Verbo
Os mundos submersos
Rasgam a carne até ao tutano
Do verbo sentir adentro da iris
Na aparente inércia
do meu olhar
SENTIR.
Verbo impossível e longe de uma definição.
Sentir é eufórico,
é como estar em êxtase puro e há de se escrever para diminuir a ânsia e febre de sentir.
Sinto tanto que chego a ter pena de mim mesmo quando “estes sentimentos” derem por um fim, quando o oco predominar e a consciência pesar, novamente.
Será doloroso, pungente.
Diz a Bíblia que, “no princípio, era o verbo”. Depois vieram as outras classes gramaticais e, consequentemente, os gramáticos. A partir daí, as coisas só se complicaram.
Entre o verbo e o véu há mais vãos do que filosofia e região são capazes de preencher com crenças acolhedoras ou duras racionalidades.
A PALAVRA EM DOIS CORPOS
Dizem que verbo é palavra de ação, e masculina.
Mas este aqui, inquieto,
quis ser conjugação,
e atende por ela.
Substantivo, que sempre se quis centro,
recusou-se a ser “forma”,
preferiu ser ele,
para que não o confundissem com moldura.
É que às vezes as palavras se cansam
dos papéis que lhes deram.
E quando a língua se rebela,
a gramática vira espelho
e não molda, reflete.
E então passam a viver,
como quem sente
e não apenas diz.
Ele a chama de casa,
mas ela já partiu na próxima conjugação.
Ele é substantivo, deseja ser abrigo,
ela é verbo jamais aceita teto.
Nomeia o que toca,
mas ela toca o que nem sabe nomear.
Ela se move entre tempos,
caminha de infinitivo em infinitivo.
Ele tenta vesti-la com um artigo,
mas ela se desfaz entre modos.
Quando ele diz “sou teu”,
ela propõe um talvez “seremos”.
Ele se enfeita com adjetivos:
forte, gentil, único,
esperando que ela o deseje.
Mas ela abre os botões do sentido
com os dedos da ausência.
Ela quer desatar, deslizar, escapar.
Ele se cobre.
Ela se despe.
Ela vem vestida de advérbios:
Sutilmente, ainda, por pouco.
Mas logo vai tirando tudo:
a pressa, o tom, o tempo.
Ele, fixo no nome, permanece.
Ela, feita de instante, se despe de si.
Ele se afirma nos pronomes:
Eu sou isso.
Tu és aquilo.
Ele é alguém.
Mas ela apaga os limites
quando age, qualquer um pode ser ela.
Na sua fala, os sujeitos se dissolvem
como tecidos sobre o chão.
Ela atravessa preposições
como quem abre zíperes.
vai por, desce com, some sem.
Ele espera em.
Ela dança entre.
Ele precisa de forma,
ela, de corpo aberto ao instante.
Ele suplica conjunções:
“E se o silêncio fosse só uma vírgula?”
“Se ainda coubéssemos na mesma frase?”
Mas ela apenas sussurra: “Embora.”
Ele quer que o sentido se estenda,
ela prefere que o silêncio desça
como alça que escorrega do ombro,
sem precisar de ponto final.
Ela explode em interjeição.
Não cabe em estrutura.
Grita “agora!”,
sussurra “vem…”,
escorre em silêncio.
Ele tenta entender.
Ela já virou suor.
Ele se anuncia com artigo:
o que precede,
aquele que esperou ser nomeado no toque.
Mas ela não lê rótulos nem prólogos.
Chega como quem interrompe a espera,
e sai sem fechar o fecho,
deixando o sentido entreaberto.
Ela conta as vezes em que cedeu,
não em ordem,
mas no intervalo onde o tempo se curva.
Nenhuma entrega se repete,
nenhuma ausência tem número.
Ele guarda o eco de algo que quase foi,
mas ela sempre escapa antes do ponto.
E seguem:
ele, com frases por terminar;
ela, com conjugação que não cabe na linha.
Entre um toque e um tempo,
a palavra tenta contê-los,
mas o tempo do verbo
nem sempre conjuga o sentido do substantivo.
Verbo da União:
Quando se conjuga algo
O infinito pode estar envolvido
Mas a pedra que ninguém para
É a famosa união
Ela faz amar, viver e nutrir
O que faz ela insubstituível
Ela faz a luz se aproximar
Quando você se aproxima dela
É surreal o quanto ela te abraça
E o quanto eu sinto esse aconchego
É o quanto faz eu conjugar o verbo abraçar
Tudo de ruim se apaga da galeria e vai direto para a lixeira
Porque quando a união aparece
O verbo começa a trazer o sinal positivo
O verbo da vida, uma promessa,
de viver, aspirar e sentir.
Mas quando a realidade nos desperta,
e o átrio se depara com a verdade?
POEMINHA PUERIL
quão difícil é conjugar
o verbo namorar
falta - Eu
falta - Nós
você pode me ajudar?
O EU é o centro do Ser! É onde o Verbo se manifesta. Toda linguagem é viva. Nada existe sem Linguagem e até o silêncio sabe falar!
ENTRE O VERBO E O VÉU
Creio que entre o verbo e o véu há mais vãos do que filosofia e região são capazes de preencher com crenças acolhedoras ou duras racionalidades.
É comum que recorramos a livros, símbolos sagrados de dogmas ou de conjecturas adornadas pelas ciências para resguardar nossas próprias ideologias.
Esquecemo-nos de que há apenas um saber, uma dádiva primordial: a dúvida. Essa velha companheira, que atiçou o fogo e dominou os céus. O elo entre a efemeridade do saber e a alegria dos talvezes.
Dessarte, o mundo é um convite maravilhosamente cruel à reflexão. Uma festa da qual não pudemos — por razões improváveis e explicações arbitrárias — negar a participação. Cá estamos, mesa posta. Resta servir-se do banquete antes das luzes se apagarem.
João 1,14 – O Verbo se fez carne
“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.”
João já havia dito que o Verbo era Deus (Jo 1,1).
O dia se foi,
O que foi feito, foi feito, deixa a mágoa do dia para o ano passado, do verbo passar, passar longe de negatividade...
VERBO POETA
Poeta, conjugação, expressão do amor
Das entranhas, frações de alma e grito
Escrito em sensações, o diverso infinito
Aflito, calmo, és da palavra manejador
Poetar, o poeta, frasear, variante flexão
Em cada canto, o teu canto é irrestrito
Largo, plural, tão singular, bela oração
O verbo poeta, muito além do espírito
Antes de modo, tempo, pessoa: a ação
Segue a ordem do coração, e profundo
O dialeto da emoção, da ilusão secreta
E, o que seria da poesia neste mundo?
De qual verbo seria o poeta a poetar...
Do amar, sonhar ou puramente poeta...
© Luciano Spagnol - poeta do cerrado
08 setembro/2021, 11’:10” – Araguari, MG
Verbo
É poesia...
Convicta e precisa...
Tua espada afiada te fez fugir...
Ela cortou e te feriu....
Açoita....
Tu mesmo sentiu....
Flagelados são os tecidos que te cobriu....
Consciente com teu pranto...
Você sabe o que de fato te atingiu...
Robustas chicotadas em ti marcaram...
Na mutilação...
Sangrastes até quase a última gota...
Nobre é esse teu querer...
As Fagulhas são visíveis ainda em teu corpo...
As marcas que em ti fizeram...
Foi oposto ao teu gosto...
Condenada tu és...
Tua rústica pele foi decepada...
Mas o imortal te forte contra dores...
Agora...
Teu espírito é da tua própria raiz...
Traumatizada...
Mas nem isso te faz padecer....
O relógio não marca a hora....
Teu tempo ainda não chegou...
Anti quedas...
Jamais irão te ver...
Tua carne é de boa textura....
Junto ao teus ossos e teu olhar...
Apenas você....
Sabe direito...
Decifrar em detalhes...
O verbo da dor e do amar...
Autor:Ricardo Melo.
O Poeta que Voa.
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