar nossa permanência.
Há uma violência quase divina nisso.
Porque dói descobrir que não perdemos alguém; perdemos a fantasia que construímos ao redor dessa pessoa.
E fantasias morrem gritando.
A decepção tem a elegância dos carrascos antigos. Não ergue a voz, não pede licença, não explica seus métodos. Apenas corta, com precisão suficiente para separar quem somos daquilo em que insistíamos em nos prender.
Depois, resta um silêncio.
No início, ele parece abandono.
Mais tarde, entendemos que era liberdade.
A verdade é que nossos maiores cárceres raramente têm grades. São feitos de expectativas, de lembranças editadas, de versões idealizadas de pessoas comuns. Passamos anos chamando isso de destino, quando era apenas apego usando roupas bonitas.
Por isso, hoje desconfio dos finais que chegam sem decepção.
São os desapontamentos que arrancam de nós as últimas ilusões. Eles devolvem a lucidez que o encantamento havia roubado.
Que privilégio descobrir, ainda em vida, que aquilo que julgávamos indispensável era apenas um hábito emocional.
Há perdas que diminuem um homem.
Mas há decepções que o devolvem a si mesmo.
E talvez seja essa a mais silenciosa das libertações: perceber que a dor nunca veio para nos ensinar a viver sem alguém. Ela veio para nos ensinar a viver sem a necessidade de transformar qualquer pessoa no centro da nossa existência.
Como é bela a decepção.
Porque toda corrente, antes de ser rompida, faz barulho.
Depois, resta apenas o som discreto da liberdade.
