Meu encontro com Espinoza Encontrei... Silasoliveira13
Meu encontro com Espinoza
Encontrei Espinosa em uma pequena sala iluminada pela luz de uma janela.
Sobre a mesa havia algumas lentes, papéis e um livro aberto.
Ele trabalhava em silêncio, como se o mundo lá fora pudesse esperar.
— Espinosa?
Ele levantou os olhos.
— Sim.
— Posso conversar com você?
— Se veio conversar, sim.
Se veio apenas procurar alguém que concorde com você, talvez seja melhor procurar outra pessoa.
Sorri.
— Então encontrei o homem certo.
Sentei-me diante dele.
— Quero começar por Deus.
— Os homens quase sempre começam por Deus quando, na verdade, desejam falar de seus próprios medos.
— Você acredita em Deus?
Espinosa deixou a lente sobre a mesa.
— Depende do Deus sobre o qual está perguntando.
— Do Deus que observa, julga, recompensa e castiga.
— Esse Deus se parece demasiadamente com os homens.
— Então qual é o seu?
Ele apontou para a janela.
— Você ainda pergunta “qual é o meu” como se Deus fosse alguma coisa que eu pudesse possuir.
Olhe para fora.
Olhei.
Havia árvores, céu, algumas pessoas caminhando.
— O que devo ver?
— Tudo.
— Deus?
— Natureza.
— É a mesma coisa?
— Deus ou Natureza. Uma única realidade infinita da qual você também faz parte.
Permaneci em silêncio.
— Então Deus não está olhando para mim?
— Você ainda deseja ser observado?
A pergunta me desconcertou.
— Talvez todos desejemos um pouco.
— Por quê?
— Porque queremos acreditar que alguém sabe que estivemos aqui.
Espinosa sorriu discretamente.
— Então talvez sua pergunta não seja sobre Deus. Talvez seja sobre solidão.
Aquilo me atingiu.
Mudei de assunto.
— Você foi expulso de sua comunidade.
Seu rosto permaneceu tranquilo.
— Fui.
— Não sentiu raiva?
— Naturalmente.
— Ódio?
— O ódio é uma tristeza acompanhada pela ideia de uma causa exterior.
— Isso parece muito filosófico para alguém que acabou de ser rejeitado pelas próprias pessoas.
Ele riu.
— A filosofia não elimina a dor.
— Então para que serve?
— Para que a dor não pense por você.
Fiquei olhando para ele.
Talvez aquela fosse uma das coisas mais difíceis que alguém poderia aprender.
— Espinosa, quero falar sobre liberdade.
— Fale.
— Eu acredito que sou livre.
— Por quê?
— Porque posso escolher.
— Escolher o quê?
— Minha vida. Minhas ideias. Aquilo que quero.
Ele inclinou-se para a frente.
— E você sabe por que quer aquilo que quer?
Parei.
— Nem sempre.
— Então talvez seja menos livre do que imagina.
— Isso é cruel.
— Não. Cruel seria deixá-lo acreditar que uma corrente deixa de ser corrente simplesmente porque você não consegue vê-la.
— Então ninguém é livre?
— Eu não disse isso.
— O que é liberdade para você?
— Compreender.
— Só isso?
— Você acha pouco compreender aquilo que governa seus desejos, seus medos, sua raiva, suas paixões?
Pensei um pouco.
— Mas existe outra coisa, Espinosa.
Não somos determinados apenas por aquilo que existe dentro de nós.
Existe o mundo lá fora.
— Naturalmente.
— Um homem pobre e um homem rico podem possuir a mesma razão, mas não possuem as mesmas possibilidades.
Espinosa ficou em silêncio.
Continuei:
— Não quero uma filosofia que diga ao homem explorado que basta compreender sua exploração para tornar-se livre.
— Nem eu.
— Porque compreender a corrente não necessariamente a quebra.
— Mas é difícil quebrar uma corrente que você sequer reconhece.
Concordei.
— Então primeiro compreendemos?
— E depois agimos.
— Juntos?
— Sempre que a razão nos mostrar que juntos somos mais potentes do que separados.
Chegamos finalmente ao ponto que eu procurava.
— Então você acredita no coletivo?
— Acredito que um homem racional não precisa desejar a fraqueza dos outros para sentir-se forte.
— Isso é quase política.
— Tudo aquilo que diz respeito à maneira como os homens vivem juntos acaba encontrando a política.
— E por que os poderosos usam tanto o medo?
Ele voltou a pegar uma lente.
— Porque o medo diminui a potência do homem.
— E um homem com medo obedece.
— Frequentemente.
— Então uma sociedade pode governar mantendo as pessoas assustadas?
— Pode. Pela religião, pela superstição, pelo inimigo, pela ameaça, pela ignorância.
— E como combatemos isso?
— Pensando.
— Apenas pensando?
Espinosa levantou os olhos novamente.
— Você tem uma estranha impaciência com o pensamento.
— Porque enquanto pensamos há gente sofrendo.
— E enquanto agimos sem pensar também.
Fiquei calado.
Ele tinha razão.
Mas não completamente.
— Pensar não pode virar desculpa para permanecer sentado enquanto existe injustiça.
— Concordo.
— Então precisamos agir.
— Sim.
— Mas agir racionalmente.
— Agora você começa a me compreender.
Olhei novamente pela janela.
— Espinosa, o que é alegria?
Dessa vez ele sorriu de verdade.
— A passagem para uma maior potência de existir.
— Então felicidade não é possuir?
— Você conhece pessoas que possuem muito e vivem miseravelmente?
— Muitas.
— Aí está parte da resposta.
— E amor?
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Alegria acompanhada pela ideia de uma causa exterior.
— Você transforma até o amor em filosofia.
— E vocês transformam filosofia em frases românticas.
Nós dois rimos.
Levantei-me para ir embora.
Antes de sair, voltei-me para ele.
— Tenho uma última pergunta.
— As últimas perguntas costumam ser as primeiras disfarçadas.
— Depois de ter sido rejeitado, condenado e incompreendido, você ainda acredita no homem?
Espinosa olhou para as próprias mãos.
— Eu tento compreendê-lo.
— Isso é acreditar?
— Talvez seja mais difícil.
Caminhei até a porta.
— Espinosa?
— Sim?
— Acho que descobri uma coisa.
— Diga.
— Talvez liberdade não seja simplesmente fazer aquilo que queremos.
Ele esperou.
— Talvez liberdade seja compreender por que queremos, descobrir quem se beneficia dos nossos medos e, depois disso, encontrar outros homens dispostos a construir conosco uma vida em que ninguém precise diminuir para que outro possa sentir-se grande.
Espinosa permaneceu em silêncio.
— Você concorda?
Ele sorriu.
— Por que precisa que eu concorde?
Saí rindo.
Do lado de fora, o mundo continuava cheio de homens convencidos de que eram livres simplesmente porque podiam escolher entre caminhos que outros haviam desenhado para eles.
E pensei que talvez Espinosa tivesse me deixado a pergunta mais incômoda de todas:
quanto daquilo que chamamos de liberdade é realmente nosso?
Talvez a liberdade comece justamente quando temos coragem de investigar essa pergunta.
Não para fugir do mundo.
Mas para compreendê-lo suficientemente bem para não sermos governados pelo medo.
E, quem sabe, transformá-lo.
ESPINOSA — A LIBERDADE
Espinosa me fez desconfiar daquilo que chamo de liberdade. Ser livre não é simplesmente fazer o que quero, mas compreender meus desejos, meus medos e aquilo que tenta governar-me. Quanto mais compreendo, menos o medo decide por mim e mais livre me torno para escolher quem quero ser.
