Há quem diga que esquecer é questão... Gabriel Parice Lopes

Há quem diga que esquecer é questão de tempo. Eu desconfio. O tempo só aperfeiçoa a memória; ensina ela a usar máscaras melhores.


Sem perceber, eu continuo te procurando.


Não em fotos. Essas eu já conheço de cor. Te procuro nas coisas que nunca te pertenceram, mas que aprenderam teu idioma.


Quando o primeiro acorde de Arctic Monkeys atravessa o silêncio, meu peito ainda olha para a porta, como se alguma parte de mim acreditasse que certas músicas continuam sabendo o caminho de volta. Oasis faz pior: transforma saudade em paisagem. É como caminhar por uma rua antiga onde ninguém mora mais, mas todas as janelas permanecem acesas.


Eu te encontro nos livros que compro sem motivo. Há sempre uma frase que teria arrancado um sorriso teu, e, por um instante, leio em voz baixa para alguém que já não está. Fecho a página como quem fecha uma conversa interrompida.


Também te procuro nas pessoas.


Não porque elas se pareçam contigo. Seria injusto com elas e impossível contigo. Mas existe um gesto, um silêncio, uma maneira de inclinar a cabeça enquanto escutam, um riso que dura meio segundo a mais... e, por um instante vergonhoso, meu coração pergunta se finalmente te encontrou de novo. Nunca encontrou. Eram apenas desconhecidos carregando pedaços que a minha memória decidiu roubar.


Há cidades que conspiram.


Volto a lugares onde estivemos e eles insistem em manter tua ausência exatamente onde você a deixou. A mesa continua pequena demais para duas pessoas. A calçada ainda sabe a direção dos nossos passos. O vento atravessa a mesma esquina com a mesma delicadeza, como se ignorasse que agora sopra apenas contra um corpo.


É estranho viver assim.


Como alguém perseguido por um fantasma que não assombra a casa, mas os detalhes. Um perfume na rua. Um casaco da mesma cor. Uma música tocando ao fundo de um café. A dedicatória esquecida na primeira página de um romance. Nada é suficiente para trazer você de volta, mas tudo parece suficiente para lembrar que um dia esteve aqui.


Talvez seja esse o verdadeiro peso de amar alguém.


Não é sofrer pela ausência da pessoa. É perceber que ela contaminou o mundo inteiro. As músicas deixam de ser só músicas. Os livros deixam de ser só livros. As ruas deixam de ser ruas. Tudo passa a existir em dois tempos: antes de você e depois de você.


E eu sigo vivendo.


Converso, sorrio, conheço rostos novos, aperto outras mãos. Mas existe uma parte de mim que continua fazendo comparações em silêncio, como quem procura uma constelação específica num céu cheio de estrelas. Não porque as outras sejam menores, mas porque meus olhos aprenderam, há muito tempo, exatamente onde repousava aquela luz.


Talvez um dia eu pare de te procurar.


Ou talvez não.


Talvez algumas pessoas não terminem quando vão embora. Elas apenas se espalham. Ficam escondidas entre acordes, páginas, esquinas e olhares alheios, transformando o mundo inteiro numa coleção discreta de lembranças.


E o mais cruel é que ninguém percebe.


Só quem continua procurando.