Minha conversa com Heráclito Encontrei... Silasoliveira13

Minha conversa com Heráclito


Encontrei Heráclito sentado à margem de um rio. Não sei se era o mesmo rio de que tanto falaram depois dele, mas isso pouco importava. A água passava silenciosa, indiferente à nossa presença, levando consigo folhas, reflexos e alguma coisa do tempo.
Sentei-me ao seu lado e perguntei:
— É verdade, Heráclito, que ninguém entra duas vezes no mesmo rio?
Ele olhou para a água antes de responder:
— Olhe para ela. Quando seus olhos voltarem ao mesmo lugar, aquela água já terá partido.
— Então tudo muda?
— Tudo se transforma.
Fiquei algum tempo em silêncio. Depois pensei no mundo que conheço, nas cidades enormes, nos homens trabalhando até o cansaço, na riqueza acumulada em poucas mãos e na pobreza atravessando gerações.
— Se tudo muda — perguntei —, por que algumas injustiças parecem nunca mudar?
Heráclito abaixou os olhos para uma pedra junto aos seus pés.
— Porque mudança não significa justiça.
A resposta me perturbou.
— Então podemos mudar para pior?
— Naturalmente. O rio corre, mas não pergunta ao homem para onde ele deseja chegar.
— Nesse caso, de que nos serve saber que tudo se transforma?
Ele finalmente me olhou.
— Para compreender que aquilo que existe não possui o direito de chamar-se eterno.
Pensei nos impérios. Pensei nos reis. Pensei nos homens que, em diferentes épocas, acreditaram que suas riquezas, suas fronteiras e seus poderes durariam para sempre. Pensei também naqueles que vivem embaixo, sustentando silenciosamente aquilo que outros chamam de ordem.
— Há uma coisa que sempre me incomodou — disse a ele. — Quando uma sociedade produz tanta riqueza, por que alguns possuem tanto e outros precisam lutar pelo mínimo?
Heráclito não respondeu imediatamente.
— Essa pergunta pertence mais ao seu tempo do que ao meu.
— Talvez. Mas a desigualdade é antiga.
— Sim. E exatamente por ser antiga, muitos cometem o erro de imaginá-la natural.
Olhei novamente para o rio.
— Eu não acredito nisso. Não consigo aceitar que a miséria de um homem seja necessária para o conforto de outro.
— Então não aceite.
— Parece simples quando você diz.
— Eu não disse que seria simples.
Sorri.
Heráclito continuou:
— Os homens confundem frequentemente aquilo que existe há muito tempo com aquilo que deve existir para sempre.
A frase ficou dentro de mim.
Talvez seja assim que tantas injustiças sobrevivam. Primeiro tornam-se hábito. Depois tradição. Mais tarde recebem outro nome: normalidade.
E finalmente aparece alguém para dizer que sempre foi assim.
— Mas você dizia que os contrários fazem parte do mundo — provoquei. — Rico e pobre também seriam contrários necessários? Oprimido e opressor? Fome e abundância?
Heráclito franziu a testa.
— Cuidado para não transformar filosofia em desculpa.
Fiquei surpreso.
— Explique.
— Reconhecer que existem tensões entre os contrários não significa declarar justa toda contradição criada pelos homens.
Aquilo me pareceu importante.
Há uma diferença enorme entre compreender o mundo e ajoelhar-se diante dele.
— Então a filosofia também pode ser perigosa?
— Toda ideia pode tornar-se perigosa quando alguém a utiliza para justificar aquilo que não deseja transformar.
O rio continuava passando diante de nós.
Perguntei:
— E o Logos? Essa ordem que você dizia existir por trás das coisas? Onde está essa ordem quando uma criança sente fome diante de uma mesa onde sobra comida?
Heráclito permaneceu em silêncio.
Dessa vez fui eu quem respondeu:
— Talvez aí não exista ordem nenhuma. Talvez exista apenas uma ordem construída pelos homens para favorecer alguns homens.
Ele sorriu discretamente.
— Então você começou a fazer filosofia.
— Porque discordei de você?
— Porque perguntou.
Olhei para minhas mãos.
Talvez a filosofia começasse justamente ali: quando deixamos de aceitar uma resposta simplesmente porque alguém importante a pronunciou há dois milênios.
— Heráclito, eu ainda acredito que o mundo pode ser mais justo.
— Mesmo depois de tudo o que já viu?
— Talvez justamente por causa de tudo o que já vi.
Ele pegou uma pequena pedra e lançou-a no rio.
A água abriu-se por um instante, formou círculos e depois continuou seu caminho.
— Veja — disse ele. — Uma pequena pedra não impede o rio.
— Mas modifica a água.
— Por um instante.
— Às vezes um instante é suficiente para começar alguma coisa.
Heráclito sorriu.
Levantei-me.
Antes de partir, fiz minha última pergunta:
— Se tudo passa, Heráclito, o que devemos fazer enquanto estamos aqui?
Ele olhou novamente para o rio.
Não respondeu.
Talvez porque algumas perguntas precisem permanecer abertas.
Comecei a caminhar e, depois de alguns passos, voltei os olhos para trás. Heráclito continuava sentado diante da água.
Foi então que compreendi alguma coisa que talvez ele nunca tivesse dito:
se o mundo está sempre mudando, nossa responsabilidade não é impedir a mudança.
É disputar a direção dela.
Porque o rio do tempo continuará correndo conosco ou sem nós.
Mas enquanto estivermos em suas margens, ainda podemos decidir que espécie de humanidade desejamos colocar dentro de suas águas.


“Se o mundo está sempre mudando, nossa responsabilidade não é impedir a mudança. É disputar a direção dela.”

HERÁCLITO — A MUDANÇA
Heráclito me mostrou que nada permanece. Somos feitos de passagem, contradição e transformação. Por isso, não temo tanto a mudança. Se tudo muda, aquilo que é injusto também pode mudar e nós podemos participar dessa transformação.