Alessandro Teodoro
Talvez, sem uma dose moderada de Ceticismo, fosse impossível desenvolvermos a Criticidade.
Não porque devamos desconfiar de tudo, mas porque pensar, em seu sentido mais rigoroso, exige a coragem de interromper o impulso de simplesmente concordar.
Há uma diferença muito profunda entre possuir convicções e ser possuído por elas.
A primeira pode nascer do exercício da razão; a segunda, muitas vezes, nasce do desejo de encontrar certezas que nos dispensem do trabalho de pensar.
O Ceticismo, quando Moderado e Desapaixonado, não precisa destruir as verdades que encontramos.
Ele apenas nos pergunta se temos razões suficientes para chamá-las de verdade.
E essa pergunta, embora pareça muito modesta, talvez seja uma das principais expressões de Liberdade Intelectual.
Kant compreendeu que a razão não se torna livre quando abandona todos os limites, mas quando aprende a reconhecer os limites dentro dos quais pode legitimamente afirmar alguma coisa.
O Pensamento Crítico começa justamente aí: quando deixamos de tratar nossas impressões como evidências, nossas preferências como princípios e nossas convicções como se fossem conclusões irrefutáveis.
Há, portanto, uma espécie de Humildade Intelectual escondida no ato de duvidar.
Quem duvida, honestamente, admite que pode estar equivocado — e, ao fazê-lo, preserva aberta a possibilidade de aprender.
Já aquele que transforma sua crença em identidade passa a experimentar toda objeção como uma ameaça pessoal.
E quando uma ideia se confunde com o próprio ego, a razão deixa de ser instrumento de investigação e passa a funcionar como advogada de nossas paixões.
Talvez seja por isso que a criticidade exija certa distância emocional.
Não uma distância que nos torne indiferentes, mas aquela que nos permita olhar para aquilo que amamos sem precisar necessariamente defendê-lo; para aquilo que odiamos sem precisar necessariamente condená-lo; e para aquilo em que acreditamos sem exigir que o mundo inteiro se curve à nossa crença.
Pensar autonomamente é, em alguma medida, suportar o desconforto de não ter sempre uma resposta pronta.
É preferir a honestidade da pergunta à tranquilidade de uma certeza mal examinada.
É compreender que a razão não existe para confirmar aquilo que já sentimos, mas para submeter inclusive nossas próprias convicções ao Tribunal da Reflexão.
Talvez a verdadeira Maturidade Intelectual comece quando percebemos que não somos mais livres por acreditar intensamente, mas por sermos capazes de perguntar, inclusive sobre aquilo em que acreditamos intensamente: por que penso assim?
E talvez seja justamente nesse ínterim entre a paixão que afirma e a razão que examina que começa a nascer aquilo que chamamos de Criticidade.
Sem o avanço exponencial do Fanatismo, talvez a Instrumentalização Religiosa não tivesse tanto Palco
ou Plateia.
Há uma verdade muito incômoda nessa provocação: nenhuma Instrumentalização Religiosa prospera sozinha.
Ela precisa de um ambiente em que a fé tenha sido suficientemente capturada pelas paixões, pelos medos e pelas certezas absolutas para que Deus deixe de ser o centro e passe a funcionar como argumento.
O fanatismo não é simplesmente uma fé intensa.
Fé e fanatismo podem até usar as mesmas palavras, mas caminham em direções totalmente opostas.
A fé madura conduz à humildade; o fanatismo conduz à convicção de que somente nós, nosso grupo ou nossa causa possuímos a verdade.
A fé reconhece o mistério de Deus; o fanatismo transforma Deus em propriedade particular.
A fé se deixa corrigir pela verdade; o fanatismo transforma qualquer crítica em perseguição.
É nesse terreno infértil que a Instrumentalização Religiosa encontra seu palco.
Quando uma pessoa deixa de perguntar “o que Deus exige de mim?” e passa a perguntar apenas “como posso usar Deus para legitimar aquilo que já decidi?”, a religião corre o risco de deixar de ser caminho de transformação para tornar-se ferramenta de poder.
A Bíblia é profundamente crítica a esse tipo de apropriação.
Os profetas denunciaram repetidamente uma religiosidade que mantinha ritos, discursos e aparências enquanto negligenciava justiça, misericórdia e verdade.
O Cristo também confrontou religiosos que honravam a Deus com os lábios, enquanto o coração permanecia distante.
Talvez essa seja uma das grandes tragédias espirituais do nosso tempo: não é que Deus tenha desaparecido do Discursou Público.
Pelo contrário.
Deus é frequentemente citado, invocado, defendido e utilizado.
O problema é que podemos falar muito sobre Deus e, ao mesmo tempo, revelar muito pouco d'Ele.
Há uma diferença enorme entre testemunhar a fé e utilizá-la como instrumento.
Quem testemunha a fé procura encarnar aquilo que anuncia.
Quem instrumentaliza a fé procura fazer com que aquilo que anuncia sirva às suas agendas ocultas.
Um, busca coerência; o outro, eficácia.
Um aceita perder privilégios por fidelidade ao Evangelho; o outro adapta o Evangelho para não perder privilégios.
E talvez seja justamente aí que o fanatismo se torna perigoso: ele oferece ao indivíduo a confortável sensação de estar lutando em nome de Deus, quando, na realidade, pode estar apenas santificando os próprios desejos.
O fanático não precisa necessariamente abandonar a religião.
Às vezes, ele se torna ainda mais religioso — mais barulhento, mais combativo, mais indignado, mais disposto a defender símbolos.
Mas a pergunta teológica essencial permanece: que Deus está sendo defendido?
Porque o Deus revelado em Jesus Cristo não parece interessado em conquistar consciências pela violência da imposição, nem em transformar adversários em inimigos absolutos.
Ele se aproxima dos feridos, acolhe os pecadores, confronta os poderosos, denuncia a hipocrisia e chama seus discípulos a amar até mesmo aqueles que pensam de maneira diferente.
Por isso, quando a fé produz ódio permanente, talvez seja necessário perguntar se ainda estamos diante da fé ou diante de uma ideologia religiosa.
O problema não está apenas nos que instrumentalizam a religião.
Está também em nós, quando entregamos nossa consciência ao grupo, quando confundimos fidelidade a Cristo com fidelidade a uma liderança, quando transformamos opinião em dogma e quando aceitamos qualquer discurso, desde que ele venha acompanhado de uma linguagem religiosa.
A Instrumentalização precisa de palanque, mas também precisa de plateia.
E talvez a responsabilidade cristã comece justamente quando deixamos de ser plateia.
Uma fé intelectualmente responsável não teme perguntas.
Uma Espiritualidade Saudável não precisa fabricar inimigos para sobreviver.
Uma consciência iluminada pelo Evangelho não precisa demonizar o outro para afirmar a própria identidade.
No fundo, a grande questão não é apenas quem está usando a religião.
É também porque permitimos que nossa fé seja usada.
Talvez seja tempo de recuperar uma espiritualidade menos apaixonada por guerras culturais e políticas, e mais apaixonada pela verdade; menos preocupada em vencer discussões e mais comprometida em praticar justiça; menos interessada em controlar o outro e mais disposta a converter a si mesma.
Porque, quando Deus se torna instrumento das nossas paixões, já não estamos colocando nossas paixões a serviço d'Ele.
E essa inversão talvez seja uma das formas mais sofisticadas de idolatria: não negar Deus, mas colocá-lo a serviço de nós mesmos.
