⁠Sempre que a Saudade desiste de... Alessandro Teodoro

⁠Sempre que a Saudade desiste de fingir costume e me abraça um pouquinho mais apertado, o que me consola é a gratidão pelo Azar de ter tido tanta Sorte. Porque ... Frase de Alessandro Teodoro.

⁠Sempre que a Saudade desiste de fingir costume e me abraça um pouquinho mais apertado, o que me consola é a gratidão pelo Azar de ter tido tanta Sorte.


Porque existe uma espécie de ironia muito bonita em ter vivido coisas tão boas a ponto de sentir falta delas.


É como se a vida, depois de nos presentear com pessoas, lugares, abraços e instantes que pareciam pequenos demais para merecer tanta importância, nos cobrasse, em parcelas de saudade, o privilégio de ter estado ali.


E talvez seja esse o preço mais delicado de ser feliz: descobrir, mais tarde, que alguns dos nossos momentos preferidos estavam acontecendo sem que soubéssemos que um dia seriam só lembranças.


A gente não percebe o último abraço enquanto abraça, não floreia a última conversa enquanto conversa, não se despede de certos dias porque acredita, ingenuamente, que haverá outros iguais.


E ainda bem que é assim.


Seria triste demais viver cada instante com medo de perdê-lo.


O tempo tem essa estranha mania de transformar o cotidiano em relíquia.


Aquela mesa cheia de gente, a risada que interrompia qualquer assunto sério, a voz familiar chamando nosso nome, o caminho de sempre, a presença que dispensava explicações…


Tudo isso, um dia, pode virar um lugar dentro da gente onde só a memória consegue entrar.


É aí que a saudade aperta.


Não necessariamente porque a vida deixou de ser bonita, mas porque algumas belezas não se repetem da mesma maneira.


Há pessoas que continuam existindo em nós, mesmo quando já não caminham ao nosso lado.


Há versões nossas que ficaram guardadas em épocas que não voltam.


Há felicidades que não podem ser revividas, apenas reconhecidas, com um sorriso tímido e os olhos ligeiramente marejados, quando alguma lembrança resolve meter o pé na porta.


E, nessas horas, tento não tratar a saudade como uma inimiga.


Afinal, ela não chega de mãos vazias: traz consigo as provas de que alguma coisa valeu a pena.


Se dói, é porque tocou fundo.


Se faz falta, é porque fez morada.


Se ainda emociona, é porque o tempo, apesar de tudo o que leva, não conseguiu apagar a importância do que ficou.


Por isso, quando a Saudade me abraça mais forte, eu agradeço.


Agradeço até pelo desconforto de sentir falta, porque ele me lembra que nem tudo foi passageiro no sentido de ser insignificante.


Algumas coisas passaram pela minha vida e permaneceram em mim.


E talvez permanecer seja uma forma silenciosa de eternidade.


No fim das contas, tive o azar de conhecer a ausência, de experimentar despedidas, de entender que nem tudo o que amo poderei conservar por perto.


Mas tive a sorte imensa de encontrar motivos para sentir tudo isso.


Tive gente que fez a vida valer a pena, momentos que me ensinaram o significado de estar vivo e histórias que, mesmo encerradas, continuam iluminando partes de mim.


E, se pudesse escolher, talvez não pedisse uma vida sem Saudade.


Pediria apenas sabedoria para acolhê-la sem deixar que ela me roube o presente.


Porque honrar o que passou não significa morar no passado; significa levar adiante, com carinho, aquilo que o passado deixou de melhor em nós.


Que eu nunca me torne tão acostumado às ausências a ponto de esquecer a beleza das presenças.


Que eu nunca deixe de agradecer pelo que vivi só porque já não posso viver da mesma forma.


E que, mesmo nos dias em que a memória pesar mais do que o coração consegue suportar, eu me lembre de que há tristezas que são, também, uma espécie de privilégio.


Afinal, entre nunca ter vivido algo extraordinário e sentir saudade de algo que foi extraordinário, eu ainda escolheria a sorte de ter vivido.


Porque algumas perdas são o avesso de grandes encontros.


Algumas lágrimas são a continuação de antigas alegrias.


E algumas Saudades, por mais que apertem, são apenas o coração dizendo, à sua maneira imperfeita e sincera:


“Olha só o quanto a vida foi generosa comigo, mesmo que agora eu precise aprender a viver sem algumas das coisas que me fizeram tão feliz.”