Silver lining Dizem que existe uma... Gabriel Parice Lopes
silver lining
Dizem que existe uma estrada no interior da Inglaterra onde os postes de iluminação foram instalados próximos demais uns dos outros. À noite, quando um carro atravessa aquele trecho em alta velocidade, as sombras passam pelo para-brisa como os quadros de um filme antigo. Luz. Escuro. Luz. Escuro. Rápido o suficiente para enganar os olhos, lento o bastante para deixar a imaginação terminar o que não viu.
Foi ali que um velho frentista começou a notar um carro preto passando todas as madrugadas exatamente no mesmo horário.
Nunca abastecia.
Nunca diminuía a velocidade.
Nunca parava.
Apenas cruzava a estrada, desaparecia na curva e voltava quarenta minutos depois, percorrendo o caminho inverso como se procurasse alguma coisa que insistia em escapar.
Na décima segunda noite, a curiosidade venceu.
Quando o carro finalmente encostou, o motorista desceu sem desligar o motor. Não parecia cansado. Parecia perseguido. Os olhos não olhavam para o posto, nem para o velho, nem para a estrada. Permaneciam presos ao retrovisor, como quem espera que alguém apareça a qualquer instante.
O frentista perguntou se havia algum problema.
O homem demorou para responder.
Depois sorriu de um jeito estranho.
“Você já passou tanto tempo procurando uma pessoa que começou a esquecer o rosto dela?”
O velho riu, acreditando que fosse uma piada.
Mas o motorista continuou.
“No começo você procura porque sente falta. Depois procura porque precisa de respostas. Depois porque acredita que ainda existe alguma coisa esperando para ser resolvida. E, quando percebe, já não está procurando a pessoa. Está tentando encontrar a versão de si mesmo que existia quando ela ainda ocupava aquele lugar.”
O posto ficou silencioso.
Só o som do motor preenchia o espaço entre os dois.
O frentista olhou para a estrada vazia e perguntou por que ele simplesmente não desistia.
O homem encarou o asfalto iluminado pelos faróis.
“Porque a dúvida é muito mais resistente do que a ausência.”
Naquela noite, depois que o carro desapareceu outra vez, o velho não conseguiu esquecer aquelas palavras.
Dias depois, passou a reparar melhor nas pessoas que apareciam para abastecer.
Havia casais que conversavam sem escutar um ao outro.
Gente que desbloqueava o celular a cada poucos segundos, esperando uma mensagem específica entre centenas de notificações inúteis.
Pessoas que juravam ter seguido em frente, mas ainda sabiam de cor o caminho até a casa de alguém que não viam havia anos.
Foi então que compreendeu uma coisa curiosa.
O amor raramente termina quando a presença acaba.
Ele termina quando a possibilidade morre.
Enquanto existir uma única fresta por onde a imaginação consiga escapar, a mente fará dela uma porta.
Porque ela odeia finais.
Prefere inventar universos inteiros sustentados por uma única pergunta sem resposta.
“Será que…”
É impressionante a força dessas duas palavras.
Elas transformam desconhecidos em fantasmas.
Silêncios em promessas.
Coincidências em destino.
Fazem alguém dirigir centenas de quilômetros por uma estrada onde sabe que não encontrará ninguém, apenas porque uma parte da consciência se recusa a aceitar que algumas histórias não acabam com uma explicação, mas com um eco.
Anos depois, fecharam o posto.
Construíram uma rodovia mais moderna alguns quilômetros adiante, e a velha estrada foi lentamente esquecida. A vegetação tomou conta do acostamento, os postes enferrujaram e o asfalto começou a rachar como uma fotografia antiga.
Ainda assim, em certas madrugadas, moradores da região juram ouvir um motor atravessando a escuridão.
Não dizem que veem o carro.
Dizem apenas que escutam.
Como se algumas buscas sobrevivessem ao próprio viajante.
Talvez porque existam perguntas que nunca quiseram uma resposta.
Elas apenas precisavam de alguém disposto a continuar dirigindo.
E talvez seja esse o truque mais cruel da mente humana: convencer alguém de que está perseguindo outra pessoa, quando, na verdade, passou a vida inteira correndo atrás da única coisa que jamais conseguiu possuir completamente.
A certeza.
