Escrevo no Nada Ah… escrevo no nada.... Silasoliveira13

Escrevo no Nada

Ah… escrevo no nada.
Talvez porque o nada seja o único lugar onde minhas palavras ainda encontram espaço para existir. Escrevo sem saber se alguém se importa com aquilo que deixo no papel, se alguém algum dia vai parar diante destas linhas e perceber que, entre uma palavra e outra, existe um homem tentando contar aquilo que durante muito tempo não conseguiu dizer.
Apoio em linhas retas todos os meus sentimentos tortos.
E talvez seja isso que chamamos de escrever: tentar organizar no papel aquilo que dentro de nós jamais conheceu ordem. Dar nome ao que doeu. Dar voz ao que ficou calado. Dar um lugar para aquilo que carregamos durante anos sem saber onde colocar.
Falo de palavras que escondem sofrimentos.
Porque nem toda palavra revela. Algumas protegem. Algumas disfarçam. Algumas são apenas cortinas colocadas diante de feridas que ainda não aprendemos a mostrar.
Falo da morte que não tive.
E essa talvez seja uma das frases mais difíceis que já escrevi.
Porque existem mortes que não levam o corpo. Existem despedidas que nos deixam vivos. Existem momentos em que continuamos respirando, caminhando, trabalhando, sorrindo, conversando com as pessoas, enquanto alguma coisa dentro de nós ficou para trás.
Eu não morri.
Mas talvez algumas partes de mim tenham conhecido a morte.
Falo da dor da ausência.
Da cadeira que continua no mesmo lugar quando alguém já não está. Da voz que a memória insiste em repetir. Do abraço que os braços ainda sabem dar, embora já não exista ninguém diante deles para recebê-lo.
Falo…
E paro.
Porque há sentimentos que chegam até a garganta e se recusam a virar palavras.
Há histórias que desejam desesperadamente ser contadas, mas passaram tanto tempo escondidas que aprenderam a ter medo da própria voz.
A minha é uma delas.
Uma história que precisa ser ouvida.
Precisa ser lida.
Não porque seja maior do que a história de ninguém, mas porque foi vivida. E tudo aquilo que verdadeiramente foi vivido merece, pelo menos uma vez, não morrer em silêncio.
Talvez eu tenha passado uma vida inteira querendo ser ouvido, quando também precisava aprender a ouvir.
Ouvir os meus próprios silêncios.
Ouvir aquilo que minhas lágrimas tentaram dizer.
Ouvir o homem que ficou escondido atrás das obrigações, dos sorrisos, das despedidas, das perdas e dos anos.
Talvez eu escreva porque finalmente comecei a escutar aquele que durante tanto tempo deixei sozinho dentro de mim.
Por isso escrevo.
Mesmo quando ninguém lê.
Mesmo quando ninguém pergunta.
Mesmo quando parece que minhas palavras estão sendo lançadas contra uma imensidão indiferente.
Eu escrevo porque algumas histórias não nascem para fazer barulho.
Nascem simplesmente porque não querem morrer.
E então volto para o papel.
Olho novamente para essas linhas retas.
Coloco nelas meus sentimentos tortos, minhas ausências, minhas perguntas, minhas lembranças, meus mortos, meus vivos, aquilo que perdi e aquilo que ainda procuro.
Falo de tudo.
Falo de mim.
Falo daquilo que deveria ter ouvido quando ainda havia tempo.
E, depois de tantas palavras, olho para a página e tenho a estranha sensação de que continuo sem ter dito aquilo que realmente queria dizer.
Então penso:
escrevi tanto…
e talvez ainda não tenha escrito nada.