Talvez eu só não saiba ficar Aprendi a... Degilda Gomes

Talvez eu só não saiba ficar

Aprendi a me curar sozinha, a engolir o que doía e a continuar como se nada tivesse acontecido. Mas, no caminho, também aprendi a me afastar.

Quando não estou bem, desapareço. Fecho portas, levanto muros e me escondo dentro de mim. Não porque não queira ninguém por perto, mas porque me acostumei a acreditar que preciso conseguir sozinha.

E, às vezes, a solidão que um dia foi proteção começa a parecer uma prisão.

Carrego dúvidas, inseguranças e medos que nem sempre consigo explicar. Sinto-me presa em um túnel, caminhando sem saber onde ele termina.

Ainda assim, continuo desejando.

Quero mudar, conquistar, viver e construir uma vida que faça sentido para mim. Mas, quando as coisas ficam difíceis, algo dentro de mim se apaga.

Eu desisto.
E depois me culpo por ter desistido.

Durante muito tempo, pensei que não queria o suficiente. Afinal, quem realmente quer luta, insiste e persiste. Então comecei a questionar tudo:

Será que sou superficial?
Será que nunca amei verdadeiramente os meus sonhos?
Será que, se quisesse de verdade, teria força para continuar?

Mas talvez eu esteja sendo injusta comigo.

Desistir não significa necessariamente não querer. Às vezes, significa ter medo: de falhar, de não ser capaz, de tentar novamente e sentir a mesma frustração.

Talvez eu recue não por falta de desejo, mas por ainda não saber lidar com a distância entre aquilo que imagino e aquilo que consigo fazer hoje.

Até coisas simples parecem enormes, como tirar a carta de condução. E então penso:

“Se nem isso consigo, como vou conseguir tudo o que sonho?”

Talvez eu não seja o obstáculo. Talvez seja apenas alguém aprendendo a permanecer quando o caminho se torna difícil.

Talvez eu não precise de mais força, mas de mais paciência comigo.

Posso querer e ter medo. Posso cansar, cair e parar para respirar. E, ainda assim, continuar desejando.

Persistir talvez não seja nunca desistir, mas aprender a voltar:

depois do medo,
da frustração,
de um dia ruim.

Voltar para mim.

Talvez a pergunta não seja: “Será que quero o suficiente?”

Mas sim:

“O que acontece dentro de mim quando aquilo que quero exige que eu acredite em mim?”

Talvez seja aí que eu precise começar: aprendendo, pouco a pouco, a não me abandonar sempre que as coisas ficam difíceis.