Só os tolos acreditam sentir a... Alessandro Teodoro

Só os tolos acreditam sentir a presença de Deus nas orações alicerçadas pelo Discurso de Ódio.
A provocação parece dura, talvez até incômoda, mas necessária, sobretudo em tempos nos quais o nome de Deus tem sido pronunciado por lábios que, simultaneamente, disseminam a intolerância, legitimam a exclusão e transformam o próximo em inimigo.
Afinal, de que Deus estamos falando quando a oração, em vez de amolecer o nosso coração, endurece os julgamentos?
Que espiritualidade é essa que dobra os joelhos diante do altar, mas se recusa a estender as mãos àqueles que considera indignos de amor?
A oração, em sua essência mais profunda, não deveria ser um instrumento de confirmação dos nossos preconceitos, mas um exercício de confronto com aquilo que há de mais sombrio em nós.
Orar não é simplesmente falar com Deus; é também permitir que Ele questione nossas certezas, desmonte nossas arrogâncias e nos retire do conforto moral de acreditar que estamos sempre do lado certo.
Quem ora verdadeiramente não busca apenas a aprovação divina para as próprias convicções; dispõe-se, sobretudo, a ser transformado por uma verdade que ultrapassa seus interesses, suas paixões ideológicas e suas conveniências pessoais.
O problema começa quando a religião deixa de ser caminho de conversão e se torna escudo para a hostilidade.
Nesse momento, o nome de Deus passa a funcionar como uma espécie de autorização celestial para o desprezo humano.
O ódio ganha aparência de zelo doutrinário, a intolerância veste as roupas da fidelidade bíblica, e a crueldade aprende a citar versículos para justificar aquilo que o amor jamais legitimaria.
Assim, o Discurso de Ódio não apenas contradiz a mensagem cristã: ele a sequestra, instrumentalizando a fé para fins que frequentemente negam o próprio fundamento do Evangelho.
Jesus, nos relatos cristãos, não poupou críticas à religiosidade que valorizava as aparências enquanto negligenciava a Justiça, a Misericórdia e a Fidelidade.
Sua parábola do fariseu e do publicano, em Lucas 18, é particularmente reveladora: enquanto um homem transforma sua oração em celebração da própria superioridade moral, o outro reconhece humildemente sua necessidade de misericórdia.
A narrativa nos coloca diante de uma pergunta desconcertante: será que nossas orações nos aproximam de Deus ou apenas nos convencem de que somos melhores do que os outros?
Há uma diferença fundamental entre professar o nome de Cristo e assumir a responsabilidade ética de seguir seus passos.
O primeiro gesto pode ser realizado com palavras; o segundo exige uma transformação que alcança a maneira como pensamos, julgamos, falamos e tratamos as pessoas.
Em Mateus 5:44, Jesus ordena o amor aos inimigos e a oração por aqueles que nos perseguem.
Não se trata de uma exigência sentimental, tampouco de uma ingenuidade diante do mal.
Trata-se de uma ruptura radical com a lógica da desumanização, aquela que nos convence de que certas pessoas deixaram de merecer dignidade porque pensam diferente, pertencem a outro grupo ou não se encaixam em nossas convicções.
Isso não significa que a fé cristã deva silenciar diante da injustiça, abandonar a crítica ou confundir amor com permissividade.
O amor pode denunciar, confrontar, estabelecer limites e exigir responsabilização.
A diferença está em não transformar a denúncia em humilhação, a divergência em perseguição e a defesa da verdade em licença para destruir a dignidade alheia.
A verdade que se proclama em nome de Cristo não pode ser separada da responsabilidade pelo modo como é proclamada.
Também é necessário reconhecer que não nos cabe declarar, com absoluta certeza, o que Deus faz ou deixa de fazer no íntimo de cada pessoa.
A experiência religiosa pertence a uma dimensão profunda da consciência humana, e a presunção de conhecer integralmente o juízo divino pode se tornar outra forma de arrogância espiritual.
Entretanto, podemos e devemos examinar os frutos de nossas práticas religiosas.
Se uma oração alimenta sistematicamente o desprezo, se uma pregação estimula a perseguição, se uma comunidade encontra prazer na humilhação de quem considera adversário, há razões teológicas e éticas suficientes para questionar a autenticidade do testemunho que ela oferece.
A advertência de 1 João 4:20 é incontornável: não faz sentido afirmar amor a Deus enquanto se odeia o irmão.
Essa passagem não nos permite reduzir a espiritualidade a discursos piedosos, porque desloca a questão da religião para a relação concreta com o outro.
O próximo deixa de ser uma abstração conveniente e passa a ser o lugar onde nossa fé é desafiada a demonstrar sua coerência.
Talvez o maior perigo da religiosidade alicerçada pelo ódio seja justamente sua capacidade de produzir uma consciência tranquila.
Quem acredita possuir a aprovação divina pode deixar de interrogar a própria consciência.
Já não percebe a violência de suas palavras, pois as considera defesa da fé; não reconhece a injustiça de suas atitudes, pois as interpreta como combate ao mal; não enxerga a própria soberba, pois a confunde com firmeza doutrinária.
Nesse cenário, Deus deixa de ser aquele diante de quem nos arrependemos e passa a ser imaginado como um aliado incondicional de nossas hostilidades.
Mas o Deus anunciado por Jesus não pode ser reduzido a uma projeção ampliada de nossas preferências e ressentimentos.
O Evangelho nos apresenta um Cristo que se aproxima dos marginalizados, acolhe pessoas desprezadas, confronta a hipocrisia religiosa e denuncia estruturas que sacrificam a dignidade humana em nome de uma suposta pureza.
Seguir esse Cristo exige muito mais do que defender publicamente a religião: exige disposição para reconhecer quando a própria religiosidade se tornou cúmplice daquilo que deveria combater.
Por isso, antes de perguntar se sentimos a presença de Deus durante nossas orações, talvez devêssemos perguntar o que acontece conosco depois delas.
Tornamo-nos mais misericordiosos ou mais implacáveis?
Mais comprometidos com a justiça ou mais apaixonados pela punição?
Mais capazes de reconhecer a humanidade de quem discorda de nós ou mais habilidosos em encontrar justificativas para desprezá-lo?
A intensidade de uma experiência religiosa não constitui, por si só, prova de sua verdade.
Emoções profundas, lágrimas, arrebatamentos e convicções fervorosas podem acompanhar tanto experiências sinceras de fé quanto processos de autoengano.
O discernimento espiritual, portanto, não pode depender apenas daquilo que sentimos, mas também daquilo que cultivamos e produzimos.
Na tradição cristã, os frutos importam: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio, conforme Gálatas 5:22-23.
A provocação inicial, portanto, precisa alcançar também aqueles que a pronunciam.
Seria confortável utilizá-la apenas para denunciar a hipocrisia dos outros.
Mas a crítica ao discurso de ódio perde sua força moral quando se transforma em desprezo por quem o reproduz.
Combater a desumanização exige não reproduzir a mesma lógica que denunciamos.
Isso não nos obriga a tolerar discursos violentos ou a relativizar suas consequências; obriga-nos, antes, a enfrentá-los com lucidez, firmeza e responsabilidade.
No fim, a questão não é simplesmente saber quem tem o direito de afirmar que sente Deus.
A questão é discernir que imagem de Deus estamos revelando quando falamos em seu nome.
Se nossa oração não nos torna mais atentos à dor humana, se nossa fé não nos conduz à responsabilidade ética, se nossa devoção convive tranquilamente com a humilhação do próximo.
Talvez seja hora de interromper o discurso religioso e iniciar a mais difícil das orações: aquela em que pedimos a Deus que nos livre não apenas dos pecados que reconhecemos nos outros, mas também daqueles que aprendemos a chamar de virtude em nós mesmos.
Porque, se a oração é encontro com o sagrado, ela não pode servir de esconderijo para o ódio.
E, se o Evangelho é verdadeiramente a boa notícia do Reino de Deus, não pode ser transformado em instrumento de legitimação daquilo que destrói a dignidade humana.
Talvez o maior sinal da ausência de conversão não seja a incapacidade de sentir Deus durante uma oração, mas a tranquilidade de continuar odiando depois de pronunciá-la.
