silasoliveira13
“A Tirania do Ausente”
Sofremos muito com o pouco que nos falta e gozamos pouco o muito que temos. Esta sentença é diagnóstico impiedoso de uma humanidade doente de ingratidão e cega para a própria abundância.
Observe o homem moderno: possui teto, mesa farta, afetos que o cercam, saúde que o sustenta. Mas toda sua atenção está voltada para aquilo que não tem o cargo que não alcançou,
o reconhecimento que não recebeu, o amor que não conquistou, o dinheiro que não acumulou. Caminha sobre tapete de bênçãos sem olhar para baixo, com os olhos fixos no horizonte inalcançável das coisas ausentes.
Schopenhauer tinha razão: somos criaturas da falta perpétua. Não importa quanto possuamos o desejo já está correndo atrás do próximo objeto. Conseguimos o emprego sonhado e imediatamente queremos a promoção. Conquistamos o amor desejado e já olhamos para o que falta nele. Alcançamos a meta e sentimos vazio, porque a meta era apenas desculpa para não apreciar o caminho.
É perversão ontológica: transformamos presença em invisibilidade e ausência em obsessão. O filho saudável que brinca na sala é ignorado enquanto nos torturamos pelo filho que não tivemos.
A comida no prato é engolida sem sabor enquanto invejamos o banquete do vizinho. O presente que temos é desvalorizado pela promessa do futuro que talvez nunca chegue.
E quando finalmente conseguimos aquilo que faltava? Quando o pouco ausente se torna muito presente? Não gozamos. Não celebramos. Apenas deslocamos a falta para outro lugar. Porque não é a coisa que queremos é o querer que viciou nossa alma. Não é a conquista que buscamos é a angústia da busca que nos define.
Epicuro alertou há dois mil anos: aprende a viver com pouco e descobrirás que tens muito. Mas nós, surdos à sabedoria antiga, fazemos o oposto. Temos muito e vivemos como se tivéssemos pouco. Possuímos abundância e sentimos escassez. Somos ricos que vivem na mentalidade da pobreza não de bens, mas de gratidão.
Esta é cobrança que precisa ser feita: você, que reclama do pouco que falta, já agradeceu hoje pelo muito que tens? Você, que sofre pela promoção que não veio, já celebrou o emprego que possui enquanto milhões estão desempregados? Você, que chora pelo amor que terminou, já honrou os que permanecem ao seu lado? Você, que lamenta o que perdeu, já reconheceu o que nunca te foi tirado?
A ingratidão é forma sofisticada de cegueira. Não vemos o que está presente porque nossa visão está intoxicada pelo ausente. É como passar a vida procurando óculos que estão no próprio rosto enquanto procuramos, não enxergamos nada do que está diante de nós.
Marco Aurélio escrevia para si mesmo: “Quando acordares de manhã, pensa no privilégio que tens de estar vivo de respirar, de pensar, de apreciar, de amar.” Mas quantos de nós acordamos pensando nisto? Acordamos já contabilizando faltas, já lamentando ausências, já construindo listas de insatisfações.
Jesus disse: “Não vos inquieteis pelo dia de amanhã.” Mas vivemos perpetuamente inquietos não pelo amanhã apenas, mas por tudo que não temos hoje. Transformamos o presente em sala de espera angustiada pelo futuro. E quando o futuro chega, já estamos olhando para o próximo, numa fuga perpétua do agora.
Existe crueldade nesta escolha porque é escolha. Ninguém nos obriga a sofrer pelo pouco que falta. Escolhemos focar no vazio em vez da plenitude. Escolhemos a ferida pequena em vez da saúde ampla. Escolhemos a sombra fina em vez da luz abundante.
E o mais trágico: este sofrimento autoinfligido não produz nada. Não nos torna melhores. Não melhora nossa situação. Apenas consome a vida que temos enquanto esperamos pela vida que imaginamos merecer. Morremos de sede ao lado do poço, reclamando que não é oceano.
A vida te deu saúde? Agradeça antes de lamentar a beleza que não tens. Te deu família? Celebra antes de chorar pelos que partiram. Te deu trabalho? Honra antes de invejar o trabalho alheio. Te deu hoje? Vive antes de angustiar-te pelo amanhã.
Porque aquilo que tens hoje este corpo que respira, esta mente que pensa, estes olhos que leem estas palavras é exatamente aquilo que alguém que já partiu daria tudo para ter novamente. Tua vida comum é milagre impossível para os que jazem sob a terra.
Então para. Olha ao redor. Conta. Enumera. Lista tudo que tens antes de lamentar o que falta. E descobrirás verdade constrangedora: tens mais do que mereces, mais do que precisas, mais do que percebes.
Sofremos muito com o pouco que nos falta porque escolhemos sofrer. Gozamos pouco o muito que temos porque escolhemos não gozar. E um dia, quando tudo isso que ignoramos hoje nos for tirado, finalmente entenderemos tarde demais que éramos ricos e vivíamos como mendigos.
A cobrança é simples: para de reclamar e começa a agradecer. Para de contar faltas e começa a reconhecer presenças. Para de viver no exílio do que poderia ser e habita a plenitude do que é.
Porque a vida não te deve nada. Mas tu deves à vida o reconhecimento de tudo que ela já te deu.
“A Pedagogia da Derrota”
Ganhar ou perder? A pergunta reverbera através dos corredores da existência humana como um eco persistente, uma interrogação que nos persegue desde o primeiro jogo infantil até o último suspiro.
E nesta encruzilhada aparentemente simples, reside um dos paradoxos mais inquietantes da condição humana: somos ensinados a vencer, mas é o perder que verdadeiramente nos educa.
O ser humano é criatura refratária à derrota. Construímos civilizações inteiras sobre a premissa da vitória, erigimos monumentos aos vencedores, celebramos os triunfadores. A história, dizem, é escrita pelos que vencem. Mas o que não nos dizem é que a sabedoria é forjada pelos que perdem e conseguem, apesar de tudo, permanecer de pé.
Aceitar a perda é exercício de uma complexidade desconcertante. Vai contra todo o instinto de sobrevivência, contra a narrativa que construímos sobre nós mesmos como protagonistas destinados ao sucesso. Quando perdemos, não é apenas um jogo, uma competição ou uma oportunidade que se esvai é um fragmento da nossa própria mitologia pessoal que desmorona. E isso, essa demolição do ego, é insuportável.
Mas aqui reside o paradoxo luminoso: é justamente na perda que habitam as lições mais profundas. Ganhar nos confirma, nos valida, nos mantém confortavelmente instalados nas certezas que já possuíamos. A vitória é espelho que reflete o que queremos ver. A derrota, por outro lado, é vidro estilhaçado que nos obriga a olhar através dos cacos, a enxergar o que preferíamos ignorar.
Aprender a perder é, portanto, uma arte mais refinada que aprender a ganhar. Exige humildade essa virtude tão rara numa época de egos inflados e autopromoção incessante. Exige resiliência a capacidade de ser golpeado e não se deixar destruir. Exige, sobretudo, uma coragem particular: a coragem de olhar para o próprio fracasso sem desviar os olhos, sem buscar culpados externos, sem se refugiar em justificativas confortáveis.
Você saberia perder? A pergunta não é retórica. Saberia erguer-se de uma derrota sem amargor corrosivo? Conseguiria extrair da queda não um trauma, mas um ensinamento? Teria a grandeza de reconhecer que o adversário foi, naquele momento, melhor, mais preparado, mais merecedor e ainda assim não permitir que isso corroa sua autoestima?
A verdade desconfortável é que a maioria de nós não sabe. Perder nos torna defensivos, ressentidos, amargurados. Criamos narrativas alternativas onde fomos traídos pelas circunstâncias, pela injustiça, pela má sorte. Qualquer explicação serve, desde que não precisemos confrontar a possibilidade de que simplesmente não fomos bons o suficiente daquela vez.
Mas os sábios esses raros exemplares da espécie humana que conseguiram transcender o ego compreendem algo fundamental: a derrota é professora mais generosa que a vitória. Ela nos revela nossas fraquezas, expõe nossas ilusões, desmantela nossas arrogâncias. E ao fazer isso, abre espaço para o crescimento genuíno, aquele que não vem da acumulação de troféus, mas da transformação interior.
Talvez devêssemos inverter a equação. Em vez de ensinar as crianças apenas a vencer, deveríamos ensiná-las a perder com dignidade. A levantar-se sem ódio, a reconhecer a derrota sem desmoronar, a entender que fracassar não é tornar-se um fracassado é simplesmente participar da experiência humana em sua totalidade.
Porque a vida, essa competição implacável contra o tempo e contra nossas próprias limitações, garantirá que todos nós, invariavelmente, percamos. Perderemos disputas, oportunidades, pessoas amadas. A questão não é se vamos perder, mas como perderemos. Se desmoronaremos sob o peso da derrota ou se aprenderemos a dança delicada de cair e levantar, de ser derrotado sem ser destruído.
No fim, a vitória mais importante não é sobre adversários externos, mas sobre nossa própria incapacidade de aceitar a imperfeição, a vulnerabilidade, o fracasso. Saber perder é, paradoxalmente, a única vitória que realmente importa. Porque é a única que nos torna, finalmente, inteiramente humanos.
“O Infinito em Fragmentos”
Não quero ser um. Quero ser todos. Quero sentir como o místico sente Deus, como o pagão sente a carne, como o engenheiro sente a precisão dos números. Quero contradizer-me, porque na contradição habita a totalidade. Ser coerente é ser parcial. É escolher uma porta e fechar todas as outras. Eu quero atravessar todas as portas simultaneamente, mesmo que para isso precise me estilhaçar em mil pedaços.
Inventei-me vários. Não por loucura, mas por necessidade metafísica. Como poderia um só homem conter o universo? Como poderia uma só voz cantar todas as canções possíveis? Então fragmentei-me. Fiz de minha ausência de centro a minha obra-prima. Onde outros construíram identidades sólidas como fortalezas, eu construí um arquipélago de ilhas que nunca se tocam mas pertencem ao mesmo oceano.
Há aquele que nega o pensamento e vê apenas o que existe. Há o que exalta os deuses antigos e a beleza sensorial do mundo. Há o engenheiro das palavras, frio e preciso. Há o que escreve mensagens cifradas sobre ocultismo e hermetismo. E há eu, que não sou nenhum deles e sou todos ao mesmo tempo, o maestro invisível de uma orquestra onde cada músico toca uma partitura diferente.
Sentir tudo de todas as maneiras. Não é dispersão. É ambição máxima. É querer ser o universo experimentando a si mesmo. Cada emoção possível, cada pensamento concebível, cada filosofia imaginável - tudo isso precisa ser vivido, sentido, expresso. Não posso me limitar a ser católico ou ateu, monárquico ou republicano, clássico ou moderno. Preciso ser todos esses e seus opostos, porque a verdade não está em nenhum deles mas na soma impossível de todos.
Os outros escrevem o que sentem. Eu sinto o que escrevo. Ou melhor: invento quem sinta o que preciso expressar. É uma fraude? Talvez. Mas é a fraude mais honesta que existe. Porque reconhece que toda identidade é ficção, todo “eu” é personagem, toda coerência é máscara. Eu apenas tive a coragem de admitir que sou teatro, e de fazer desse teatro a minha verdade.
Não tenho biografia. Tenho bibliografias. Não tenho psicologia. Tenho dramaturgia. Minha vida não está nos fatos que vivi mas nas vidas que criei. Enquanto outros buscam encontrar-se, eu me perdi propositadamente em todas as direções possíveis. E nessa perda encontrei algo maior que qualquer identidade individual poderia oferecer.
A unidade do ser é uma prisão confortável. “Conheça-te a ti mesmo”, diziam os gregos. Mas e se não houver um “ti mesmo” para conhecer? E se formos apenas potência pura, possibilidade infinita que se trai cada vez que escolhe uma forma? Preferi não escolher. Ou melhor: escolhi todas as escolhas, habitei todas as possibilidades.
Minha ausência de identidade fixa não é falha. É método. É filosofia encarnada. É a prova viva de que podemos ser mais que nos permitem ser. Que podemos explodir os limites do eu e nos espalhar por todos os eus possíveis. Que podemos fazer da multiplicidade não uma doença, mas uma arte.
Serei lembrado? Talvez. Mas por quem? Pelo sensacionista? Pelo heteronímico? Pelo ortónimo melancólico? Por todos e por nenhum. Porque minha obra não é o que escrevi. Minha obra sou eu - ou melhor, a ausência de mim transformada em constelação de presenças.
Sentir tudo de todas as maneiras. Viver todas as vidas. Morrer todas as mortes. Ser nenhum para poder ser todos.
Esta é a única identidade que aceito: a de não ter nenhuma.
E assim me tornei múltiplo, para que na multiplicidade coubesse o universo inteiro.
Pessoa: o nome perfeito para quem escolheu ser todas as pessoas possíveis.
O amor que não se conta
Há amores que não se anunciam.
Não porque sejam pequenos, mas porque são grandes demais para o barulho do mundo.
Vivem no silêncio confortável do peito, onde ninguém entra sem permissão.
É um amor que se reconhece no instante do encontro.
Quando os olhos veem a amada, o dia muda de tom.
O tempo desacelera.
O coração que fingia normalidade entrega-se sorrindo.
Esse amor é feliz em detalhes.
No jeito como ela caminha,
na curva distraída do riso,
na voz que chega antes da presença.
E quando a noite vem, eu sonho.
Um sonho tão profundo que acordo com o cheiro dela no ar, como se o sonho tivesse atravessado a realidade.
Ninguém sabe.
E talvez seja por isso que eu seja tão inteiro.
Quando estou longe, a saudade não pede licença.
Ela se instala no peito como uma casa antiga,
abre as janelas da memória
e deixa o vento passar por tudo o que foi sentido.
É uma saudade grande, quase física.
Daquelas que apertam o coração sem machucar,
porque doem de amor, não de ausência.
Esse amor não precisa de testemunhas.
Ele existe porque vive.
Porque pulsa.
Porque transforma dias comuns em eternidade breve.
É um amor que não se conta a ninguém.
Mas que conta tudo para quem sente.
Pedras
As pedras nunca perguntam nosso nome.
Elas apenas estão espalhadas no caminho, acumuladas nos bolsos invisíveis da vida, empilhadas no peito quando o dia pesa demais.
Há pedras que tropeçam a gente. Pequenas, traiçoeiras, quase invisíveis. São as palavras mal ditas, os olhares que ferem sem tocar, as ausências que chegam antes da despedida. Outras são enormes, do tamanho de um não definitivo, de um sonho interrompido, de uma porta fechada por dentro.
Aprendi cedo que pedra não escolhe quem encontra. Rico ou pobre, descalço ou de sapato caro, todo mundo tropeça. A diferença está no que se faz depois da queda.
Tem gente que senta na pedra e faz dela morada. Constrói casa de lamento, coloca cortina de desculpa, serve café de amargura. Vive ali, endurecendo junto, confundindo peso com destino.
Mas há quem recolha a pedra com cuidado. Observe seus cantos, sinta sua aspereza, reconheça o machucado que causou e sigui. Algumas viram degraus. Outras, fundação. Algumas, quando lançadas longe, ainda fazem barulho ao cair, como se protestassem contra a própria inutilidade.
As pedras também guardam memória. Sabem onde a gente caiu, onde sangrou, onde quase desistiu. Por isso doem tanto quando reaparecem no mesmo trecho do caminho. Elas lembram: você já esteve aqui.
E mesmo assim, seguimos. Com os pés calejados, com a alma aprendendo a pisar melhor. Porque, no fim, o caminho não é feito só de chão liso. É feito de pedras que nos ensinaram equilíbrio, força e escolha.
Talvez a vida seja isso:
não a ausência de pedras,
mas a arte de decidir
quais carregamos,
quais usamos para subir
e quais deixamos onde estão
para que não sejamos nós
a endurecer primeiro.
Quando o Texto Me Lê
Eu pensei que escrevia
para dizer ao mundo.
Mas escrevo
para escutar
o que ainda não sei.
A palavra sai achando
que sabe o caminho,
desfila segura,
convencida.
Até que eu volto.
Leio.
E o texto me olha de volta.
Ler o que escrevi
é chegar atrasado
a mim mesmo.
Um espelho sem rosto,
só gesto,
só intenção escancarada.
O medo se esconde
em frases longas,
cheias de vírgulas,
com medo do fim.
A coragem aparece
sem alarde,
num verbo simples
que não pede desculpa.
Enquanto escrevo,
defendo ideias.
Quando leio,
negocio com elas.
Descubro palavras
que não eram minhas
apenas passaram.
E verdades pequenas
que se sentaram
e ficaram.
O texto pergunta,
com ironia mansa:
Era isso mesmo?
Às vezes dói reler.
A genialidade de ontem
vira eco vazio hoje.
Outras vezes assusta:
fui eu
que escrevi isso?
Sim.
Fui eu.
Naquele dia.
Com aquele peso.
Com aquela lucidez possível.
O texto não mente:
ele registra o movimento.
Escrever não acaba
no ponto final.
Começa
quando o autor
vira leitor.
Ali,
o texto também escreve.
Aponta.
Ensina.
Cutuca.
Não grita.
Mas fica.
Quem não relê
perde metade da aula.
Porque escrever é falar.
E reler
é escutar.
E quase sempre
é na escuta
que a gente aprende.
No fim,
eu queria ensinar alguém.
Mas o papel, paciente,
me mostrou:
o aluno
era eu.
“A Versão de Mim Que Mora nos Olhos de Quem Me Ama”
Existe uma versão de nós que talvez nunca consigamos conhecer completamente.
Ela não mora no espelho.
Não aparece quando nos examinamos em silêncio.
Não se revela nas noites em que contamos nossos erros, nossas perdas e tudo aquilo que ainda não conseguimos ser.
Essa versão mora nos olhos de quem nos ama.
É curioso: passamos a vida inteira dentro de nós mesmos e, ainda assim, talvez sejamos as pessoas menos imparciais para dizer quem somos.
Conhecemos demais as nossas fraquezas.
Sabemos onde escondemos nossos medos, lembramos das palavras que gostaríamos de retirar, das oportunidades que desperdiçamos, das promessas que fizemos a nós mesmos e não cumprimos.
Carregamos os bastidores da própria existência.
Os outros, porém, muitas vezes enxergam o palco.
Enquanto eu me lembro das vezes em que quase desisti, alguém se lembra de que continuei.
Enquanto eu me condeno por ter sentido medo, alguém me considera corajoso justamente porque me viu caminhar apesar dele.
Enquanto eu penso que fiz tão pouco, talvez exista alguém guardando na memória uma palavra minha que chegou exatamente quando precisava.
E talvez seja essa uma das maiores ironias da existência:
somos capazes de transformar a vida de alguém sem perceber que fizemos isso.
Há pessoas que carregam uma versão nossa muito mais bonita do que aquela que carregamos dentro de nós.
Não porque estejam cegas.
O amor verdadeiro não é cegueira.
Talvez seja justamente o contrário.
Amar alguém é enxergar suas imperfeições e, ainda assim, não reduzir essa pessoa a elas.
Nós fazemos isso conosco o tempo inteiro: pegamos um erro e transformamos em identidade.
“Eu fracassei” lentamente se transforma em “eu sou um fracasso”.
“Eu tive medo” transforma-se em “eu sou covarde”.
“Eu não consegui” transforma-se em “eu não sou capaz”.
É assim que a consciência, quando ferida, falsifica nossa própria biografia.
Esquecemos todas as páginas e ficamos relendo justamente aquela em que caímos.
Mas quem nos ama talvez esteja lendo o livro inteiro.
Lembra-se das vezes em que fomos generosos quando ninguém estava olhando.
Das vezes em que permanecemos quando seria mais fácil partir.
Das pequenas bondades que nós mesmos esquecemos.
Das batalhas que vencemos sem comemorar.
Dos dias em que achávamos que estávamos apenas sobrevivendo, mas alguém, olhando de fora, enxergava coragem.
Talvez por isso existam momentos em que precisamos cometer um pequeno ato de humildade:
emprestar os olhos de alguém.
Quando nossa visão estiver turva, quando a tristeza diminuir aquilo que somos, quando a culpa exagerar aquilo que fizemos, talvez seja necessário perguntar silenciosamente:
Como me enxergaria alguém que verdadeiramente me ama?
Não para alimentar o ego.
Não para fugir das nossas responsabilidades.
Mas para recuperar a proporção das coisas.
Porque humildade não significa pensar menos de si.
Significa também não se condenar injustamente.
Às vezes acreditamos que conhecer a nós mesmos significa conhecer nossas sombras.
Mas conhecer-se verdadeiramente é ter coragem de reconhecer também a própria luz.
E essa talvez seja a parte mais difícil.
Aceitamos facilmente quando alguém aponta nossos defeitos, mas desconfiamos quando alguém reconhece nossa beleza.
Talvez porque exista dentro de nós um juiz muito antigo, acostumado a recolher provas contra nós mesmos.
Por isso, quando alguém disser:
“Você é mais forte do que imagina.”
Talvez não seja necessário responder imediatamente:
“Você não me conhece.”
Talvez conheça.
Talvez conheça uma parte sua que você perdeu de vista.
Talvez tenha testemunhado sua coragem justamente nos momentos em que você acreditava estar apenas tentando sobreviver.
Talvez tenha encontrado generosidade em gestos que para você pareciam pequenos.
Talvez enxergue possibilidades onde você só consegue enxergar limites.
Existe uma versão de você vivendo na memória das pessoas que você tocou.
Uma versão feita das palavras que ficaram depois que você foi embora, dos abraços que chegaram na hora certa, das conversas que impediram alguém de desistir, das risadas que tornaram determinado dia suportável.
Você talvez nunca conheça completamente essa pessoa.
Mas ela existe.
E haverá dias em que o espelho não será suficiente.
Dias em que a nossa própria consciência estará coberta pela neblina das decepções, do cansaço ou das culpas.
Nesses dias, talvez não seja fraqueza pedir emprestado o olhar daqueles que nos amam.
Às vezes precisamos enxergar a nós mesmos através de outros olhos até que os nossos voltem a reconhecer quem somos.
Porque talvez exista uma verdade muito simples escondida nisso tudo:
há pessoas que acreditam em nós não porque desconhecem nossas fraquezas, mas porque conheceram algo em nós que nossas fraquezas jamais conseguiram destruir.
E, algumas vezes, acreditar no amor de alguém também significa acreditar que aquilo que essa pessoa enxerga em nós pode ser verdade.
“Eu quero saber de você: o que te faz ser você?” abre uma pergunta enorme
talvez uma das mais difíceis que podemos fazer a alguém. Fiz a crônica como um diálogo com a própria existência, filosófico e poético.
O Que Te Faz Ser Você?
Eu quero saber de você.
Mas não quero saber apenas o seu nome, onde nasceu, o que faz da vida ou quantos anos carrega nos ombros.
Isso tudo são informações.
Eu quero saber de você.
Quero saber o que existe quando todas essas respostas acabam.
O que te faz ser você?
Talvez ninguém saiba responder imediatamente.
Passamos boa parte da vida aprendendo a explicar o mundo e quase nenhuma aprendendo a explicar a nós mesmos.
Sabemos dizer onde moramos, mas nem sempre sabemos onde nossa alma se sente em casa.
Sabemos contar os anos que vivemos, mas dificilmente conseguimos contar quantas vezes tivemos de nascer novamente dentro da mesma vida.
Por isso, quando pergunto quem é você, não me mostre apenas suas conquistas.
Mostre-me também aquilo que você perdeu.
Porque há pedaços de nós que foram construídos justamente pelas coisas que não puderam ficar.
Conte-me sobre os caminhos que deram errado.
Sobre as portas que se fecharam.
Sobre as pessoas que partiram.
Sobre os sonhos que você precisou enterrar em silêncio enquanto continuava sorrindo para que ninguém percebesse o funeral acontecendo dentro de você.
Talvez você seja um pouco de tudo isso.
Somos feitos de presenças, mas também de ausências.
De encontros e despedidas.
De palavras que ouvimos e de outras que passamos a vida esperando alguém dizer.
Há pessoas vivendo dentro de nós que talvez nunca mais veremos.
Um gesto do nosso pai.
Uma frase da nossa mãe.
O sorriso de alguém que amamos.
Um conselho que na juventude parecia inútil e que, muitos anos depois, tornou-se uma espécie de bússola.
Somos uma casa construída por muitas mãos.
Algumas permaneceram.
Outras passaram apenas por alguns minutos.
Mas deixaram alguma coisa sobre a mesa da nossa existência.
Talvez seja isso que torna tão difícil responder à pergunta:
Quem sou eu?
Porque não somos uma coisa terminada.
Somos verbo.
Estamos acontecendo.
O homem que acordou esta manhã já não é exatamente aquele que adormeceu ontem.
Alguma lembrança atravessou a noite.
Alguma preocupação amadureceu.
Alguma esperança nasceu discretamente.
Talvez alguma ferida tenha cicatrizado um milímetro enquanto dormíamos.
A vida trabalha em nós mesmo quando não percebemos.
E existe ainda outra coisa.
Você também é aquilo que ninguém vê.
Existe uma versão sua que aparece nas fotografias, nas conversas, nas festas, no trabalho, nas redes sociais.
E existe aquela que fica sozinha quando a porta se fecha.
Essa me interessa profundamente.
Quem é você quando não existe plateia?
Quem é você quando ninguém está olhando?
O que você pensa antes de dormir?
Que conversa mantém consigo mesmo diante do espelho?
Quais são os medos que jamais confessou?
Quais sonhos ainda protege do mundo porque tem medo de que alguém ria deles?
Quais lágrimas você engoliu para parecer forte?
Talvez o verdadeiro rosto de uma pessoa comece justamente onde termina a necessidade de parecer alguma coisa.
Porque passamos anos construindo personagens.
Queremos parecer fortes.
Inteligentes.
Felizes.
Resolvidos.
Mas chega um momento em que a vida começa a retirar nossas máscaras uma por uma.
E isso dói.
Até descobrirmos que perder uma máscara não significa perder a identidade.
Às vezes significa finalmente encontrá-la.
Por isso eu quero saber de você.
Não da versão perfeita.
Essa não me interessa.
Quero conhecer suas contradições.
A coragem que mora ao lado do medo.
A esperança que algumas noites dorme abraçada ao desespero.
A fé que às vezes pergunta.
O amor que às vezes se cansa.
A força que também precisa sentar no chão e chorar.
Porque talvez ser humano seja exatamente isso:
carregar dentro do mesmo peito coisas que parecem impossíveis de conviver.
Somos luz e sombra.
Certeza e dúvida.
Saudade e esperança.
Ontem e amanhã tentando aprender a dividir o mesmo coração.
E talvez aquilo que realmente nos define não sejam nossas respostas, mas as perguntas que tivemos coragem de continuar fazendo.
Quem sou?
Por que estou aqui?
O que fiz com o amor que recebi?
Quem se tornou melhor porque passou pela minha vida?
O que permanecerá de mim quando meu nome deixar de ser pronunciado?
No final, talvez descubramos que aquilo que nos faz ser quem somos não está nos títulos,
nos bens ou nas histórias que contamos sobre nós mesmos.
Está nas marcas invisíveis.
Nas pessoas que amamos.
Nas vezes em que fomos feridos e decidimos não transformar nossa dor em crueldade.
Nas vezes em que poderíamos ter desistido e permanecemos.
Nas vezes em que pedimos perdão.
Nas vezes em que perdoamos.
Nas vezes em que ninguém estava olhando e, ainda assim, escolhemos fazer o que era certo.
Talvez sejamos, sobretudo, aquilo que escolhemos fazer com tudo aquilo que a vida fez conosco.
Por isso, quando eu disser:
“Eu quero saber de você”,
não me entregue apenas sua história.
Entregue-me seus silêncios.
Suas cicatrizes.
Seus sonhos.
Suas perguntas.
Conte-me quem você era.
Quem precisou deixar de ser.
E quem ainda está tentando se tornar.
Porque conhecer verdadeiramente alguém não é descobrir todas as suas respostas.
É chegar suficientemente perto para compreender algumas de suas perguntas.
E talvez, depois de uma vida inteira procurando a resposta para “o que me faz ser eu?”, descubramos algo ainda mais bonito:
não somos apenas aquilo que encontramos dentro de nós.
Somos também aquilo que deixamos dentro daqueles que encontramos pelo caminho.
“Contos da Cidade Dourada”
Diziam que existia uma cidade onde o ouro crescia como mato.
Não era apenas uma metáfora. Para os olhos dos conquistadores, a América inteira parecia um jardim onde o ouro brotava do chão, a prata escorria das montanhas e a riqueza esperava, silenciosa, por mãos estrangeiras.
Chamaram-na de cidade dourada.
Uns lhe deram o nome de El Dorado. Outros a procuraram nas montanhas dos Andes, nos vales dos povos originários ou nas minas que pareciam não ter fim. Mas talvez a verdadeira cidade dourada nunca tenha sido um lugar. Talvez tenha sido uma maneira de olhar.
O ouro não era riqueza.
Era cobiça.
E a cobiça transforma qualquer paisagem em mercadoria.
Eduardo Galeano escreveu que a América Latina nasceu com as veias abertas.
É uma imagem impossível de esquecer.
Veias abertas não apenas porque lhe arrancaram o ouro, a prata, o açúcar, o café, a borracha e tantas outras riquezas. Mas porque também lhe roubaram o tempo. Roubaram a possibilidade de crescer no próprio ritmo. Roubaram histórias, línguas, culturas e até o direito de muitos povos contarem a própria versão do passado.
Quando um povo perde a memória, torna-se mais fácil convencê-lo de que nunca foi rico.
As montanhas de prata desapareceram.
As minas foram esvaziadas.
Os navios atravessaram o oceano carregados de tesouros.
Tudo aconteceu à luz do dia.
Sem máscaras.
Sem vergonha.
O assalto mais grandioso da história não precisou da escuridão da noite. Foi realizado sob o brilho do sol, registrado por cronistas, celebrado por impérios e justificado por discursos de civilização.
Há ladrões que escondem o rosto.
Há impérios que escondem a consciência.
A cidade dourada foi desaparecendo aos poucos.
Não porque o ouro acabou.
Mas porque quem o arrancava deixava para trás apenas o vazio.
Existe uma estranha lógica na ganância.
Ela nunca aprende a contemplar.
Sabe apenas possuir.
Tudo aquilo que toca perde o significado e ganha um preço.
Uma floresta deixa de ser floresta para se tornar madeira.
Um rio deixa de ser vida para se transformar em rota comercial.
Uma montanha deixa de ser sagrada para virar minério.
E um ser humano deixa de ser pessoa para tornar-se força de trabalho.
Talvez seja essa a maior pobreza da história.
Não a falta de ouro.
Mas a incapacidade de enxergar valor onde não existe lucro.
O mais inquietante é perceber que essa história ainda ecoa.
Mudaram os navios.
Mudaram as bandeiras.
Mudaram os discursos.
Mas a pergunta permanece a mesma: quem enriquece quando uma terra empobrece?
As veias de um continente não sangram apenas quando lhe retiram os metais preciosos.
Sangram também quando sua inteligência é desprezada, quando sua cultura é tratada como inferior, quando seus filhos acreditam que tudo o que vem de fora vale mais do que aquilo que nasceu em casa.
A cidade dourada continua existindo.
Não nas lendas.
Nem nas minas.
Ela vive escondida na dignidade de um povo que, apesar de séculos de exploração, continua produzindo arte, poesia, fé, música e esperança.
Porque há uma riqueza que nenhum conquistador conseguiu embarcar em seus navios.
A capacidade de recomeçar.
Talvez esse seja o verdadeiro ouro da América Latina.
Um ouro que não pode ser fundido, vendido ou roubado.
Um ouro que corre, silenciosamente, nas veias de quem ainda acredita que a história não termina com o saque, mas com a coragem de reconstruir aquilo que parecia perdido.
E talvez seja por isso que a cidade dourada nunca tenha sido encontrada.
Ela nunca esteve enterrada debaixo da terra.
Sempre esteve pulsando dentro das pessoas.
Dentro de cada um de nós; Latino Americano.
“A Sabedoria de Ajustar as Velas”
“Não podemos escolher a direção do vento, mas sempre é possível ajustar as velas.”
Durante muito tempo, talvez eu tenha confundido maturidade com controle.
Imaginava que amadurecer significava aprender a organizar a vida de tal maneira que quase nada pudesse sair do lugar.
Como se a experiência nos concedesse, pouco a pouco, algum poder secreto sobre o amanhã.
Mas a vida não funciona assim.
Podemos escolher a embarcação. Podemos estudar os mapas. Podemos calcular distâncias,
observar o horizonte e até decidir o porto para onde desejamos seguir.
Mas não escolhemos o vento.
E talvez uma das maiores dores humanas nasça justamente dessa dificuldade: queremos controlar aquilo que apenas podemos atravessar.
Há ventos que chegam fortes..
Uma perda.
Uma despedida.
Uma decepção.
Uma porta que se fecha quando tínhamos certeza de que se abriria.
Um amor que muda.
Um sonho que demora.
Uma notícia inesperada.
De repente, todo o mapa cuidadosamente desenhado já não parece servir para muita coisa.
É nesse momento que descobrimos a diferença entre controlar a vida e aprender a vivê-la.
O imaturo olha para a tempestade e pergunta:
“Por que o vento não sopra para onde eu quero?”
O homem amadurecido começa a fazer outra pergunta:
“Já que não posso mudar o vento, o que posso fazer com as minhas velas?”
Essa pequena mudança de pergunta pode transformar uma existência inteira.
Porque maturidade não significa ausência de medo. Não significa nunca sofrer, nunca hesitar ou possuir respostas para tudo.
Maturidade é compreender onde termina o nosso poder e onde começa a nossa capacidade de adaptação.
Existem coisas que dependem de nós.
Outras, simplesmente, não.
Não controlamos o comportamento das pessoas.
Não controlamos todas as despedidas.
Não controlamos o tempo.
Não controlamos completamente o corpo.
Não controlamos o passado.
E, por mais que façamos planos, jamais teremos domínio absoluto sobre o futuro.
Entretanto, existe uma pequena região sobre a qual ainda podemos exercer alguma autoridade:
a maneira como respondemos ao que nos acontece.
É ali que ficam as velas.
A vida pode mudar o vento, mas ainda podemos mudar nossa posição diante dele.
Podemos recolher uma vela durante a tempestade.
Podemos diminuir a velocidade.
Podemos mudar temporariamente a rota.
Podemos esperar.
Podemos recomeçar.
E, algumas vezes, podemos até descobrir um destino que jamais teríamos conhecido se o vento tivesse obedecido aos nossos planos.
Talvez por isso algumas das maiores transformações da nossa vida tenham começado justamente quando alguma coisa deu errado.
O caminho interrompido nos obrigou a procurar outra estrada.
A perda nos ensinou o valor da presença.
O fracasso nos apresentou à humildade.
A solidão nos colocou diante de nós mesmos.
A queda revelou forças que desconhecíamos possuir.
E aquilo que chamávamos de desvio talvez estivesse apenas nos ensinando outra maneira de navegar.
Há uma arrogância silenciosa na necessidade de controlar tudo.
Queremos que pessoas, acontecimentos, tempo e destino se comportem de acordo com os mapas que desenhamos.
Quando isso não acontece, sentimos que a vida nos traiu.
Mas talvez a vida nunca tenha prometido obedecer aos nossos mapas.
Ela apenas nos entregou um barco.
Algumas velas.
Um horizonte.
E a liberdade de aprender.
Maturidade, portanto, não é tornar-se senhor dos ventos.
É tornar-se marinheiro.
É olhar para o céu escurecendo e, mesmo sentindo medo, saber que ainda existem decisões possíveis.
É reconhecer que mudar a rota não significa necessariamente abandonar o destino.
Às vezes, para chegar ao mesmo porto, precisamos navegar por águas que jamais imaginávamos conhecer.
Outras vezes, precisamos ter coragem suficiente para admitir que aquele porto já não é mais o nosso.
Talvez seja essa uma das lições mais difíceis da existência:
nem toda mudança de direção é uma derrota.
Existem desvios que nos salvam.
Existem atrasos que nos protegem.
Existem tempestades que nos despertam.
Existem ventos contrários que fortalecem braços que haviam se acostumado demais à tranquilidade.
E existem caminhos que somente aparecem quando perdemos aquele que acreditávamos ser o único.
Hoje compreendo que viver não é possuir um mapa perfeito.
É aprender a ler o céu.
É perceber quando avançar, quando esperar, quando insistir e quando mudar.
É saber que algumas tempestades precisam ser enfrentadas e outras simplesmente atravessadas.
No fim, talvez ninguém chegue exatamente ao porto que imaginou quando começou a viagem.
Carregamos cicatrizes das tempestades, lembranças das águas tranquilas, saudades de quem navegou conosco e histórias de lugares onde jamais planejávamos estar.
Mas existe uma espécie de paz quando finalmente compreendemos que não precisamos controlar o oceano para continuar navegando.
O vento continuará mudando.
A vida continuará surpreendendo.
Algumas manhãs serão tranquilas. Outras chegarão carregadas de tempestades.
E nós continuaremos ali, pequenos diante da imensidão.
Mas enquanto ainda houver uma vela que possa ser ajustada, haverá também uma escolha possível.
Talvez amadurecer seja exatamente isso:
parar de exigir que o vento mude de direção e começar a aprender o que fazer com o vento que chegou.
Porque não é o mar tranquilo que revela o marinheiro.
É a maneira como ele ajusta as velas quando percebe que já não controla o caminho.
“O Sangue que Ainda Corre”
Há momentos em que a vida deixa de pedir explicações.
Ela apenas nos coloca diante do espelho.
E talvez seja justamente diante dele que começam as confissões mais difíceis: quando já não podemos culpar o tempo, os outros, as circunstâncias ou os caminhos que escolheram por nós.
Eu também jurei verdades que eram mentiras.
Prometi permanências quando dentro de mim já existiam despedidas. Defendi certezas nas quais eu mesmo já não acreditava. Rompi acordos, abandonei caminhos, traí algumas versões de mim e carreguei durante anos a estranha sensação de que havia deixado pedaços da minha alma espalhados pelos lugares por onde passei.
Talvez viver seja também isso:
uma longa coleção de fidelidades e traições contra nós mesmos.
Existem ventos que chegam tarde.
Existem ventos que sopram com toda a força e, ainda assim, não conseguem mover aquilo que dentro de nós já deixou de girar.
Foi assim que descobri que nem todo vento é capaz de mover um moinho.
Há coisas que simplesmente param.
Amores.
Sonhos.
Convicções.
Amizades.
E até algumas partes de nós.
Mas o coração possui uma teimosia quase incompreensível: mesmo cercado pelos escombros daquilo que perdeu, continua batendo.
Carrego comigo os meus mortos.
E não falo apenas daqueles que a terra recebeu.
Existem mortos que continuam caminhando conosco.
São pessoas que partiram, amores que terminaram, cidades que abandonamos, juventudes que não voltam, abraços que ficaram presos na memória e versões de nós mesmos que jamais encontraremos novamente.
Somos um pouco cemitério.
Mas somos também nascimento.
Porque dentro do mesmo homem que enterra seus mortos existe outro tentando nascer todas as manhãs.
Eu venho de caminhos tortos.
Nunca consegui acreditar muito nas estradas perfeitamente desenhadas. Talvez porque minha própria existência tenha sido feita de desvios, quedas, retornos e perguntas.
Minha história não foi escrita com régua.
Foi escrita com cicatrizes.
Há sangue correndo dentro de mim que nasceu muito antes de mim.
Sangue de gente que amou, sofreu, atravessou oceanos, enterrou sonhos, criou filhos, perdeu pessoas, rezou em silêncio e continuou caminhando mesmo quando não havia nenhuma certeza esperando na próxima esquina.
Carregamos nossos antepassados sem perceber.
Talvez por isso algumas saudades não tenham nome.
Talvez certas dores sejam antigas demais para sabermos exatamente onde começaram.
Existe dentro de cada homem uma pátria invisível.
Uma terra que ele carrega mesmo quando vive longe dela.
Uma língua que continua morando dentro da boca.
Uma música que desperta lembranças.
Um cheiro que abre uma porta esquecida.
Uma palavra que, de repente, nos devolve à infância.
Podemos atravessar fronteiras, trocar de endereço, aprender outras línguas e envelhecer sob outros céus.
Mas há raízes que viajam conosco.
E talvez o verdadeiro exílio não seja viver distante da terra onde nascemos.
Talvez seja viver distante de quem realmente somos.
Durante muito tempo tentei obedecer aos ritos.
Depois rompi alguns deles.
Quebrei minhas próprias lanças.
Questionei minhas certezas.
Gritei contra aquilo que me prendia.
E percebi que existem gritos que não são revolta.
São nascimento.
Às vezes um homem precisa gritar para finalmente ouvir a própria voz.
Porque chega um momento em que já não importa parecer perfeito.
Importa permanecer inteiro.
Não importa quantas vezes a vida tenha nos derrubado.
Não importa quantos tratados tenhamos rompido com nossos sonhos.
Não importa quantos caminhos tortos existam atrás de nossos passos.
Existe uma diferença enorme entre estar ferido e estar vencido.
Feridas sangram.
Cicatrizes permanecem.
Lágrimas caem.
Mas nenhuma dessas coisas significa derrota.
A verdadeira derrota talvez aconteça somente quando entregamos a alguém ou ao medo, à culpa, ao passado o direito de decidir quem ainda podemos ser.
Por isso continuo.
Com meus mortos.
Com minhas lembranças.
Com minhas contradições.
Com meus caminhos tortos.
Com tudo aquilo que perdi e tudo aquilo que ainda espero encontrar.
Minha alma talvez tenha conhecido muitas prisões.
Mas meu sangue ainda corre.
E enquanto houver sangue correndo, haverá alguma coisa dentro de mim dizendo que a história ainda não terminou.
Talvez seja apenas um gemido.
Talvez seja um grito.
Talvez seja uma oração.
Não sei.
Sei apenas que ainda estou aqui.
E às vezes, depois de tudo o que atravessamos, permanecer de pé já é uma das formas mais bonitas de liberdade.
O Que Te Faz Ser Você?
O que te faz ser você?
Não estou perguntando o seu nome.
Seu nome foi escolhido por alguém antes mesmo que você pudesse escolher qualquer coisa.
Também não estou perguntando sua profissão, sua idade, onde nasceu ou aquilo que conseguiu conquistar.
Estou perguntando algo mais difícil:
quando retiramos tudo aquilo que pode ser retirado de uma pessoa, o que permanece?
Talvez você responda:
“Minhas lembranças.”
Pode ser.
Somos profundamente feitos de memória.
Existe em nós a criança que fomos, mesmo quando ninguém mais consegue enxergá-la.
Ela ainda aparece em alguns medos inexplicáveis, em certas alegrias repentinas,
no cheiro de alguma comida, numa música antiga, numa fotografia esquecida dentro de uma gaveta.
O tempo envelhece o corpo, mas existem lugares dentro de nós onde o relógio nunca conseguiu entrar.
Talvez você seja também as pessoas que amou.
Porque ninguém passa verdadeiramente pela nossa vida sem deixar alguma coisa.
Há pessoas que nos ensinaram a amar.
Outras nos ensinaram a desconfiar.
Algumas nos mostraram a beleza da permanência.
Outras nos ensinaram, dolorosamente, o significado da ausência.
E assim vamos sendo construídos.
Um pouco pelas mãos que nos acariciaram.
Um pouco pelas mãos que nos feriram.
Um pouco pelos abraços que recebemos.
E muito pelos abraços que esperamos e nunca chegaram.
Mas ainda não é suficiente.
Porque, se fôssemos apenas aquilo que aconteceu conosco, seríamos prisioneiros da nossa história.
E não somos.
Existe alguma coisa extraordinária no ser humano:
podemos escolher o que fazer com aquilo que fizeram de nós.
Talvez seja aí que comece verdadeiramente aquilo que somos.
Você não escolheu todas as suas feridas.
Mas escolhe, todos os dias, se permitirá que elas firam outras pessoas.
Não escolheu todas as despedidas.
Mas pode escolher continuar amando mesmo depois de conhecer a dor da ausência.
Não escolheu todas as quedas.
Mas pode decidir se permanecerá no chão ou se transformará a cicatriz em aprendizado.
Por isso não somos apenas consequência.
Também somos escolha.
Somos aquilo que aconteceu conosco e aquilo que decidimos fazer depois.
Somos a resposta que demos à vida.
Talvez você seja suas contradições também.
A coragem que convive com o medo.
A fé que algumas vezes conversa com a dúvida.
A força que certas noites precisa chorar escondida.
A esperança que já pensou em desistir, mas amanheceu novamente.
Porque ser você não significa ser uma criatura perfeitamente coerente.
Significa carregar muitos mundos dentro do mesmo peito e, ainda assim,
continuar procurando um caminho entre eles.
Você também é aquilo que ama quando ninguém manda amar.
Aquilo que defende quando não existe recompensa.
Aquilo que faz quando ninguém está olhando.
As pequenas escolhas silenciosas dizem muito mais sobre uma pessoa do que os grandes discursos feitos diante de uma multidão.
Talvez caráter seja justamente aquilo que permanece quando desaparece a plateia.
Mas existe algo ainda mais profundo.
Você também é aquilo que procura.
Há pessoas que passam a vida procurando dinheiro.
Outras procuram reconhecimento.
Algumas procuram poder.
Outras procuram paz.
Há quem procure respostas.
Há quem procure perdão.
Há quem passe uma existência inteira procurando uma casa que talvez não seja feita de paredes,
mas de alguém diante de quem finalmente possa dizer:
“Aqui eu posso ser eu.”
Aquilo que procuramos revela muito sobre aquilo que somos.
Porque nossos desejos são espécies de bússolas secretas.
Eles apontam para lugares que nossos discursos nem sempre conseguem confessar.
E você também é suas perguntas.
Talvez até mais do que suas respostas.
As respostas envelhecem.
As certezas mudam.
As convicções amadurecem.
Mas existem perguntas que atravessam uma vida inteira:
Quem sou?
Por que estou aqui?
O que realmente importa?
A quem amei?
Quem amou melhor porque me conheceu?
O que deixarei quando partir?
Talvez viver seja passar anos tentando responder essas perguntas e descobrir, perto do final,
que o importante nunca foi terminar o questionário.
O importante foi a pessoa em que nos transformamos enquanto procurávamos as respostas.
Por isso, quando pergunto:
O que te faz ser você?
Não me diga apenas onde nasceu.
Conte-me onde renasceu.
Não me fale somente das suas vitórias.
Conte-me sobre a derrota que mudou sua maneira de enxergar o mundo.
Não me mostre apenas suas fotografias sorrindo.
Conte-me sobre a noite em que chorou sozinho e, mesmo assim, levantou-se na manhã seguinte.
Não me diga somente quem você ama.
Conte-me como você ama.
Não me fale apenas da sua fé.
Conte-me sobre as dúvidas que precisou atravessar para chegar até ela.
Não me mostre apenas suas cicatrizes.
Conte-me o que elas ensinaram.
Porque talvez você não seja uma coisa.
Talvez você seja uma travessia.
Uma obra que nunca fica completamente pronta.
Uma história que continua sendo escrita mesmo quando acredita ter chegado ao último capítulo.
Você é um pouco de ontem.
Um pouco de hoje.
E também alguma coisa que ainda não existe, mas silenciosamente está tentando nascer.
Talvez por isso seja impossível responder definitivamente à pergunta:
“Quem sou eu?”
Porque enquanto houver vida, haverá transformação.
E enquanto houver transformação, haverá alguma parte de nós ainda desconhecida esperando ser encontrada.
No fim, talvez aquilo que faça você ser você não seja apenas o que recebeu da vida.
Nem somente aquilo que perdeu.
Nem seus acertos.
Nem seus erros.
É a maneira como juntou todos esses pedaços e decidiu continuar.
Você é aquilo que a vida escreveu em você.
Mas é também aquilo que, apesar de tudo, você decidiu escrever de volta na vida.
Confissões de uma Caneta- Versão original
Existe uma verdade que carrego dentro de mim há muito tempo.
Eu não me considero o autor das palavras mais bonitas que escrevo.
Sempre que termino uma poesia, uma crônica ou uma reflexão,
sinto que aquelas palavras não nasceram apenas da minha inteligência.
Elas chegaram até mim como uma brisa silenciosa.
Vieram prontas, tocaram meu coração e pediram apenas que eu lhes desse voz.
Por isso, gosto de pensar que não sou o escritor.
Sou apenas a caneta.
A caneta não escolhe as palavras.
Não cria as histórias.
Não conhece o destino daquilo que escreve.
Ela apenas se deixa conduzir pela mão de quem a segura.
É assim que me sinto diante de Deus.
Muitas vezes, enquanto escrevo, percebo que Ele coloca pensamentos na minha mente,
desperta sentimentos no meu coração e me conduz por caminhos que sozinho jamais encontraria.
Há momentos em que leio aquilo que escrevi e me pergunto de onde veio tanta beleza.
Então compreendo que não veio de mim.
Veio d’Ele.
Mas existe uma inquietação que nunca deixa de me visitar.
Se Deus inspira tantas sementes através das minhas palavras,
por que tantas delas ainda não floresceram dentro de mim?
Por que consigo falar sobre o perdão e, tantas vezes, ainda luto para perdoar?
Por que escrevo sobre a paz e continuo travando guerras dentro da minha própria alma?
Por que falo da confiança em Deus,
mas ainda corro para Ele apenas quando a tempestade destrói o jardim da minha vida?
Às vezes sinto-me como um jardineiro que conhece todas as flores pelo nome, mas ainda não aprendeu a cuidar do próprio canteiro.
Basta que as dificuldades apareçam, que alguém invada minha paz ou que os ventos derrubem aquilo que plantei, e então corro para Deus.
Procuro o Grande Agricultor.
Aquele que sabe reconstruir o que foi destruído, replantar o que morreu e devolver vida ao que parecia perdido.
E Ele nunca falha.
Nunca chega atrasado.
Nunca me abandona.
Sempre encontra uma maneira de transformar a terra seca em esperança.
Talvez seja por isso que continuo escrevendo.
Não porque me considere um homem santo.
Mas porque sou um homem profundamente necessitado do amor de Deus.
Quando falo d’Ele, sinto-me forte.
Quando escrevo sobre Ele, meu coração encontra paz.
Quando medito sobre Sua presença, tenho a certeza de que Ele habita dentro de mim,
ainda que minhas atitudes nem sempre revelem essa realidade.
Lembro-me das palavras de Santo Agostinho: “Deus estava dentro de mim enquanto eu O procurava do lado de fora.”
Talvez essa seja também a minha história.
Passei muito tempo procurando sinais extraordinários, quando o maior milagre sempre aconteceu no silêncio da minha própria alma.
Deus nunca deixou de falar comigo.
Falava através das inspirações.
Das pessoas que colocou em meu caminho.
Das portas que abriu.
Dos livramentos que só compreendi muitos anos depois.
Das palavras que surgiam quando eu me sentava para escrever.
Hoje entendo que não sou a fonte.
Sou apenas o instrumento.
Como um pequeno receptor que capta um sinal invisível e o transforma em algo que outras pessoas conseguem ouvir.
A mensagem nunca pertence ao receptor.
Ela vem de muito mais longe.
Talvez minha missão seja exatamente essa.
Receber.
Guardar.
Escrever.
E repartir.
Mas existe um desejo que ainda apresento a Deus em minhas orações.
Não quero ser apenas a caneta que escreve belas palavras para os outros.
Quero ser também o papel onde essas mesmas palavras fiquem gravadas.
Quero que cada frase inspirada transforme primeiro a minha própria vida.
Quero que o jardim floresça dentro de mim antes de perfumar o caminho de quem passa ao meu lado.
Porque, no fim, não desejo ser lembrado pelas palavras que escrevi.
Desejo apenas que, ao olhar para minha vida, as pessoas consigam perceber que Deus realmente segurou esta caneta.
E que, enquanto escrevia através dela, também escrevia, pacientemente, dentro do coração de quem a carregava.
O Perfume da Tentação
Ela nunca chega com o rosto do medo.
Vem vestida de encanto,
com os melhores perfumes,
as mais belas roupas,
e um sorriso capaz de silenciar qualquer prudência.
Ela conhece os caminhos da alma,
bate à porta sem fazer ruído,
entra pelos olhos,
permanece no pensamento,
e faz do desejo um lugar confortável.
Sussurra que tudo é permitido,
que o perigo é apenas exagero,
que a felicidade mora no instante
em que deixamos a consciência adormecer.
Ela promete um novo começo,
uma liberdade sem limites,
um prazer sem consequências,
como quem oferece flores
escondendo espinhos nas próprias mãos.
Seu perfume embriaga.
Seu olhar aprisiona.
Sua voz convence.
E quando percebemos,
já não caminhamos por vontade,
mas pelas correntes invisíveis do fascínio.
Ela nunca parece inimiga.
Sempre se apresenta como oportunidade.
Nunca veste o horror;
prefere a beleza.
Nunca grita;
seduz.
E é justamente por isso
que tantos a seguem sorrindo,
sem notar que cada passo
os afasta da luz.
Porque o mal raramente mostra a própria face.
Ele aprende a vestir elegância,
a falar com delicadeza,
a perfumar a mentira,
para que a queda pareça um voo.
E quando o perfume se dissipa,
resta apenas o silêncio,
as feridas,
e a dolorosa descoberta
de que nem toda beleza conduz à vida.
Há perfumes que encantam o corpo,
mas há fragrâncias que adormecem a alma.
E é preciso discernimento,
pois nem tudo o que brilha é esperança,
e nem toda voz suave
vem de um coração que deseja salvar.
A tentação nunca precisou ter a cara do diabo.
Basta-lhe parecer exatamente
aquilo que mais desejávamos encontrar.
Seu corpo é como uma poesia
Seu corpo é como uma poesia
que meus olhos nunca se cansam de ler.
Cada verso revela um segredo,
cada curva guarda uma palavra
que somente o amor consegue compreender.
E quanto mais leio você,
mais desejo me aprofundar
nas entrelinhas da sua pele,
nos silêncios dos seus gestos,
na beleza dos detalhes
que nenhuma palavra consegue explicar.
Há poemas que lemos uma vez
e esquecemos.
Você, não.
Você é daqueles versos raros
que, quanto mais conhecemos,
mais profundamente nos apaixonamos.
E talvez amar seja exatamente isso:
passar uma vida inteira lendo a mesma poesia
e, ainda assim,
encontrar em cada página
uma nova razão para se apaixonar.
Você é a poesia que eu leria o dia inteiro
Você é uma poesia
que eu adoraria ler durante todo o dia,
sem pressa de chegar ao último verso.
Gostaria de descobrir suas entrelinhas,
decifrar seus silêncios,
conhecer os desejos que você nunca revelou
e os sonhos que ainda guarda em segredo.
Queria aprender a linguagem do seu olhar,
a delicadeza dos seus gestos,
e encontrar, pouco a pouco,
tudo aquilo que faz seu coração estremecer.
Porque amar você seria assim:
uma descoberta sem fim,
uma poesia que não se lê apenas com os olhos,
mas com a alma, com o coração
e com todos os sentidos.
E quanto mais eu descobrisse você,
mais desejaria permanecer em suas páginas,
inventando novas maneiras de fazê-la feliz
e despertando prazeres
que talvez nem você soubesse que existiam.
No Fim do Poema
No fim do poema não há ponto final.
Há uma cadeira vazia na cozinha,
o café esfriando enquanto a tarde decide
se fica ou se vai.
No fim do poema, a rua continua.
O ônibus passa cheio de histórias que não cabem em verso,
o vendedor grita o preço do dia,
e alguém chora baixo no celular
como quem pede desculpa por existir.
No fim do poema, a gente aprende
que nem tudo vira metáfora.
Algumas dores ficam literais demais,
algumas alegrias pequenas demais,
e a vida segue escrevendo em prosa
o que a poesia não deu conta.
No fim do poema, sobra o corpo.
Cansado, insistente, vivo.
Sobra a respiração que falha, mas volta.
Sobra a memória tropeçando em si mesma,
lembrando do que foi
e inventando o que ainda pode ser.
No fim do poema, ninguém aplaude.
A luz não se apaga de repente.
O mundo não entende que aquele verso era despedida.
E tudo bem.
O mundo nunca soube ler direito.
No fim do poema, começa outra coisa.
Talvez não seja bonita,
talvez não rime,
talvez não salve ninguém.
Mas anda.
E enquanto anda,
vai escrevendo.
“Soneto das Estações do Ser”
Quando te encontrei, nasceu primavera,
Brotaram flores no deserto da alma,
E o verão chegou com luz sincera,
Trazendo ao peito a mais perfeita calma.
És tu a lua que nas noites impera,
Guia celeste que meu caos acalma,
Farol que brilha quando a noite era
O vazio onde morria qualquer balma.
Sem ti, não há ciclicidade ou fluxo,
Nem o tempo cumpre seu ofício eterno,
Perco outono, inverno, até o luxo
De sentir renascer no que governo.
És tu a roda que ao meu ser conduzo,
As quatro faces do meu próprio inverno.
“Soneto do Morro que Canta”
Onde o asfalto finda e a escada sobe,
Nasce o samba que embala a alma inteira,
O morro é berço d’ouro que não morre,
Rei da ginga, da poesia verdadeira.
Cavaco chora e ri quando descobe
Que a favela é resistência altaneira,
Nas lajes sob estrelas, a luz cobre
A dor que vira dança na ladeira.
Ali onde dizem que há carência,
Sobra amor, tem ginga, tem compasso,
Tambor que bate fé e resistência.
O morro ensina o Brasil com seu passo:
Sambar é transformar a própria essência,
Fazer do chão de pedra um céu de abraço.
“Sonhos Quebrados”
Sim, quebraram-se os sonhos que tecemos juntos,
Caíram como vidro ao chão, em mil pedaços,
E cada fragmento corta fundo,
Lembrança afiada dos nossos abraços.
Mas não vim aqui chorar sobre as ruínas,
Nem lamentar o que o destino desfez,
Vim recolher os cacos, as esquinas
De tudo que amamos uma vez.
Porque mesmo quebrado, o sonho teve valor,
Mesmo partido, brilhou enquanto durou,
E não vou fingir que não houve dor,
Nem negar que profundamente me marcou.
Eu te amei com a força de quem acredita,
Com a coragem de quem não teme se entregar,
E se o sonho quebrou, a verdade está escrita:
Valeu cada risco que ousei tomar.
Não me arrependo dos castelos que erguemos,
Mesmo que o vento os tenha derrubado,
Não lamento as promessas que fizemos,
Mesmo que o tempo as tenha transformado.
Sonhos quebrados ainda contam histórias,
Falam de quem fomos quando ousamos sonhar,
De batalhas perdidas que são vitórias,
De um amor que se atreveu a existir sem calcular.
E eu aprendi, entre os destroços e a dor,
Que é melhor ter amado e perdido,
Do que viver sem conhecer o ardor
De um coração completamente rendido.
Então recolho os pedaços com firmeza,
Não como quem desiste ou se resigna,
Mas como quem honra cada certeza,
Cada momento em que a vida foi divina.
Porque nós fomos reais, intensos, verdadeiros,
Queimamos como chama que não se contém,
E mesmo que os sonhos tenham sido passageiros,
O amor que vivemos não pertence a ninguém.
Ele é meu, é nosso, é eterno,
Guardado onde o tempo não alcança,
No lugar mais profundo e interno,
Onde a memória vira esperança.
Sonhos quebrados não são o fim da história,
São apenas capítulos que se fecham,
E eu carrego nossa memória
Como ferida que as cicatrizes confessam.
Sim, dói. Não vou mentir dizendo que não dói.
Mas a dor prova que foi verdadeiro,
Que não fomos covardes, que não foi casual,
Fomos fogo, tempestade, amor certeiro.
E se um dia os cacos desses sonhos
Se juntarem novamente de algum modo,
Ou se seguirmos caminhos medonhos,
Separados, carregando o lodo,
Saiba que você foi meu sonho mais bonito,
Mesmo quebrado, ainda reluz,
E no silêncio do meu peito aflito,
Você ainda é a minha luz.
Sonhos quebrados, sim, mas não perdidos,
Guardados como joias imperfeitas,
Amores vividos, não esquecidos,
Feridas abertas, mas aceitas.
E eu sigo, firme, apesar da ruptura,
Não como quem desistiu de sonhar,
Mas como quem aprendeu que a vida é dura,
E mesmo assim, vale a pena amar.
“Quando o Corpo Dança”
Há um instante em que tudo se aquieta e o corpo desperta para a música secreta que sempre existiu dentro das veias, esperando apenas que nos permitíssemos responder ao seu chamado antigo.
Então começamos.
Um pé se ergue, hesitante, depois o outro mais ousado agora e de repente não somos mais essa gente cansada, enrijecida, mas rios que finalmente encontráramos o caminho de volta para o mar.
Cada movimento é uma lembrança:de quando éramos crianças que giravam até a tontura virar riso, de quando o corpo era pura liberdadeantes que nos ensinassem a ficar quietos, comportados, contidos.
A dança nos devolve isso.
Nos devolve a nós mesmos.
Os braços se estendem como asas que redescobrimos ter,o quadril balança com aquela sabedoria que só o corpo conhece,os ombros se soltam liberando toda a tensão que acumulamos carregando o mundo.
E sentimos ah, como sentimos! o sangue correndo mais rápido,o coração batendo com mais vontade,os pulmões se enchendo de um arque parece mais puro, mais vivo, mais nosso.
Dançar é dizer sim.
Sim para este corpo imperfeito e perfeito,sim para esta vida que pulsa,sim para a alegria que não precisade motivos grandiosos para existir,apenas deste momento,desta música,deste movimento.
E nos fortalecemos não apenas os músculos que trabalham,não apenas o equilíbrio que se aprimora,mas algo muito mais profundo:a certeza de que estamos vivos, completamente, intensamente, maravilhosamente vivos.
Cada passo no chão é uma afirmação:estou aqui.Cada giro é uma declaração:existo.Cada salto é um grito silencioso:importo, valho, brilho!
Não importa se dançamos sozinhosou rodeados de gente,se há palco ou apenaso chão da cozinha,se há plateia ou somenteo olhar amoroso do espelho.
O que importa é esta rendição,esta entrega absolutaao prazer de habitar este corpo,de sentir cada músculo se alongar,cada articulação se flexionar,cada parte de nós colaborandonesta sinfonia de movimento.
E quando paramos,ofegantes e radiantes,com suor nas têmporase sorriso inevitável nos lábios,sabemos que acabamos de fazeralgo revolucionário:
Escolhemos a vida.Escolhemos o movimento.Escolhemos a alegria.
Porque dançar é isso é recusar a paralisia,é negar o entorpecimento,é afirmar com cada célula do corpo:enquanto eu puder me mover assim,enquanto eu puder sentir esta potência,enquanto eu puder celebrareste milagre de estar vivo,
eu danço.
E dançando,eu permaneço.E dançando,eu renasço.E dançando,eu simplesmentesou.
“O Mundo e as Palavras”
Como fazer uma poesia se o mundo não vive uma poesia? Olho pela janela e vejo pressa, vejo indiferença, vejo gente passando por gente como se fossem sombras. Onde está o verso nesse corre-corre sem sentido? Onde está a rima nesse barulho que não cessa?
Como falar de amor se o mundo não ama mais? As pessoas tocam telas, não mãos. Enviam corações digitais, mas esqueceram como se abraça de verdade. O amor virou pressa, virou conveniência, virou algo que se descarta quando incomoda. E eu aqui, com palavras antigas tentando descrever um sentimento que parece fora de moda.
Como escrever histórias se o mundo não faz mais histórias bonitas que tocam o coração? Tudo é rápido, superficial, descartável. As narrativas viraram manchetes, os encontros viraram notificações, os sonhos viraram metas de produtividade. Ninguém mais se senta para ouvir uma história completa. Querem o resumo, a versão curta, o final sem o caminho.
Como prometer um mundo diferente se o mundo não quer mudar? Ele insiste nos mesmos erros, repete as mesmas dores, ignora as mesmas lições. Falo de esperança e me olham como se eu falasse língua estrangeira. Falo de transformação e dizem que sou ingênuo.
Mas talvez seja exatamente por isso que preciso continuar. Porque se o mundo não vive poesia, alguém precisa escrevê-la. Se não há amor suficiente, que eu possa oferecer o meu. Se as histórias não tocam mais, que eu insista em contar aquelas que fazem o coração lembrar que ainda bate.
Talvez mudar o mundo comece justamente quando nos recusamos a aceitar que ele não pode ser diferente.
“Confissão da Alma”
Escrever é dialogar comigo,
conceder audiência ao murmúrio
que ecoa nas câmaras recônditas do ser.
Cada palavra grafada
confissão sussurrada,
revelação que atravessa camadas,
alcança os estratos onde habitam
as verdades não ditas.
No ato de escrever,
liturgia de cura se instaura,
ritual de reconciliação
com os fantasmas do pretérito.
A caneta, bisturi delicado,
incide sobre feridas antigas,
liberta o tempo aprisionado nas cicatrizes,
permite que respire, que se dissipe.
O papel acolhe
o que a memória guardou em silêncio,
oferece refúgio às dores
que se recusaram a ser esquecidas.
Neste exercício de transcrição da alma,
o autoconhecimento se revela.
As palavras não apenas descrevem
elas nos descobrem.
Cada frase tecida,
espelho límpido
onde nos contemplamos
sem máscaras, sem subterfúgios.
Na escrita somos
o confidente e o confessor,
aquele que escuta
e aquele que é escutado,
simbiose que dissolve
a solidão essencial do existir.
O que jaz nos recantos invisíveis
emerge através da tinta,
ganha substância,
torna-se tangível.
E assim, no papel,
nos encontramos mais inteiros,
mais verdadeiros,
mais profundamente compreendidos
por nós mesmos.
A escrita é mais que expressão
é revelação,
é epifania,
é o encontro primordial
com aquele que sempre fomos,
mas que só agora,
através das palavras,
podemos verdadeiramente reconhecer.
“Além das Medidas”
O meu amor por ti é maior que a dimensão do mundo. Não cabe nos mapas, não se mede em quilômetros nem se pesa em balanças de ouro.
É um sentimento que escapa pelas frestas do possível, que transborda os oceanos e se derrama sobre montanhas invisíveis.
Quando te penso, o universo fica pequeno.
As estrelas são apenas pontos tímidos comparados ao brilho que carregas nos olhos. A vastidão dos mares se torna uma poça d’água diante da profundidade do que sinto. O mundo gira, mas meu amor permanece fixo, imenso, inalterável como uma constelação que só eu consigo ver.
Não há atlas que contenha este sentimento, não há horizonte que o limite. Ele existe num lugar próprio, numa geografia secreta onde só habitam duas pessoas: eu, que amo, e tu, que és amada. Ali, nesse território sem fronteiras, construímos uma dimensão maior que todas as outras feita de instantes, de silêncios partilhados, de promessas sussurradas ao vento.
O meu amor por ti é maior que a dimensão do mundo porque criou um mundo próprio, infinito, eterno.
“Sentimento”
Sentimento é o que nos torna humanos,
é a cor que pinta os dias cinzentos,
é o que pulsa além dos nossos planos,
vivendo em nós, profundo, nos momentos.
Sentimento não se explica, se sente,
é alegria que explode sem avisar,
é tristeza que chega de repente,
é saudade que insiste em ficar.
É o amor que aquece quando faz frio,
é a raiva que queima como brasa,
é medo que percorre como um rio,
é esperança que nunca passa.
Sentimento nos move e nos transforma,
nos faz chorar, sorrir, até gritar,
é a essência que nos conforma,
o que nos faz viver e não apenas estar.
Tem sentimento em tudo que fazemos,
no abraço apertado, no olhar sincero,
nas palavras que calamos e nas que dizemos,
no que é falso e no que é verdadeiro.
É sentimento que nos liga uns aos outros,
que constrói pontes onde havia muro,
que nos faz irmãos, nunca solitários ou sós,
que torna o presente menos duro, o futuro menos escuro.
Sentir é estar vivo de verdade,
é aceitar que somos imperfeitos,
é viver com toda intensidade,
sentimentos puros, sentimentos retos.
O sentimento é mesmo o que dá sentido a tudo na vida!
