Eu quero aquilo que interrompe o... Gabriel Parice Lopes

Eu quero aquilo que interrompe o funcionamento normal das coisas.

o tipo de acontecimento que faz os velhos instintos parecerem obsoletos. que invade sem violência, mas quando vai embora leva junto a pessoa que existia cinco minutos antes.

não procuro conforto.

conforto conserva.

eu quero uma força que torne meus antigos refúgios inutilizáveis, que faça meus excessos perderem o gosto sem que eu precise travar guerra contra eles. quando a mudança é verdadeira, o esforço vira detalhe.

quero desaprender naturalmente.

como quem esquece um idioma porque encontrou outro mais bonito para pensar.

quero ser confrontado por algo que me obrigue a crescer na mesma velocidade em que destrói minhas desculpas. que embaralhe minhas certezas até eu não reconhecer mais o mapa que passei anos desenhando.

e, quando tudo terminar, que não reste a satisfação de ter vencido.

quero restar diferente.

há transformações que parecem acidentes.

as melhores sempre foram destino disfarçado.

porque existe um ponto em que insistir na antiga versão de si mesmo deixa de ser fidelidade.

e passa a ser desperdício.

ou talvez não.

talvez eu queira exatamente o contrário.

que nada me alcance fundo o bastante para exigir uma reconstrução. que tudo passe como passam os estranhos na calçada: vistos por um instante, esquecidos na esquina seguinte.

quero permanecer intacto.

que meus hábitos sobrevivam a qualquer novidade. que minhas convicções envelheçam comigo. que nenhuma experiência seja convincente o suficiente para mudar a direção dos meus passos.

não quero perder o gosto pelas velhas fugas.

nem descobrir um idioma novo se isso significar esquecer o primeiro.

prefiro os mesmos erros pela intimidade que construí com eles.

prefiro reconhecer o teto das minhas limitações do que correr o risco de descobrir que ele nunca existiu.

há uma tranquilidade quase elegante em jamais ser surpreendido.

em nunca precisar rever.

em nunca precisar ceder.

no fim, talvez a maior ambição seja essa:

atravessar a vida sem deixar que ela atravesse de volta.