“Morada nas Palavras” Há amores que... Silasoliveira13

“Morada nas Palavras”

Há amores que moram numa casa.
Conhecem o barulho das chaves na porta, o café dividido pela manhã, os pequenos desentendimentos, o silêncio confortável de quem já não precisa dizer nada para permanecer.
E há outros que nunca recebem um endereço.
Não porque tenham sido menores. Talvez justamente porque a vida não lhes concedeu espaço suficiente para acontecer.
Então eles procuram outro lugar para morar.
Uma carta.
Uma página.
Uma frase escrita no meio da madrugada.
Kafka e Milena encontraram esse lugar.
Não tiveram uma vida inteira lado a lado. Tiveram distância, espera, desejo e palavras. Muitas palavras. E talvez cada carta enviada fosse uma tentativa de diminuir alguns quilômetros entre dois corações que a realidade insistia em manter separados.
Há algo profundamente romântico e doloroso nisso.
Quando não podemos tocar alguém, começamos a tocar através das palavras.
Escrevemos “saudade” quando gostaríamos de dizer “fique”.
Escrevemos páginas quando desejaríamos apenas alguns minutos de presença.
E colocamos dentro de um envelope aquilo que os braços não conseguiram alcançar.
Talvez por isso certas cartas de amor sobrevivam tanto tempo.
Elas não guardam apenas aquilo que aconteceu.
Guardam aquilo que poderia ter acontecido.
Os encontros imaginados.
As manhãs que nunca chegaram.
Os abraços adiados.
A vida que permaneceu esperando do outro lado da possibilidade.
E existe saudade até daquilo que nunca vivemos.
Essa talvez seja uma das formas mais misteriosas da saudade: sentir falta de uma vida que nunca chegou a existir.
Kafka e Milena partiram.
As mãos que escreveram aquelas cartas desapareceram. Os olhos que esperavam por elas também.
Mas as palavras ficaram.
Continuaram atravessando anos, fronteiras e gerações até chegarem às mãos de pessoas que eles jamais conheceriam.
Talvez porque algumas palavras se recusem a morrer quando foram escritas com sentimento suficiente.
E penso que certos amores sejam assim.
Não encontram uma casa.
Não encontram o tempo certo.
Às vezes nem sequer encontram um final.
Encontram apenas uma página em branco.
E ali permanecem.
Porque quando a vida não oferece lugar para um amor morar, às vezes resta à palavra abrir a porta.


Crônica baseada no livro Cartas a Milena - Franz Kafka