Recomeçario Ele percebeu que tinha... Gabriel Parice Lopes

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Ele percebeu que tinha mudado no dia em que entrou no próprio quarto e sentiu que estava visitando alguém.

Os mesmos móveis, os mesmos objetos, os mesmos cantos onde tantas histórias tinham acontecido. Mas havia alguma coisa estranha naquele lugar. Como se tudo pertencesse a uma pessoa que ele conhecia, mas já não conseguia alcançar.

Ele ficou parado na porta por alguns segundos, tentando lembrar em qual momento havia deixado de ser aquele cara.

Talvez tivesse sido aos poucos.

Talvez ninguém perceba quando uma pessoa começa a desaparecer de si mesma.

Ele ainda fazia as mesmas coisas. Acordava, respondia mensagens, saía, conversava, ria quando era esperado. Aprendeu perfeitamente a imitar a própria presença. Era bom em parecer alguém que estava bem.

O problema era quando ficava sozinho.

Porque no silêncio sempre apareciam as versões antigas.

O garoto que acreditava que tudo teria uma explicação.

O homem que achou que finalmente tinha entendido a vida.

A pessoa que prometeu nunca repetir certos erros.

Todos eles apareciam sentados ao redor da mesma mesa, olhando para ele como se esperassem uma resposta.

“Quem você virou?”

Era uma pergunta simples.

Mas ele nunca sabia responder.

Ele passou anos tentando fugir de si mesmo, como se mudar de lugar fosse suficiente para deixar para trás aquilo que carregava. Trocou hábitos, ambientes, pensamentos, criou novas versões de si mesmo e chamou aquilo de evolução.

Mas toda noite, quando a casa ficava escura, ele encontrava os mesmos fantasmas usando roupas diferentes.

Ele percebeu uma coisa que nunca quis aceitar:

às vezes a gente não muda.

Às vezes a gente apenas aprende novas maneiras de repetir os mesmos padrões.

Ele lembrava de todas as vezes que jurou que seria diferente. Todas as promessas feitas em momentos de lucidez, quando a dor parecia grande o suficiente para ensinar alguma coisa.

Mas a dor passa.

E quando ela passa, a memória dela fica mais fraca.

Então ele voltava.

Voltava para os mesmos lugares, procurava as mesmas sensações, fazia escolhas que já conhecia o final.

Era como assistir ao mesmo filme várias vezes e continuar esperando que, em alguma exibição, o personagem principal tomasse uma decisão diferente.

Uma noite, ele abriu uma caixa antiga guardada no fundo do armário.

Dentro dela estavam fotos, bilhetes e pequenos pedaços de uma vida que parecia pertencer a outra pessoa.

Ele olhou para aquele rosto mais jovem e não sentiu vergonha.

Pela primeira vez, sentiu apenas cansaço.

Aquele cara também estava tentando.

Talvez esse fosse o problema de passar tanto tempo odiando quem você foi: você esquece que aquela pessoa também estava fazendo o melhor que conseguia com a consciência que tinha.

Ele fechou a caixa.

Não porque tinha encontrado uma resposta.

Mas porque percebeu que talvez nunca existisse uma versão final esperando por ele.

Talvez a vida fosse apenas essa sequência de encontros com pessoas que você já foi.

Algumas você abraça.

Algumas você perdoa.

Algumas você tenta esquecer.

Mas todas continuam vivendo em algum lugar dentro de você.

Naquela noite, ele deitou sem saber se tinha finalmente se encontrado ou se apenas tinha parado de fugir.

E, pela primeira vez em muito tempo, essa dúvida não parecia assustadora.

Porque talvez o maior erro dele tivesse sido acreditar que precisava se tornar alguém completamente novo.

Talvez ele só precisasse aprender a conviver com todos aqueles que já existiam dentro dele.