Oceano muito pacifico Na cidade existia... Gabriel Parice Lopes

oceano muito pacifico

Na cidade existia um mergulhador conhecido por um hábito incomum. Enquanto todos desciam ao oceano em busca de destroços, joias perdidas ou animais raros, ele voltava dizendo sempre a mesma coisa.

“Lá embaixo é silencioso demais para existir mentira.”

Ninguém entendia.

Os pescadores riam, os turistas fotografavam suas roupas encharcadas e os cientistas atribuíam aquilo aos muitos anos respirando ar comprimido. Diziam que a pressão confundia o cérebro. Que profundidade demais acabava alterando a percepção. Era uma explicação confortável, porque explicações confortáveis impedem que alguém precise mudar a maneira como enxerga o mundo.

Certa manhã, ele aceitou levar um rapaz que insistia em descobrir o motivo daquela frase.

Os dois mergulharam.

Quanto mais o sol desaparecia acima deles, mais o oceano parecia apagar qualquer vestígio da superfície. As cores deixavam de existir, os sons desapareciam, os objetos perdiam seus contornos e, pela primeira vez, o rapaz percebeu uma sensação estranha: ninguém ali embaixo precisava fingir ser coisa alguma.

Os peixes não pareciam felizes.

Também não pareciam tristes.

Eles simplesmente atravessavam a água.

As correntes não escolhiam direção por convicção. As baleias não cantavam porque alguém as escutaria. Nem os corais cresciam tentando provar que eram bonitos.

Tudo apenas acontecia.

Quando voltaram à superfície, o rapaz permaneceu em silêncio durante horas.

Foi então que o mergulhador sorriu pela primeira vez.

“Agora olha para eles.”

Na praia, centenas de pessoas caminhavam de um lado para o outro. Algumas escondiam lágrimas atrás de óculos escuros. Outras sorriam para fotografias que seriam esquecidas na semana seguinte. Casais prometiam eternidade enquanto pensavam em outras vidas. Crianças fingiam ser adultas. Adultos fingiam saber o que estavam fazendo. Todos carregavam uma versão cuidadosamente construída de si mesmos, como atores que esqueceram onde termina o personagem e começa o rosto.

O rapaz perguntou por que aquilo parecia tão diferente do fundo do mar.

O mergulhador respondeu que a superfície era o único lugar onde a realidade precisava competir com a imaginação.

“Lá embaixo, ninguém inventa significado. Aqui em cima, inventam tantos que acabam esquecendo de viver.”

Naquela noite, o rapaz não conseguiu dormir.

Olhava para o teto do quarto enquanto escutava a própria mente produzir pensamentos sem parar. Ela comentava o passado, ensaiava diálogos que jamais aconteceriam, antecipava tragédias improváveis, reinterpretava lembranças até transformá-las em outra coisa. Era como assistir a um homem desesperado tentando narrar um filme que nunca parava de mudar de roteiro.

Pela primeira vez surgiu uma suspeita quase ofensiva.

E se aquela voz não fosse ele?

E se tivesse passado a vida inteira acreditando em um narrador que nunca presenciou os fatos, apenas os interpretou?

Dias depois voltou sozinho ao mar.

Mergulhou até onde a luz deixava de alcançar.

Lá embaixo não havia opiniões.

Não havia culpa.

Não havia arrependimento.

O oceano não fazia perguntas porque não precisava de respostas.

E, cercado por um silêncio tão antigo que parecia existir antes da própria linguagem, ele compreendeu algo que o acompanharia pelo resto da vida.

A mente nunca foi uma janela para a realidade.

Ela é uma máquina de fabricar versões.

Algumas belas.

Outras insuportáveis.

Quase todas falsas.

Talvez seja por isso que tanta gente viva com a sensação de estar perdida. Não porque o caminho desapareceu, mas porque aprendeu a procurar a saída dentro do único lugar incapaz de oferecê-la.

Enquanto isso, o mar continua exatamente onde sempre esteve.

Profundo.

Indiferente.

Sem nenhuma necessidade de explicar a própria existência.

Como se soubesse, desde o princípio, que as únicas criaturas realmente perdidas nunca foram as que afundaram.

Foram as que passaram a vida inteira tentando encontrar a própria mente, sem perceber que ela era justamente o lugar de onde precisavam sair.

Aquele dia ele morreu afogado, mas na verdade nem precisou sair do próprio quarto.