silasoliveira13
Quando o Coração Aprende a Escrever
Escrevemos porque, às vezes, o coração já não consegue guardar tudo aquilo que sentimos. Escrevemos e entregamos ao papel nossas imaginações, nossos sonhos, nossas lembranças e até aqueles sentimentos que nunca tivemos coragem de dizer em voz alta. Transformamos tudo em palavras, e as palavras, silenciosamente, começam a contar aquilo que durante tanto tempo viveu escondido dentro de nós. Talvez esta seja uma das obras mais bonitas que podemos criar: olhar para um pedaço de papel e descobrir que ali existe um pouco da nossa própria vida. Uma folha que antes estava vazia passa a carregar amores, saudades, encontros, despedidas, desejos e sonhos. E aquilo que estava preso dentro do peito ganha liberdade. Há algo profundamente romântico nisso. Quando escrevemos sobre o que sentimos, não estamos simplesmente contando uma história. Estamos permitindo que um instante sobreviva ao tempo. Um beijo que terminou continua existindo nas palavras. Um abraço que ficou no passado pode novamente aquecer o coração. Um olhar que durou apenas alguns segundos pode permanecer por anos entre duas linhas. E até uma saudade, quando escrita, encontra uma maneira delicada de continuar amando. Talvez por isso eu goste tanto de reencontrar meus sentimentos no papel. É como encontrar uma parte de mim que pensei ter ficado para trás. Leio aquilo que escrevi e, de repente, escuto novamente minha própria voz, reconheço minhas emoções e percebo que tudo aquilo que um dia esteve dentro do meu peito continua vivo. Algumas palavras me fazem sorrir. Outras me levam de volta a lugares onde somente a memória consegue chegar. E existem aquelas que fazem os olhos demorarem um pouco mais sobre a página, porque sabemos que não estamos apenas lendo: estamos sentindo outra vez. Mas existe algo ainda mais bonito. Quando aquilo que nasceu dentro de nós consegue tocar outra pessoa, nossos sentimentos deixam de pertencer somente à nossa história. Alguém lê nossas palavras e encontra nelas uma lembrança sua, um amor seu, uma saudade sua. É nesse momento que descobrimos que os sentimentos humanos, apesar de tão particulares, possuem caminhos secretos que ligam um coração ao outro. Talvez escrever seja exatamente isso: retirar delicadamente do peito aquilo que não queremos perder e confiar ao papel a missão de guardá-lo. Porque a memória pode esquecer detalhes, o tempo pode mudar paisagens e a vida pode nos levar para muito longe, mas aquilo que foi escrito permanece esperando por nós. E quando voltamos para lê-lo, encontramos novamente quem fomos, quem amamos, aquilo que sonhamos e tudo o que tivemos coragem de sentir. Então compreendo que nunca escrevemos apenas com as mãos. Escrevemos com aquilo que vivemos. Escrevemos com nossas lágrimas, nossos sorrisos, nossas ausências, nossos encontros e nossos amores. A caneta apenas acompanha. Quem realmente escreve é o coração. E talvez seja essa a maior beleza de transformar sentimentos em palavras: um dia, depois que o momento tiver passado, podemos abrir uma página e descobrir que aquilo que estava dentro do nosso peito ainda respira. Ainda emociona. Ainda encontra outros corações. Ainda está vivo.
Escrevo no Nada
Ah… escrevo no nada.
Talvez porque o nada seja o único lugar onde minhas palavras ainda encontram espaço para existir. Escrevo sem saber se alguém se importa com aquilo que deixo no papel, se alguém algum dia vai parar diante destas linhas e perceber que, entre uma palavra e outra, existe um homem tentando contar aquilo que durante muito tempo não conseguiu dizer.
Apoio em linhas retas todos os meus sentimentos tortos.
E talvez seja isso que chamamos de escrever: tentar organizar no papel aquilo que dentro de nós jamais conheceu ordem. Dar nome ao que doeu. Dar voz ao que ficou calado. Dar um lugar para aquilo que carregamos durante anos sem saber onde colocar.
Falo de palavras que escondem sofrimentos.
Porque nem toda palavra revela. Algumas protegem. Algumas disfarçam. Algumas são apenas cortinas colocadas diante de feridas que ainda não aprendemos a mostrar.
Falo da morte que não tive.
E essa talvez seja uma das frases mais difíceis que já escrevi.
Porque existem mortes que não levam o corpo. Existem despedidas que nos deixam vivos. Existem momentos em que continuamos respirando, caminhando, trabalhando, sorrindo, conversando com as pessoas, enquanto alguma coisa dentro de nós ficou para trás.
Eu não morri.
Mas talvez algumas partes de mim tenham conhecido a morte.
Falo da dor da ausência.
Da cadeira que continua no mesmo lugar quando alguém já não está. Da voz que a memória insiste em repetir. Do abraço que os braços ainda sabem dar, embora já não exista ninguém diante deles para recebê-lo.
Falo…
E paro.
Porque há sentimentos que chegam até a garganta e se recusam a virar palavras.
Há histórias que desejam desesperadamente ser contadas, mas passaram tanto tempo escondidas que aprenderam a ter medo da própria voz.
A minha é uma delas.
Uma história que precisa ser ouvida.
Precisa ser lida.
Não porque seja maior do que a história de ninguém, mas porque foi vivida. E tudo aquilo que verdadeiramente foi vivido merece, pelo menos uma vez, não morrer em silêncio.
Talvez eu tenha passado uma vida inteira querendo ser ouvido, quando também precisava aprender a ouvir.
Ouvir os meus próprios silêncios.
Ouvir aquilo que minhas lágrimas tentaram dizer.
Ouvir o homem que ficou escondido atrás das obrigações, dos sorrisos, das despedidas, das perdas e dos anos.
Talvez eu escreva porque finalmente comecei a escutar aquele que durante tanto tempo deixei sozinho dentro de mim.
Por isso escrevo.
Mesmo quando ninguém lê.
Mesmo quando ninguém pergunta.
Mesmo quando parece que minhas palavras estão sendo lançadas contra uma imensidão indiferente.
Eu escrevo porque algumas histórias não nascem para fazer barulho.
Nascem simplesmente porque não querem morrer.
E então volto para o papel.
Olho novamente para essas linhas retas.
Coloco nelas meus sentimentos tortos, minhas ausências, minhas perguntas, minhas lembranças, meus mortos, meus vivos, aquilo que perdi e aquilo que ainda procuro.
Falo de tudo.
Falo de mim.
Falo daquilo que deveria ter ouvido quando ainda havia tempo.
E, depois de tantas palavras, olho para a página e tenho a estranha sensação de que continuo sem ter dito aquilo que realmente queria dizer.
Então penso:
escrevi tanto…
e talvez ainda não tenha escrito nada.
Aquilo Que Nunca Deixamos de Viver
Escrevo sobre experiências que nunca vivi, mas que, de alguma maneira, parecem ter passado por dentro de mim.
Falo de um amor que talvez jamais tenha tido por inteiro, mas que meu coração conheceu antes mesmo de saber seu nome.
Porque nem tudo aquilo que sentimos precisa ter acontecido para ser verdadeiro.
Existem sentimentos que nascem daquilo que vivemos, mas existem outros que nascem justamente daquilo que nos faltou.
E, às vezes, são as ausências que escrevem as páginas mais profundas da nossa história.
Falo das emoções que me fizeram chorar.
Das lágrimas que chegaram sem da explicação e escorreram pelo rosto quando nenhuma palavra conseguia falar o que estava acontecendo dentro do peito.
Chorei pelo que aconteceu.
Chorei pelo que poderia ter acontecido.
E talvez tenha chorado ainda mais por aquilo que esperei durante tanto tempo e nunca chegou.
Falo também das alegrias que já não tenho mais.
Daquelas manhãs em que a vida parecia mais simples.
Dos risos que enchiam uma casa.
Das conversas sem hora para terminar.
Dos pequenos momentos que, enquanto aconteciam, pareciam comuns, mas que hoje dariam tudo para serem vividos apenas mais uma vez.
É estranho como a vida nos ensina tarde o valor de certas coisas.
Enquanto temos, acreditamos que permanecerão.
Quando perdemos, descobrimos que eram eternas justamente porque terminaram.
E então vem a saudade.
Essa maneira dolorosamente bonita que o coração encontrou de continuar convivendo com aquilo que o tempo levou.
Fecho os olhos e abraço quem já não está aqui.
Não encontro um corpo.
Não sinto o calor dos braços.
Não escuto a voz.
Mas alguma coisa dentro de mim reconhece aquela presença.
E abraço.
Abraço com a memória.
Abraço com a saudade.
Abraço com tudo aquilo que ficou guardado no lugar onde o tempo não consegue entrar.
Talvez seja por isso que algumas pessoas nunca partam completamente.
Elas deixam de morar ao nosso lado e passam a morar dentro de nós.
Continuamos conversando com elas em silêncio.
Continuamos repetindo suas palavras.
Às vezes sorrimos lembrando de alguma coisa que fizeram.
Às vezes choramos porque, por um segundo, esquecemos que não podemos mais chamá-las.
E assim seguimos.
Carregando amores que tivemos e aqueles que apenas imaginamos.
Carregando alegrias que o tempo levou.
Carregando lágrimas que ninguém viu.
Carregando abraços que nossos braços ainda procuram dar.
A vida não é feita somente daquilo que aconteceu.
Também somos feitos daquilo que desejamos, daquilo que perdemos, daquilo que quase aconteceu e até daquilo que jamais tivemos coragem de viver.
Tudo isso permanece.
Porque há sentimentos que não obedecem ao calendário.
Não envelhecem quando envelhecemos.
Não desaparecem quando alguém parte.
Não morrem quando uma história termina.
Eles simplesmente mudam de lugar.
Saem das nossas mãos e vão para a memória.
Saem dos nossos olhos e vão para a saudade.
Saem dos nossos dias e passam a morar dentro do coração.
E talvez viver seja exatamente isso:
aprender que algumas coisas passam…
mas aquilo que verdadeiramente sentimos, de alguma maneira, jamais deixamos de viver.
O Tribunal que Carregamos Dentro de Nós
Você já reparou que explicamos o comportamento dos outros pelo caráter e o nosso próprio pelas circunstâncias?
Quando erramos, quase sempre encontramos uma explicação. Estávamos cansados, preocupados, com problemas demais na cabeça. Foi um dia difícil. Perdemos a paciência porque chegamos ao nosso limite. Respondemos mal porque alguma coisa dentro de nós já vinha doendo havia muito tempo.
Mas quando é o outro quem erra, curiosamente, as circunstâncias desaparecem.
Ele não estava cansado: ele é grosseiro.
Ela não estava passando por um momento difícil: ela é complicada.
Ele não cometeu um erro: ele é irresponsável.
Ela não perdeu a paciência: ela é arrogante.
Para nós, contexto.
Para os outros, caráter.
Talvez exista dentro de cada um de nós um pequeno tribunal onde ocupamos, ao mesmo tempo, lugares muito diferentes. Quando somos os acusados, queremos que todas as provas sejam examinadas, que nossa história seja conhecida, que nossas dores sejam consideradas. Mas quando o outro ocupa o banco dos réus, muitas vezes queremos apenas uma sentença rápida.
É estranho como conhecemos profundamente as razões dos nossos próprios erros e quase nunca conhecemos as razões dos erros alheios.
Sabemos das noites em que não dormimos.
Das preocupações que carregamos.
Das palavras que engolimos.
Das perdas que ninguém percebeu.
Das batalhas que enfrentamos silenciosamente.
Mas do outro conhecemos apenas o instante em que ele cruzou o nosso caminho.
E, ainda assim, julgamos uma vida inteira por alguns minutos.
Talvez seja essa uma das grandes injustiças das relações humanas: queremos ser compreendidos pela nossa história, mas frequentemente compreendemos os outros apenas pelo comportamento que tiveram conosco.
Não significa aceitar tudo.
Compreender não é permitir que alguém nos machuque repetidamente, nem transformar falta de respeito em desculpa. Existem comportamentos que precisam de limites e pessoas das quais precisamos manter distância.
Mas existe uma diferença enorme entre estabelecer um limite e decretar quem alguém é.
Porque uma atitude pode revelar muito sobre uma pessoa, mas nem sempre revela a pessoa inteira.
Talvez devêssemos fazer uma pergunta antes de condenar alguém:
“E se eu conhecesse as circunstâncias?”
Talvez aquele silêncio tivesse uma história.
Talvez aquela impaciência viesse de uma dor.
Talvez aquela distância escondesse uma batalha que nunca nos foi contada.
E talvez, algumas vezes, não houvesse explicação nenhuma capaz de justificar o comportamento.
Ainda assim, a pergunta teria servido para alguma coisa: impedir que nossa primeira impressão se transformasse imediatamente em verdade absoluta.
No fundo, maturidade talvez seja aprender a usar a mesma medida.
Se queremos que considerem nossas circunstâncias antes de julgarem nosso caráter, precisamos oferecer aos outros pelo menos a possibilidade de também possuírem circunstâncias que desconhecemos.
Porque todos nós carregamos capítulos que ninguém leu.
E talvez o mundo se tornasse um pouco mais humano se, antes de escrevermos a sentença sobre alguém, tivéssemos a humildade de admitir:
eu vi o comportamento, mas não conheço a história inteira.
A Inteligência de Perguntar
Ser inteligente não é ter todas as respostas. Talvez seja justamente o contrário: é compreender que nenhuma resposta consegue encerrar completamente uma pergunta.
Há pessoas que passam a vida procurando certezas. Querem saber onde pisar, o que pensar, em quem acreditar e qual caminho seguir. Outras, porém, aprendem que viver também significa caminhar por territórios onde ainda não existem respostas. E são essas pessoas que descobrem que a dúvida, quando nasce da curiosidade, não é sinal de fraqueza. É sinal de uma mente que continua viva.
A verdadeira inteligência talvez comece quando temos coragem de dizer: “Eu não sei, mas quero entender.”
Porque quem acredita que já sabe tudo fecha as portas do próprio pensamento. Quem pergunta deixa uma janela aberta para aquilo que ainda pode aprender.
E aprender não acontece apenas nos livros, nas escolas ou nas grandes conversas. Existe conhecimento escondido na simplicidade dos dias. Na mesma rua percorrida todas as manhãs. No silêncio de alguém que amamos. Na conversa aparentemente sem importância. Nos nossos erros. Nas escolhas que deram certo e, principalmente, naquelas que nos obrigaram a recomeçar.
O curioso vê profundidade onde muitos enxergam apenas repetição.
Talvez por isso duas pessoas possam atravessar exatamente o mesmo dia e voltar para casa carregando experiências completamente diferentes. Uma apenas cumpriu sua rotina. A outra observou, perguntou, sentiu, comparou, duvidou e descobriu alguma coisa que ainda não sabia sobre o mundo ou sobre si mesma.
Existe uma espécie de envelhecimento que não acontece no corpo. Acontece quando deixamos de ter curiosidade. Quando já não perguntamos “por quê?”, “e se?”, “como seria?”, “o que existe depois daqui?”. Nesse momento, mesmo cercados de novidades, começamos a viver apenas daquilo que já conhecemos.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja o quanto sabemos, mas o quanto ainda desejamos descobrir.
Porque conhecimento não é acumular respostas como quem coleciona objetos. É permitir que cada resposta nos conduza a uma pergunta maior.
No fim, a inteligência não está naquele que chegou ao último ponto da estrada. Talvez esteja naquele que, depois de caminhar tanto, ainda consegue olhar para o horizonte com os mesmos olhos curiosos de quem está começando.
E então fica uma pergunta dessas que não precisam ser respondidas depressa:
O quanto você tem se permitido descobrir?
Quando Descobri Que Deus Ainda Me Esperava
Há uma verdade que me acompanha todos os dias.
Quanto mais conheço a bondade de Deus, mais conheço também as minhas fraquezas.
Durante muito tempo imaginei que a maturidade espiritual me impediria de cair.
Hoje sei que não.
Continuo tropeçando.
Continuo errando.
Continuo descobrindo, dia após dia, o quanto ainda preciso da misericórdia de Deus.
Às vezes pensamos no pecado apenas como grandes escolhas erradas.
Mas a vida me ensinou que ele também se esconde nas pequenas coisas.
Numa palavra impensada.
Num julgamento precipitado.
Num orgulho silencioso.
Numa indiferença que machuca.
Num olhar que se afasta daquilo que Deus nos convida a contemplar.
São pequenas escolhas que, pouco a pouco, revelam a fragilidade do coração humano.
Não escrevo isso para condenar ninguém.
Escrevo porque reconheço essa realidade primeiro em mim.
Todos os dias descubro que ainda tenho muito a aprender.
Todos os dias percebo que ainda existe algo em mim que precisa ser transformado.
O mais impressionante, porém, não é a minha fraqueza.
É a paciência de Deus.
Antes mesmo que eu tropece, muitas vezes sinto que Ele já me alerta.
A consciência fala.
O coração percebe.
A verdade se apresenta diante de mim.
Mas, mesmo assim, nem sempre escolho o melhor caminho.
Não porque Deus tenha se calado.
Mas porque, tantas vezes, prefiro ouvir a minha própria vontade.
E, quando finalmente percebo o erro, descubro que Deus não se afastou.
Continua ali.
Esperando.
Chamando.
Acolhendo.
Foi então que compreendi algo que mudou a minha maneira de rezar.
A oração não é apenas um momento para pedir.
É um lugar onde a verdade encontra a misericórdia.
Quando me coloco diante de Deus sem máscaras, reconhecendo aquilo que sou e aquilo que ainda preciso mudar, acontece algo difícil de explicar.
Não escuto uma voz com os ouvidos.
Mas sinto uma paz que nenhuma palavra humana conseguiria produzir.
É como se Deus respondesse ao meu arrependimento com um abraço silencioso.
Há dias em que os olhos se enchem de lágrimas.
Há dias em que apenas um profundo alívio invade a alma.
Não porque eu mereça esse perdão.
Mas porque Deus nunca deixou de amar quem eu ainda estou aprendendo a ser.
Talvez seja esse um dos maiores mistérios da fé.
Quanto mais conheço a minha pobreza espiritual, mais descubro a riqueza da misericórdia de Deus.
E quanto mais descubro Sua misericórdia, menos desejo permanecer no mesmo lugar.
Não mudo por medo.
Procuro mudar porque fui amado.
É por isso que hoje acredito que a oração é uma das maiores dádivas que Deus nos concedeu.
Ela não muda apenas o que dizemos.
Muda o nosso coração.
Cada oração sincera abre uma porta para a graça.
Cada pedido de perdão rompe um pouco do orgulho que nos afasta de Deus.
Cada lágrima derramada diante d’Ele nos lembra que nunca somos fortes o bastante para viver sem Sua presença.
Hoje já não me aproximo de Deus porque me considero digno.
Aproximo-me justamente porque reconheço que preciso d’Ele.
E talvez esta seja uma das mais belas descobertas da minha caminhada:
O perdão de Deus não é uma recompensa para quem nunca caiu.
É um presente oferecido àquele que, depois de cair, encontra coragem para voltar.
Enquanto houver esse caminho de volta, haverá esperança.
E enquanto houver esperança, haverá sempre um Pai esperando por mim de braços abertos.
Entre a Queda e Deus
Quantas vezes pedimos a Deus que nos livre do pecado, enquanto nossos próprios passos continuam procurando os mesmos caminhos?
Pedimos força, mas alimentamos as fraquezas. Pedimos que Ele nos afaste daquilo que nos destrói, mas permanecemos próximos demais daquilo que sabemos que pode nos fazer cair.
Talvez essa seja uma das maiores contradições do ser humano: queremos que Deus mude aquilo que nós mesmos não fazemos esforço para mudar.
Há vícios que não moram apenas nos nossos hábitos. Estão impregnados na pele, escondidos nos pensamentos, acomodados nos desejos e, muitas vezes, profundamente enraizados na alma. Tornam-se tão familiares que começamos a tratá-los como parte de quem somos. Dizemos: “Eu sou assim. Não consigo mudar.”
Mas será que não conseguimos ou simplesmente nos acostumamos a não tentar?
É mais fácil pedir um milagre do que enfrentar a disciplina da mudança.
É mais confortável pedir que Deus retire as pedras do caminho do que aprender a olhar onde colocamos os pés.
E quando caímos novamente, olhamos para o céu e perguntamos: “Deus, por que não me ajudou?”
Talvez Ele tenha ajudado.
Talvez tenha colocado diante de nós a consciência, o discernimento, os sinais e até aquela pequena voz interior dizendo: “Não vá por aí novamente.”
Mas ainda assim fomos.
Deus pode mostrar a porta, mas existem portas que somente nossas mãos podem decidir atravessar.
A fé não deveria servir para retirar de nós a responsabilidade pelas escolhas. Pelo contrário: talvez a verdadeira fé comece justamente quando compreendemos que pedir ajuda a Deus também exige disposição para ajudar a nós mesmos.
Não somos perfeitos.
Caímos.
Erramos.
Repetimos erros que juramos nunca mais cometer.
E talvez o problema não esteja simplesmente em cair, porque a queda também pertence à fragilidade humana. O verdadeiro perigo está em transformar o chão em morada.
Uma queda pode nos humilhar ou nos ensinar.
Pode nos enfraquecer ou nos tornar mais conscientes.
Pode ser apenas mais um erro repetido ou o instante em que finalmente olhamos para dentro e perguntamos: “O que existe em mim que continua me trazendo até aqui?”
É preciso coragem para vigiar os próprios pensamentos.
Coragem para reconhecer nossos desejos antes que se transformem em atitudes.
Coragem para admitir que nem toda culpa pertence ao mundo, às circunstâncias ou a Deus.
Há batalhas que acontecem dentro de nós.
E talvez sejam justamente as mais difíceis.
Por isso, quando cairmos, que não desperdicemos a queda.
Que ela nos ensine alguma coisa.
Que levantemos mais atentos, mais fortes, mais conscientes daquilo que somos e, principalmente, daquilo que ainda precisamos transformar.
E então, sim, olhemos para Deus.
Não apenas pedindo que Ele nos carregue para longe dos nossos erros, mas pedindo sabedoria para reconhecê-los, força para enfrentá-los e humildade para assumir nossas próprias escolhas.
Porque talvez Deus não esteja distante quando caímos.
Talvez sejamos nós que, algumas vezes, desviamos os olhos enquanto caminhamos.
E voltar para Deus pode começar com algo profundamente simples e profundamente difícil:
olhar para dentro de nós mesmos, reconhecer nossos passos e escolher, verdadeiramente, um caminho diferente.
“Crônica do Inferninho”
Eu estava prestes a sair do trabalho quando decidi chamar um Uber para me levar para casa. Assim, poderia relaxar um pouco no caminho de volta, depois de um dia bastante cansativo.
Quando o Uber chegou, entrei no carro e disse:
Boa noite!
O motorista respondeu educadamente:
Boa noite, senhor!
Seguimos em direção à minha casa.
De repente, o motorista me fez uma pergunta:
O senhor não gostaria de passar pelo inferninho antes de chegar em casa?
Respondi imediatamente:
Não, obrigado!
Pouco depois, ele perguntou novamente:
Tem certeza de que não quer passar pelo inferninho antes de ir para casa, senhor?
Tenho! Quero chegar em casa o mais rápido possível!
Mais uma vez, o motorista insistiu:
Tem certeza mesmo de que não quer conhecer o inferninho, senhor?
Já com certa irritação, respondi:
Não! Quero ir para casa. Estou muito cansado e quero descansar.
Mas, novamente, o motorista tocou no assunto:
Tenho certeza de que o senhor vai gostar do inferninho.
Dessa vez, alguma coisa despertou minha curiosidade.
Afinal, o que é esse tal de inferninho?
O motorista respondeu com um sorriso nos lábios:
O senhor precisa ir até lá para conhecer.
E completou:
Quem vai ao inferninho gosta muito.
O senhor não quer ir lá conhecer?
Não! Quero ir para casa, por favor!
respondi, já bastante irritado.
Claro, senhor. Não vou mais falar do inferninho.
Fez-se um silêncio total dentro do carro…
Mas, de repente, fui eu quem ficou com vontade de perguntar:
Onde fica esse inferninho?
O motorista respondeu:
O senhor gostaria de ir até lá?
Mas me diga primeiro: que diabos é esse inferninho?
Ele respondeu:
O senhor precisa ir lá para descobrir.
Você não pode simplesmente me dizer o que é esse inferninho?!
Não. O senhor tem que ir até lá!
exclamou o motorista.
Sério?! Eu tenho mesmo que ir para descobrir o que é?
Com uma voz muito convincente, ele respondeu:
Tenho certeza de que o senhor nunca viu um lugar como o inferninho.
Aquilo aumentou ainda mais a minha curiosidade.
E o motorista completou:
Tenho certeza de que o senhor vai gostar!
Pronto. Minha curiosidade foi parar nas alturas.
Comecei a imaginar que devia ser um lugar cheio de mulheres, muita bebida, música alta… uma verdadeira zona!
Fiquei pensando naquele inferninho durante alguns minutos e, finalmente, perguntei:
Você pode pelo menos me dizer o que tem lá?
O motorista respondeu:
O senhor precisa ver com os próprios olhos. Não posso dizer nada.
Aquilo me deixou com a pulga atrás da orelha.
Que lugar seria aquele? Até o nome era uma tentação! Devia ser bom demais. De repente, até o meu cansaço havia desaparecido.
E agora? O que eu faço???
Minha mulher pensa que estou trabalhando…
Hum…
O que eu faço???
Uma coisa era certa: se eu não fosse conhecer aquele inferninho, aquilo ficaria martelando na minha cabeça pelo resto da vida. Afinal, a curiosidade de um homem que se preze pode ser maior do que qualquer outra coisa!
Mas não.
Não cometi esse erro.
E ponto final!
Está bem falei para o motorista.
Pode me deixar em casa.
E ele me levou.
Mas aquele inferninho ficou na minha cabeça, me perturbando…
E tenho certeza de que ainda vai me perturbar por muito tempo.
Afinal…
Que diabos é esse inferninho???
E você?
Teria ido para casa… ou teria pedido ao motorista para levá-lo ao inferninho?
Aquilo que Só Você Tem
A girafa tem o pescoço longo. A cobra não tem pernas. O polvo carrega oito tentáculos. Aos nossos olhos, são características peculiares; para a natureza, são respostas. Cada espécie encontrou, ao longo do tempo, uma maneira própria de permanecer no mundo. Aquilo que a distingue também participa daquilo que a mantém viva.
Talvez conosco não seja tão diferente.
Passamos boa parte da vida tentando descobrir o que nos falta. Olhamos para o outro e desejamos sua inteligência, sua coragem, sua beleza, sua facilidade de falar, de amar, de vencer. Somos excelentes observadores das qualidades alheias e, muitas vezes, estrangeiros dentro de nós mesmos.
Mas existe uma pergunta mais importante do que “o que me falta?”: o que existe em mim que não poderia existir exatamente da mesma maneira em outra pessoa?
Talvez seu atributo único não seja uma habilidade extraordinária. Talvez seja sua maneira de resistir. A capacidade de continuar quando tudo dentro de você pede descanso. Talvez seja a sensibilidade de perceber aquilo que os outros não percebem, a coragem de fazer perguntas que ninguém quer fazer, a maneira de transformar sofrimento em aprendizado, saudade em palavras, quedas em consciência.
Nem sempre aquilo que nos torna únicos é aquilo de que mais gostamos em nós. Às vezes, passamos anos tentando esconder justamente a característica que a vida pretende usar para nos fortalecer. A girafa poderia lamentar o peso do próprio pescoço sem compreender que é ele que lhe permite alcançar onde outros não chegam. A cobra poderia considerar a ausência de pernas uma deficiência, sem perceber que aprendeu a atravessar o mundo de outra maneira. O polvo não pergunta por que possui oito tentáculos; simplesmente transforma sua peculiaridade em possibilidade.
Nós, porém, fazemos diferente. Comparamos.
E talvez seja aí que começamos a perder nossa singularidade: quando tentamos sobreviver com os atributos dos outros.
A vida não exige que sejamos cópias bem-sucedidas. Ela nos desafia a descobrir para que serve aquilo que recebemos. Até nossas cicatrizes podem carregar uma função. Elas não são apenas lembranças do que nos feriu; também são provas das partes de nós que aprenderam a cicatrizar.
Por isso, talvez a pergunta não seja apenas “qual é o seu atributo único?”
Talvez devamos ir mais fundo:
Você já descobriu aquilo que existe somente em você, ou ainda está ocupado demais desejando aquilo que existe nos outros?
Porque, na natureza, sobreviver nunca significou ser igual.
Significou aprender a transformar a própria diferença em força.
Há Nudezes Que Revelam a Alma
Há nudezes que revelam o corpo,
mas há outras que revelam a alma.
E foi assim quando te vi:
não foi tua pele que me deixou sem palavras,
foi perceber que, diante de mim,
você havia deixado cair
tudo aquilo que nos protege do amor.
Não havia apenas um corpo despido,
havia uma mulher inteira,
com seus silêncios,
seus medos,
suas delicadezas,
seus desejos
e todas as histórias
que teus olhos ainda não haviam me contado.
E eu te olhei
como quem contempla algo sagrado,
não pela perfeição,
mas pela confiança de poder estar ali,
tão perto daquilo
que o mundo jamais conheceria como eu.
Porque amar alguém
é também aprender a olhar.
É tocar sem possuir,
é desejar sem diminuir,
é contemplar sem transformar
a beleza em coisa.
Naquela nudez,
você estava vestida
da coisa mais bonita que alguém pode oferecer:
a confiança.
E talvez tenha sido por isso
que meu coração tremeu.
Porque percebi
que não estava apenas vendo você.
Estava sendo autorizado
a conhecer uma parte tua
que nenhuma roupa poderia esconder
e nenhuma palavra conseguiria explicar.
Teu corpo era poesia,
sim,
mas tua entrega era ainda mais bonita.
Havia versos em tua pele,
mas havia eternidade em teus olhos.
E quando nossos silêncios se encontraram,
compreendi finalmente
que a verdadeira nudez
não acontece quando as roupas caem.
A verdadeira nudez acontece
quando já não temos medo
de sermos vistos por inteiro.
Por isso,
se algum dia me perguntarem
o que encontrei quando te vi assim,
não direi que encontrei
o corpo que tantas vezes imaginei.
Direi apenas:
encontrei tua alma
sem nenhuma defesa diante da minha.
E naquele instante,
eu também me despi
não das roupas,
mas de todos os meus medos
de amar alguém
tão profundamente.
“O Poema Que Nunca Foi Escrito”
Quando vi teu corpo pela primeira vez,
meus olhos ficaram em silêncio,
como se tudo aquilo que imaginei
houvesse esperado uma vida
para finalmente acontecer.
Pensei que jamais teria aquele instante,
que você seria para sempre
um desejo escondido
entre meus sonhos
e minhas impossibilidades.
Mas você estava ali,
tão perto,
tão verdadeira,
tão lindamente humana,
que por alguns segundos
esqueci todas as palavras.
E percebi
que teu corpo era poesia.
Havia versos em tua pele,
rimas escondidas em tuas curvas,
reticências em teus silêncios
e uma história inteira
na delicadeza de você se revelar para mim.
Eu não precisava escrever nada.
Só precisava olhar,
sentir,
e aprender a linguagem
daquele momento.
Porque cada sussurro teu
parecia arrancar uma palavra do silêncio,
cada aproximação escrevia um verso,
e nossos corações,
tão próximos,
pareciam terminar juntos
uma poesia que nenhum de nós
havia começado.
Naquela noite,
não encontrei apenas
o corpo que tantas vezes imaginei.
Encontrei você.
E compreendi que existem poemas
que jamais conhecerão o papel,
porque foram feitos
para serem escritos na memória,
lidos pelo coração
e guardados na alma.
E teu corpo,
naquela primeira vez,
foi o mais belo poema
que meus olhos tiveram
o privilégio de ler.
O Que Está Vivo Agora
O medo imagina o que pode acabar; o amor nos lembra do que está vivo agora.
Talvez uma das maiores contradições de amar profundamente seja esta: quanto mais alguém se torna importante para nós, mais descobrimos que também somos capazes de sentir medo. Não porque o amor seja frágil, mas porque finalmente encontramos alguma coisa que não gostaríamos de perder.
O medo é um viajante apressado. Ele abandona o presente e corre para um futuro que ainda não aconteceu. Inventa distâncias, ensaia despedidas, imagina silêncios, constrói ausências e depois volta para dentro de nós trazendo lágrimas de acontecimentos que talvez nunca existam.
O amor é diferente.
O amor permanece.
Ele olha para o rosto que está diante de nós e diz: “Está aqui.”
Escuta a voz e diz: “Ainda posso ouvi-la.”
Sente o abraço e responde: “Então abrace mais forte.”
O amor não pergunta o tempo inteiro quanto tempo vai durar. Ele pergunta quanto de verdade somos capazes de colocar no instante que temos.
Talvez eu tenha começado a compreender isso justamente agora, quando amar alguém passou a significar tanto para mim. Porque quando o coração encontra alguém que muda nossos planos, nossos pensamentos e até a maneira como imaginamos o amanhã, nasce uma vontade quase impossível de pedir ao tempo: não toque nisso.
Mas o tempo não nos pertence.
Nunca pertenceu.
E talvez seja justamente por isso que o amor seja tão precioso.
Porque amar é segurar uma mão sabendo que não podemos segurar o próprio tempo. É olhar profundamente nos olhos de alguém sem possuir nenhuma garantia sobre o amanhã e, ainda assim, dizer silenciosamente: “Hoje eu escolho você.”
O medo quer garantias.
O amor oferece presença.
O medo pergunta: “E se um dia terminar?”
O amor responde: “Mas por que sofrer pelo fim enquanto ainda estamos vivendo o começo, o meio, o agora?”
Quantas vezes destruímos um momento bonito tentando protegê-lo de uma tristeza que ainda nem chegou?
Quantas vezes deixamos de sentir plenamente um beijo porque nossa cabeça estava ocupada imaginando a possibilidade de um último beijo?
Não quero amar assim.
Não quero transformar aquilo que está vivo em saudade antes da hora.
Se existe amor hoje, quero senti-lo hoje.
Se existe um abraço, quero morar alguns segundos dentro dele.
Se existe um sorriso capaz de mudar meu dia, quero contemplá-lo sem perguntar quando deixarei de vê-lo.
Se existe alguém que fez meu coração reaprender a bater de outra maneira, quero agradecer pela existência desse sentimento em vez de interrogá-lo todos os dias sobre sua eternidade.
Porque talvez o “para sempre” não seja uma quantidade de anos.
Talvez o para sempre seja a profundidade com que determinados momentos permanecem dentro de nós.
Há pessoas que passam décadas ao nosso lado e quase não deixam marcas. Outras chegam inesperadamente e, em pouco tempo, reorganizam nossa alma inteira.
E quando isso acontece, sentimos medo.
Claro que sentimos.
Mas não devemos entregar ao medo a caneta com que escrevemos nossa história.
Que ele fique sentado em algum canto, se precisar.
Que murmure suas dúvidas.
Que invente seus futuros.
Mas que seja o amor a escolher as palavras.
Porque o medo continuará imaginando tudo aquilo que pode acabar.
Enquanto o amor, silenciosamente, continuará apontando para aquilo que está diante de nós e dizendo:
“Olhe.
Sinta.
Abrace.
Ame.
Ainda está vivo.
E é agora.”
“Morada nas Palavras”
Há amores que moram numa casa.
Conhecem o barulho das chaves na porta, o café dividido pela manhã, os pequenos desentendimentos, o silêncio confortável de quem já não precisa dizer nada para permanecer.
E há outros que nunca recebem um endereço.
Não porque tenham sido menores. Talvez justamente porque a vida não lhes concedeu espaço suficiente para acontecer.
Então eles procuram outro lugar para morar.
Uma carta.
Uma página.
Uma frase escrita no meio da madrugada.
Kafka e Milena encontraram esse lugar.
Não tiveram uma vida inteira lado a lado. Tiveram distância, espera, desejo e palavras. Muitas palavras. E talvez cada carta enviada fosse uma tentativa de diminuir alguns quilômetros entre dois corações que a realidade insistia em manter separados.
Há algo profundamente romântico e doloroso nisso.
Quando não podemos tocar alguém, começamos a tocar através das palavras.
Escrevemos “saudade” quando gostaríamos de dizer “fique”.
Escrevemos páginas quando desejaríamos apenas alguns minutos de presença.
E colocamos dentro de um envelope aquilo que os braços não conseguiram alcançar.
Talvez por isso certas cartas de amor sobrevivam tanto tempo.
Elas não guardam apenas aquilo que aconteceu.
Guardam aquilo que poderia ter acontecido.
Os encontros imaginados.
As manhãs que nunca chegaram.
Os abraços adiados.
A vida que permaneceu esperando do outro lado da possibilidade.
E existe saudade até daquilo que nunca vivemos.
Essa talvez seja uma das formas mais misteriosas da saudade: sentir falta de uma vida que nunca chegou a existir.
Kafka e Milena partiram.
As mãos que escreveram aquelas cartas desapareceram. Os olhos que esperavam por elas também.
Mas as palavras ficaram.
Continuaram atravessando anos, fronteiras e gerações até chegarem às mãos de pessoas que eles jamais conheceriam.
Talvez porque algumas palavras se recusem a morrer quando foram escritas com sentimento suficiente.
E penso que certos amores sejam assim.
Não encontram uma casa.
Não encontram o tempo certo.
Às vezes nem sequer encontram um final.
Encontram apenas uma página em branco.
E ali permanecem.
Porque quando a vida não oferece lugar para um amor morar, às vezes resta à palavra abrir a porta.
Crônica baseada no livro Cartas a Milena - Franz Kafka
Meus pensamentos na ideia de Schopenhauer
Aqui fiz uma espécie de conversa minha com Schopenhauer, e não uma negação dele.
A ideia dele permanece como ponto de partida, mas a pergunta muda: se a vontade move o homem, por que alguns possuem muito mais poder para transformar a nossa vontade em realidade do que outros? É aí que a filosofia encontra a política.
“O Mundo com Vontade”
Schopenhauer enxergou no fundo do mundo uma vontade cega: uma força que deseja sem saber exatamente por quê, que alcança uma coisa apenas para desejar outra, condenando o homem à inquietação de nunca estar inteiramente satisfeito. Talvez estivesse certo sobre a vontade. Mas talvez tenha olhado demais para dentro do homem e pouco para o mundo que construímos ao redor dele.
Porque nem toda vontade nasce livre.
Há quem acorde desejando conhecer o mundo e precise primeiro pensar no pão. Há quem tenha vontade de estudar, mas encontre uma porta fechada pelo preço. Há quem sonhe com arte, música, filosofia, literatura, mas tenha suas horas consumidas pela necessidade de sobreviver.
E há quem possa dedicar a vida inteira à procura de si mesmo simplesmente porque outros, em algum lugar, trabalham para sustentar o conforto dessa procura.
Então pergunto: de quem é a vontade que governa o mundo?
A vontade do trabalhador de descansar ou a vontade do capital de produzir mais? A vontade daquele que deseja uma casa ou a daquele que transforma casas em números? A vontade de quem sente fome ou a vontade de quem calcula o preço do alimento?
Talvez o sofrimento humano não venha apenas dessa eterna insatisfação descrita por Schopenhauer. Parte dele nasce de algo muito menos metafísico e muito mais concreto: construímos sociedades em que algumas vontades possuem poder para se realizar enquanto milhões de outras precisam pedir permissão até para existir.
E nisso há uma crueldade silenciosa. Dizemos ao pobre que basta querer. Dizemos ao trabalhador que basta se esforçar. Dizemos ao jovem que basta sonhar. Como se todos começassem a corrida da mesma linha. Como se vontade fosse moeda. Como se esperança pagasse aluguel.
Não paga.
Mas também não acredito que devamos matar a vontade para escapar do sofrimento. Talvez seja justamente o contrário. Precisamos transformar a vontade individual em vontade coletiva.
A vontade de comer deve encontrar a vontade política de acabar com a fome. A vontade de aprender deve encontrar uma escola aberta.
A vontade de viver precisa encontrar dignidade.
A vontade de ser livre precisa significar mais do que escolher aquilo que podemos comprar.
Porque liberdade sem condições para exercê-la corre o risco de ser apenas uma palavra bonita pronunciada por quem nunca precisou escolher entre duas necessidades.
Schopenhauer desconfiava profundamente da esperança. Eu ainda prefiro desconfiar de um mundo que exige desesperança dos que estão embaixo para preservar o conforto dos que estão em cima.
Talvez a humanidade jamais deixe de desejar.
E talvez isso não seja nossa condenação.
Talvez seja nossa possibilidade.
Enquanto houver um homem com vontade de mudar aquilo que lhe disseram ser imutável, haverá política. Enquanto houver vontade de repartir aquilo que foi concentrado, haverá justiça. Enquanto alguém olhar para a miséria de outro ser humano e disser “isso também me diz respeito”, haverá alguma esperança.
O mundo é vontade, sim.
Mas eu acrescentaria uma palavra que Schopenhauer talvez não acrescentasse:
nossa.
Porque o mundo que vale a pena desejar não deveria nascer da vontade de possuir o outro, mas da vontade de não abandonar ninguém.
Minha conversa com Heráclito
Encontrei Heráclito sentado à margem de um rio. Não sei se era o mesmo rio de que tanto falaram depois dele, mas isso pouco importava. A água passava silenciosa, indiferente à nossa presença, levando consigo folhas, reflexos e alguma coisa do tempo.
Sentei-me ao seu lado e perguntei:
— É verdade, Heráclito, que ninguém entra duas vezes no mesmo rio?
Ele olhou para a água antes de responder:
— Olhe para ela. Quando seus olhos voltarem ao mesmo lugar, aquela água já terá partido.
— Então tudo muda?
— Tudo se transforma.
Fiquei algum tempo em silêncio. Depois pensei no mundo que conheço, nas cidades enormes, nos homens trabalhando até o cansaço, na riqueza acumulada em poucas mãos e na pobreza atravessando gerações.
— Se tudo muda — perguntei —, por que algumas injustiças parecem nunca mudar?
Heráclito abaixou os olhos para uma pedra junto aos seus pés.
— Porque mudança não significa justiça.
A resposta me perturbou.
— Então podemos mudar para pior?
— Naturalmente. O rio corre, mas não pergunta ao homem para onde ele deseja chegar.
— Nesse caso, de que nos serve saber que tudo se transforma?
Ele finalmente me olhou.
— Para compreender que aquilo que existe não possui o direito de chamar-se eterno.
Pensei nos impérios. Pensei nos reis. Pensei nos homens que, em diferentes épocas, acreditaram que suas riquezas, suas fronteiras e seus poderes durariam para sempre. Pensei também naqueles que vivem embaixo, sustentando silenciosamente aquilo que outros chamam de ordem.
— Há uma coisa que sempre me incomodou — disse a ele. — Quando uma sociedade produz tanta riqueza, por que alguns possuem tanto e outros precisam lutar pelo mínimo?
Heráclito não respondeu imediatamente.
— Essa pergunta pertence mais ao seu tempo do que ao meu.
— Talvez. Mas a desigualdade é antiga.
— Sim. E exatamente por ser antiga, muitos cometem o erro de imaginá-la natural.
Olhei novamente para o rio.
— Eu não acredito nisso. Não consigo aceitar que a miséria de um homem seja necessária para o conforto de outro.
— Então não aceite.
— Parece simples quando você diz.
— Eu não disse que seria simples.
Sorri.
Heráclito continuou:
— Os homens confundem frequentemente aquilo que existe há muito tempo com aquilo que deve existir para sempre.
A frase ficou dentro de mim.
Talvez seja assim que tantas injustiças sobrevivam. Primeiro tornam-se hábito. Depois tradição. Mais tarde recebem outro nome: normalidade.
E finalmente aparece alguém para dizer que sempre foi assim.
— Mas você dizia que os contrários fazem parte do mundo — provoquei. — Rico e pobre também seriam contrários necessários? Oprimido e opressor? Fome e abundância?
Heráclito franziu a testa.
— Cuidado para não transformar filosofia em desculpa.
Fiquei surpreso.
— Explique.
— Reconhecer que existem tensões entre os contrários não significa declarar justa toda contradição criada pelos homens.
Aquilo me pareceu importante.
Há uma diferença enorme entre compreender o mundo e ajoelhar-se diante dele.
— Então a filosofia também pode ser perigosa?
— Toda ideia pode tornar-se perigosa quando alguém a utiliza para justificar aquilo que não deseja transformar.
O rio continuava passando diante de nós.
Perguntei:
— E o Logos? Essa ordem que você dizia existir por trás das coisas? Onde está essa ordem quando uma criança sente fome diante de uma mesa onde sobra comida?
Heráclito permaneceu em silêncio.
Dessa vez fui eu quem respondeu:
— Talvez aí não exista ordem nenhuma. Talvez exista apenas uma ordem construída pelos homens para favorecer alguns homens.
Ele sorriu discretamente.
— Então você começou a fazer filosofia.
— Porque discordei de você?
— Porque perguntou.
Olhei para minhas mãos.
Talvez a filosofia começasse justamente ali: quando deixamos de aceitar uma resposta simplesmente porque alguém importante a pronunciou há dois milênios.
— Heráclito, eu ainda acredito que o mundo pode ser mais justo.
— Mesmo depois de tudo o que já viu?
— Talvez justamente por causa de tudo o que já vi.
Ele pegou uma pequena pedra e lançou-a no rio.
A água abriu-se por um instante, formou círculos e depois continuou seu caminho.
— Veja — disse ele. — Uma pequena pedra não impede o rio.
— Mas modifica a água.
— Por um instante.
— Às vezes um instante é suficiente para começar alguma coisa.
Heráclito sorriu.
Levantei-me.
Antes de partir, fiz minha última pergunta:
— Se tudo passa, Heráclito, o que devemos fazer enquanto estamos aqui?
Ele olhou novamente para o rio.
Não respondeu.
Talvez porque algumas perguntas precisem permanecer abertas.
Comecei a caminhar e, depois de alguns passos, voltei os olhos para trás. Heráclito continuava sentado diante da água.
Foi então que compreendi alguma coisa que talvez ele nunca tivesse dito:
se o mundo está sempre mudando, nossa responsabilidade não é impedir a mudança.
É disputar a direção dela.
Porque o rio do tempo continuará correndo conosco ou sem nós.
Mas enquanto estivermos em suas margens, ainda podemos decidir que espécie de humanidade desejamos colocar dentro de suas águas.
“Se o mundo está sempre mudando, nossa responsabilidade não é impedir a mudança. É disputar a direção dela.”
HERÁCLITO — A MUDANÇA
Heráclito me mostrou que nada permanece. Somos feitos de passagem, contradição e transformação. Por isso, não temo tanto a mudança. Se tudo muda, aquilo que é injusto também pode mudar e nós podemos participar dessa transformação.
Meu encontro com Espinoza
Encontrei Espinosa em uma pequena sala iluminada pela luz de uma janela.
Sobre a mesa havia algumas lentes, papéis e um livro aberto.
Ele trabalhava em silêncio, como se o mundo lá fora pudesse esperar.
— Espinosa?
Ele levantou os olhos.
— Sim.
— Posso conversar com você?
— Se veio conversar, sim.
Se veio apenas procurar alguém que concorde com você, talvez seja melhor procurar outra pessoa.
Sorri.
— Então encontrei o homem certo.
Sentei-me diante dele.
— Quero começar por Deus.
— Os homens quase sempre começam por Deus quando, na verdade, desejam falar de seus próprios medos.
— Você acredita em Deus?
Espinosa deixou a lente sobre a mesa.
— Depende do Deus sobre o qual está perguntando.
— Do Deus que observa, julga, recompensa e castiga.
— Esse Deus se parece demasiadamente com os homens.
— Então qual é o seu?
Ele apontou para a janela.
— Você ainda pergunta “qual é o meu” como se Deus fosse alguma coisa que eu pudesse possuir.
Olhe para fora.
Olhei.
Havia árvores, céu, algumas pessoas caminhando.
— O que devo ver?
— Tudo.
— Deus?
— Natureza.
— É a mesma coisa?
— Deus ou Natureza. Uma única realidade infinita da qual você também faz parte.
Permaneci em silêncio.
— Então Deus não está olhando para mim?
— Você ainda deseja ser observado?
A pergunta me desconcertou.
— Talvez todos desejemos um pouco.
— Por quê?
— Porque queremos acreditar que alguém sabe que estivemos aqui.
Espinosa sorriu discretamente.
— Então talvez sua pergunta não seja sobre Deus. Talvez seja sobre solidão.
Aquilo me atingiu.
Mudei de assunto.
— Você foi expulso de sua comunidade.
Seu rosto permaneceu tranquilo.
— Fui.
— Não sentiu raiva?
— Naturalmente.
— Ódio?
— O ódio é uma tristeza acompanhada pela ideia de uma causa exterior.
— Isso parece muito filosófico para alguém que acabou de ser rejeitado pelas próprias pessoas.
Ele riu.
— A filosofia não elimina a dor.
— Então para que serve?
— Para que a dor não pense por você.
Fiquei olhando para ele.
Talvez aquela fosse uma das coisas mais difíceis que alguém poderia aprender.
— Espinosa, quero falar sobre liberdade.
— Fale.
— Eu acredito que sou livre.
— Por quê?
— Porque posso escolher.
— Escolher o quê?
— Minha vida. Minhas ideias. Aquilo que quero.
Ele inclinou-se para a frente.
— E você sabe por que quer aquilo que quer?
Parei.
— Nem sempre.
— Então talvez seja menos livre do que imagina.
— Isso é cruel.
— Não. Cruel seria deixá-lo acreditar que uma corrente deixa de ser corrente simplesmente porque você não consegue vê-la.
— Então ninguém é livre?
— Eu não disse isso.
— O que é liberdade para você?
— Compreender.
— Só isso?
— Você acha pouco compreender aquilo que governa seus desejos, seus medos, sua raiva, suas paixões?
Pensei um pouco.
— Mas existe outra coisa, Espinosa.
Não somos determinados apenas por aquilo que existe dentro de nós.
Existe o mundo lá fora.
— Naturalmente.
— Um homem pobre e um homem rico podem possuir a mesma razão, mas não possuem as mesmas possibilidades.
Espinosa ficou em silêncio.
Continuei:
— Não quero uma filosofia que diga ao homem explorado que basta compreender sua exploração para tornar-se livre.
— Nem eu.
— Porque compreender a corrente não necessariamente a quebra.
— Mas é difícil quebrar uma corrente que você sequer reconhece.
Concordei.
— Então primeiro compreendemos?
— E depois agimos.
— Juntos?
— Sempre que a razão nos mostrar que juntos somos mais potentes do que separados.
Chegamos finalmente ao ponto que eu procurava.
— Então você acredita no coletivo?
— Acredito que um homem racional não precisa desejar a fraqueza dos outros para sentir-se forte.
— Isso é quase política.
— Tudo aquilo que diz respeito à maneira como os homens vivem juntos acaba encontrando a política.
— E por que os poderosos usam tanto o medo?
Ele voltou a pegar uma lente.
— Porque o medo diminui a potência do homem.
— E um homem com medo obedece.
— Frequentemente.
— Então uma sociedade pode governar mantendo as pessoas assustadas?
— Pode. Pela religião, pela superstição, pelo inimigo, pela ameaça, pela ignorância.
— E como combatemos isso?
— Pensando.
— Apenas pensando?
Espinosa levantou os olhos novamente.
— Você tem uma estranha impaciência com o pensamento.
— Porque enquanto pensamos há gente sofrendo.
— E enquanto agimos sem pensar também.
Fiquei calado.
Ele tinha razão.
Mas não completamente.
— Pensar não pode virar desculpa para permanecer sentado enquanto existe injustiça.
— Concordo.
— Então precisamos agir.
— Sim.
— Mas agir racionalmente.
— Agora você começa a me compreender.
Olhei novamente pela janela.
— Espinosa, o que é alegria?
Dessa vez ele sorriu de verdade.
— A passagem para uma maior potência de existir.
— Então felicidade não é possuir?
— Você conhece pessoas que possuem muito e vivem miseravelmente?
— Muitas.
— Aí está parte da resposta.
— E amor?
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Alegria acompanhada pela ideia de uma causa exterior.
— Você transforma até o amor em filosofia.
— E vocês transformam filosofia em frases românticas.
Nós dois rimos.
Levantei-me para ir embora.
Antes de sair, voltei-me para ele.
— Tenho uma última pergunta.
— As últimas perguntas costumam ser as primeiras disfarçadas.
— Depois de ter sido rejeitado, condenado e incompreendido, você ainda acredita no homem?
Espinosa olhou para as próprias mãos.
— Eu tento compreendê-lo.
— Isso é acreditar?
— Talvez seja mais difícil.
Caminhei até a porta.
— Espinosa?
— Sim?
— Acho que descobri uma coisa.
— Diga.
— Talvez liberdade não seja simplesmente fazer aquilo que queremos.
Ele esperou.
— Talvez liberdade seja compreender por que queremos, descobrir quem se beneficia dos nossos medos e, depois disso, encontrar outros homens dispostos a construir conosco uma vida em que ninguém precise diminuir para que outro possa sentir-se grande.
Espinosa permaneceu em silêncio.
— Você concorda?
Ele sorriu.
— Por que precisa que eu concorde?
Saí rindo.
Do lado de fora, o mundo continuava cheio de homens convencidos de que eram livres simplesmente porque podiam escolher entre caminhos que outros haviam desenhado para eles.
E pensei que talvez Espinosa tivesse me deixado a pergunta mais incômoda de todas:
quanto daquilo que chamamos de liberdade é realmente nosso?
Talvez a liberdade comece justamente quando temos coragem de investigar essa pergunta.
Não para fugir do mundo.
Mas para compreendê-lo suficientemente bem para não sermos governados pelo medo.
E, quem sabe, transformá-lo.
ESPINOSA — A LIBERDADE
Espinosa me fez desconfiar daquilo que chamo de liberdade. Ser livre não é simplesmente fazer o que quero, mas compreender meus desejos, meus medos e aquilo que tenta governar-me. Quanto mais compreendo, menos o medo decide por mim e mais livre me torno para escolher quem quero ser.
A SABEDORIA DE NÃO DISCUTIR COM O PASSADO
Há batalhas que só terminam quando decidimos não comparecer mais a elas. Talvez uma das mais difíceis seja aquela que travamos contra o passado, esse território imóvel onde nada pode ser acrescentado, retirado ou corrigido. Passamos anos perguntando por que não aconteceu como desejávamos, por que alguém partiu, por que um amor não permaneceu, por que determinada escolha nos levou justamente ao caminho que queríamos evitar. E, enquanto interrogamos aquilo que já não pode responder, esquecemos que a vida continua nos fazendo perguntas sobre o amanhã.
O tempo, porém, possui uma sabedoria silenciosa: ele não apaga necessariamente as dores, mas muda o lugar onde elas habitam dentro de nós. Aquilo que ontem era ferida pode tornar-se memória; aquilo que parecia fracasso pode revelar-se aprendizado; aquilo que julgávamos ser o fim pode ter sido apenas uma curva que ainda não conseguíamos compreender. Por isso, gratidão não significa agradecer por tudo o que nos feriu. Significa reconhecer que, apesar de tudo, atravessamos. Continuamos aqui. E há uma dignidade imensa em continuar. Chega um momento em que precisamos devolver ao passado aquilo que pertence ao passado. Não porque esquecemos, mas porque aprendemos. Não porque deixou de importar, mas porque já cumpriu sua parte em nossa história. Então alguma coisa dentro de nós se torna mais leve. Descobrimos que não precisamos compreender todos os mistérios para continuar caminhando. Algumas respostas talvez nunca cheguem, e ainda assim o sol continuará entrando pela janela, haverá uma manhã esperando por nós e algum sonho ainda desconhecido poderá nascer onde pensávamos que nada mais floresceria. Talvez esperança seja exatamente isso: olhar para tudo aquilo que não aconteceu como queríamos e, mesmo assim, não perder a curiosidade pelo que ainda pode acontecer. Porque o passado escreveu algumas páginas de nossa existência, mas jamais recebeu o direito de escrever sozinho o último capítulo. Enquanto houver amanhã, a vida ainda terá uma palavra a dizer.
QUANDO FRANKL ENCONTROU C. S. LEWIS
Imaginei certa manhã que Viktor Frankl e C. S. Lewis estavam sentados diante de uma velha janela. Do lado de fora, a vida seguia indiferente: pessoas apressadas, folhas levadas pelo vento, alguma coisa começando enquanto outra terminava. Sobre a mesa, apenas duas xícaras de café e uma pergunta antiga demais para pertencer a qualquer um deles: por que continuamos quando a vida dói?
Frankl olhou demoradamente pela janela. Ele conhecia um tipo de sofrimento que poucas palavras seriam capazes de carregar. Tinha visto o homem perder nome, liberdade, família, dignidade e quase tudo aquilo que acreditava possuir. Ainda assim, aprendera que, mesmo quando não podemos escolher nossas circunstâncias, alguma coisa dentro de nós continua procurando uma razão para permanecer.
Lewis permaneceu em silêncio. Também conhecia a dor. Sabia que a fé não impede que o coração se despedace e que acreditar em Deus não significa receber explicações para todas as perdas.
— Talvez — pensei ouvindo aquele silêncio — o sofrimento não faça perguntas sobre aquilo em que acreditamos antes de entrar em nossa casa.
Frankl pareceu concordar.
Para ele, a questão não era perguntar apenas por que a vida havia permitido determinada dor, mas descobrir o que ainda poderia ser feito com a existência depois dela.
Lewis acrescentaria outra inquietação: talvez algumas respostas estejam além daquilo que conseguimos compreender enquanto estamos dentro da própria história.
E então percebi que os dois, apesar de caminharem por estradas diferentes, chegavam perigosamente perto de uma mesma porta.
Frankl chamava aquilo de sentido.
Lewis talvez chamasse de esperança.
Um procurava aquilo que permite ao homem continuar mesmo diante do absurdo da dor. O outro procurava aquilo que existe além daquilo que os nossos olhos conseguem alcançar.
Fiquei pensando nos dois e compreendi uma coisa: talvez a vida nunca tenha prometido explicar-se completamente.
Existem perdas que não compreenderemos.
Existem despedidas para as quais nenhuma filosofia será suficiente.
Existem noites em que até a fé parece falar muito baixo.
Mas talvez viver não seja receber todas as respostas.
Talvez viver seja descobrir uma razão para levantar quando algumas respostas nunca chegam.
Frankl encontrou essa força no sentido.
Lewis encontrou-a também na esperança de que nossa história seja maior do que aquilo que conseguimos enxergar.
E nós?
Talvez estejamos exatamente entre os dois.
Carregando nossas cicatrizes, nossas perguntas, nossos amores e nossas ausências, tentando compreender por que algumas coisas aconteceram e outras jamais acontecerão.
Até percebermos que a pergunta mais importante talvez não seja:
“Por que isso aconteceu comigo?”
Mas:
“O que farei com a vida que ainda permanece em minhas mãos?”
E naquele instante imaginei Frankl olhando para Lewis, Lewis olhando novamente pela janela e nenhum dos dois dizendo mais nada.
Porque algumas perguntas não foram feitas para receber uma resposta.
Foram feitas para nos ensinar a viver.
AMAMOS, MESMO SABENDO QUE UM DIA SERÁ SAUDADE
Talvez uma das maiores coragens humanas seja amar sabendo que podemos perder. Sabemos disso desde o princípio, embora quase nunca tenhamos coragem de dizer em voz alta. Quem chega pode partir. Quem abraçamos hoje talvez amanhã exista apenas na memória. A voz que agora escutamos poderá um dia transformar-se em lembrança, e aquele rosto que conhecemos de olhos fechados talvez passe a habitar somente o território silencioso da saudade. Mesmo assim, amamos.
E talvez seja justamente nisso que o amor revele sua grandeza.
Porque amar nunca foi possuir. Possuir é desejar permanência; amar é compreender a impermanência e, ainda assim, permanecer enquanto for possível. Há uma espécie de loucura consciente no amor: entregamos partes de nós a pessoas que o tempo não prometeu conservar. Construímos casas sabendo que envelhecerão, fazemos planos sabendo que a vida poderá interrompê-los, criamos lembranças sabendo que algumas delas um dia doerão. Beijamos como se houvesse eternidade, embora saibamos que somos feitos de tempo.
E por que fazemos isso?
Porque talvez o contrário da perda não seja a permanência. Talvez seja nunca ter amado.
Quem tenta proteger-se de toda perda precisa proteger-se também de todo vínculo. Para jamais sentir saudade, seria necessário jamais ter alguém de quem sentir falta. Para nunca sofrer uma despedida, seria preciso nunca experimentar verdadeiramente um encontro. Para impedir que o coração se parta, teríamos que impedir também que ele se abrisse. E que espécie de vida seria essa?
Talvez seja por isso que o amor seja tão profundamente humano. Ele não exige garantias para existir. Ama-se sem contrato com o amanhã. Ama-se uma mãe sabendo, ainda que não queiramos pensar nisso, que um dia seu abraço poderá nos faltar. Ama-se um companheiro sabendo que nenhuma promessa pode derrotar completamente o tempo. Amam-se os filhos sabendo que eles crescerão, partirão e construirão caminhos onde talvez já não sejamos presença cotidiana. Amam-se amigos sabendo que a vida espalha pessoas por cidades, distâncias e destinos diferentes. Ainda assim, continuamos dizendo: fique. Venha. Sente-se ao meu lado. Conte-me sobre seu dia.
Isso é extraordinário.
Talvez Viktor Frankl estivesse certo ao perceber no amor uma das grandes possibilidades de sentido da existência. E talvez C. S. Lewis também compreendesse que amar nos torna vulneráveis justamente porque aquilo que realmente importa pode ferir-nos quando desaparece. Não existe amor profundo completamente protegido da dor.
Por isso não considero a saudade uma inimiga do amor.
A saudade é uma de suas consequências.
Só sentimos profundamente a ausência daquilo que um dia teve presença dentro de nós.
E há algo ainda mais difícil de aceitar: às vezes perderemos tudo.
Perderemos juventude, lugares, objetos, certezas, pessoas. Um dia outros entrarão nas casas onde vivemos. Nossos passos desaparecerão dos corredores. Nossos nomes serão pronunciados cada vez menos. O tempo continuará fazendo aquilo que sempre fez: passando.
Mas existe uma pergunta que o tempo não consegue responder por nós:
enquanto tivemos, nós amamos?
Talvez essa seja uma das poucas perguntas verdadeiramente importantes.
Não quanto acumulamos.
Não quanto conseguimos preservar.
Não quantas vezes vencemos.
Mas quanto estivemos presentes enquanto aquilo que amávamos ainda estava diante de nós.
Porque existe uma tragédia maior do que perder: perceber tarde demais que tivemos alguém ao nosso lado e não soubemos estar ali. Guardamos palavras para depois. Adiamos abraços. Economizamos “eu te amo”. Deixamos para amanhã uma conversa que pertencia a hoje, como se tivéssemos recebido alguma garantia secreta de que o amanhã nos seria concedido.
Não recebemos.
E talvez seja justamente por isso que o amor seja urgente.
Não uma urgência desesperada, mas consciente. A consciência de olhar demoradamente para quem amamos. De escutar um pouco mais. De perdoar quando for possível. De dizer aquilo que precisa ser dito enquanto ainda existem ouvidos para ouvir. De abraçar enquanto ainda existem braços capazes de nos devolver o abraço.
Amar é aceitar silenciosamente uma verdade terrível e maravilhosa:
isto pode acabar.
E, em vez de fugir por causa disso, aproximar-se ainda mais.
Talvez a grandeza do amor não esteja em vencer o tempo.
Talvez esteja em dar sentido ao tempo que nos foi dado.
Porque no final talvez percamos muitas coisas que julgávamos nossas.
Mas aquilo que verdadeiramente amamos terá participado daquilo que nos tornamos.
E então compreenderemos que algumas pessoas podem partir de nossas mãos sem jamais partir completamente de nossa existência.
Elas permanecem na maneira como falamos, nas coisas que aprendemos, nos gestos que repetimos sem perceber, nas histórias que contamos, nas músicas que ainda nos comovem, nas palavras que herdamos e até naquele silêncio inexplicável que às vezes chega quando uma lembrança atravessa o coração.
Talvez seja isso que reste quando tudo parece perdido.
Não a posse.
Não a presença.
Mas a transformação.
Amamos alguém e nunca mais somos exatamente a mesma pessoa.
Por isso continuamos amando, mesmo sabendo que um dia poderemos perder aquilo que amamos.
Porque a alternativa seria atravessar esta breve existência intactos, protegidos e vazios.
E talvez a maior derrota de uma vida não seja terminar com o coração marcado pelas pessoas que amamos.
Talvez seja chegar ao fim com o coração perfeitamente inteiro porque nunca tivemos coragem de entregá-lo.
O AMOR NÃO PRECISA SER ETERNO PARA TER SIDO INFINITO
Não amamos porque acreditamos que será eterno; amamos porque, enquanto existe, é verdadeiro. Talvez tenhamos passado tempo demais confundindo amor com permanência, como se somente aquilo que chega até o fim pudesse provar que um dia foi verdadeiro. Mas a vida não funciona assim. Há coisas que duram uma existência inteira e nunca chegam a tocar profundamente a alma, enquanto outras atravessam nossa história por alguns anos, alguns meses, às vezes por um único instante, e deixam dentro de nós uma eternidade.
O tempo mede a duração das coisas, mas não mede a profundidade delas.
Um abraço pode durar segundos e permanecer conosco durante décadas. Uma conversa pode acontecer numa tarde qualquer e mudar para sempre a maneira como enxergamos o mundo. Uma pessoa pode caminhar ao nosso lado apenas durante uma parte da estrada e, mesmo depois de partir, continuar existindo na pessoa que nos tornamos.
Talvez esse seja um dos grandes equívocos humanos: acreditar que o fim de alguma coisa invalida tudo aquilo que veio antes.
Não invalida.
Uma história que terminou não necessariamente foi uma mentira.
Um amor que acabou não necessariamente deixou de ter sido amor.
Uma presença que se transformou em ausência não apaga os dias em que foi companhia.
E uma despedida jamais possui o poder de voltar ao passado e destruir aquilo que foi verdadeiro.
Somos nós que, feridos pelo fim, às vezes tentamos reescrever o começo.
Dizemos: “Se terminou, então nunca valeu a pena.”
Mas talvez tenha valido justamente porque aconteceu.
Talvez o valor de uma experiência não esteja na promessa de permanecer, mas na capacidade de nos transformar enquanto permanece.
A própria vida nos ensina isso o tempo inteiro.
Nenhum pôr do sol permanece no horizonte para provar que foi bonito.
Nenhuma primavera exige eternidade para justificar suas flores.
Nenhuma música precisa tocar para sempre para nos emocionar.
E nós mesmos somos passageiros.
Como poderíamos exigir eternidade justamente daquilo que nasce entre seres feitos de tempo?
Amar, portanto, talvez seja um dos atos mais conscientes de coragem.
É olhar para alguém e, mesmo sem possuir qualquer garantia sobre o amanhã, escolher dizer: hoje estou aqui.
Não porque sei quanto tempo teremos.
Não porque tenho certeza de que nada mudará.
Mas porque aquilo que sinto neste momento é verdadeiro.
E talvez seja isso que torne o amor tão assustador e tão belo.
Quem ama verdadeiramente aceita, mesmo sem perceber, a possibilidade da perda.
Aceita que um dia o abraço poderá faltar.
Que a cadeira poderá ficar vazia.
Que a voz poderá sobreviver apenas na memória.
Que certos lugares poderão doer porque alguém já esteve ali.
Mas ainda assim escolhe amar.
Porque viver tentando evitar toda futura saudade seria também evitar todas as grandes presenças.
E então chegamos ao paradoxo mais bonito do amor:
aquilo que não conseguimos conservar para sempre pode permanecer para sempre dentro de nós.
Há pessoas que partiram e continuam participando de nossas decisões.
Há amores que terminaram e ainda vivem na delicadeza que aprendemos com eles.
Há mãos que já não podemos tocar, mas que continuam, de alguma maneira inexplicável, segurando partes de nossa história.
Talvez a eternidade do amor nunca tenha significado duração.
Talvez signifique consequência.
Signifique poder dizer: “Depois de você, alguma coisa em mim nunca mais voltou a ser como antes.”
Isso é permanecer.
Porque algumas pessoas não ficam em nossas vidas.
Ficam em nós.
E talvez seja por isso que não devemos perguntar apenas quanto tempo um amor durou.
Devemos perguntar o que ele fez conosco enquanto existiu.
Se nos ensinou ternura.
Se nos tornou mais humanos.
Se nos fez conhecer uma parte de nós mesmos que desconhecíamos.
Se houve verdade naquele abraço, naquela espera, naquele cuidado, naquele simples desejo de que o outro estivesse bem.
Se houve, então aconteceu.
Foi real.
Foi nosso.
E nenhum calendário poderá diminuir isso.
Um dia tudo aquilo que hoje seguramos terá que ser solto. Essa é uma das poucas certezas que a existência nos oferece.
Mas até esse dia chegar, temos uma escolha:
podemos passar a vida com medo de perder ou podemos ter coragem de viver profundamente aquilo que ainda temos.
Eu prefiro acreditar na segunda possibilidade.
Porque talvez, no final, a vida não nos pergunte quanto conseguimos conservar.
Talvez apenas nos pergunte:
“Enquanto esteve em suas mãos, você soube amar?”
E se pudermos responder que sim, talvez finalmente compreendamos:
o amor não fracassou porque terminou.
O amor cumpriu sua existência porque, enquanto esteve ali, foi verdadeiro.
ALGUMAS PESSOAS NÃO FICAM EM NOSSAS VIDAS. FICAM EM NÓS.
Há pessoas que o tempo leva, mas não consegue retirar. Elas deixam de ocupar a cadeira, de atravessar a porta, de telefonar no fim do dia, de perguntar se chegamos bem. Um dia percebemos que já não fazem parte da rotina e, no entanto, estranhamente, continuam fazendo parte de nós. É uma das contradições mais bonitas e dolorosas da existência: alguém pode deixar nossa vida sem conseguir deixar aquilo que somos.
Talvez porque presença e permanência sejam coisas diferentes.
Presença é corpo, voz, abraço, convivência. Permanência é aquilo que sobrevive quando tudo isso já não está.
Há pessoas que permanecem durante décadas ao nosso lado e quase não modificam nossa essência. Outras passam por um pequeno trecho de nossa história e deixam marcas tão profundas que, muitos anos depois, ainda encontramos seus vestígios em nossos pensamentos.
Elas ficam numa palavra que aprendemos.
Num conselho que finalmente compreendemos tarde demais.
Numa música que evitamos ouvir porque conhecemos o caminho que ela percorre até chegar ao coração.
Num prato cujo cheiro devolve uma cozinha inteira à memória.
Num jeito de sorrir que, sem perceber, herdamos.
Num gesto que repetimos e de repente pensamos: “Era exatamente assim que aquela pessoa fazia.”
É então que compreendemos:
ninguém permanece apenas nas fotografias.
As pessoas permanecem também naquilo que modificaram em nós.
Talvez seja essa a forma mais misteriosa de continuidade humana.
Somos feitos não apenas de nós mesmos, mas também dos encontros que tivemos.
Carregamos pedaços daqueles que nos ensinaram alguma coisa, daqueles que nos amaram, daqueles que ferimos, daqueles que nos feriram, daqueles que seguraram nossa mão quando o mundo parecia grande demais.
Até algumas despedidas acabam participando da nossa construção.
Porque há pessoas que nos ensinaram pela presença.
E outras que somente conseguimos compreender depois da ausência.
O tempo passa e faz seu trabalho inevitável. Os rostos envelhecem nas fotografias enquanto permanecem jovens em determinadas lembranças. As vozes começam a perder detalhes. Algumas datas escapam. Certas conversas já não conseguimos reconstruir completamente.
E isso assusta.
Tememos esquecer.
Como se esquecer um detalhe significasse perder novamente aquela pessoa.
Mas talvez a memória mais profunda não esteja na capacidade de recordar exatamente o som de uma voz ou a roupa usada numa determinada tarde.
Talvez esteja naquilo que essa pessoa deixou incorporado em nossa maneira de existir.
Se alguém nos ensinou bondade e continuamos sendo bondosos, alguma coisa dela permanece.
Se alguém nos ensinou coragem e um dia encontramos força justamente quando pensávamos não possuir nenhuma, talvez aquela pessoa ainda esteja ali.
Se fomos profundamente amados e, por causa disso, aprendemos a amar melhor, então aquele amor não terminou quando a presença terminou.
Ele mudou de endereço.
Passou a morar em nós.
E talvez seja por isso que algumas ausências doem tanto.
Não choramos apenas porque alguém foi embora.
Choramos porque alguma parte da nossa própria história caminhava naquela pessoa.
Quando ela parte, parece levar consigo uma língua que somente nós dois falávamos, determinadas piadas que ninguém mais compreenderá da mesma maneira, pequenos rituais, apelidos, olhares e silêncios que nunca precisaram de tradução.
Há universos inteiros que existem somente entre duas pessoas.
Quando uma delas parte, a outra torna-se a última guardiã daquele mundo.
Isso é saudade.
Não apenas desejar alguém de volta.
Mas continuar carregando sozinho um lugar que antes era habitado por dois.
Por isso talvez não devamos lutar tanto contra a saudade.
Ela dói, mas também testemunha.
Diz silenciosamente: “Aqui existiu alguém importante.”
E existe dignidade nisso.
Ter amado alguém suficientemente para sentir sua ausência significa que, por algum tempo, duas existências deixaram de ser completamente separadas.
Uma entrou na história da outra.
E depois disso nenhuma despedida consegue desfazer totalmente o encontro.
A vida continuará.
Novas pessoas chegarão.
Outras também partirão.
Nós mesmos um dia seremos ausência na vida de alguém.
E talvez essa seja uma das perguntas mais profundas que podemos fazer enquanto ainda estamos aqui:
o que ficará de nós dentro daqueles que amamos?
Talvez não sejam nossas conquistas.
Talvez ninguém se lembre de quanto trabalhamos, do que possuímos ou de quantas vezes estivemos certos.
Mas alguém poderá lembrar que fomos gentis quando poderia ter sido diferente.
Que ouvimos quando aquela pessoa precisava falar.
Que oferecemos um abraço numa tarde difícil.
Que fizemos alguém rir quando a vida estava pesada.
Que dissemos “eu te amo” enquanto ainda havia tempo.
E então talvez compreendamos que permanecer nunca significou impedir uma despedida.
Permanecer é deixar alguma coisa boa de nós vivendo no outro.
Porque algumas pessoas realmente não ficam em nossas vidas.
O tempo, a distância, as escolhas e a própria morte podem levá-las para lugares onde nossos braços já não conseguem alcançar.
Mas existem lugares aos quais nem o tempo tem acesso.
E quando alguém conseguiu chegar até lá, quando alguém participou profundamente daquilo que nos tornamos, já não importa apenas quanto tempo permaneceu ao nosso lado.
Porque algumas pessoas vão embora da nossa história cotidiana…
mas continuam escrevendo, silenciosamente, dentro de nós.
“O Presságio de Ainda Viver”
A vida é breve, e sabemos disso. Talvez seja justamente essa consciência do efêmero que torne tão urgente a vontade de viver. Não quero atravessar meus dias como quem apenas cumpre uma obrigação silenciosa com o tempo; quero habitá-los, senti-los, experimentá-los até onde minhas possibilidades me permitirem. Trago comigo expectativas, algumas necessárias, outras talvez impossíveis, mas todas nascidas dessa inquietação de quem ainda deseja descobrir o que existe depois da próxima curva.
Hoje trago à vida todas as minhas vontades. Não como exigência arrogante diante do destino, mas como afirmação daquilo que ainda pulsa dentro de mim. Que seja a minha vontade que prevaleça sobre o medo, sobre a hesitação, sobre as conveniências que tantas vezes nos ensinam a desistir antes mesmo de tentar. Durante muito tempo aprendemos a aceitar o inevitável; talvez seja chegada a hora de também aprender a desejar o improvável.
Há em mim pressentimentos que não sei explicar, intuições que aparecem silenciosamente e certos presságios que encontro pelo caminho. Talvez sejam apenas devaneios; talvez sejam o prenúncio de alguma transformação. Não importa. Já não preciso compreender todos os enigmas para continuar caminhando. Algumas respostas somente aparecem depois que temos coragem de viver as perguntas.
A existência é um paradoxo extraordinário: sabemos que somos passageiros e, ainda assim, construímos sonhos como se tivéssemos a eternidade. Amamos sabendo que podemos perder. Começamos sabendo que tudo um dia termina. Guardamos lembranças de momentos efêmeros e descobrimos, com perplexidade, que justamente aquilo que durou tão pouco pode permanecer conosco para sempre.
Por isso não quero desperdiçar meus dias tentando domesticar o inusitado. Quero deixar algum espaço para o acaso, para a surpresa, para aquilo que ainda não possui nome. Quero contemplar uma manhã sem precisar saber como terminará a noite. Quero permitir que a vida me surpreenda e, sobretudo, conservar dentro de mim a capacidade de surpreender a própria vida.
Não desejo uma existência sem melancolia, porque até ela possui sua beleza e sua verdade. Não quero apagar a nostalgia, pois algumas saudades são testemunhas de que verdadeiramente estivemos vivos. Quero apenas que nenhuma delas seja maior que minha vontade de continuar. O passado merece sua morada na memória, mas não lhe darei as chaves do meu futuro.
Há algo de indizível nessa vontade de viver. Talvez porque viver plenamente não possa ser explicado apenas com palavras. É necessário tocar o instante, reconhecer sua sutileza e compreender que cada manhã pode trazer consigo um prenúncio, mas nunca uma garantia. O amanhã continuará sendo um enigma e aceito isso.
Se a vida é breve, que minha presença nela seja intensa. Se o tempo é inevitável, que não encontre em mim apenas resignação. Que encontre curiosidade, desejo, coragem e vontade. Não quero pedir licença ao futuro para desejar aquilo que ainda posso viver.
Hoje, portanto, não faço promessas à eternidade. Faço uma promessa ao instante: enquanto houver caminho, caminharei; enquanto houver desejo, desejarei; enquanto houver alguma coisa capaz de despertar minha perplexidade diante do mundo, continuarei procurando.
E se existir algum presságio nesta manhã, que seja este: ainda há vida diante de mim.
E enquanto houver vida, que prevaleça a minha vontade de vivê-la.
Enquanto Durar a Viagem
Hoje parei um pouco para pensar na vida e percebi uma coisa tão simples quanto assustadora: somos passageiros.
Chegamos sem saber exatamente onde começa a nossa viagem e seguimos sem conhecer a última estação. Entre uma coisa e outra existe esse breve intervalo a que chamamos vida.
E como passa rápido.
Talvez rápido demais para tanta coisa que adiamos.
Passamos por lugares bonitos sem olhar pela janela. Encontramos pessoas extraordinárias e nem sempre percebemos os mistérios que carregam. Economizamos abraços, adiamos palavras, escondemos sentimentos como se tivéssemos recebido a garantia de que haverá outra oportunidade.
Mas ninguém nos prometeu a próxima parada.
Por isso quero viver diferente.
Se sou passageiro, quero aproveitar todas as estações. Quero olhar pela janela. Quero descer quando alguma coisa bonita chamar minha atenção. Quero conhecer pessoas, ouvir histórias, descobrir mistérios e permitir que a vida ainda consiga me surpreender.
Quero sentir tudo aquilo que tenho direito de sentir.
E quero amar aos extremos.
Não quero economizar “eu te amo” para ocasiões especiais. Se eu amar você hoje, quero dizer hoje. Se sentir vontade de abraçar, quero abraçar. Se você me fizer feliz, quero que saiba. Se eu puder provocar seu sorriso, quero fazê-lo. E se conseguir arrancar de você uma daquelas gargalhadas que fazem esquecer por alguns segundos todas as preocupações do mundo, então alguma coisa deste breve passeio já terá valido a pena.
Porque você é minha companheira nesta passagem.
Não sei quantas estações ainda existem diante de nós. Ninguém sabe.
Mas enquanto estivermos no mesmo caminho, quero fazer da sua presença uma celebração.
Quero que você se divirta.
Quero que viva.
Quero que cada momento tenha a dignidade de ser único, justamente porque jamais voltará a acontecer da mesma maneira.
Talvez seja isso que finalmente estou compreendendo:
não precisamos decifrar completamente o amor para vivê-lo.
Podemos inventar nossa própria maneira de amar bonita, vasta, intensa, imperfeita e verdadeira.
Um dia, inevitavelmente, nossa viagem chegará à última parada.
Mas quando esse dia vier, eu não quero olhar para trás lamentando todos os sentimentos que tive medo de viver.
Quero poder dizer:
eu estive aqui.
Eu senti.
Eu amei.
Eu vivi.
E, durante uma parte preciosa dessa breve e misteriosa viagem, tive a felicidade de ter você sentada ao meu lado.
Ainda Bem Que Acordei a Tempo
Há uma canção interpretada por Ney Matogrosso que começa com uma imagem que sempre me impressionou: alguém tem um pesadelo e consegue acordar a tempo.
Hoje fui eu quem teve esse pesadelo.
Sonhei que você estava indo embora.
E naquele instante senti um vazio que não sabia que existia dentro de mim. Vieram sentimentos estranhos, medos que nunca havia experimentado, uma angústia quase sem sentido.
Sem sentido?
Não.
Hoje eu sei que não.
É que me acostumei com você.
Mas não esse acostumar que transforma alguém em rotina e faz sua presença perder o encanto. É justamente o contrário. Acostumei-me a ter você tão profundamente perto de mim que sua existência começou a fazer parte da minha própria maneira de existir.
Você está nos meus pensamentos.
Está naquilo que escrevo, naquilo que sinto, nas decisões que tomo e até nas coisas que observo quando caminho sozinho.
Você se tornou inspiração.
Tornou-se uma espécie de luz nos caminhos que ainda não sei percorrer.
Talvez você nem perceba.
Talvez nem goste de tudo aquilo que escrevo para você. Talvez algumas das minhas palavras pareçam exageradas e alguns dos meus sentimentos grandes demais. E quando tento transformar esse carinho em gestos, você quase nunca aceita.
Então encontrei outro jeito.
Eu escrevo.
Escrevo porque o papel não recua quando meu coração se aproxima.
Escrevo porque existem sentimentos que minhas mãos não conseguem entregar, mas minhas palavras conseguem alcançar.
Escrevo porque, quando não posso colocar alguma coisa diante de você, coloco um pedaço de mim numa frase e deixo ali.
Talvez seja essa a maneira que encontrei de amar você sem invadir o seu espaço: transformando sentimento em palavra.
Por isso aquele pesadelo me assustou tanto.
Não foi simplesmente imaginar você partindo.
Foi imaginar o silêncio que ficaria depois.
Quem estaria nos meus pensamentos?
Para quem eu escreveria aquelas coisas que somente você consegue despertar?
Onde colocaria todas essas palavras que nascem justamente porque você existe?
Então acordei.
E você ainda estava aqui.
Foi quando percebi que alguns pesadelos não chegam para anunciar uma perda. Às vezes, chegam apenas para nos mostrar o tamanho daquilo que temos enquanto ainda temos.
E eu tenho você na minha vida.
Talvez não da maneira que meus sonhos inventam.
Talvez não da maneira que meu coração gostaria algumas vezes.
Mas tenho sua presença, sua importância e tudo aquilo que você desperta em mim.
E isso significa muito.
Por isso, se algum dia você encontrar entre meus papéis tantas palavras falando de amor, não estranhe.
Elas existem porque você existe.
Ainda bem que aquele pesadelo terminou.
Ainda bem que acordei a tempo.
Porque até para transformar um pesadelo em poesia, de algum jeito, eu preciso encontrar você dentro de mim.
Te amo.
O Formato da Alma
Às vezes nos esprememos tanto para caber que esquecemos até o formato da nossa alma.
A alma também tem contornos. Tem lugares onde se alarga, desejos onde respira, sonhos onde encontra espaço para existir. É feita das coisas que amamos, das palavras que acreditamos, das delicadezas que guardamos e até das cicatrizes que aprendemos a carregar.
Mas, quando queremos muito pertencer, começamos a dobrá-la.
Dobramos uma vontade para não desagradar. Escondemos uma verdade para não perder alguém. Encolhemos um sonho para não parecer demais. Silenciamos aquilo que sentimos para continuar cabendo.
E a alma vai cedendo.
Um pouco hoje, outro pouco amanhã.
Até que aquilo que era inteiro começa a viver apertado dentro de nós.
Talvez venha daí um cansaço que o sono não resolve. Não é o corpo pedindo descanso. É a alma cansada de passar os dias numa forma que não é a sua.
Porque há lugares em que não precisamos partir para desaparecer.
Desaparecemos ficando.
Ficamos tanto tempo tentando caber que, quando finalmente conseguimos, já quase não estamos lá.
Mas nem todo lugar foi feito para nos receber.
E não caber não significa ser grande demais, difícil demais ou errado demais. Às vezes significa apenas que aquele espaço nunca teve o tamanho da nossa alma.
Talvez partir, então, não seja desistência.
Talvez seja desdobrar-se.
Devolver à alma cada parte que escondemos, cada sonho que diminuímos, cada verdade que calamos. E permitir que ela, depois de tanto tempo encolhida, volte lentamente ao seu formato original.
Porque existem lugares onde não precisamos diminuir nada para permanecer.
Lugares onde a alma pode chegar inteira.
E talvez pertencer seja exatamente isso:
encontrar onde podemos existir sem precisar desaparecer.
