A nuvem negra não chegou de uma vez.... Gabriel Parice Lopes
A nuvem negra não chegou de uma vez.
Ela não apareceu como uma tempestade anunciando que tudo iria mudar. Ela veio devagar, quase educada, como uma sombra que aprendia os caminhos da casa antes de tomar conta dela.
No começo eu ainda conseguia enxergar o céu.
Ainda existiam dias bons, momentos que pareciam provar que aquilo era só uma fase. Eu dizia para mim mesmo que amanhã seria diferente, que alguma coisa dentro de mim iria voltar ao lugar.
Mas o tempo passou.
E a nuvem ficou.
Ela não precisava mais esconder o sol, porque eu já não lembrava exatamente como era sentir o calor dele.
As coisas continuaram acontecendo ao meu redor, pessoas rindo, histórias sendo criadas, músicas tocando em algum lugar. O mundo nunca parou por minha causa. E talvez essa tenha sido uma das partes mais estranhas: perceber que tudo continuava em movimento enquanto dentro de mim alguma coisa permanecia parada.
Eu comecei a existir mais do que viver.
Os dias viraram uma sequência de obrigações, os momentos viraram apenas momentos. Eu estava presente em lugares onde minha mente nunca estava. Eu respondia, conversava, sorria quando precisava, mas parecia que uma parte minha tinha ficado para trás em algum lugar que eu não conseguia encontrar.
E por muito tempo eu procurei um culpado.
Procurei em cada escolha errada, em cada palavra que eu poderia ter dito diferente, em cada versão minha que eu queria apagar. Eu carregava meus próprios erros como uma mochila cheia de pedras, e mesmo quando ninguém mais falava sobre eles, eu continuava voltando para buscá-los.
Até que um dia eu percebi que talvez eu nunca tenha sido o monstro que eu criei na minha cabeça.
Talvez eu só fosse alguém cansado.
Alguém que tentou, errou, perdeu coisas, machucou e foi machucado. Alguém que passou tanto tempo tentando entender onde tinha falhado que esqueceu que também estava sofrendo.
Talvez eu tenha finalmente conseguido me perdoar.
Mas o estranho é que o perdão não trouxe aquela paz que eu imaginava.
Não abriu o céu.
Não fez a nuvem desaparecer.
Ela continuou lá.
Só que agora eu não estava mais brigando comigo mesmo dentro dela.
E talvez esse seja o lugar mais estranho para se estar: quando você para de se odiar, mas ainda não sabe como voltar a se encontrar.
Quando você finalmente solta as correntes que você mesmo colocou, mas percebe que ainda está perdido no mesmo lugar.
A nuvem negra continua acima de mim.
Às vezes mais distante, às vezes tão baixa que parece tocar meu rosto.
E eu continuo andando sem saber exatamente para onde.
Não porque acredito que vou encontrar alguma coisa.
Mas porque ficar parado também já não parece uma opção.
Talvez esse seja o máximo que eu consigo fazer agora:
carregar a mim mesmo por caminhos que eu ainda não reconheço, tentando descobrir se em algum lugar existe uma versão minha que eu perdi no caminho.
Ou se eu estou apenas procurando por alguém que nunca mais vai voltar.
“I think I, I think I finally found a way to forgive myself”.
