Antes da alma, o corpo. De P. H.... P. H. Amancio.

Antes da alma, o corpo. De P. H. Amancio.




Cuidar do corpo é melhor — e talvez mais difícil — do que cuidar da “alma”.


A alma é agraciada quando o corpo se alimenta bem, dorme bem, abandona lugares ruins, distancia-se de pessoas ruins e larga os vícios em busca de uma vida mais prazerosa.


Talvez tenhamos cometido um erro ao imaginar que, para transformar aquilo que chamamos de alma, precisamos alcançá-la diretamente.


Quando nos sentimos desprotegidos dentro de uma casa, reformamos a casa. Não mexemos diretamente nos moradores.


Por que seria diferente conosco?


Se o corpo é a morada daquilo que chamamos de alma, talvez seja nele que devamos começar a reforma.


Mudamos os hábitos. Mudamos os lugares. Mudamos as companhias. Mudamos aquilo que consumimos. Dormimos quando precisamos dormir. Comemos quando precisamos comer. Afastamo-nos do que nos destrói. Aproximamo-nos do que nos proporciona prazer e segurança.


E, pouco a pouco, aquilo que chamávamos de “alma” começa a habitar uma casa diferente.


O movimento do corpo talvez tenha um propósito mais aceitável do que o movimento da alma.


Porque o corpo não precisa de uma explicação sobrenatural para justificar sua necessidade de movimento. Ele se move porque existe, porque envelhece, porque sente, porque deseja, porque precisa continuar.


Talvez cuidar de si não seja salvar uma alma escondida dentro do corpo.


Talvez seja simplesmente tornar habitável a existência que recebemos.


E, se existe alguma coisa que mereça ser chamada de alma, talvez ela seja apenas o nome que damos àquilo que sentimos quando a casa finalmente começa a parecer nossa.