Eu tenho medo da química que precisa... Gabriel Parice Lopes

Eu tenho medo da química que precisa ser fabricada.

Daquelas conexões que chegam com manual de instrução, onde cada palavra é escolhida, cada gesto é calculado, cada demonstração parece uma tentativa desesperada de convencer o coração de que existe algo ali.

Eu odeio esse amor que precisa ser empurrado ladeira acima, como se duas pessoas tivessem que carregar uma montanha nas costas para provar que vale a pena.

Porque o que é verdadeiro não pede tanto esforço para existir.

Não deveria parecer uma apresentação, uma entrevista, uma prova de merecimento. Não deveria ser preciso implorar para que alguém enxergue a beleza daquilo que você entrega.

Existe algo triste em tentar transformar faísca em incêndio usando apenas as próprias mãos. Em soprar uma chama que nunca quis nascer, acreditando que talvez, se você cuidar o bastante, ela finalmente escolha aquecer você.

Mas algumas coisas não são destinadas a queimar.

E talvez a maior crueldade seja perceber que você não estava errado por sentir. Você só estava tentando encontrar profundidade em um lugar onde talvez existisse apenas superfície.

Eu não quero mais a química construída no desespero, a proximidade criada pela insistência, o carinho que aparece porque alguém tem medo de perder e não porque realmente quer ficar.

Eu quero o tipo de encontro que parece uma lembrança antes mesmo de acontecer.

Aquela paz estranha de não precisar convencer ninguém.

De não precisar mostrar mil versões suas para provar que existe algo bonito aí dentro.

Porque o amor que precisa ser forçado pode até parecer intenso, mas no fundo carrega uma pergunta silenciosa:

“Se eu parar de tentar, ainda existe alguma coisa aqui?”

E eu cansei de procurar respostas em lugares onde eu sempre precisei gritar para ser ouvido.