Há Textos nos quais a gente Brinca... Alessandro Teodoro

Há Textos nos quais a gente Brinca com as Palavras; noutros, são elas que se juntam para Brincar com a gente.
E talvez seja justamente aí que a literatura deixe de ser apenas um exercício de linguagem para se tornar uma espécie de espelho da existência.
Porque há Palavras que obedecem à nossa vontade, mas há outras que, uma vez reunidas, escapam ao nosso controle, revelam o que escondíamos de nós mesmos e nos colocam diante de perguntas que não sabíamos nem formulá-las.
Escrevemos acreditando que conduzimos o pensamento, até descobrirmos que, às vezes, é ele quem nos conduz.
Escolhemos uma Palavra por sua beleza e, de repente, ela nos devolve uma lembrança.
Construímos uma frase em busca de sentido e terminamos diante de um silêncio que diz muito mais do que havíamos planejado.
Há Textos que nascem da inteligência; outros, das feridas abertas.
Alguns são arquitetados com rigor, enquanto outros parecem brotar de um lugar misterioso onde a razão não alcança e a sensibilidade compreende sem precisar explicar.
E existem aqueles que, sem pedir licença, encontram em nós uma porta entreaberta e entram justamente onde ainda não aprendemos a nos defender.
Talvez porque as Palavras não sejam apenas instrumentos de expressão, mas também de revelação.
Elas tanto podem organizar o caos que carregamos quanto desorganizar as certezas que nos mantêm confortáveis.
Podem nos oferecer respostas, mas também têm o poder de tornar nossas perguntas mais profundas.
E, não raro, uma única frase é suficiente para abalar uma convicção que julgávamos inabalável.
O curioso é que nem sempre compreendemos aquilo que escrevemos no instante em que escrevemos.
Às vezes, a consciência chega depois, como quem encontra, entre as linhas, vestígios de uma verdade que o coração já conhecia, mas que a razão ainda não tinha coragem de admitir.
É por isso que certos Textos não terminam no ponto final.
Continuam reverberando, deslocando ideias, provocando incômodos, revisitando memórias.
A gente fecha o livro, abandona a página, segue a vida — mas alguma coisa permanece aberta dentro de nós.
E talvez a maior virtude de um Texto não seja a de nos convencer de alguma coisa, mas a de nos tornar incapazes de continuar pensando exatamente como antes.
Porque Brincar com as palavras é uma arte; permitir que elas Brinquem com nossas certezas é um risco.
Exige Humildade Intelectual para reconhecer que nem tudo o que pensamos é verdade, coragem para rever o que acreditávamos e sensibilidade para perceber que, por trás de cada Palavra, pode existir uma experiência humana que não conhecemos por inteiro.
No fim, escrever talvez seja isso: tentar dar forma ao que sentimos, mesmo sabendo que nenhuma Palavra consegue conter a totalidade de uma experiência.
E ler, por sua vez, é aceitar a possibilidade de que aquilo que alguém escreveu sobre si possa, inesperadamente, revelar alguma coisa sobre nós.
Há Palavras que passam pelos olhos.
Outras atravessam a consciência.
E há aquelas, raras e inquietantes, que chegam tão fundo que já não sabemos se fomos nós que as interpretamos ou se foram elas que, finalmente, nos traduziram.
Porque, quando as Palavras começam a Brincar com a gente, o Texto deixa de ser apenas aquilo que lemos e passa a ser, também, aquilo que somos obrigados a descobrir em nós mesmos.
