silasoliveira13
Eu Te Amo no Silêncio
Eu te amo.
E escolho te amar no silêncio, porque nele meu amor não conhece rejeição.
No silêncio, posso guardar você sem precisar explicar o tamanho do que sinto. Posso dizer seu nome dentro de mim e imaginar todas as palavras que talvez meus lábios jamais tenham coragem de pronunciar.
Prefiro te olhar à distância.
Não porque queira você longe, mas porque de perto seria impossível esconder o que meus olhos certamente entregariam.
Há uma beleza em você que me desarma.
E quando você se aproxima, tudo aquilo que ensaiei esconder perde o sentido. Minha prudência se desfaz, minhas certezas se confundem e meu coração parece esquecer que prometeu permanecer calado.
Por isso fico aqui, nessa distância pequena para os olhos e imensa para quem ama.
Talvez você nunca saiba.
Talvez algum dia perceba.
Mas existe algo estranhamente bonito em amar assim: sem possuir, sem exigir, sem interromper o caminho de quem se ama.
Eu te amo no silêncio porque ali ainda posso ter você sem perder você.
Mas confesso:
há dias em que o silêncio pesa.
Porque todo amor escondido sonha, secretamente, com o instante em que deixará de ser segredo.
E se algum dia você olhar demoradamente para mim, talvez descubra aquilo que minha boca tanto tentou esconder:
eu nunca estive apenas te olhando.
Eu estava te amando.
Enquanto o Mundo Passa
Nem sempre dá para falar de amor. Há sentimentos que perdem um pouco da sua verdade quando tentamos transformá-los em palavras. Eu, pelo menos, prefiro viver o amor.
Prefiro sentir. Abraçar demoradamente, como quem encontrou no corpo do outro um lugar onde o tempo não tem pressa. Sentir o teu calor junto ao meu, ouvir o teu coração bater forte e perceber que o meu, quase sem querer, procura o mesmo compasso.
Amar, para mim, é isso: ter sentimentos que não precisam de explicação, sonhos que começam a pertencer a dois, vontades que encontram abrigo na presença de alguém. É querer estar perto sem precisar de motivo. É olhar para você e esquecer, por alguns instantes, que existe alguma coisa além de nós.
Talvez por isso eu não saiba falar de amor como quem conhece sua definição. Eu conheço o amor pelo toque, pelo abraço, pela saudade que nasce antes mesmo da despedida, pelo desejo silencioso de permanecer.
Não quero entender tudo o que sinto. Algumas coisas bonitas demais se desfazem quando tentamos explicá-las.
Quero apenas você perto.
Quero sentir teu coração contra o meu e deixar que eles conversem na linguagem que somente dois apaixonados compreendem.
E enquanto estivermos assim, que o mundo siga o seu caminho, contando suas horas, inventando suas urgências.
Que ele viva.
Que ele passe.
Porque, quando estou com você, não tenho nenhuma pressa de acompanhá-lo.
A Alma Não Conta os Anos
O corpo envelhece.
As mãos mudam, os passos ficam diferentes, o espelho começa a contar histórias que muitas vezes nem percebemos quando estavam acontecendo.
Mas a alma parece não conhecer calendário.
Ela se lembra.
Lembra das coisas que fizemos, dos lugares por onde passamos, das pessoas que amamos e, principalmente, daquilo que um dia nos fez profundamente felizes.
Talvez seja por isso que algumas lembranças permaneçam tão jovens dentro de nós.
Você fecha os olhos e, por alguns segundos, já não tem a idade que o espelho mostra.
Está correndo outra vez.
Está dançando.
Está apaixonado.
Está rindo com aquelas pessoas.
Está vivendo aquela tarde que desapareceu há décadas, mas que dentro de você continua iluminada.
E há também a nossa sombra.
Essa companheira silenciosa que caminhou conosco quando éramos crianças, quando nos tornamos adultos e que continuará ao nosso lado enquanto houver luz suficiente para projetá-la no chão.
Talvez ela seja testemunha de todas as nossas versões.
O corpo pode cansar.
Os cabelos podem embranquecer.
O tempo pode deixar suas marcas.
Mas existem lugares dentro de nós onde ele jamais consegue chegar completamente.
Ali continuam nossas gargalhadas.
Nossos primeiros amores.
Nossas pequenas loucuras.
As músicas que dançamos.
Os abraços que recebemos.
E todas aquelas coisas simples que um dia fizeram a vida parecer infinita.
Por isso envelhecer não significa deixar para trás quem fomos.
Significa carregar conosco todas as pessoas que já fomos.
E talvez, quando estivermos muito velhos, ainda exista dentro daquele corpo cansado alguém fechando os olhos e sorrindo como antigamente.
Porque o corpo aprende a contar os anos.
A alma prefere contar lembranças.
A Coragem de Amar
Amar, nos dias de hoje, exige coragem.
Porque amar é abrir a porta sabendo que alguém poderá conhecer nossos cômodos mais escondidos. É entregar o coração sem contrato, sem garantia, sem saber exatamente o que o amanhã fará de nós.
E eu tive essa coragem.
Amei profundamente. Entreguei corpo e alma.
Criei raízes nesse amor até já não saber onde terminavam as minhas e começavam as nossas.
São trinta e tantos anos dividindo a vida.
Houve dias de sol e dias difíceis. Houve risos, silêncios, abraços e certamente momentos em que permanecer exigiu mais força do que partir. Mas talvez esteja justamente aí uma das verdades do amor: ele não é feito somente daquilo que é bonito. É feito também da temperança que aprendemos quando duas vidas atravessam juntas as imperfeições do tempo.
Amar alguém por tantos anos não significa viver uma história perfeita.
Significa olhar para tudo o que passou e perceber: ainda estamos aqui.
Por isso digo sem vergonha e sem medo:
eu sou corajoso.
Porque me entreguei.
Porque criei raízes.
Porque permiti que alguém conhecesse profundamente quem eu sou.
E, depois de tantos anos, continuo acreditando que amar vale o risco.
Talvez essa seja uma das maiores coragens que um ser humano pode ter:
saber que o amor nos deixa vulneráveis e, mesmo assim, escolher amar.
Enquanto Você Sonha Comigo
Se a noite me rouba o sono
e me faz na cama virar,
talvez seja o teu pensamento
que veio de longe me buscar.
Talvez enquanto estou acordado,
tentando em vão adormecer,
você esteja em algum sonho
procurando por mim sem saber.
E se for verdade esse encanto,
não quero a noite terminar:
prefiro perder algumas horas de sono
só para, em teus sonhos, ficar.
“O Doce Lugar Onde os Livros Moram”
Eu morava em Macabéa, no Beco dos Milagres, e fique sabendo: Meus Passos Vêm de Longe. Talvez venham de um lugar onde os homens aprendem cedo que a vida é maior do que a estrada que conseguem enxergar e que, para atravessar certas distâncias, basta abrir um livro e aceitar o risco de nunca mais voltar sendo o mesmo.
Foi assim que um dia encontrei Dom Quixote. Vi aquele homem magro levantar sua lança contra os moinhos e compreendi que há uma espécie de dignidade reservada aos que ainda ousam lutar contra aquilo que o mundo inteiro já aceitou. Chamaram-no de louco. Talvez fosse. Mas desde então desconfio que algumas loucuras são apenas sonhos que se recusaram a aprender a linguagem da resignação.
Continuei andando.
Entrei no Grande Sertão: Veredas e descobri que o sertão não termina onde acaba a terra seca. O sertão entra no homem. Tem encruzilhadas, medos, demônios e perguntas que nenhuma estrada responde. Foi ali que encontrei também o Burrinho Pedrês e atravessei Campo Geral, percebendo que Guimarães Rosa sabia uma coisa que poucos sabem: até o silêncio de um bicho pode contar a história inteira de um homem.
Mais adiante encontrei Vidas Secas. E aquelas vidas me ensinaram que a fome também possui linguagem, embora quase nunca tenha voz. Vi homens, mulheres, crianças e uma cachorra atravessando uma terra onde até a esperança parecia precisar economizar água. Depois entrei n’O Cortiço e encontrei outro Brasil: apertado, barulhento, desigual, fervendo de desejos, misérias, preconceitos e sobrevivências. Ali compreendi que algumas casas possuem paredes, enquanto outras possuem destinos.
Mas continuei.
Porque meus passos vêm de longe.
Passei pela Memória do Cárcere e descobri que existem grades capazes de prender o corpo sem conseguir aprisionar o pensamento. E foi talvez por isso que, quando encontrei A Rosa do Povo, compreendi que a poesia também pode nascer no meio do concreto, da guerra, do medo e da injustiça. Há rosas que não foram feitas apenas para perfumar. Algumas nascem para incomodar o mundo.
Carreguei comigo O Livro dos Abraços, porque depois de tantas dores precisava acreditar que a humanidade ainda cabia no gesto de dois braços. Mas Eduardo Galeano não me deixou descansar por muito tempo. Abriu diante de mim As Veias Abertas da América Latina, e eu vi um continente belo sangrando através dos séculos: ouro, prata, terra, suor, povos e sonhos atravessados pela cobiça. Percebi então que há feridas que pertencem a uma pessoa e outras que atravessam gerações inteiras.
Foi nessa caminhada que encontrei O Santo e a Porca e aprendi a rir das contradições humanas, porque Ariano Suassuna sabia que até nossa miséria pode carregar graça, esperteza e uma profunda vontade de continuar vivendo. Depois veio A Cabeça do Santo, lembrando-me de que o extraordinário às vezes escolhe justamente os lugares esquecidos para acontecer.
Mas houve um livro diante do qual precisei diminuir os passos.
O Avesso da Pele.
Porque existem histórias que não pedem apenas leitura. Pedem consciência. Há peles sobre as quais o mundo escreveu violências antes mesmo de perguntar o nome de quem as carregava. E quando viramos essa pele pelo avesso, encontramos memória, identidade, amor, ausência e uma humanidade que tantas vezes tentaram reduzir à aparência.
Então compreendi por que havia caminhado tanto.
Eu não estava procurando o final de nenhuma história.
Estava procurando pedaços de mim.
Um pouco de mim ficou com Dom Quixote diante dos moinhos. Outro atravessou as veredas do grande sertão. Uma parte sentiu sede com as Vidas Secas, outra espiou pela janela d’O Cortiço. Fui prisioneiro por algumas páginas na Memória do Cárcere, segurei A Rosa do Povo entre as mãos, recebi O Livro dos Abraços contra o peito e senti correr diante de mim As Veias Abertas da América Latina.
Ri com O Santo e a Porca. Escutei os mistérios d’A Cabeça do Santo. Toquei, com cuidado, O Avesso da Pele. Atravessei Campo Geral ao lado de um Burrinho Pedrês e, depois de tanta terra, tanta gente, tanta dor e tanta beleza, cheguei aos Contos do Mar sem Fim.
Foi quando finalmente entendi:
eu nunca morei apenas numa casa.
Passei por Macabéa e pelo Beco dos Milagres. Cruzei sertões e veredas, conheci o cortiço e senti de perto as paredes do cárcere. Andei entre santos e porcas, colhi rosas, recebi abraços e encontrei homens, bichos, loucos e retirantes pelo caminho.
No fim, descobri que minha verdadeira morada sempre esteve nas páginas.
E fique sabendo, caso algum dia encontre minhas pegadas entre um livro e outro: meus passos vêm de longe.
Vêm de todos os escritores que me emprestaram seus olhos para que eu pudesse enxergar um pouco além dos meus.
Porque existem livros que a gente lê e coloca de volta na estante.
Mas existem outros que fazem justamente o contrário:
abrem a gente,
entram devagar,
e passam o resto da vida morando em nós.
“existem livros que a gente lê… e outros que passam o resto da vida morando em nós”
A Ilusão de Ser Livre
O ser humano pensa que é livre.
E talvez essa seja uma das ilusões mais elegantes que inventamos para suportar a vida.
Acordamos quando queremos desde que o relógio permita.
Trabalhamos onde escolhemos desde que alguém aceite nossa escolha.
Compramos uma casa e chamamos de nossa, mas continuamos pagando para mantê-la, protegê-la e modificá-la dentro de regras que não escrevemos.
Compramos um carro, mas para conduzi-lo precisamos de licença, registro, impostos, seguro e estradas governadas por leis.
Carregamos no bolso um pequeno universo chamado celular e, enquanto acreditamos possuir o mundo na palma da mão, deixamos pelo caminho rastros de onde estivemos, do que procuramos, do que compramos e até daquilo que desejamos.
Então, onde começa a liberdade?
Talvez tenhamos confundido liberdade com possibilidade.
Somos livres para escolher, mas quase nunca somos livres das consequências da escolha.
Somos livres para partir, mas existem fronteiras.
Livres para falar, mas existem responsabilidades.
Livres para possuir, mas existem obrigações.
Livres para sonhar e talvez seja justamente aí que nenhum sistema consiga nos alcançar completamente.
Porque a verdadeira prisão nem sempre possui grades.
Às vezes ela vem disfarçada de rotina.
De necessidade.
De medo.
De dívida.
De hábito.
De uma vida inteira obedecendo sem perguntar por quê.
E talvez a liberdade também não seja viver sem regras. Uma sociedade sem limites pode transformar a liberdade de um na violência contra o outro. O grande dilema humano é muito mais profundo: quanto de nossa liberdade entregamos para conseguirmos viver juntos e quanto entregamos simplesmente porque nos acostumamos a obedecer?
Nascemos dentro de um mundo que já estava pronto.
As fronteiras já estavam desenhadas.
As leis já estavam escritas.
O dinheiro já tinha valor.
O relógio já determinava as horas.
A propriedade já tinha dono.
E alguém já havia decidido que segunda-feira era dia de trabalhar.
Entramos no palco depois que a peça começou e passamos boa parte da existência seguindo um roteiro que não escrevemos.
Mas existe uma liberdade que começa exatamente quando percebemos isso.
É a liberdade da consciência.
Aquela pequena rebelião silenciosa de perguntar:
Por quê? Para quê? Quem decidiu? Precisa realmente ser assim?
Talvez o homem absolutamente livre nunca tenha existido.
Talvez liberdade não seja romper todas as correntes, porque algumas delas são necessárias para que possamos viver uns com os outros.
Mas existe uma diferença imensa entre aceitar conscientemente um limite e passar a vida inteira sem perceber que ele existe.
No fim, talvez ser livre não seja viver sem sistema, sem lei ou sem obrigação.
Talvez ser livre seja algo mais difícil:
conhecer as paredes que nos cercam e, ainda assim, conservar dentro de nós uma porta que ninguém tenha o direito de fechar.
A Geografia da Perdição
“Eu não me perdi, mas experimentei a perdição.”
(Clarice Lispector)
Talvez exista uma distância imensa entre perder-se e conhecer a perdição. Quem se perde já não sabe para onde vai. Quem experimenta a perdição, porém, pode saber exatamente onde está e, mesmo assim, caminhar por territórios onde a razão aconselharia não entrar.
Viver também pode ser isso: chegar perto do abismo sem fazer dele morada. Conhecer a noite sem desistir da manhã. Provar o gosto amargo de certas escolhas e compreender, muito depois, que algumas cicatrizes não anunciam derrota; apenas testemunham que atravessamos lugares difíceis e conseguimos regressar.
Existem lugares dentro de nós onde não deveríamos morar.
Às vezes damos voz aos nossos medos, oferecemos cadeira às dúvidas e permitimos que determinadas tristezas permaneçam além do necessário. Há dias em que a esperança parece apenas uma palavra inventada para tornar a existência suportável. E, ainda assim, alguma coisa permanece acesa.
Por isso, talvez a frase seja tão poderosa:
Eu não me perdi.
Experimentei a perdição.
Há uma estranha sabedoria nisso. Quem conheceu suficientemente a escuridão talvez compreenda que a luz não serve apenas para iluminar o caminho ela também nos chama de volta.
A vida não exige que atravessemos o mundo intactos. Talvez exija apenas que, depois de cada tempestade, ainda sejamos capazes de reconhecer o nosso próprio nome.
Porque existem viagens das quais regressamos diferentes.
Há quedas que nos ensinam a dimensão da altura.
Há silêncios que nos devolvem a voz.
E existem perdições que, paradoxalmente, acabam revelando um caminho.
Eu não me perdi.
Apenas fui longe o bastante para descobrir onde, dentro de mim, ainda morava a vontade de voltar.
A Estranha Fórmula de Existir
Há pessoas que amam as coisas simples como quem encontra nelas uma explicação para a própria vida. Um gesto pequeno, uma palavra despretensiosa, uma presença que permanece quando todas as grandes certezas já partiram.
Ele, porém, amava a si mesmo com uma paixão profunda, quase enraizada. Talvez porque tenha descoberto cedo que existir também exige essa estranha intimidade conosco: somos, ao mesmo tempo, nossa companhia e nosso enigma.
A existência humana parece obedecer a uma fórmula que ninguém consegue resolver inteiramente. Há nela o inevitável, o incompreensível e aquilo que, por mais que tentemos evitar, acaba nos encontrando.
Talvez por isso observemos os outros de maneira tão imperfeita. Julgamos uma vida inteira pela superfície de um instante. Transformamos pessoas em figuras planas, como personagens de uma antiga pintura, sem perceber as profundidades que existem atrás de seus olhos.
E, no entanto, são justamente as coisas aparentemente triviais que denunciam quem somos.
Há quem consiga descascar uma maçã numa única tira, conduzindo a faca lentamente ao redor do fruto sem interromper o movimento. Parece insignificante. Mas talvez viver seja exatamente isso: tentar atravessar os dias sem romper completamente o fio que nos liga a nós mesmos.
Há também pessoas que desaprenderam a sorrir. Não necessariamente porque lhes falte alegria, mas porque alguma coisa dentro delas se tornou pesada demais para alcançar o rosto.
E continuamos.
Amando.
Observando.
Errando.
Escrevendo.
Tentando dar nome ao que talvez nunca tenha nome.
No final da página aparece uma provocação quase irônica sobre a literatura: “Prosa russa, quantos crimes são cometidos em teu nome!”
Talvez seja uma brincadeira. Talvez seja uma acusação. Talvez seja apenas o escritor lembrando que até as palavras, quando pretendem explicar demais a existência, podem cometer seus pequenos crimes.
Porque a vida não nasceu para caber perfeitamente numa frase.
E talvez esteja justamente aí sua beleza:
existimos sem compreender completamente o que significa existir.
Quando Aprendemos a Enxergar
Há um momento em que os olhos deixam de servir apenas para ver. É quando aprendemos a ler aquilo que não está escrito, a escutar o que não foi pronunciado e a perceber, por trás das aparências, aquilo que insiste em permanecer escondido.
A arte nos ensina esse olhar.
Quando aprendemos a contemplar uma pintura, atravessar um poema, compreender uma música ou reconhecer o silêncio que existe entre duas palavras, alguma coisa dentro de nós abandona a ignorância. Não porque passamos a saber tudo, mas porque finalmente compreendemos o tamanho daquilo que ainda não sabemos.
E talvez seja essa uma das formas mais bonitas de inteligência: não se deixar seduzir facilmente.
Vivemos num tempo em que uma imagem bem construída pode se vestir de verdade. Uma fotografia manipulada pode fabricar felicidade. Uma frase bonita pode esconder o vazio. Um discurso educado pode carregar intenções que somente o pensamento atento consegue perceber.
Por isso, aprender a interpretar a arte é também aprender a interpretar o mundo.
Quem desenvolve sensibilidade começa a desconfiar das aparências perfeitas. Já não se deslumbra com qualquer fotografia cuidadosamente montada, nem entrega sua consciência às frases prontas que circulam como verdades absolutas. Aprende que nem toda beleza contém profundidade, assim como nem toda simplicidade significa pobreza de espírito.
A verdadeira cultura não deveria nos transformar em pessoas arrogantes. Deveria fazer exatamente o contrário: tornar-nos mais difíceis de enganar e mais humildes diante da complexidade da vida.
Porque estudar não é acumular palavras difíceis para impressionar os outros. Estudar é adquirir liberdade para pensar.
E talvez a arte exista justamente para isso: para arrancar os nossos olhos da superfície e nos ensinar que, entre aquilo que vemos e aquilo que realmente existe, há um território imenso chamado consciência.
“A Parte de Mim Que Ninguém Domou”.
Há coisas que não aprendemos. Nascem conosco.
Correm no sangue, misturam-se à água que bebemos, escondem-se em algum lugar profundo onde ninguém consegue chegar para nos dizer quem devemos ser.
Tentaram me ensinar a caber.
A diminuir meus sonhos, moderar meus excessos, domesticar minhas vontades. Disseram que amar também era ceder, que viver ao lado de alguém exigia abandonar algumas partes de nós pelo caminho.
E talvez seja verdade.
Mas ninguém deveria precisar desaparecer para permanecer.
Durante muito tempo, encontrei abrigo onde acreditava estar protegido do mundo. Ali, entre certezas aparentemente indestrutíveis, pensei que pudesse descansar. Pensei que finalmente havia encontrado um lugar onde minha alma não precisaria pedir para existir.
Eu tinha uma mente selvagem.
E gostava dela assim.
Gostava daquela parte de mim que ainda sabia se espantar, que atravessava madrugadas imaginando futuros impossíveis, que acreditava que algumas pessoas poderiam caminhar juntas sem transformar o amor numa gaiola.
Mas o tempo tem uma maneira silenciosa de revelar aquilo que o coração insiste em esconder.
Um dia, acordei na beira de alguma coisa.
Você dormia tranquilamente.
Eu, não.
Você parecia ter todas as respostas.
Eu carregava perguntas demais.
Foi então que compreendi que duas pessoas podem dividir a mesma cama e estar vivendo em mundos completamente diferentes.
Podemos esconder aquilo que não queremos que ninguém descubra.
Podemos fechar as janelas para não ouvir o barulho da rua.
Podemos recolher os pedaços quebrados, colocá-los dentro de uma taça bonita e brindar como se nada tivesse acontecido.
E podemos chamar isso de amor.
Se quisermos.
Mas existe uma pergunta que nenhuma palavra consegue silenciar:
quando foi que amar passou a significar deixar de ser quem éramos?
Talvez o amor verdadeiro não seja aquele que nos doma.
Talvez seja justamente aquele diante do qual podemos permanecer indomáveis e imperfeitos, intensos, inquietos, inteiros.
Porque eu realmente acreditava em um amor sem fim.
Acreditava que nós dois acreditávamos.
E talvez seja essa a parte mais dolorosa de todas:
não descobrir que o amor terminou,
mas descobrir que, enquanto eu ainda acreditava no infinito,
você já havia encontrado o fim.
“Amar Não Foi Minha Culpa”
Há amores que terminam deixando saudade. Outros deixam perguntas.
E talvez as perguntas sejam mais difíceis de carregar, porque a saudade aprende a envelhecer conosco, enquanto uma pergunta sem resposta continua batendo à porta da consciência.
Onde estava a minha culpa?
Foi ter amado demais?
Foi ter chegado sem armadura, colocado o coração sobre a mesa e acreditado que sinceridade seria suficiente?
Porque existe uma estranha crueldade em certos encontros: alguém deseja nossa presença, mas recusa nosso afeto. Quer nossa atenção, mas teme nossa profundidade. Aproxima-se para sentir o calor e depois se afasta quando percebe que o fogo também ilumina aquilo que preferia esconder.
E quem amou fica procurando o próprio crime.
Revira palavras.
Reconstrói noites.
Interroga silêncios.
Procura naquela página branca da memória alguma frase que explique por que aquilo que parecia tão inteiro acabou deixando apenas espaços vazios.
Mas amar profundamente não deveria ser uma confissão de culpa.
O erro talvez não esteja na intensidade do sentimento, mas na ilusão de que todo amor oferecido encontrará do outro lado alguém disposto a recebê-lo com a mesma coragem.
Podemos entregar o corpo sem entregar a alma.
Podemos dividir uma cama sem dividir a verdade.
Podemos pronunciar palavras de amor enquanto escondemos de nós mesmos aquilo que realmente sentimos.
É por isso que a intimidade mais difícil não acontece quando dois corpos se aproximam. Acontece quando duas pessoas conseguem permanecer diante uma da outra sem máscaras.
E poucos suportam essa nudez.
Há quem prefira perder um grande amor a ser obrigado a olhar profundamente para si mesmo.
Então chega o dia em que precisamos parar de perguntar apenas por que alguém foi embora e começar a perguntar quem nos tornamos tentando fazê-lo ficar.
Talvez seja aí que a dor comece a se transformar em consciência.
Não quero uma verdade confortável.
Quero a verdade inteira.
Mesmo que doa.
Mesmo que destrua aquilo em que acreditei.
Mesmo que me obrigue a atravessar sozinho lugares que imaginei atravessar acompanhado.
Porque uma mentira pode oferecer abrigo por algum tempo, mas somente a verdade nos devolve a nós mesmos.
Por isso, se um dia você me mostrar onde ela está, eu caminharei em sua direção.
Não porque ainda espere recuperar aquilo que perdemos, mas porque compreendi que há algo maior do que permanecer ao lado de alguém:
permanecer inteiro diante de si mesmo.
E se ainda me perguntarem onde esteve minha culpa, talvez finalmente eu saiba responder.
Minha culpa não foi amar.
Talvez tenha sido acreditar que amar com todo o coração obrigaria outro coração a fazer o mesmo.
E essa é uma das verdades mais difíceis da existência:
o amor pode ser inteiro dentro de nós e, ainda assim, não ser suficiente para fazer duas pessoas permanecerem.
“Quando a Noite Esquece as Estrelas”
Há momentos em que a vida apaga o céu.
Não necessariamente porque tudo terminou, mas porque nossos olhos, cansados de procurar respostas, já não conseguem distinguir as estrelas.
É então que descobrimos uma verdade incômoda: quase nunca sabemos o quanto dependemos de uma luz até caminharmos pela escuridão.
Passamos boa parte da existência acreditando que somos suficientes. Construímos certezas, defendemos nossa independência, levantamos muros em torno das fragilidades e chamamos isso de força. Mas basta uma ausência, uma distância inesperada, uma noite um pouco mais longa, e percebemos que havia alguém iluminando silenciosamente partes de nós que jamais soubemos iluminar sozinhos.
Talvez seja isso que significa ter uma luz que nos guia.
Não é alguém que conhece o caminho inteiro. Não é alguém que possui todas as respostas.
É simplesmente uma presença diante da qual ainda conseguimos acreditar que existe uma manhã depois da noite.
E existem noites terríveis.
Noites em que voltamos para nós mesmos quebrados, envergonhados pelas escolhas que fizemos, carregando nas mãos os pedaços daquilo que jurávamos ser. Nessas horas, não precisamos necessariamente de alguém que nos salve. Precisamos de alguém que permaneça. Alguém que consiga olhar para nossas ruínas sem confundi-las com aquilo que somos.
Porque o ser humano não é apenas aquilo que conseguiu preservar.
Também somos aquilo que tentamos reconstruir.
Talvez por isso amar seja uma das formas mais difíceis de coragem. Amar alguém é saber que um dia a distância poderá chegar. É compreender que nenhuma promessa consegue impedir completamente a perda. É colocar alguma coisa preciosa demais sobre a mesa sabendo que a vida não oferece garantias.
E, mesmo assim, colocar.
Mas existe também uma advertência silenciosa nisso tudo: não podemos atravessar a existência de braços cruzados esperando que outra pessoa faça nascer o nosso amanhecer. Uma luz pode indicar o caminho, mas nossos pés ainda precisam caminhar.
Há uma espécie de cegueira que não nasce da escuridão, mas da desistência.
Quando paramos de procurar.
Quando deixamos de perguntar.
Quando aceitamos viver apenas daquilo que já sabemos.
Por isso precisamos continuar descobrindo alguma verdade nova, mesmo depois de tantas decepções. Precisamos conservar alguma capacidade de espanto. Talvez envelhecer verdadeiramente não seja acumular anos, mas perder a capacidade de ainda se maravilhar diante de alguém, de uma ideia, de uma manhã ou da possibilidade de começar novamente.
E talvez algumas pessoas atravessem nossa vida justamente para nos lembrar disso.
Elas não eliminam a noite.
Não afastam todas as tempestades.
Não prometem que voltaremos inteiros.
Apenas deixam uma pequena claridade acesa dentro de nós.
E quando tudo parece distante, quando nenhuma estrela permanece visível e quando o mundo inteiro parece ter esquecido o caminho de casa, compreendemos finalmente:
há luzes que enxergamos com os olhos.
E existem aquelas que só reconhecemos depois que o mundo escurece.
São essas que levamos conosco.
Porque algumas pessoas não iluminam simplesmente o nosso caminho.
Elas nos ensinam que, mesmo perdidos na noite, ainda existe dentro de nós alguma coisa procurando pelo amanhecer.
