O Tribunal que Carregamos Dentro de Nós... Silasoliveira13
O Tribunal que Carregamos Dentro de Nós
Você já reparou que explicamos o comportamento dos outros pelo caráter e o nosso próprio pelas circunstâncias?
Quando erramos, quase sempre encontramos uma explicação. Estávamos cansados, preocupados, com problemas demais na cabeça. Foi um dia difícil. Perdemos a paciência porque chegamos ao nosso limite. Respondemos mal porque alguma coisa dentro de nós já vinha doendo havia muito tempo.
Mas quando é o outro quem erra, curiosamente, as circunstâncias desaparecem.
Ele não estava cansado: ele é grosseiro.
Ela não estava passando por um momento difícil: ela é complicada.
Ele não cometeu um erro: ele é irresponsável.
Ela não perdeu a paciência: ela é arrogante.
Para nós, contexto.
Para os outros, caráter.
Talvez exista dentro de cada um de nós um pequeno tribunal onde ocupamos, ao mesmo tempo, lugares muito diferentes. Quando somos os acusados, queremos que todas as provas sejam examinadas, que nossa história seja conhecida, que nossas dores sejam consideradas. Mas quando o outro ocupa o banco dos réus, muitas vezes queremos apenas uma sentença rápida.
É estranho como conhecemos profundamente as razões dos nossos próprios erros e quase nunca conhecemos as razões dos erros alheios.
Sabemos das noites em que não dormimos.
Das preocupações que carregamos.
Das palavras que engolimos.
Das perdas que ninguém percebeu.
Das batalhas que enfrentamos silenciosamente.
Mas do outro conhecemos apenas o instante em que ele cruzou o nosso caminho.
E, ainda assim, julgamos uma vida inteira por alguns minutos.
Talvez seja essa uma das grandes injustiças das relações humanas: queremos ser compreendidos pela nossa história, mas frequentemente compreendemos os outros apenas pelo comportamento que tiveram conosco.
Não significa aceitar tudo.
Compreender não é permitir que alguém nos machuque repetidamente, nem transformar falta de respeito em desculpa. Existem comportamentos que precisam de limites e pessoas das quais precisamos manter distância.
Mas existe uma diferença enorme entre estabelecer um limite e decretar quem alguém é.
Porque uma atitude pode revelar muito sobre uma pessoa, mas nem sempre revela a pessoa inteira.
Talvez devêssemos fazer uma pergunta antes de condenar alguém:
“E se eu conhecesse as circunstâncias?”
Talvez aquele silêncio tivesse uma história.
Talvez aquela impaciência viesse de uma dor.
Talvez aquela distância escondesse uma batalha que nunca nos foi contada.
E talvez, algumas vezes, não houvesse explicação nenhuma capaz de justificar o comportamento.
Ainda assim, a pergunta teria servido para alguma coisa: impedir que nossa primeira impressão se transformasse imediatamente em verdade absoluta.
No fundo, maturidade talvez seja aprender a usar a mesma medida.
Se queremos que considerem nossas circunstâncias antes de julgarem nosso caráter, precisamos oferecer aos outros pelo menos a possibilidade de também possuírem circunstâncias que desconhecemos.
Porque todos nós carregamos capítulos que ninguém leu.
E talvez o mundo se tornasse um pouco mais humano se, antes de escrevermos a sentença sobre alguém, tivéssemos a humildade de admitir:
eu vi o comportamento, mas não conheço a história inteira.
