Assassinato do auto ego Existe um... Gabriel Parice Lopes

assassinato do auto ego

Existe um momento estranho em que o ego começa a perder a voz.

Não é uma morte completa, mas uma espécie de silêncio. Como se todas as certezas que eu carregava fossem uma casa construída com paredes de vidro, e bastasse uma queda forte o suficiente para perceber que, na verdade, eu nunca estive tão protegido quanto imaginava.

Talvez seja necessário chegar em algum tipo de fundo para enxergar.

Porque enquanto estamos no alto, tudo parece absoluto. Nossas dores parecem eternas, nossos desejos parecem indispensáveis, nossas versões parecem definitivas. A gente acredita que aquilo que sente naquele instante é a verdade final sobre quem somos.

Mas quando tudo desmorona, quando o personagem perde a fantasia, começa uma visão diferente.

Você começa a enxergar as próprias versões que já morreram dentro de você.

A pessoa que você era antes de certas dores. A pessoa que você tentou ser para ser aceito. A pessoa que você fingiu ser para não demonstrar fraqueza. A pessoa que você criou na sua cabeça e passou anos tentando alcançar.

E então vem a parte mais estranha:

perceber que nenhuma delas era realmente você.

E talvez nenhuma delas fosse falsa também.

Eram apenas momentos.

Porque no fim, tudo parece ter essa natureza passageira que a gente tenta ignorar. O sentimento que ontem parecia impossível de superar, um dia vira uma lembrança distante. A certeza que parecia inabalável, um dia parece uma ideia de outra pessoa. As coisas que jurávamos que definiriam nossa vida acabam sendo apenas capítulos pequenos em uma história que continua mudando.

A gente passa tanto tempo tentando encontrar significado em tudo, como se existisse uma explicação escondida esperando ser descoberta.

Mas talvez o universo nunca tenha prometido sentido.

Talvez nós sejamos seres tentando organizar o caos, criando narrativas para suportar a passagem do tempo.

Chamamos de destino aquilo que aconteceu.

Chamamos de aprendizado aquilo que conseguimos aceitar.

Chamamos de personalidade aquilo que são apenas padrões repetidos até parecerem permanentes.

E quando o ego fica despido, quando não existe mais a necessidade de parecer certo, forte ou invencível, sobra uma percepção quase assustadora:

nós somos muito menos fixos do que imaginamos.

Somos feitos de fases, encontros, perdas, memórias e versões que vão surgindo e desaparecendo conforme atravessamos a vida.

Talvez o fundo do poço não seja apenas um lugar de destruição.

Talvez seja o único lugar onde a gente consegue olhar para cima sem mentir sobre a altura que caiu.

Porque lá embaixo não existe mais personagem.

Não existe imagem para sustentar.

Não existe plateia.

Existe apenas você, diante de tudo aquilo que tentou esconder, percebendo que talvez a maior ilusão nunca tenha sido o mundo lá fora.

Talvez tenha sido a ideia de que algum dia nós realmente fomos uma coisa só.