QUANDO FRANKL ENCONTROU C. S. LEWIS... Silasoliveira13
QUANDO FRANKL ENCONTROU C. S. LEWIS
Imaginei certa manhã que Viktor Frankl e C. S. Lewis estavam sentados diante de uma velha janela. Do lado de fora, a vida seguia indiferente: pessoas apressadas, folhas levadas pelo vento, alguma coisa começando enquanto outra terminava. Sobre a mesa, apenas duas xícaras de café e uma pergunta antiga demais para pertencer a qualquer um deles: por que continuamos quando a vida dói?
Frankl olhou demoradamente pela janela. Ele conhecia um tipo de sofrimento que poucas palavras seriam capazes de carregar. Tinha visto o homem perder nome, liberdade, família, dignidade e quase tudo aquilo que acreditava possuir. Ainda assim, aprendera que, mesmo quando não podemos escolher nossas circunstâncias, alguma coisa dentro de nós continua procurando uma razão para permanecer.
Lewis permaneceu em silêncio. Também conhecia a dor. Sabia que a fé não impede que o coração se despedace e que acreditar em Deus não significa receber explicações para todas as perdas.
— Talvez — pensei ouvindo aquele silêncio — o sofrimento não faça perguntas sobre aquilo em que acreditamos antes de entrar em nossa casa.
Frankl pareceu concordar.
Para ele, a questão não era perguntar apenas por que a vida havia permitido determinada dor, mas descobrir o que ainda poderia ser feito com a existência depois dela.
Lewis acrescentaria outra inquietação: talvez algumas respostas estejam além daquilo que conseguimos compreender enquanto estamos dentro da própria história.
E então percebi que os dois, apesar de caminharem por estradas diferentes, chegavam perigosamente perto de uma mesma porta.
Frankl chamava aquilo de sentido.
Lewis talvez chamasse de esperança.
Um procurava aquilo que permite ao homem continuar mesmo diante do absurdo da dor. O outro procurava aquilo que existe além daquilo que os nossos olhos conseguem alcançar.
Fiquei pensando nos dois e compreendi uma coisa: talvez a vida nunca tenha prometido explicar-se completamente.
Existem perdas que não compreenderemos.
Existem despedidas para as quais nenhuma filosofia será suficiente.
Existem noites em que até a fé parece falar muito baixo.
Mas talvez viver não seja receber todas as respostas.
Talvez viver seja descobrir uma razão para levantar quando algumas respostas nunca chegam.
Frankl encontrou essa força no sentido.
Lewis encontrou-a também na esperança de que nossa história seja maior do que aquilo que conseguimos enxergar.
E nós?
Talvez estejamos exatamente entre os dois.
Carregando nossas cicatrizes, nossas perguntas, nossos amores e nossas ausências, tentando compreender por que algumas coisas aconteceram e outras jamais acontecerão.
Até percebermos que a pergunta mais importante talvez não seja:
“Por que isso aconteceu comigo?”
Mas:
“O que farei com a vida que ainda permanece em minhas mãos?”
E naquele instante imaginei Frankl olhando para Lewis, Lewis olhando novamente pela janela e nenhum dos dois dizendo mais nada.
Porque algumas perguntas não foram feitas para receber uma resposta.
Foram feitas para nos ensinar a viver.
