Tag poeira
"Tem mulher que já nasce velha.
Desde o berço tem um olhar cansado
De fastio, entojo, má vontade, preguiça de viver.
Olha sério a tudo, não sorri, prefere chorar
Quando madura anda com as roupas largadas
Cobrindo as banhas do corpo também largado
Os indefectíveis panos de limpeza no ombro
E um olhar que vaga pela casa procurando poeira
Algo para arrumar, limpar e praguejar.
Ah, sim, tem mulher que já nasce velha odiando
onde mora, o que faz e o que é
enquanto a mente sonha uma princesa esguia
a deslizar sua graça pelos salões do mundo
A princesa que poderia ter sido - poderia, mas...
Teve sonhos, mas não apeteceu ir atrás.
Teve desejos, mas não apeteceu saciá-los.
Teve impulsos, mas não apeteceu segui-los.
Hoje morre tão velha quanto nasceu:
Existiu mas não viveu, esteve aqui, mas não marcou
Para os outros talvez uma lembrança irônica, tipo desprezo, sabe?
De uma mulher meio qualquer coisa, semblante fechado
Com rugas e banhas e umas roupas largadas
E os panos no ombro,
Procurando pela casa um pó para tirar."
(Lori Damm, 24/01/2023)
Então ela abriu a porta, e percebeu que entrou na casa errada. O ambiente estranho, mobílias desarrumadas. O perfume de antes, já não exalava. Na mesa, louças quebradas, taças caídas sobre a toalha mofada.
Na parede, fotos de sorrisos empoeirados, que não se harmonizavam com a decoração.
O barulho da torneira que gotejava sobre a louça esquecida na pia. E o odor do lixo que não fora recolhido e jogado.
Então, ela fechou a porta que pertencia ao passado.
#DEGREDO
E o relógio dará as horas devagar...
Alheio à pressa da vida...
Enquanto ergo o cálice transbordante...
Da inveja dos olhares fulminantes...
Velhos e eternos pesares...
Que a terra já não sente...
Eu, de olhos ausentes...
As asas loucas abrindo...
Passeio entre muitos...
Indiferente...
Ah...
Quem mandou que fizesses...
Minha alma da tua escrava...
Por que não me ouvistes...
Enquanto te amavas?
Por que fugiste de mim...
E me magoavas com espinhos?
Por que não me ouvistes...
As minhas preces?
O degredo acabou...
E dele saí tão cedo...
Já não mais te quero...
E não é nenhum segredo...
Nada mais te pergunto...
Nada mais de ti quero...
O sonho acabou...
Brinca na poeira, brinca...
Já não és meu mundo...
Sandro Paschoal Nogueira
A loja de brinquedos velhos em Paris não é limpa há séculos. Bonecas encardidas de roupinhas remendadas, comboios com seus vagões amassados. Dolentes e suaves assombrações. Companhia de crianças que há muito desapareceram. Por que paro e olho a vitrine?
Alguns tratam as intrigas como tratam poeiras à sua frente, tem os que sacodem a poeira de sobre si, os que varrem a poeira por debaixo do tapete, os que jogam e espalham a poeira no ventilador ligado no máximo, os que ajuntam a poeira em montões e deixa ali exposta, mas tem os que em mutirão se juntam com desejo de limpar todo ambiente contaminado por esta poeira jogando-na no lixo.
Como o corpo não aguenta dias sem água
A terra implora por alguma gota
O vento seco espalha o monte de terra no chão
E vira poeira...
Poeira...
Poeira seca...
Dias sem chuva...
Dias de sede...
Dias de seca...
Aquela roça antes, tão sonhada
Agora deserta e silenciosa
O gado morrendo nos fundos da fazenda, antes formosa
A grama que era verde, hoje é terra vermelha e fina
A esperança nos olhos do menino e da menina
Olhando pro céu
Esperando a chuva cair
Esperando a poeira baixar
Como se eles nunca tivessem nascido
Crianças fantasmas na seca...
Miragem no horizonte seco
O solo não fertiliza mais nada do que se planta
É como se a seca arrancasse do fundo da terra tudo o que é vivo
E como se tudo o que sobrasse fosse pó
Se choro
Se eu choro
Choro porque quero regar teu caminho
Molhar teu rosto
Baixar a poeira
Que o verão intensificou.
Sou o bem
A terra molhada
Que pisas forte
E nem ouve
E nem sente
Que eu sou tua estrada.
Se a sexta é santa
Então eu sou domingo
Na igreja alguém canta
Enquanto estou dormindo
É que eu sou minha própria igreja
Sou o dia do descanso
A madrugada é minha peleja
De dia eu descanso
Casa alugada e o pão na mesa
Meu feriado eu mesmo faço
Eu sou as férias
Não importa a feira
Eu sou uma fera
Importei minha caveira
Da poeira das estrelas
Cavei e levantei poeira
Causei na sexta feira
Me desculpe a brincadeira
Não me culpe pela sua neura
"Para obter vitórias em sua vida, é necessário primeiro você tirar a poeira da sua Bíblia".
Anderson Silva
LUSTRO FUSCO
Porque será que tem que ser assim
O que era eterno vai chegando ao fim
E as culpas recíprocas têm mão só
Sem compreensão que desate o nó
Com poeira em cima do que ali brilhou
Tardia faxina que já expirou
Disputas tolas em tudo complica
Que coisa estranha no vazio que fica
Se n'algum tempo tudo foi tão pleno
Duro aprendizado: plano terreno!
Sacuda a poeira quando sair de uma casa negativa e durma com uma consciência tranquila para que o pó não se acumule no travesseiro de seus sonhos.
Sinto saudade daquele tempo em que o ar era puro, a brisa era leve e transparente, o cheiro doce do verde preenchia o ambiente, e as noites quentes eram perfumadas pela dama-da-noite. Agora, tudo o que vejo é um dia tingido de cinza, coberto de poeira. Não sinto mais a brisa, apenas um odor estranho no ar. Me pergunto: será que o mundo se transformou em um grande latão de lixo? Temo que o pior ainda está por vir.
Sacuda a poeira e dê a volta por cima, saia já desse estado letárgico em que te encontras como uma ostra no fundo do mar... Lembre-se um dia todos seremos poeira cósmica, então deixe essa tua poeira fluir no Universo antes que baixei e fique estagnada para sempre no fundo do mar (alma) e perderás uma grande oportunidade de ser pérola enquanto ainda vives...Então, Abra-te!
