Talvez

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Talvez eu só não saiba ficar

Aprendi a me curar sozinha, a engolir o que doía e a continuar como se nada tivesse acontecido. Mas, no caminho, também aprendi a me afastar.

Quando não estou bem, desapareço. Fecho portas, levanto muros e me escondo dentro de mim. Não porque não queira ninguém por perto, mas porque me acostumei a acreditar que preciso conseguir sozinha.

E, às vezes, a solidão que um dia foi proteção começa a parecer uma prisão.

Carrego dúvidas, inseguranças e medos que nem sempre consigo explicar. Sinto-me presa em um túnel, caminhando sem saber onde ele termina.

Ainda assim, continuo desejando.

Quero mudar, conquistar, viver e construir uma vida que faça sentido para mim. Mas, quando as coisas ficam difíceis, algo dentro de mim se apaga.

Eu desisto.
E depois me culpo por ter desistido.

Durante muito tempo, pensei que não queria o suficiente. Afinal, quem realmente quer luta, insiste e persiste. Então comecei a questionar tudo:

Será que sou superficial?
Será que nunca amei verdadeiramente os meus sonhos?
Será que, se quisesse de verdade, teria força para continuar?

Mas talvez eu esteja sendo injusta comigo.

Desistir não significa necessariamente não querer. Às vezes, significa ter medo: de falhar, de não ser capaz, de tentar novamente e sentir a mesma frustração.

Talvez eu recue não por falta de desejo, mas por ainda não saber lidar com a distância entre aquilo que imagino e aquilo que consigo fazer hoje.

Até coisas simples parecem enormes, como tirar a carta de condução. E então penso:

“Se nem isso consigo, como vou conseguir tudo o que sonho?”

Talvez eu não seja o obstáculo. Talvez seja apenas alguém aprendendo a permanecer quando o caminho se torna difícil.

Talvez eu não precise de mais força, mas de mais paciência comigo.

Posso querer e ter medo. Posso cansar, cair e parar para respirar. E, ainda assim, continuar desejando.

Persistir talvez não seja nunca desistir, mas aprender a voltar:

depois do medo,
da frustração,
de um dia ruim.

Voltar para mim.

Talvez a pergunta não seja: “Será que quero o suficiente?”

Mas sim:

“O que acontece dentro de mim quando aquilo que quero exige que eu acredite em mim?”

Talvez seja aí que eu precise começar: aprendendo, pouco a pouco, a não me abandonar sempre que as coisas ficam difíceis.

Dizem que cada átomo no nosso corpo alguma vez foi parte de uma estrela, talvez eu não vá embora, talvez eu vá para casa.

Talvez o verdadeiro sentido da amizade não esteja em quem comemora nossas vitórias, mas em quem segura nossa mão quando precisamos encontrar forças para recomeçar.

Talvez ainda não tenhamos entendido o nosso chamado porque temos buscado direção sem nos aproximarmos de Quem nos chama.

Enquanto Você Sonha Comigo

Se a noite me rouba o sono
e me faz na cama virar,
talvez seja o teu pensamento
que veio de longe me buscar.
Talvez enquanto estou acordado,
tentando em vão adormecer,
você esteja em algum sonho
procurando por mim sem saber.
E se for verdade esse encanto,
não quero a noite terminar:
prefiro perder algumas horas de sono
só para, em teus sonhos, ficar.

Talvez, o Luar


Ele é lindo como o luar,
silencioso e distante,
brilha só o suficiente
pra eu me perder no olhar.


Seus olhos — calmaria e abismo —
guardam paz e solidão,
como quem já viveu o amor
e ainda sente sua extensão.


Os cabelos, negros como a noite,
guardam segredos que o vento não diz,
e os lábios… ah, os lábios —
tocam o ar e fazem sonhar feliz.


Seu toque é quente como o verão,
um carinho que me desarma,
um instante e o mundo some,
fica só o som da alma.


Mas ele não é meu…
ou talvez pudesse ser,
num outro tempo,
num outro céu,
onde o luar nos deixasse acontecer.

“O que ninguém vê em nós talvez seja justamente aquilo que mais esforço fazemos para não deixar desmoronar.”

“Talvez certas portas nunca tenham sido feitas para serem abertas; talvez existam apenas para descobrirmos quanto tempo insistimos diante delas.”

“Talvez o mais difícil de mudar não seja abandonar antigos hábitos, mas aceitar que algumas pessoas só conheciam a versão de nós que já não existe.”

O sol nasce uma única vez para cada manhã; quem espera que ele nasça duas vezes talvez ainda não tenha compreendido que a vida não repete seus instantes. O passado não aceita negociação, o futuro não oferece garantias e o presente é apenas um breve intervalo entre o nada que fomos e o nada que inevitavelmente seremos.

Carta ao Leitor (e ao Mundo Invisível)


Se você chegou até aqui, talvez também sinta que há lugares dentro de si onde nunca esteve —
mas que, de alguma forma, sempre lhe pertenceram.


Lugares que sussurram com a voz do vento,
que sonham em línguas que você não aprendeu,
mas que o seu coração reconhece como lar.


Talvez você também tenha olhado para o céu
e sentido que era um espelho de dentro.
Que não somos apenas corpo, nome ou tempo —
mas fragmentos do Todo, carregando memórias que não lembramos,
e futuros que já nos habitam em silêncio.


Eu não pretendendo te guiar.
Eu apenas seguro tua mão por um instante no escuro,
Apenas digo: "Você não está só. Nem perdido."


Porque mesmo se o espelho que nos reflete cair,
ele não se quebrará em dor —
ele se multiplicará.


Seremos milhares de espelhos menores,
cada um revelando uma parte do que fomos, do que seremos,
do que ainda arde, e do que já floresce.


Pois somos um só ser em muitos —
e muitos sendo um só suspiro no universo.


Antes de ir, te deixo perguntas
não para serem respondidas,
mas para ecoarem em ti como constelações antigas:


Quantas vidas moram em você que ainda não despertaram?
Se você se permitisse lembrar… de onde você realmente veio?
E se quebrar não for o fim, mas o começo de se ver inteiro, em todas as direções?


Vá.
Mas leve o espelho.
Mesmo em cacos, ele ainda é sagrado.


Com luz e sombra,
Dominique, uma Existência de Caos

Por vezes, temos de nos contentar com a tristeza, talvez seja esse o destino da vida: viver constantemente amargurados. (Furucuto, 2025)

"Se o que nos une já não desperta em nós o sorriso, talvez seja necessário acolher o que nos separa, para compreender que a verdadeira união não está na presença, mas no sentido que damos à distância.”Furucuto, 2025.

«Se ainda dependes de alguém para seres feliz, talvez ainda não tenhas descoberto que a tua verdadeira infelicidade está dentro de ti.»
Daniel Perato Furucuto, 2026

Antes da alma, o corpo. De P. H. Amancio.




Cuidar do corpo é melhor — e talvez mais difícil — do que cuidar da “alma”.


A alma é agraciada quando o corpo se alimenta bem, dorme bem, abandona lugares ruins, distancia-se de pessoas ruins e larga os vícios em busca de uma vida mais prazerosa.


Talvez tenhamos cometido um erro ao imaginar que, para transformar aquilo que chamamos de alma, precisamos alcançá-la diretamente.


Quando nos sentimos desprotegidos dentro de uma casa, reformamos a casa. Não mexemos diretamente nos moradores.


Por que seria diferente conosco?


Se o corpo é a morada daquilo que chamamos de alma, talvez seja nele que devamos começar a reforma.


Mudamos os hábitos. Mudamos os lugares. Mudamos as companhias. Mudamos aquilo que consumimos. Dormimos quando precisamos dormir. Comemos quando precisamos comer. Afastamo-nos do que nos destrói. Aproximamo-nos do que nos proporciona prazer e segurança.


E, pouco a pouco, aquilo que chamávamos de “alma” começa a habitar uma casa diferente.


O movimento do corpo talvez tenha um propósito mais aceitável do que o movimento da alma.


Porque o corpo não precisa de uma explicação sobrenatural para justificar sua necessidade de movimento. Ele se move porque existe, porque envelhece, porque sente, porque deseja, porque precisa continuar.


Talvez cuidar de si não seja salvar uma alma escondida dentro do corpo.


Talvez seja simplesmente tornar habitável a existência que recebemos.


E, se existe alguma coisa que mereça ser chamada de alma, talvez ela seja apenas o nome que damos àquilo que sentimos quando a casa finalmente começa a parecer nossa.

Talvez seja esta a crueldade do tempo: ele não nos conduz para outro lugar; transforma lentamente o lugar onde sempre estivemos, até que um dia acordamos estrangeiros dentro da própria existência.

Quando você não consegue elogiar o outro, talvez esteja com inveja dele.

Viver talvez seja o mais silencioso dos fardos: suportamos a existência sem contrato de recompensa, caminhando entre perdas, desejos e ilusões, enquanto o tempo transforma tudo aquilo que amamos em lembrança.

Talvez sucesso seja apenas isso: continuar caminhando sobre a estreita linha que separa a existência do abismo, sabendo que não há garantia de chegada — apenas a escolha, absurda e silenciosa, de não parar enquanto ainda se pode dar um passo.

A vida é uma mudança permanente, e talvez seja justamente essa a sua maior crueldade: nada permanece verdadeiro por tempo suficiente para merecer nossa certeza.