Meus pensamentos na ideia de... Silasoliveira13
Meus pensamentos na ideia de Schopenhauer
Aqui fiz uma espécie de conversa minha com Schopenhauer, e não uma negação dele.
A ideia dele permanece como ponto de partida, mas a pergunta muda: se a vontade move o homem, por que alguns possuem muito mais poder para transformar a nossa vontade em realidade do que outros? É aí que a filosofia encontra a política.
“O Mundo com Vontade”
Schopenhauer enxergou no fundo do mundo uma vontade cega: uma força que deseja sem saber exatamente por quê, que alcança uma coisa apenas para desejar outra, condenando o homem à inquietação de nunca estar inteiramente satisfeito. Talvez estivesse certo sobre a vontade. Mas talvez tenha olhado demais para dentro do homem e pouco para o mundo que construímos ao redor dele.
Porque nem toda vontade nasce livre.
Há quem acorde desejando conhecer o mundo e precise primeiro pensar no pão. Há quem tenha vontade de estudar, mas encontre uma porta fechada pelo preço. Há quem sonhe com arte, música, filosofia, literatura, mas tenha suas horas consumidas pela necessidade de sobreviver.
E há quem possa dedicar a vida inteira à procura de si mesmo simplesmente porque outros, em algum lugar, trabalham para sustentar o conforto dessa procura.
Então pergunto: de quem é a vontade que governa o mundo?
A vontade do trabalhador de descansar ou a vontade do capital de produzir mais? A vontade daquele que deseja uma casa ou a daquele que transforma casas em números? A vontade de quem sente fome ou a vontade de quem calcula o preço do alimento?
Talvez o sofrimento humano não venha apenas dessa eterna insatisfação descrita por Schopenhauer. Parte dele nasce de algo muito menos metafísico e muito mais concreto: construímos sociedades em que algumas vontades possuem poder para se realizar enquanto milhões de outras precisam pedir permissão até para existir.
E nisso há uma crueldade silenciosa. Dizemos ao pobre que basta querer. Dizemos ao trabalhador que basta se esforçar. Dizemos ao jovem que basta sonhar. Como se todos começassem a corrida da mesma linha. Como se vontade fosse moeda. Como se esperança pagasse aluguel.
Não paga.
Mas também não acredito que devamos matar a vontade para escapar do sofrimento. Talvez seja justamente o contrário. Precisamos transformar a vontade individual em vontade coletiva.
A vontade de comer deve encontrar a vontade política de acabar com a fome. A vontade de aprender deve encontrar uma escola aberta.
A vontade de viver precisa encontrar dignidade.
A vontade de ser livre precisa significar mais do que escolher aquilo que podemos comprar.
Porque liberdade sem condições para exercê-la corre o risco de ser apenas uma palavra bonita pronunciada por quem nunca precisou escolher entre duas necessidades.
Schopenhauer desconfiava profundamente da esperança. Eu ainda prefiro desconfiar de um mundo que exige desesperança dos que estão embaixo para preservar o conforto dos que estão em cima.
Talvez a humanidade jamais deixe de desejar.
E talvez isso não seja nossa condenação.
Talvez seja nossa possibilidade.
Enquanto houver um homem com vontade de mudar aquilo que lhe disseram ser imutável, haverá política. Enquanto houver vontade de repartir aquilo que foi concentrado, haverá justiça. Enquanto alguém olhar para a miséria de outro ser humano e disser “isso também me diz respeito”, haverá alguma esperança.
O mundo é vontade, sim.
Mas eu acrescentaria uma palavra que Schopenhauer talvez não acrescentasse:
nossa.
Porque o mundo que vale a pena desejar não deveria nascer da vontade de possuir o outro, mas da vontade de não abandonar ninguém.
