⁠Tão Assustador quanto a Frieza à... Alessandro Teodoro

⁠Tão Assustador quanto a Frieza à nossa volta é a facilidade com que aprendemos a Congelar. Há algo profundamente inquietante na maneira como a indiferença, aos... Frase de Alessandro Teodoro.

⁠Tão Assustador quanto a Frieza à nossa volta é a facilidade com que aprendemos a Congelar.


Há algo profundamente inquietante na maneira como a indiferença, aos poucos, deixa de nos causar espanto e passa a fazer parte da paisagem.


No início, ainda nos incomodamos com a dor alheia, com a injustiça escancarada, com o sofrimento que atravessa os olhos de alguém e parece pedir, mesmo em silêncio, um pouco de humanidade.


Depois, quase sem perceber, começamos a desviar o olhar.


Criamos justificativas, ficamos na defensiva e chamamos de maturidade aquilo que, muitas vezes, é apenas o nosso modo de não sentir tanto.


Talvez o maior perigo não esteja em viver cercado de pessoas gélidas, mas em descobrir que somos capazes de nos adaptar a essa frieza.


Porque o ser humano tem uma habilidade extraordinária de transformar o absurdo em rotina, a crueldade em normalidade e a ausência de afeto em uma espécie de mecanismo de sobrevivência.


Aquilo que antes nos feria passa a nos parecer inevitável.


E o que considerávamos inaceitável começa a ser tolerado, desde que não nos alcance diretamente.


É assim que o gelo se instala: não necessariamente pela falta de sentimentos, mas pelo excesso de decepções; não pela incapacidade de amar, mas pelo medo de continuar oferecendo algo que tantas vezes foi recebido com desprezo.


Aos poucos, confundimos proteção com afastamento, prudência com indiferença e força com a capacidade de não demonstrar que algo ainda nos toca.


Como se sentir fosse uma fraqueza, quando talvez seja justamente a prova mais evidente de que ainda não nos rendemos por completo à dureza do mundo.


Mas há uma pergunta que merece nos acompanhar: até que ponto precisamos endurecer para sobreviver sem nos tornarmos semelhantes àquilo que nos feriu?


Nem toda frieza nasce da maldade.


Algumas nascem do cansaço, outras do medo, outras de feridas que nunca encontraram espaço suficiente para cicatrizar.


Compreender isso também é um exercício de humanidade.


Entretanto, compreender as razões do endurecimento não significa romantizá-lo, tampouco aceitar que a dor seja uma autorização para reproduzir nos outros aquilo que um dia nos feriu.


Existe uma diferença muito sutil, mas também muito fundamental, entre aprender a não permitir que tudo nos destrua e aprender a não permitir que nada mais nos comova.


A primeira é sabedoria; a segunda pode ser uma forma silenciosa de desistência.


Talvez amadurecer não seja deixar de sentir, mas aprender a sentir sem nos perdermos.


Seja estabelecer limites sem transformar o coração em território inacessível.


Seja compreender que nem todos merecem a nossa confiança, mas que isso não significa que a confiança tenha perdido o seu valor.


Afinal, proteger a própria sensibilidade não deveria exigir o sacrifício da nossa capacidade de reconhecer a humanidade no outro.


Em um mundo que frequentemente recompensa a indiferença e interpreta a gentileza como ingenuidade, permanecer sensível exige uma coragem muito particular.


É preciso muita coragem para não devolver a agressividade recebida, para não transformar cada decepção em uma sentença sobre a natureza humana, para continuar acreditando que a delicadeza tem lugar mesmo onde a brutalidade parece prevalecer.


Não se trata de ser ingênuo, de aceitar tudo ou de permanecer disponível para quem insiste em nos ferir.


Trata-se de não permitir que as circunstâncias decidam, por nós, quem devemos nos tornar.


Porque talvez uma das maiores tragédias da existência não seja apenas sofrer com a frieza do mundo, mas sobreviver a ela e, um dia, perceber que já não conseguimos reconhecer o calor que ainda existe.


Que nos acostumamos tanto a não esperar nada que passamos a desconfiar até do que é genuíno.


Que, na tentativa de evitar novas feridas, fechamos as portas também para aquilo que poderia nos devolver a esperança.


No fim, a pergunta não é apenas quantas vezes a vida nos obrigará a endurecer, mas quantas vezes teremos a lucidez de escolher não Congelar também.


Que saibamos desenvolver a firmeza necessária para enfrentar o mundo sem perder a ternura necessária para habitá-lo.


Que a nossa experiência nos torne mais conscientes, e não mais indiferentes; mais criteriosos, e não incapazes de confiar; mais fortes, sem que essa força nos roube a delicadeza.


Afinal, há uma diferença imensa entre ter um coração que aprendeu a se proteger e ter um coração que já não se permite sentir; um coração Congelado ou Empedernido.


E talvez a verdadeira resistência, em tempos de tanta frieza, não consista em nos tornarmos imunes à dor, mas em impedir que ela nos convença de que a humanidade deixou de valer a pena.


Porque o mundo já tem gelo suficiente.


O que talvez esteja faltando não é mais gente capaz de suportar a frieza, mas gente que, apesar dela, ainda se lembre de como aquecer.