O Formato da Alma Às vezes nos... Silasoliveira13
O Formato da Alma
Às vezes nos esprememos tanto para caber que esquecemos até o formato da nossa alma.
A alma também tem contornos. Tem lugares onde se alarga, desejos onde respira, sonhos onde encontra espaço para existir. É feita das coisas que amamos, das palavras que acreditamos, das delicadezas que guardamos e até das cicatrizes que aprendemos a carregar.
Mas, quando queremos muito pertencer, começamos a dobrá-la.
Dobramos uma vontade para não desagradar. Escondemos uma verdade para não perder alguém. Encolhemos um sonho para não parecer demais. Silenciamos aquilo que sentimos para continuar cabendo.
E a alma vai cedendo.
Um pouco hoje, outro pouco amanhã.
Até que aquilo que era inteiro começa a viver apertado dentro de nós.
Talvez venha daí um cansaço que o sono não resolve. Não é o corpo pedindo descanso. É a alma cansada de passar os dias numa forma que não é a sua.
Porque há lugares em que não precisamos partir para desaparecer.
Desaparecemos ficando.
Ficamos tanto tempo tentando caber que, quando finalmente conseguimos, já quase não estamos lá.
Mas nem todo lugar foi feito para nos receber.
E não caber não significa ser grande demais, difícil demais ou errado demais. Às vezes significa apenas que aquele espaço nunca teve o tamanho da nossa alma.
Talvez partir, então, não seja desistência.
Talvez seja desdobrar-se.
Devolver à alma cada parte que escondemos, cada sonho que diminuímos, cada verdade que calamos. E permitir que ela, depois de tanto tempo encolhida, volte lentamente ao seu formato original.
Porque existem lugares onde não precisamos diminuir nada para permanecer.
Lugares onde a alma pode chegar inteira.
E talvez pertencer seja exatamente isso:
encontrar onde podemos existir sem precisar desaparecer.
